18.5.18

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Foto: Child - Jonny Lindner

 

A vida amedronta. Di-lo a criança em nós, saudosa das liberdades e inocências de outrora. Desde então que ela se tornou num conto sem fadas, dragões ou príncipes, e aqui estamos, adultos, com os nossos próprios monstros e heróis.

Continuamos com medo do desconhecido, dos passos que ainda nos falta dar ou do que se encontra ao virar da esquina, todos eles derivados da incerteza daquilo de que somos capazes. E é a própria vida que se encarrega de o evidenciar. Ela pega na crença necessária em nós mesmos e nas potencialidades latentes e impele-nos à ação. E nós seguimos, bravos, destemidos, aventurando-nos pelos recantos obscuros que antes nos intimidavam. Tudo porque ousamos. Porque acreditamos.

Para quê deitar a perder os inúmeros momentos de que poderíamos usufruir tão viva e intensamente, só porque partimos derrotados e desvalorizados? Somos humanos, cometemos erros e sem a tentativa não há a experiência. Há que dar uma chance às infinitas capacidades humanas e assim, talvez, nos convertamos nas princesas arrojadas e cavaleiros valentes dos quais esta realidade urgentemente necessita. E juntos, rumaremos em frente, batalha após batalha, com confiança!

 

Sara Silva

 

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14.5.18

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Foto: Generations - Tammy Cuff

 

Não decidiste partir, mas foste-te mesmo assim. Acredito que fosses, de todos, o que menos se queria ausentar, mas de nada adiantou. Tiveste a sorte de ver cumprido um último desejo, algo que poucos terão hipótese de conseguir. Posso dizer que aí foste feliz. Não sei se terei o mesmo. Na verdade, não sei se terei tanto.

Fazes-nos falta e fazes-me falta… Aborrece-me pensar que as memórias de ti, de nós, vão ficando fracas com o tempo. Algumas dessas memórias estão a partir também. Por vezes, socorro-me de outros para não sucumbir, finalmente, a esse vazio. Conversas de “lembras-te daquela vez…” enchem-me o coração e os olhos também.

Houve quem gravasse na pele o teu rosto e quem desse teu nome a um filho. Homenagens nobres para um nobre. Homenagens para um ciclo que se queria eterno. O teu nome, nem que seja num outro, mantém-te vivo entre nós.

Esse outro que nunca te conheceu, mas que ainda ontem via fotografias tuas. Perguntou-me coisas sobre ti. Sobre como eras, como era o original. Respondi-lhe e falei-lhe de ti. Não sei se alguma vez, contudo, conseguirá perceber o que foste para mim. Para nós. Gosto mesmo de acreditar que, de alguma maneira, esse outro herdou mais de ti que apenas o nome.

O ano da tua partida foi o mesmo da chegada do teu homónimo. Propositadamente. No início e final do mesmo. Final e início de dois ciclos. Quem sabe se num lugar, que não este, vocês se encontraram e conheceram? Se lhe passaste o testemunho e avisaste da responsabilidade de carregar o teu nome? Se assim foi, obrigado. Se assim foi, então peço-te que esperes por mim nesse outro lugar. Não sei de momento o quê, mas tenho mesmo tanto para te contar. Tanto para te abraçar.

Partiste, e o aperto na garganta permanece, assim como a tua fotografia na minha sala de jantar. Amo-te. Ainda hoje e sempre.

 

Rui Duarte

 

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11.5.18

Farm - Helge Leirdal.jpg

Foto: Farm - Helge Leirdal

 

Do corpo curvado pelo peso dos anos, pendiam memórias de tempos idos. As rugas do rosto eram as marcas visíveis dos dias difíceis, embora não fossem as mais profundas. As mãos trémulas, quase a lembrar os dias frios que conhecera na serra, sempre seguravam quaisquer outras que lhe tocassem, que lhe trouxessem carinho e a aquecessem com dois minutos de atenção.

Amélia – contou-nos – casara cedo. Não suportava as discussões diárias dos pais, nem o som daquele cinto castanho a cortar o ar, segundos antes de atingir as costas da sua mãe. Não suportava o grito mudo que se seguia. E menos ainda o medo e a angústia de calar. Decidiu partir. Casar com o primo afastado, construir uma vida na pacatez do interior e poder assim esquecer tantos gritos calados que trazia em si.

 

Começava o mês de janeiro quando chegou à aldeia. As ruas eram estreitas, as casas em pedra, e não se avistava quem mais fizesse frente ao vento gélido, que vinha dos campos e atravessava até o casaco de fazenda que a mãe lhe oferecera.

