20.10.17

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Foto: Human-rights - Darwin Laganzon

 

A Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê a igualdade de direitos para toda e qualquer pessoa, independentemente da sua condição ou proveniência. Cada linha dos seus artigos nasceu do comprometimento de vários Estados membros em cooperação com a Organização das Nações Unidas, proclamando o respeito universal e efetivo dos direitos do Homem e das suas liberdades fundamentais, sejam estas económicas, políticas ou sociais.

 

A minha amiga Susana, mulher extraordinária, teria muito a dizer sobre esta coisa poética da igualdade de acesso e de direitos das pessoas ditas portadoras de deficiência. Nas algumas décadas que já viveu, sofreu na pele a injustiça de uma sociedade patologicamente afetada, impregnada de preconceito, incapaz de ver para lá da sua própria perceção dos outros e das coisas. Se ela gostaria de poder fazer tudo que o comum mortal faz, sem depender de ninguém e ser, simplesmente, quem nasceu para ser? Não tenho dúvidas que sim, tão pouco a tremenda lucidez da Susana me permitiria dizer o contrário. Ninguém, para além dela e dos que partilham desafios semelhantes, sabe o que é viver segregado, aparentemente incluído mas permanentemente em luta, pelo simples direito a existir com toda a dignidade que merece e com toda a coragem que lhe corre nas veias – podia narrar, horas a fio, as muitas coisas fantásticas que ela já fez e que muitos de nós, sem qualquer (aparente) limitação, jamais fariam. Podia descrever, sem ter de florear nem um bocadinho, a força com que se bate todos os dias da sua vida por coisas que tomamos como garantidas e que não valorizamos sequer.

Pode até parecer que é à sua aparente condição física a que me remeto mas, na realidade, não pretendo sequer perder-me nesses pormenores. Quanto mais a conheci, mais me distanciei do que a tornava diferente e mais nitidamente entendi o conceito da verdadeira deficiência. Claramente, não era aquilo que a colocava numa cadeira de rodas mas sim o que lhe era oferecido, numa base regular, pelos que deviam protegê-la. A verdadeira deficiência estava nos que “se envergonhavam” de ir com ela à rua (e lho diziam, com estas mesmas palavras), dos que lhe lembravam todas as coisas que ela não podia fazer, dos que, partilhando o seu sangue, a rotulavam com uma designação que, afinal, nunca lhe pertenceu. Como deve ter doído, mais do que qualquer limitação física (sobretudo, aos olhos dos outros), a maldade dos “seus”, tão cristã (leia-se: levada a cabo por atos, palavras e omissões). Como pode um Ser feito de amor ser um alvo tão fácil?

Todavia, nesta verdade dolorosa, feita de muitos momentos de revolta, não sintam pena da Susana. No seu anonimato, ironicamente, e apesar dos muitos desafios que ainda enfrenta, já viveu mais do que muitos de nós viveram ou viverão. Ser feliz não é a ausência de obstáculos, de problemas, de grandes montanhas a transpor, mas uma escolha, obstinada e diária de, apesar de tudo isso, fazer o melhor de cada dia. É assim que a Susana vive a vida. Há pelo menos quinze anos, testemunhei a audácia desta corajosa mulher que saiu da casa materna solteira e voltou casada, contra tudo e contra todos; e é, desde então, amada, por um marido com um M enorme, por tudo aquilo que ela realmente é: linda, inteligente, criativa, ousada, partilhando, sempre, um sorriso belíssimo com quem tem o privilégio de a conhecer. Levante a mão quem conheceu o amor da sua vida, quem abraça um ser que ama e que lhe devolve amor, todos os dias, durante pelo menos década e meia. Incondicionalmente. Não tenham pena de quem nos lembra os nossos medos, as nossas limitações. Tenham esperança. Desejem, no mínimo, o mesmo.

 

Quero acreditar que caminhamos para um dia de verdadeira equidade, para uma sociedade que inclua todos os seus cidadãos, com dignidade, com respeito, valorizando o que cada ser humano tem de extraordinário. Vejo nas pequenas coisas grandes vitórias e, parte de mim, rejubila. A outra parte, lembra a “minha” Susana, as outras e outros tantos seres como ela, e o seu (ainda demasiado intenso) sofrimento pela inacessibilidade criada, sobretudo, pelas mentes pequenas com demasiado poder. Pelas vozes que os calam, gritando palavras como “verdade, justiça, progresso, inclusão, igualdade”, desprovidas de qualquer significado. Vozes que silenciam os únicos com legitimidade para falar, os que sentem na pele as tais “mudanças miraculosas apregoadas e que colocam todo o cidadão a viver uma vidinha sã e feliz” e que gritariam, sim, a angústia da ignorância alheia, a falta de meios, de condições, de corações preparados e de mãos dadas com a ciência, a acutilância de quem se acha imune ao sofrimento. “Está tudo uma maravilha, está cada vez melhor”, dizem. Outros que não quem de direito, note-se.

Reitero: quero acreditar que caminhamos num sentido mais positivo e humano mas sei que, enquanto andamos para trás e para a frente, regidos por leis bacocas e inviáveis, muitos sofrem. Enquanto me sento para redigir estas linhas, perde-se o potencial humano de tanta gente extraordinária neste planeta. Perde a sociedade que não percebe a singularidade da Susana, e de todos aqueles que considera diferentes, matando o seu potencial. Enquanto se luta por pôr em prática as verdadeiras leis da Equidade, talvez valha a pena investir na intervenção junto dos ditos normais para quem a normatividade é, afinal, uma muleta frágil e sustentada por uma visão limitada e desadaptativa, baseada no medo e na ignorância. São esses os verdadeiros deficientes: os cruéis, os preconceituosos, os críticos de tudo e de todos, os patologicamente insanos, aqueles para quem a Declaração Universal dos Direitos Humanos é apenas uma chalaça de folhetim. É esta a verdadeira deficiência da sociedade. É aqui que tudo começa. É aqui, e em cada um de nós, que deve terminar.