Ainda assim, foi o assobio do vento nos ciprestes, geometricamente alinhados, ao portão da casa onde iria viver, que lhe causou um arrepio.

Demorou uma semana a entender que o marido não era a companhia que tinha idealizado. Mas estava fora de questão a possibilidade de abandoná-lo e voltar para junto dos pais e, por outro lado, não tinha meios para subsistir sozinha. Restava-lhe ficar e viver com as consequências da decisão que tomara.

 

Amélia acordava cedo, tinha sob sua responsabilidade um rebanho de cabras que era necessário levar ao monte a cada manhã. E que bem lhe sabiam aquelas horas de liberdade! Apenas as cabras testemunharam as muitas vezes em que, no sopé da montanha, os olhos de Amélia choraram lágrimas saídas diretamente do coração.

No regresso à aldeia trazia um enorme sorriso, uma palavra de consolo para os mais velhos e um “quem me apanhar primeiro come uma moeda de chocolate” para as crianças sentadas no degrau da porta da mercearia. Claro que todas corriam e, fazendo um círculo, cercavam-na, exigindo a moeda.

Amélia nunca deixou de sorrir para a aldeia que a acolheu, e que não fazia ideia daquilo que se passava para lá dos ciprestes, geometricamente alinhados, ao portão de sua casa.

Amélia agradecia todas as noites a Santa Rita de Cássia por ter intercedido no pedido a Deus para que não lhe desse filhos. Não queria que mais ninguém no mundo tivesse de passar por aquilo que ela passara com os seus pais. E todas as manhãs pedia perdão por recusar a bênção de gerar uma vida no seu ventre.

 

Naquela altura do ano em que era Inverno para todos, o inferno da sua vida intensificava-se. O ego inflamado do marido bem-sucedido era inversamente proporcional à sua humanidade. O homem, aclamado nas ruas da aldeia pela capacidade de negociação e altruísmo, era afinal um monstro, depois de passar aquela porta.

Amélia recordava-se do som do cinto castanho a cortar o ar, segundos antes de atingir as costas da sua mãe. Agora eram as suas a ser atingidas. E mais uma vez sem motivo aparente, além dos muitos copos de vinho bebidos a mais pelo marido, antes de chegar a casa.

 

Ao início daquela tarde começou a nevar e teve de regressar mais cedo à aldeia. Notou que não se ouvia o assobio do vento nos ciprestes e pensou que seria pelo peso dos muitos flocos que já começavam a pintar os ramos de branco. Entrou em casa e cumpriu a sua rotina: acendeu o lume, fez um chá de tília e cortou uma fatia de pão que sempre comia com a marmelada que aprendeu a fazer em criança, com a sua tia-avó. Era dezembro e o seu corpo já se contorcia com as dores que sentiria, duas horas mais tarde, quando o homem que escolheu para seu, atravessasse aquela porta.

As duas horas passaram e, ao passarem mais quinze minutos, alguém bateu à porta. O comandante da GNR, amigo da família, vinha de lágrimas nos olhos dar-lhe a notícia da morte abrupta do marido, num acidente com o velho trator que usava no cultivo das terras.

Amélia não pôde manifestá-lo no momento, mas confessou-o na conversa que tivemos: o desaparecimento daquele homem foi para ela um alívio. Sentiu-se tão leve, que chegou a julgar-se genuinamente feliz no final daquele dia. Na aldeia pacata, de ruas estreitas e casas em pedra, era agora unicamente perturbada pelo corredor de ciprestes – que mandou cortar sete dias depois.

 

HTR

 

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9.5.18

Worried girl - Ryan McGuire.jpg

Foto: Worried girl - Ryan McGuire

 

Minha flor. Foi assim que me batizaste quando a tua memória te começou a pregar partidas. No meio da tristeza que era ver-te desaparecer aos poucos, fazias crescer em mim uma alegria imensa quando me vias e esboçavas aquele sorriso só a mim concedido, à tua flor. Provavelmente, esqueceste o meu nome e era-te mais fácil tratares-me assim. Eu não me importei, era um privilégio só meu. E que grande privilégio!

A tua doença transformou-te e inevitavelmente transformou-nos a nós. Tivemos que aprender a ver-te partir. E como foi difícil! Porque nem sempre estivemos à tua altura, nem sempre conseguimos dar-te aquilo de que mais precisavas da forma que te era necessário. Éramos iniciados nesta lição que a vida nos impôs.