Desculpa, querida Susana, por viveres num mundo que ainda não te merece e que, mesmo assim, tornas tão mais belo pela tua simples existência. Espero, um dia, sermos dignos de gente tão especial quanto tu.

 

Alexandra Vaz

 

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16.10.17

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Foto: Adult - Pexels

 

Diretamente, ainda que titubeando, para as conclusões.

Confesso que não sei, não estou absolutamente certo, mas devo ter algumas, possivelmente tenho, é quase certo que sim. Estou a falar de deficiências. A minha sorte é que as minhas, várias, não são relevadas pela sociedade, aqui e agora, e passo como que incólume. Vejo mal, faltam-me alguns dentes, uso próteses para compensar. Não sei dar cambalhotas...

Vivo numa época e numa sociedade muito sensível à norma, à padronização e, também, nem sei se por contradição se por concomitância, à salvaguarda da diferença.

Talvez seja o caldo de cultura para a emergência do politicamente correto. Há os deficientes físicos, intelectuais, psicossociais, ai de quem os chame de coitadinhos, mas ao mesmo tempo e para as mesmíssimas gentes, a tentação do eufemismo impera. Não há cegos, mas invisuais, não há aleijados, também não fica bem verbalizar o termo “louco”.

 

Complicado. Contraditório? Pois, é a vida. Cairia o Carmo e a Trindade, naqueles unanimismos momentâneos e passageiros, se alguém usasse publicamente a denominação “inválidos”. Apesar de algumas pessoas com deficiência não terem condições de se valer a si próprios.

As coisas são o que são, de acordo com o tempo e com o lugar. Sempre.

Talvez valha a pena recorrer ao que, se bem penso, já vem desde a antiga e democrática Atenas - tratar o que é igual como igual e o que é diferente de forma diferente.

Nem mais, nem menos. Adequado, com aceitação, sem necessidade de eufemismos, que, diria, não são mais do que uma forma de dizer coitadinhos... dos inválidos.

Nada de coitadinhos. Voto contra!

 

Jorge Saraiva

 

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13.10.17

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Foto: Courage - Tânia Dimas

 

A ideia de deficiência está relacionada, geralmente, com as situações de quem sofre de doença, lesão ou limitação corporal. É compreendida ainda, por alguns, como um facto de má-sorte pessoal.

Todavia, atualmente, são cada vez mais os casos de pessoas que não se resignam com a sua condição de deficiente. Na verdade, todos os dias assistimos a verdadeiros exemplos de superação de dificuldades, de deficiências e de limitações físicas de quem não se conforma com os infortúnios da sua própria vida. Com frequência, ocorrem verdadeiros casos de superação, alguns deles em que os portadores de alguma deficiência, transcendendo-se na procura de objetivos, conseguem concretizar sonhos. Por isso, até são consagrados como heróis pela Sociedade que não lhes fica indiferente e que não lhes regateia compreensão e solidariedade.

 

A deficiência já não é um “bicho-de-sete-cabeças” de há anos atrás e muito menos um problema trágico. A evolução da Sociedade, a nível do seu ordenamento jurídico, ao impor direitos sociais especiais, e do Mundo Científico, no aperfeiçoamento de técnicas de reabilitação, muito tem contribuído para derrubar o preconceito da deficiência. De notar, contudo, que a superação de uma limitação física ou insuficiência de qualquer tipo não depende apenas das condições favoráveis que existam na Comunidade em que se está inserido e dos apoios e carinhos de familiares e de amigos que sejam dispensados à pessoa afetada pela deficiência; mais do que isso, será mister, mesmo indispensável, que a pessoa portadora dessas limitações acredite que é possível transcender-se, superar barreiras e dificuldades, rumo ao objetivo “sonhado”. A superação consiste nisso mesmo: exceder os seus próprios limites, ir mais além, afirmar-se na vida e de viver, se possível, sem dependências. A força de vontade interior, mental e intelectual, qual segunda natureza que é, na motivação da luta diária e persistente, constituirá seguramente a grande fonte inspiradora para quem não se resigna com o seu infortúnio.

 

José Azevedo

 

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9.10.17

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Foto: Lesson - Beate

 

Poderia dizer que é um tema que me diz muito e sobre o qual consigo falar, mas não é…

Penso que qualquer professor ou profissional de educação deverá estar atento a toda e qualquer forma de aprender, que vem com cada uma das crianças com que nos encontramos. Se com elas trazem caraterísticas não comuns, doenças raras, deficiências, é com esses aspetos todos que deveremos tentar lidar, tal como tentamos quando arranjamos estratégias para lidar com uma criança que faz birras todos os dias.

Sobre deficiências apenas tenho a considerar que são alterações ao padrão tido como normal mas, tendo em conta que em cada casa há uma realidade diferente, com ou sem deficiência, todos temos algo fora da normalidade.

 

Aqui o problema (sim, quando se fala em deficiência pensa-se sempre em problema, talvez porque dá mais trabalho e não é processo padrão) é a própria palavra que transmite a ideia de minoria, necessidade, desvio. Esta palavra é pesada e cada vez menos utilizada pelo medo de ofender alguém. Ofensa será deixarmos de fazer o que é suposto, apenas porque há situações que saem do que é previsto, deixarmos de ser quem somos porque somos diferentes, sermos tratados como mais um apenas, ou sermos tratados como extraterrestres quando, na verdade, o bom senso deverá imperar.

Gosto de tratar as coisas pelos nomes sem ofender ninguém, desde tenra idade, será assim tão difícil?

 

Sónia Abrantes

 

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6.10.17

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Foto: Paracycling - Mucorales

 

Não tenho dúvidas da capacidade e do à vontade com que muitos lidam e falam da deficiência. Fazem-no com naturalidade, com conhecimento e sem erros científicos e humanos. Não é o meu caso. Sinto-me ignorante e, estou muito agradecida às forças do universo, ou a qualquer outra força ou energia que me têm poupado a ter de viver e lidar com a deficiência, tal como a minha limitação a entende – o que não está dentro da normalidade. O desconhecimento desta realidade faz de mim um ser inábil no relacionamento com a pessoa com deficiência. Confesso a minha dificuldade em comportar-me e, por incorreto que seja, a verdade é que a diferença torna-me curiosa em relação às causas e aos efeitos. Satisfazer a curiosidade constrange-me com receio de causar algum tipo de sofrimento a quem se sinta observado. O resultado revela-se numa falsa indiferença e numa leviana normalidade da minha parte.

 

Essa dificuldade estende-se também à escrita. Não vejo beleza na condição de deficiente e isso rouba-me inspiração para romancear ou fantasiar à volta do tema. Escrever sobre o quê? Que sei eu do mundo que alguns criam e no qual se refugiam sem deixarem entrar nem mesmo os que lhes estão mais próximos? Que capacidade tenho de entender frases e ideias desconexas, mas com sentido para quem as profere? Que sei eu da força que anima amputados a bater recordes, a melhorarem marcas até aos degraus do pódio? E a que sabe a medalha conquistada? De que sentidos se servem e que processos desenvolvem aqueles que, privados de visão e audição, dançam com tanta delicadeza que nos levam para lá da realidade?

Apesar de nada saber e quase tudo me ser desconhecido, talvez por isso mesmo, espanto-me com os resilientes, os que estabelecem objetivos e lutam pela sua concretização e os que não se deixam atingir na sua dignidade quando lhes devolvem uma imagem de incapazes. A superação das pessoas com deficiência, se outras razões não houvessem, deveria eliminar estigmas e preconceitos. Mas que sei eu? Deficiência minha que nada sei.

 

Cidália Carvalho

 

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4.10.17

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Foto: Crinabel Teatro

 

Ao entrar na sala de espetáculo, já os atores estavam no palco à nossa espera. De um lado, um grupo de atores sentado, do outro, um ator de pé de frente para o público. Começou o espetáculo. Percebi que a atenção e a concentração tinham de se manter ao longo do espetáculo. E assim foi.

Ao meu lado estava uma pessoa que, tal como eu, tinha experiência de conviver com uma pessoa com deficiência e sentir a sua vida. A Hanna (a menina que procurava o pai) parecia-se tanto com ela! Percebi que a pessoa que estava ao meu lado estava entalada... eu também, confesso. Os atores assumem de forma muito autêntica as personagens de um texto muito intenso.

 

Não é o texto, em si mesmo, de Gonçalo M. Tavares, que me traz a escrever estas linhas. É o encontro desse texto com o projeto Crinabel Teatro. O espetáculo e cada ator são preciosidades. A intensidade com que os atores interpretam as personagens e dizem o texto torna o pensamento e a representação que alguns “normais” têm da deficiência desinteressantes e nada construtivos. Este espetáculo ensina-nos a ver de forma mais cuidada os pormenores mais escondidos presentes no texto, no desempenho dos atores e, acima de tudo, na vida. Há algo a acontecer no palco que nos fascina e nos prende à cadeira. De facto, há mais vida para além do “normal” que nos rodeia. Uma vida preciosa! Parabéns a todo/as!

 

Ermelinda Macedo

 

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2.10.17

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Foto: Face – Liz Franceli Bratz Ardais

 

Um sonho materializado por vontade paternal. Uma rapariga feita mulher, com toda a existência pela frente. Assim é a Su.

A personificação da alegria, contagiando todos em seu redor. Ela é igualmente um ás a nomear os artistas que ouve na rádio, adora tudo o que é cor-de-rosa e não dispensa os passeios à beira-mar, nem a companhia da família. Claro que também é teimosa e gosta de decidir as refeições de cada dia, mas no seu todo é o melhor presente da sua vida.

E é nisso em que se centram primariamente quando pensam na filha. No que ela trouxe às suas vidas, nas bênçãos que a acompanham, nas aventuras que se somam. Nos risos, nas memórias, nas partilhas. E não nas (in)capacidades de que é portadora. Porque há muito mais além dessa categorização. Um amor imenso, uma ternura que não acaba e também uma certa paciência.

 

Se o dicionário de língua portuguesa nos diz que a deficiência é um substantivo feminino equivalente a falta, imperfeição, ela, pronome pessoal singular feminino, venceu as falhas com outras conquistas, tornando-se verdadeiramente única.

E se olharmos além das faculdades mentais e físicas, ou mesmo incluindo-as, não seremos todos, afinal, portadores de algum grau ou tipo de deficiência? Não seremos todos dotados de faltas e de imperfeições?

É o que nos torna humanos. É o que nos une como família de uma mesma espécie. E nessa consideração ligamo-nos uns aos outros, reconhecendo limites e vencendo outros, tal como a Su o faz.

 

Sara Silva

 

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27.9.17

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Foto: Woman - Michael Gaida

 

Não que já não soubesse. Mas aquela tomada de consciência…

Foi num dia banal, no meio de uma tarefa ainda mais banal. Ou talvez tenha sido aquele momento em que parou o que estava a fazer para olhar em volta e sentir-se grata. E de súbito uma brisa. E, de um sopro, um suspiro vindo da alma. E sentiu uma saudade inexplicável e dolorosa.

Saudade daquelas todas outras que queria ser e não podia. Saudade das tantas mais vidas que queria viver, mas que eram irrealizáveis.

 

Porque ser é muito mais simples do que desejava. E o aceitar uma pessoa é esperar que esta seja algo de coerente. No mínimo, redutor. Tantas outras pessoas que podia ser (e é), mas que não podem espreitar a luz do dia. Não poder seguir esses trilhos, todos ao mesmo tempo (ou intercalados), faz com que não seja, não viva em pleno. E às vezes, uma ponta de tristeza, uma insatisfação que se instala.