Existias no teu canto, confortável naquele espaço, e a tua companhia deixou de aparecer junto de nós. Não conseguíamos perceber porquê, queríamos-te por perto mas tu recusavas. Éramos nós que aparecíamos para te fazer companhia, para cuidar de ti. Estranhavas aqueles que te acolheram com amor, olhava-los desconfiada e elevavas o nosso desafio diário. Exceto quando eu aparecia porque era a tua flor. Os teus olhos enchiam-se de esperança, nascia-te uma vivacidade que não aparecia noutros momentos, aparecias. Minha flor, dizias a meio da tua refeição ou ao deitar, já cansada e com poucas energias, ou a meio da tarde quando já tinham passado horas sem veres ninguém. Sempre!

 

O ciclo da vida devia ser invertido. Devíamos nascer velhinhos, de cabelos brancos e curvados, com dificuldades na mobilização. Tristes por sentirmos que não nos compreendem e, por vezes, por estarmos sozinhos e desamparados. Mas sábios, com a bagagem da sabedoria às costas, ávidos de percorrer o caminho da vida. De inocência perdida, acolher cada experiência com garra. Justos conhecedores do mundo, hospedar cada pessoa com paciência, tolerância, compaixão, amizade, carinho, amor… Deveríamos percorrer esse desejado caminho ganhando energia e ignorando tudo aquilo que a sugasse. O auge da vida não teria como panorama um abismo, mas sim uma íngreme colina para subir. Acabaríamos nos braços calorosos dos nossos queridos, a encher bocas de sorrisos e de lindas afirmações. Derreteríamos então corações. Agora sim, inocentes e esquecidos das mágoas do percurso. O final seria desejado e feliz, uma felicidade entendida por várias gerações e distribuída com entusiamo aos demais envolvidos.

Contudo, a velhice é triste, entristece o próprio e os próximos. O final da vida deveria ser o auge da felicidade, livre de sofrimento.

A tua velhice teve sofrimento não merecido e não calculado. Desejo que o teu esquecimento, que foi doloroso para nós, tenha sido uma bênção para ti. Não precisavas de recordar os dias mais negros.

Para além da tua cabeça, o teu corpo foi fraquejando nos nossos braços. Foste perdendo a energia que te caracterizava, as forças que utilizaste no teu árduo trabalho no campo enquanto jovem, as capacidades que entregaste ao cuidar de mim na minha infância. Fizemos o melhor que podíamos, sem saber agora se fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Eu sinto necessidade de te pedir perdão por não ter feito mais. Eu não sabia e, ingenuamente, pensava que estava a fazer tudo bem.

 

Naquele dia tu foste a mais forte de todos. Aguentaste firme enquanto nós hesitávamos. Não te queríamos a sofrer mais do que o inevitável. Protelámos a tua saída de casa por desejarmos o melhor para ti. A tua saída seria temporária, para te curar ou apenas para te melhorar se fosse essa a única opção. Levei-te, estive sempre junto a ti, desejosa de te trazer de volta ao teu cantinho.

Mas rapidamente te levaram para longe de mim e não quis perceber porquê. Não pensei e não parei de pensar, parei e estive irrequieta. E esperei, aquilo que pareceu uma eternidade. Finalmente saiu um grupo de pessoas para falar comigo e aí senti-me a não sentir absolutamente nada.

Naquele segundo, o mundo desabou. Em cima de mim, senti todo o seu peso e as minhas pernas falharam. Encostada à parede, sustentei-me ali, e ali permaneci sem tempo, incrédula e sozinha. Perdi-te! A tua voz, o teu carinho, a tua bondade, o teu sorriso, a tua pessoa. Solucei inconsolável perante desconhecidos com ar intocável. Não podia ser verdade porque ainda agora me tinhas chamado Minha flor.

Ainda respiravas, ainda existias fisicamente. Mas já tinhas partido… há tanto tempo que nos tinhas deixado. Acompanhei-te nessa longa e triste partida, sem saber que estaria contigo na abalada definitiva para o outro mundo.

 

Vi-te numa sala pequena e fria. Não eras tu. Eras um corpo disforme, uma feição irreconhecível, uma respiração irrespirável. Falei-te ao ouvido, pedi-te perdão, e sei que me ouviste. Não queria deixar-te ali mas não havia outra opção. Tu já tinhas decidido. Acarinhei-te até ao último suspiro e, aí, abracei-te com força. Senti-te fugir de mim, mas agarrei-me com toda a força que tinha para não cair. Partiste, tranquila e acompanhada por aqueles que mais te amaram na tua longa despedida.