 

O vento já não soprava. Em resignação, dedicou-se novamente à banalidade de uma vida normal. Resta-lhe a quimera.

 

Sandrapep

 

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25.9.17

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Foto: Fantasy – Enrique Meseguer

 

“Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus”

Pedaço de mim; Chico Buarque

 

 

A saudade dói, é verdade, às vezes incomoda como um espinho cravado em baixo da unha. Mas que privilégio é poder senti-la.

Sentir saudade é relembrar um passado feliz. Acho que ninguém sente saudades do que é ruim.

É ter sido feliz, muitas vezes sem saber que era... É poder reconhecer a falta. A falta de alguém, a falta de algum lugar, a falta de um tempo que vivemos, ou de tudo junto. Ter saudade é fazer reviver quem se amou, naquele momento único e precioso que jamais voltará. É repetir a mesma história tantas vezes, todos os dias, de forma que essa pessoa que estava no passado, faça parte do presente. É levar consigo a falta dentro do peito onde quer que se vá. É um vazio deixado no tempo mas que ajuda a preenche a alma.

 

Leticia Silva

 

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18.9.17

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Foto: Father – Olichel Adamovich

 

Agosto é por excelência o mês da saudade. Muitos chegam e muitos partem. Se calhar partem alguns que não chegaram, aproveitando a boa ventura partilhada por familiares próximos. Agosto é também, por excelência, o mês das férias e o mês em que sou “obrigado” a gozar os dias em lei consagrados. Fazem-se planos, junta-se a família e espera-se pelo melhor. Sim, porque as férias de cada ano têm de ser melhores que as anteriores. As deste ano serão vividas e as outras, por muito boas que terão sido, são memórias.

E de memórias muitas vezes se fazem as férias. A expetativa do que virá está com certeza toldada pelas memórias de experiências passadas.

 

Este ano encontrei-me na contingência de umas férias desfasadas do calendário da minha esposa. Quinze dias, só eu os miúdos portanto. Um miúdo e meio na verdade. O mais velho já tem a namorada, os festivais, a praia, o carro e sei lá mais o quê para preencher os seus dias de agosto. Por acordo dispenso-lhe assim a liberdade para empreender as suas “cenas” e passar apenas uma semana com o “cota”.

Nos primeiros sete dias, eu e o mais pequeno, resolvemos facilmente a equação. Praia, serra, mar, rio, piscina, aldeia e cidade. Os avós, as galinhas, os porquinhos-da-índia, os patos, a cadela. Deitar tarde, acordar tarde, os calções de banho, o protetor solar, os chinelos, a coluna de som, a música, as fotos, o calor insuportável e os dias de chuva que estragam tudo. Tudo acabado, tudo enrolado em (boas) memórias.

Nos seguintes sete dias (já agraciados com a presença do mais velho) decidi viajar. Mais para trás. Muito para trás e para o centro, na verdade.

Reservei quarto num hotel construído em 1859, localizado no Luso, mesmo na entrada da Mata do Bussaco. Locais cheios de história portanto. História comum e nacional até. Zona de história também, mas de história familiar. O meu avô nasceu por aqui perto. Avô que o mais velho conheceu mas que o mais novo não teve a mesma sorte. Herdou-lhe o nome, contudo. Justa homenagem ao meu maravilhoso avô. Confesso o meu receio por esta decisão de revisitar o antigo. Claro que os miúdos preferem as coisas novas. O high-tech. Os hotéis xpto vestidos de vidro, aço e madeiras. As grandes piscinas e salas de refeições. Aqui, nada disso. Pelo menos o acesso wifi não era mau...

 

Afinal correu bem. Resmungaram por fazer a mata a pé, mas gostaram. Torceram o nariz quando viram o hotel, mas gostaram. Mostraram-se se calhar surpresos quando lhes anunciei o meu plano para o último dia: em ar de passeio seguiríamos para a aldeia onde o bisavô nasceu. A mim já sabia o que me esperava no coração, na garganta, na face e nas memórias. Da parte dos miúdos não fazia ideia...

O que aconteceu quando entrámos naquela rua estreitinha que dá para o cemitério onde os bisavôs deles estão sepultados, guardo para nós. Mas posso dizer que existem viagens que não têm preço. São viagens que nos levam mesmo ao centro...

 

Rui Duarte

 

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15.9.17

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Foto: Girl - claudioscott

 

Algures no tempo, perguntaram-me qual a minha palavra portuguesa favorita. Esta poderia ter-se transformado numa daquelas perguntas pesadelo que fazem a nossa cabeça rodar tanto ao ponto desta parecer implodir, não fosse a minha resposta certeira. Saudade.

 

Porquê saudade? Perguntar-se-ão vocês.

Ora porque para além de ser uma palavra genuinamente portuguesa, expressa aquele que para mim é um dos mais belos sentires.

Estar saudoso de algo significa sobretudo, a meu ver, que se viveu ou vive algo de belo. Uma história, um acontecimento, uma vivência, um ser, um estar... que valeria a pena ver repetido ou que aguardamos para retomar do ponto em que de alguma forma ficou em pausa, como quando alguém que amamos parte para outros destinos.

Uma vez li que a saudade pertence a quem fica. Concordo. Quem vai parte em busca de algo, vai viver outras emoções das quais poderá vir a ter saudade. Enquanto isso será alvo de saudosismo, por parte de todos os que ficam nas suas rotinas a aguardar seu regresso.

Saudade é mais que o sentir falta de algo. É estar feliz por ter vivido, por ter estado, por ter conhecido, por ter amado...

 

Que a saudade viva em nós. Como marca da existência de momentos felizes. Da esperança de dias melhores, sorrisos futuros, amores vividos, viagens marcantes... Como prova d'alma que se encantou com a vida.

 

Iolanda Cortez

 

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11.9.17

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Foto: Psychology - Clayton

 

Nas minhas consultas reparei, ao longo dos anos, que muitos pacientes dizem sentir uma saudade sem fim de algo ou de alguém, sendo que essa saudade lhes retira qualquer possibilidade de serem felizes. Tenho reparado também que grande parte desses mesmos pacientes recusa a ideia de abandonar a saudade que sente. Estão apegados a ela como se fosse uma entidade. Sempre que se apresenta uma solução para abandonar a saudade e seguir em frente, lá vem um “mas”, um “não pode ser”, um “e se”.

Então, comecei a perceber que a saudade não está relacionada com o passado, como inicialmente considerei. Não é a constante recordação de um acontecimento ou pessoa do passado que espoleta a saudade, mas sim o que já não se vai mais viver com essa pessoa ou com essas condições. É o medo do vazio do futuro sem aquelas caraterísticas do passado que nos faz ficar cativos nessa emoção. É a hipótese não vivida, a expetativa criada que nos deixa assim, presos a um vazio do futuro, mascarado com o que aconteceu no passado.

 

Porém, há boas notícias: a saudade cura-se! Como? Sendo profundamente agradecido pelo que se viveu, pelo que se evoluiu com a experiência. Mas seguindo em frente, rumo a novas lembranças, a novas saudades.

 

Sara Almeida

 

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8.9.17

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Foto: Girls - Nikola Pešková

 

Entraste na minha vida pela porta da frente. Foi em setembro, ainda numa manhã de verão (ou seria já de outono?). Sentada, sozinha, na sala de aula, na última carteira da segunda fila. A primeira impressão que tive de ti não foi a melhor: uma pessoa arrogante, de nariz empinado, com a mania a achar que era mais do que os outros. “Tira o limão da boca” foi a frase célebre que melhor caracteriza essa tua caraterística expressão facial.

Provaste-me como não podia estar mais errada. Aproximámo-nos por intermédio de amigos comuns que, sem darem conta, fizeram de nós amigas para a vida. Ou, pelo menos, assim pensava eu. Naquela altura, e durante muitos anos, achámos as duas.

Viviam-se tempos confusos dentro da minha cabeça, não fosse aquela a fase da adolescência. Eu não permitia a qualquer pessoa que entrasse sem pedir licença. Tu não pediste, mas acabei por gostar dessa tua ousadia. Talvez a palavra que melhor te definia naquela altura (se é que alguém se sente minimamente definido aos dezasseis anos!). Trouxeste-me uma nova perspetiva em relação às coisas, foste uma lufada de ar fresco.

 

Anos se passaram, dez para ser mais precisa, onde a convivência era imensa, mas a cumplicidade ainda maior e melhor. Vivemos aventuras juntas, noites bem passadas (dias também!), momentos menos bons; dividimos quase tudo: alegrias, risos e sorrisos, cigarros, conquistas, incertezas, conselhos, ideias, desilusões… Acho que só não dividimos homens! E, quanto a isso, continuo certa de que fizemos bem!

De tudo aquilo que partilhamos, a cumplicidade era, para mim, o que tínhamos de mais bonito e precioso. Quase como se fosse um tesouro. Perceber, como que por uma espécie de conexão telepática, que algo não ia bem, ou então que algo ia muito bem; a palavra falada que não revelava tudo, mas que a outra entendia o tudo que ela não dizia; aquele olhar trocado que bastava para perceber o que a outra estava a pensar; o riso malandro, porque tínhamos pensado exatamente na mesma piada obscena…

 

Considero que há muitas formas de amor, e de amar. Por isso, há também o amor que anda de mãos dadas com a amizade. Não é um amor romântico, mas não deixa de ser amor. Achava que esse tipo de amor era para a vida, mais do que qualquer amor romântico. Até que me apercebi que não é! A fragilidade da nossa amizade, coisa que eu achava difícil existir, revelou-se. É possível que tenha sido esse o meu erro: achar que as relações duradouras, com raízes (pro)fundas não são tão frágeis assim. Certo é que essa fragilidade apareceu. E da forma mais estúpida possível, levando, como se fosse o vento, tudo o que havia. Como é possível? Não sei.

Agora, no lugar da cumplicidade resta apenas… estranheza! Agarro-me às boas recordações dessa cumplicidade e às saudades que dela sinto. Mas a saudade é boa na mesma medida em que é má: e tanto é doloroso o vazio que essa estranheza provoca, como é dolorosa a saudade, por ser ela a única coisa que resta desta amizade. “O pior tipo de estranho é aquele que um dia você conheceu.”.

 

Sandra Sousa

 

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6.9.17

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Foto: Vintage-1950s - Jill Wellington

 

- Só temos saudades das coisas boas que vivemos, porque das más não temos saudades nenhumas!

 

Saudade é reviver memórias, momentos que nos fizeram sentir felizes! É aquela sensação de saborear de novo todas as nuances das emoções desencadeadas pelas vivências mais afortunadas.

As “saudades do que não vivi”, residem apenas na fantasia do que se ambicionaria viver de bom.

Saudade é viver amor, é amar em retrospetiva!

 

Tayhta Visinho

 

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4.9.17

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Foto: Nostalgia – Marko Lovric

 

“...

Senhora Saudade,

não sei por que encanto

me trazes espinhos

e eu te quero tanto!

 

Senhora Saudade

se o teu manto santo

servisse ao meu corpo,

não teria espanto...

...”

Senhora Saudade; T. T.

 

Ela vem sempre cheia de dores – às vezes grandes, graves, mortais; outras vezes, apenas pequenos achaques, pequenas febres, pequenas cismas. Mas volta sempre, isso é certo como o bater do nosso coração. Entra-nos de mansinho pela porta dentro, alquebrada e triste, vestida de cor indefinida, assim numa espécie de tom órfão de luz, ou viúvo de cor. Nunca se sabe bem... depende da maleita que a traz. Mas sei que não é preto, o seu manto. Tenho a certeza – a ilusória negrura que lhe atribuímos, na minha opinião, é devida ao mero facto de que ela, normalmente, nos aparece assim de repente, recortada no umbral da porta e nós a vemos em contraluz, do lado de dentro da vida onde nos calha morar, ou do tugúrio onde nos restou esconder.