Agarrei-me ao teu amor e honrei-te o melhor que soube. Mas ainda hoje te peço perdão porque sinto que nunca valorizei devidamente as tuas palavras “Minha flor”.

 

Marisa Fernandes

 

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7.5.18

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Foto: Park - Виктория Бородинова

 

Deixaste-me num dia que não existiu. Sei-o agora, já fora do glaciar sem contornos onde tentei decifrar explicações para as minhas lágrimas tão ardentes – escrevendo, escrevendo, quase furiosamente, os mais doces poemas de amor. Sei-o agora, que o destino está mais perto, agora, que a paisagem me reconhece, agora, que a poesia me estranha. Agora, já certa de que o Céu é mais baixo e mais nítido do que eu pensava, e de que a Terra é um lugar de invisibilidades e de abismos.

 

Jamais partiste, meu amor. Aquele dia de dezembro, tomou-o o nevoeiro pela eternidade, decerto, e embrulhou-o em si, para sempre, como cobertor de papa que não sabe as mãos do tempo que o teceu. Na altura fiquei confusa, achei que te tinha perdido também, que tinhas sido escondida de mim, pelos fiapos espessos do nevoeiro. Dividi-me entre Terra e Céu, estiquei-me toda para ti, encolhi-me toda para amimar os teus irmãos, caí, voei, voltei a cair, caí tantas vezes, meu Deus. Fugi e voltei. Parti e perdi-me. Fiquei e parti-me. Ah, tantas vezes me parti!... Mas, sempre, sempre, consertada pelo amor dos teus irmãos, a mim regressava. E fui aprendendo, devagarinho, a serenar e a agradecer. E agora sei que sempre estive inteira – que nunca me partiste, meu amor...

 

Os filhos crescem, seguem as suas vidas, partem-nos. Os teus irmãos, tu sabes, tu vês, enchem-me a alma de amor e de orgulho. Enchem-me os olhos as suas asas e eu fico feliz por eles voarem... mas partem-me. Mas partem...

Tu ficaste. Sempre. Tu hás de ficar, sempre. Colada a mim pela humidade longínqua de um dia que não existiu. Tu ficaste, com a inocência feliz do teu riso. Com as flores frescas que nasceram nos teus olhos e que eu cuido, todos os dias. Com a leveza flexível do teu corpinho de anjo, que se agarra a mim como a brisa se abraça às rosas do maio. Com a melodia da tua voz pequenina, chamando-me, em urgência adocicada: “Mãe!”.

- Estou aqui, filha, estou aqui. Quando for para eu partir, partiremos juntas...

 

Teresa Teixeira

 

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4.5.18

Grandfather - Dan_Kelli Oakley.jpg

Foto: Grandfather – Dan/Kelli Oakley

 

O sol brindava-me logo pela manhã, ao entrar de rompante pela janela. Ouvia o assobiar dos pássaros à janela. Era impossível acordar triste. Saltei da cama e olhei para o relógio. Já passavam alguns minutos das 10h15 da manhã e tinha combinado ir visitar-te, avô. Estavas constipado e ia levar-te ao médico. Num instante estava à porta da tua casa. A avó abriu toda sorridente, deu-me aqueles abraços maravilhosos de que gosto muito, mas avô, não desfazendo dos abraços da avó, os teus eram o meu alento – era a menina do avô. Quando entrei no quarto, também já estavas pronto. Tinhas algumas olheiras – maldita constipação que não te deixava dormir bem – mas os teus olhos brilharam quando me viram e os meus também. Dei-te um longo abraço e sorri. “Vamos avô.”, disse-te. “Como estás? Estás melhor?”, tu sorrias e dizias que não era uma constipaçãozinha que te ia deitar abaixo. Eras forte. Tão forte, avô.

 

No médico, ele mediu-te a diabetes, sim porque os diabretes eram o teu grande problema, achava eu, achavas tu, todos nós. Lá ralhou o médico um pouco contigo porque estavam muito altos. Mas em relação à constipação receitou-te aquelas coisas normais, eu tinha-te dito para tu ires ao teu hospital privado, já que tinhas lá seguro, mas não, quiseste ir ao público. Se eu soubesse avô, se eu soubesse. Acho que te tinham dito para fazeres mais exames, mas tu eras tão teimoso, avô. Tão teimoso. Não sabias, nem eu, nem todos nós.