Ela entra, fecha a porta atrás dela, abraça-nos como se nós fossemos a sua salvação (que ironia!...) e deixa-se ficar, invade cada cantinho da casa, paga, religiosamente, o tributo à penumbra que nos cerca e planta as suas próprias raízes no nosso coração. Ora é doce, ora é cruel. Ora nos prende com os seus braços asfixiantes, ora nos afasta dela, para que não nos pegue as suas maleitas. Ora nos beija em delírio ardente, contaminando a nossa pele com as chagas dos seus lábios, ora nos sopra as feridas vivas.

E as suas raízes vão crescendo, crescendo, dentro de nós. O nosso coração torna-se terra arável, fértil. Crescem dentro dele árvores, que nos servirão de sombra, e cujos frutos servirão de alimento à nossa alma. E cujos ramos servirão para construir todas as cruzes que carregarmos, ao longo do nosso percurso, as grandes, as pequenas, as assim-assim – mas todas elas necessárias, indeclináveis, para que cumpramos a nossa via-sacra e para que possamos pendurar as nossas memórias, como flores renascidas a cada estação de esperança.

Os nossos olhos, entretanto, habituar-se-ão à penumbra que ela trouxe consigo, nas dobras das suas vestes de melancolia e já não a verão tão negra. As nossas mãos já lhe irão identificando as feições e os nossos ouvidos aprenderão a reconhecer os seus passos arrastados. O seu toque já nos será brando e doce, e a sua presença, prova de amor e promessa de serenidade. E entenderemos que somos ditosos por tê-la ao nosso lado, sempre, ajudando-nos a erguer todas as cruzes, mesmo aquela que lhe indicou o caminho para a casa lúgubre onde nos refugiamos, quando ela nos encontrou e entrou, sem bater, sem esperar que lhe abríssemos a porta. Entenderemos, sobretudo, que em algum ponto do nosso caminho fomos felizes – porque só se já tivermos sido felizes, nos calhará por companheira a Saudade. Para sempre, se a felicidade foi grande e a Dor maior. Ou até que a paisagem nos distraia, se a estação de rosas foi passageira e a continuação da viagem dispensar a sua sombra triste como companhia.

Num e noutro caso e em todos os incontáveis casos de permeio, a Saudade velará, atenta e pronta a coabitar connosco visceralmente, amando-nos na solidão e cuidando-nos na dor, com a ajuda do Tempo e da Serenidade. A nós, resta-nos amá-la e respeitá-la. Como se respeitássemos todas as árvores que nos crescem por dentro – e tudo o que elas nos dão, sem ruído nem lágrimas: sombra, flores, frutos, ar... As nossas cruzes, sim, também as nossas cruzes. Ah!... e ninhos. Esperança. E a seiva de que são feitos todos os sonhos.

 

Teresa Teixeira

 

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1.9.17

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Foto: Model – Engin Akyurt

 

Na cadência dos dias, não olho para trás com vontade de retroceder no calendário.

Quando digo isto, não raras vezes, alguém me devolve “Ah, pois, ainda não te bateu, foi isso… Quando te der, ainda vai ser pior do que a mim, vai ser assim, de repente, mas vai chegar, não tenhas dúvidas…”. Parece que esta coisa do envelhecer não está a funcionar comigo como “deveria”. Nunca senti “quem me dera ter vinte anos e saber o que sei hoje” – dizem-me ser o sinal inequívoco do “princípio do fim”.

Olho à minha volta, oiço os amigos, as meias conversas no café, no trabalho e nas ruas da cidade: depois de (in)determinada idade, um generoso número de pessoas parece abraçar um saudosismo doentio, repetido como um mantra, que as mantém reféns de memórias irrepetíveis. Como se cada dia mais nas suas vidas fosse uma sentença de morte e não uma bênção. Nem se dão conta do maior estrago de todos: na dormência autoimposta, perdido fica o dia de hoje e todos os que se lhe seguem, em nome dos dias idos. Das coisas mais tristes a que assisto. E eles repetem, “vai chegar, ah vai vai... Gostas de envelhecer, pois claro, andas é iludida… Olha que já não tens muito mais tempo para continuares a pensar que és nova e com saúde e que vais sempre viver com essa ligeireza…”.

Penso com frequência quando chegará o meu dia. O tal dia, o tal momento, em que também eu passarei a circular em sentido contrário na escada rolante. Mas ainda não chegou esse dia. Cada nova aurora impele-me a avançar, mesmo quando me levanto sem força para sonhar. Não olho para trás, não me dou a cenários do “…e se…”. Tenho outras formas de me atormentar mas, esta, não faz parte do meu cardápio. Sei hoje que existe uma lição a tirar e, consequentemente, uma aprendizagem de tudo o que já vivi. Até daquilo que quase me destruiu. Profunda gratidão pelas lições de vida que tenho recebido, mas a coisa nenhuma, boa ou má, eu gostaria de voltar. Nenhuma delas faria qualquer sentido hoje, por isso, não lhes dou muito tempo dentro de mim.

 

Quanto mais o tempo passa, quanto mais a minha consciência caminha a par e passo com o Amor-próprio, mais insuportáveis se tornam as relações de dependência que alimentei durante anos, com pessoas que nunca de mim cuidaram. Uma a uma, retiro-as da bagagem, sem as desprimorar, e permito-me caminhar mais leve. Fecho ciclos, deixo partir quem não está comigo por mim, mas porque precisa de mim. Gente que enaltece a minha força e a minha resiliência, enquanto cronometra o tempo que demoro a cair mas que, nas vezes em que me estendi ao comprido, não esteve lá para mim. É preciso deixar esse espaço, na alma e no coração, para aquilo que nos faz felizes, para aqueles que nunca de nós sairão, ainda que a vida os leve. Porque há gente verdadeira e integralmente insubstituível. Os que amo, nunca de mim partirão. É no amor sem fim que sinto a Imortalidade. É, com todos os que amo que hoje caminho, mais rica, mais forte. É por eles que faz sentido agradecer cada dia a mais que vivo.