 

Fomos para casa, estavas cansado e tossias, eu preocupada questionava-te se querias algo, se precisavas que fizesse algo. Mas tu sorrias, dizias que estavas bem. Eu sorria, preocupada, fingindo acreditar. Levei-te a casa e lanchei contigo e com a avó. Foi tão bom passar aquele momento com vocês. As horas foram passando e eu tive que me despedir de vocês para ir trabalhar. Mas voltei todos os dias para lanchar.

 

Só tinham passado dois ou três dias de estares constipado mas parecias estar melhor. Fiquei feliz. Num dos dias refilavas à tua maneira com a avó, que não podia trazer todos os dias os bolinhos de que gostavas, ou os diabretes vinham em festa. Ri-me disso.

No final dessa semana, tive que fazer mais horas, o trabalho estava um caos. Recebi uma chamada da avó, ela tentava disfarçar a preocupação, dizia-me que estavam no hospital, no privado, do avô. Que possivelmente eram só os diabretes mais altos que o normal, mas como eu não podia vir, para não me preocupar, que vinha quando conseguisse, para não me prejudicar no trabalho. Fiquei preocupada, muito. Mas não podia sair, não tinha ninguém para me substituir e tive que ficar à espera até ao fim do dia para que viesse alguém. Liguei para a minha mãe, para ela ir por mim, rapidamente, ver o avô. Ela foi. Eu não consegui.

Tantos foram os contras nesse dia – quem me vinha substituir teve um percalço com o carro, teve um furo, atrasou ainda mais a minha hora de saída. Mas eu respirava fundo. Pensava: “foram apenas os diabretes que ficaram demasiado altos”, “o avô só estava constipado, provavelmente foi por precaução”. Fazia figas. Ninguém me atendia, nem a avó, nem a minha mãe. Toda eu tremia. Apavorada.

A minha colega chegou e eu saí a correr, acho que nunca corri tanto, nem conduzi tão rápido, eu que não tinha costume acelerar nem andar fora do que é o limite. Nesse dia, não podia ser, tinha de estar lá, tinha de estar ao pé do meu avô.

Quando cheguei ao hospital, a minha mãe chorava sentada num banco, a minha avó estava pálida. Sem expressão alguma. Corri para a minha mãe e perguntei pelo avô. Perguntei por ti, avô. Ela acenou-me com a cabeça que não. O meu mundo caiu. ”Porquê, avô? Tu só estavas constipado.”, mas não, afinal não te diagnosticaram uma pneumonia que se foi agravando durante aquela semana. Uma semana. Num instante partiste, sem me conseguir despedir. Queria pelo menos ter conseguido ver-te, dizer-te que te amo, uma última vez. Porquê, avô?

Porque partiste assim? Uma parte de mim morreu contigo. Eras a pessoa que mais admirava, que me dava os melhores conselhos, o melhor ouvinte, o melhor avô!

Não quero acreditar. Não pode ser verdade. Não vás, avô! Volta!

Partiste sem saber que o ias fazer, deixaste um vazio, mas para mim vais estar sempre vivo no meu coração.

“Porquê, avô?”

 

Inês Ramos

 

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30.4.18

Umbrella - Gerd Altmann.jpg

Foto: Umbrella - Gerd Altmann

 

Hoje chove a cântaros. Apesar dos dias prolongados de frio, chuva e algum cinzento na alma, acordei tranquila, descansada e mimada, com os três gatos na cama. Respirei fundo, lentamente, senti-me feliz por estar viva. Por sentir que as coisas avançam na minha vida, mesmo que os meus passos ainda me pareçam incertos. Estar inteira, aqui e agora, faz-me sentir coisas debaixo da pele que me levam a saltar da cama de manhã (na grande maioria dos meus dias), cheia de sol e vontade, ainda que troveje no firmamento. Cá dentro, em cada uma das minhas células, assinam-se tratados de paz, acordos territoriais e de segurança, protocolos de intervenção e, embora nem sempre o consenso entre as partes seja possível, nenhum demónio tem autorização de permanência. Ainda há quem grite, quem sofra, quem reivindique o ar que respira em nome de memórias nefastas, mas a comitiva da paz, com olhos postos no futuro, tem contido a onda de indignação, com determinação e carinho. Lá fora, o vento arrasta as vozes e os pés mas nada contém a mudança que trago em mim, silenciosa e determinada. Pela primeira vez em muito tempo, sinto a paz regressar. A vida não se tornou mais fácil, tão pouco os próximos anos serão mais tranquilos, mas o tempo da cura interna já se faz sentir. Os males do mundo continuarão a chegar sem aviso prévio, sem dó nem piedade, jamais poderei travá-los. Aceito as circunstâncias do mundo e dos outros, simplesmente: sei-os à margem de mim, tal como me sei deles. Aqui e agora, todavia, partilhamos este planeta, numa coexistência frágil, carregada de incompreensão e ignorância: como é triste sermos gente que não compreende gente, num mundo feito de (e para) gente que se esquece de ser gente. Talvez nunca o consiga entender mas já não me permito navegar nestas águas. No meio do caos, atento nos lutadores, nos audazes, nos humildes, nos compassivos, nos humanos que insistem, dia após dia, em ser melhor do que foram ontem, para si e para outros.