Não tenho saudades de ninguém com quem ousei, um dia, sonhar construir uma vida porque o meu coração sabe que não era suposto acontecer dessa forma. Agradeço o que me foi dado mas não quero reviver nenhuma história. Entre uma ou outra página mais indigesta, folheio o livro da minha vida sem angústia ou saudosismos, sem sentir que “os melhores dias da minha vida já passaram” ou “se eu pensar neles até à exaustão, eles vão voltar“. Não os desejo de volta. Já vivi dias extraordinários, verdadeiramente mágicos, mas sinto que alguns dos melhores dias da minha vida ainda estão por acontecer. Cada dia tem sido único e irrepetível.

 

Tenho saudades daquilo que não vivi, das formas que encaixam em mim como uma luva mas que ainda não têm contornos definidos. Tenho saudade da essência da minha pele, antes da amnésia da educação. Isso a que chamais saudade, e que vos atira lá para trás, a mim move-me para a frente como uma catapulta. É ela que me guia, quando não vejo um palmo à frente do nariz, e me lembra o que é importante. Não tenho tempo para arrependimentos ou agonias prolongadas. Não posso caminhar para trás, já não sou a pessoa que um dia fui. Honro os dias que passaram, vivendo o dia de hoje com gratidão. É assim que descubro quem sou, nas nuances das pequenas/grandes coisas que tenho na minha vida, um dia atrás do outro.

Saudade é o que sinto aqui, agora, no alto desta montanha, abraçada pelo desconhecido e pelos sons da vida à minha volta. É este calor no coração, esta força que me faz fechar os olhos, abrir os braços ao mundo e sentir-me em casa, dentro de mim. Muitos dos meus dias serão vividos pela metade, soube-o à medida que a vida me foi levando os que amo. Sei também que nenhum dia vai sobrar no fim. É isto que a saudade me lembra. É isto que recuso esquecer.

 

Alexandra Vaz

 

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28.8.17

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Foto: Camera – Th G

 

Há momentos, generalizo assim porque acredito que acontece com toda a gente, em que não se sabe porquê, mas ficam-nos gravados para sempre, alguns constantemente, outros ativados de forma intermitente, de longe em longe. Momentos para os quais não é imediata a razão para tal distinção, de tão singelos, simples, vulgares que são. Haverá uma teia, de fios mais ou menos visíveis que resistem na memória, no tempo.

 

Há momentos em que é evidente porque os sabemos situar na circunstância, o quê, quem e onde. Usando as frases batidas e dependendo das idades de cada um: Onde estavas no “25 de abril”? O que fazíamos quando soubemos e percebemos o que estava a acontecer no “11 de setembro” em NY, nas torres gémeas...

Estes são tão chocantes, envolventes, positiva ou horrivelmente, que nem temos tempo ou capacidade para pensar que estamos com a História a passar frente aos nossos olhos e que nos vamos lembrar deles enquanto tivermos os nexos elétricos da nossa memória em funcionamento. Estamos, na ocasião, totalmente absorvidos, imbuídos daquilo que acontece e que, seja mais longe ou mais perto, nos toca, choca e espanta.

 

Depois há as situações que nos surpreendem, melhor, superam as expetativas elevadas para as quais vamos, ou então acontecem de imprevisto e que nos são tão agradáveis que nos fazem pensar de forma grata na vida, agradecer quem somos e com quem estamos. Perante elas e no seu decurso, como que parte de nós se destaca, para, observa, prenhe de satisfação, alegria, entusiasmo, olha para o “espetáculo” em cena e diz-nos: aqui está algo que vou gravar, mais tarde vou recordar, para memória futura!

Muitas vezes esta memória não permanece vívida, desvanece-se e não acontece o que nós prevíamos, o momento não se tornou, de facto, inesquecível.

Mas também são eles, o conjunto desses momentos, meio enevoados, que nos constroem, ligam os blocos que edificam a nossa vida, a argamassam.

É uma saudade, sem rosto, sem contornos ou com contornos difusos, indefinidos, mas sem a qual nós não seríamos integralmente nós. E, sim, a saudade é mais dos momentos felizes, de alegria transbordante, mas, com o longo prazo que já começo a experienciar, digo que também podemos ter saudade, sem ser incongruentes, de momentos tristes, infelizes. A vida é mais de emoções que de razões, será isso.

 

Eu sou a minha saudade (também pode ser no plural) mais o que me espera e procuro no futuro. Um filme, uma sequência de fotos, com muitos flashbacks, saudades, memórias.

 

Jorge Saraiva

 

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25.8.17

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Foto: Coffer - Anna

 

Ela vai e vem, percorrendo a nossa vida; é assim o movimento da saudade. Por ela somos levados ao passado, a um momento temporal determinado, que nos permite recordar o que de bom se viveu, ou do quanto se perdeu.

A saudade manifesta-se e sente-se no presente quando a memória a chama a si para fazer reviver o passado. É natural o despertar deste sentimento que nos revela, não raras vezes, uma reconfortante e suave melancolia dos gratos e felizes momentos vividos. Ela, que não deve ser obsessiva, é recorrente, na medida em que se repete, vai e volta, regressando sempre ao “baú” das nossas memórias.

Ela, a saudade, acaba por ser, principalmente, em finais de vida, a companheira mais fiel dos que não têm companhia e por isso, se refugiam num silêncio cúmplice. É nessa relação de cumplicidade, nesse estado de alma, em paz interior, que melhor se convive com a saudade. E é esta que nos ajuda a recordar o que de bom se viveu. Ora, como o diz o povo: “recordar é viver”, a que se pode acrescentar, quando há uma doce e inesquecível saudade, que, recordando momentos inesquecíveis, vive-se duas vezes.

 

José Azevedo

 

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23.8.17

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Foto: Playground - Maria

 

Para quê sentir vontade de reviver momentos que já não voltam, com quem já não se encontra fisicamente entre nós, em sítios que já não são os mesmos?

Este verão voltei à terra da minha infância.

O parque onde brinquei já não existe. Ficou apenas a área vazia de terreno. Os prédios enormes continuam lá, mas não vi ninguém, nenhuma criança a brincar ou a comprar um pacote de leite na loja do bairro. Onde estão? Elas devem existir pois, à janela daquilo que foi em tempos a nossa sala de jantar, estava um jovem a sacudir a toalha. Fitei-o, bem como ao interior da casa. Ele reparou e fitou-me. Mal sabe ele que ali passei toda a minha infância e adolescência. Que ali me chamavam aos berros quando era para ir almoçar ou jantar, depois de umas boas horas a brincar na rua sozinha com os meus 30 amigos do bairro.

Logo ao sair do carro, encontrei o Senhor da Padaria e a Mãe de uma das amigas. Iguais! Algo passou por ali, arrasou o parque mas deixou as pessoas iguais! “Os sobreviventes”, como o Senhor da Padaria disse.

Fomos convidados a visitar o centro comercial que, de dois andares de lojas, restam apenas três lojas abertas. Ao entrar no café, o Senhor do Café reconheceu-me e eu vi isso nos olhos dele. “Mal olhei para os teus olhos pensei: eu conheço aqueles olhos.”. Pois é... Há quem diga que pelos olhos se vê a alma e a minha alma é a mesma.

 

Tudo muda. As casas, as pessoas que lá habitam, a nossa estatura física, as pessoas que connosco convivem, a nossa própria família também muda. A alma não. O nosso interior e o que nos formou como pessoas, isso não muda. Já cá está carimbado e para sempre.

Depois de despedidas secas, vazias, lá fomos embora, com a sensação de que aquilo é uma realidade que já não existe pois o lugar é aquele, aqueles três comerciantes são os mesmos e penso que serão sempre, mas a vida real é outra. Serão eles os três anjos que nos fazem recordar o que nos tornou pessoas? Não estava mesmo lá mais ninguém...

Para quê saudades se a vida já não tem lugar? Nós fizemos desaparecer esse lugar...

 

Sónia Abrantes

 

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21.8.17

People-StockSnap.jpg

Foto: People – Stock Snap

 

Chega-me com o perfume das noites quentes de verão, assim bem cheirosas porque plantas e flores, sem pudor, se despem das suas fragrâncias. Enchem o ar e levam uma direção. Não é um lugar qualquer aquele para onde vão ou de onde vêm e para o qual eu me deixo levar; é um lugar longínquo, mas que o cheiro a calor aproxima. Vou pela avenida junto ao mar até à Ponta Vermelha onde, por certo encontrarei alguém para uma partida no minigolfe. Desafio o vento que abana as palmeiras da marginal a fazer coisa idêntica nos meus cabelos, dou o exemplo passando os dedos pelo meio da cabeleira e levantando-a até ao cocuruto. A pele recebe uma lufada de ar e fica menos pegajosa, mas por pouco tempo. Repito o gesto vezes sem conta. Não está ninguém conhecido na Ponta Vermelha. Vou até à esplanada do Ciao. Peço uma cassata que não saboreio. Dizem que é dos melhores gelados da cidade, mas esqueço-me dele na taça de vidro; peço-o porque faz parte do ritual. O calor deforma-o rapidamente e a bola colorida passou a um líquido de qualidade duvidosa. Vão chegando amigos e com eles as histórias que têm para contar. O Dr. Óscar Monteiro é dos mais eloquentes a contar as peripécias de médico do antes e pós-independência. O humor que empresta aos dizeres faz do nada uma boa conversa. Tive notícias de que morreu, e que outros também já partiram. A bola de gelado não voltará a derreter à espera dos meus amigos e eu, mesmo querendo – e como quero – não conseguirei devolver à esplanada do Ciao a vida de outros tempos.

 

Chega-me com o pão quente pingado de mel. Fino e transparente, cor de ouro, combinado com o pão acabado de sair do forno, faz da simplicidade um manjar de réis. Nunca se esquece de, em cada fornada, fazer um pão pequeno só para mim. Ouço-a dizer com carinho: “uma bolinha pequena para gente pequena”. Querida avó, que bem que me sabia esta e tantas outras das tuas atenções. Como gostaria de poder dizer-te o quanto admirava essa tua magia de mimares tanto com tão pouco.

 

Chega-me com o choro dum bebé. Sinto nos braços o teu corpo frágil abandonado aos meus cuidados e na ponta dos dedos o toque da tua pele macia. O prazer de me entregar ao papel de mãe foi muitas vezes abafado por receios e dúvidas. Gastei as páginas do “Meu Filho Meu Tesouro”, de Benjamin Spock, na tentativa desesperada de aprender a educar. Hoje, teria mais serenidade e saberia retirar mais gozo dessa nobre função. Mas, a falta de experiência de então, não rouba o carinho com que recordo essa nossa fase de crescimento, tua, na direção da infância e da adolescência, minha, na direção da maturidade.

 

Chega-me com o abraço que me dás. Cativaste-me assim, num abraço sentido.

 

Chega-me com as inquietações amargas do passado, com a solidão, a alegria e a tristeza do presente, com as fantasias do futuro.

 

Chega-me com a perda de conhecidos, amigos e familiares.

 

Chega-me com pormenores que, de tão insignificantes, só não escapam aos meus sensores.

 

Chega-me do nada e sem saber porquê, mas agora e sempre, rendo-me a este abusivo e posseiro sentimento de saudade.

 

Cidália Carvalho

 

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