 

No meio do temporal, caminhando às cegas, debaixo do guarda-chuva, esbarro numa amiga que não via há muito. Insiste em que lhe conte “as novidades”, quer saber acerca de todas as coisas que não fiz. Pouco convencida pela minha resposta sucinta, segreda-me, sorridente, que os meus olhos lhe dizem que cheguei ao meu destino, que algo (ou “alguém”, repete) muito especial deve estar a acontecer. É óbvio para ela, que estou a ocultar algo importante, que não quero falar do que me traz “tão iluminada” mas, claro, apesar de triste e um pouco ofendida, deseja apenas que eu seja “muito feliz”. Na pausa em que aguarda a minha resposta, a minha boca não se move. Penso: não estou a chegar a nenhum lugar, nem a ninguém, estou em viagem. Parti de uma estação à qual jamais poderei voltar e, em cada paragem, deixo bagagem que não me pertence. Ainda não posso dizer que só trago comigo, apenas, o que me faz falta mas a leveza crescente cá dentro torna, definitivamente, as pernas mais velozes e o coração mais sereno. Sei porque estou a ir. Sei para onde quero ir. Sei o que não deve viajar em mim. Sei quem não deve caminhar comigo. Não sei, no entanto, de quantas paragens mais precisarei ao longo do percurso, para viajar cada vez mais leve, com que passageiros partilharei ainda a jornada ou quando será a última vez que poderei escolher o trajeto, mas sei que está tudo bem e que estou no único caminho que me validará a viagem. E quando eu tiver convertido toda a dor em amor, saberei que estou em casa. Pensei isto tudo mas não o disse, não creio que pudesse entender uma só palavra. Devolvi o abraço em que me envolveu e respondi, sorrindo: “… que eu seja muito feliz… Obrigada, amiga. Assim seja”. Desejei-lhe o mesmo de volta e voltei a partir, sem mais delongas. A viagem continua – e a chuva também.

 

Alexandra Vaz

 

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27.4.18

Girl - Adina Voicu.jpg

Foto: Girl - Adina Voicu

 

Quero ir. Não importa o destino! Caminhar, fazer, ver, escutar, partilhar, aprender...

Porque ao partir, vou eu mas regresso outra. Essa bagagem que trago de volta pode ser insignificante. Ou pode marcar, por ser boa ou má. Não importa! Partir é sempre melhor que ficar. Ficar é não viver. É não ser. E eu não sou assim.

Por isso, vou. E, afinal, já não volto.

Adeus.

 

Sandrapep

 

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23.4.18

Wanderer - Hermann Traub.jpg

Foto: Wanderer - Hermann Traub

 

Não se pode dizer que se trata de uma questão de ambiguidade. O facto de ter tantas possibilidades de significados diferentes, até opostos, dá-lhe riqueza e cada contexto torna a aceção clara, bem definida.

Pode, comecemos então, ser pedra. Alguém tem que o fazer, é duro, mas necessário e produtivo, ainda que nem sempre com resultados imediatos, até porque tal se faz, frequentemente, no início dos processos.

Pode ser um espelho, para desgraça de quem seja supersticioso. É que estar convencido de 7, esse mágico número, anos de azar é meio caminho andado.

Partir a louça toda é que não passa despercebido a nada nem a ninguém, só talvez à louça, para sorte dela, que tem aqui o papel de figura de estilo.

Há de ser triste, dramático, trágico e deixar saudades. Depende da possibilidade de voltar, regressando numa questão de tempo, ou não. Ser para sempre.

Vamos aproximar-nos do que queremos, ainda que para efeitos diversos e para sustentar a base de um argumentário. É sempre bom estabelecer qual a base de partida, determinar princípios.

Partir. Como mencionado, pode dar azar, fazer chinfrim, ser triste, originar saudade. Ser um fim.

 

Vamos, no entanto, tomar partir como uma partida, um começo. Algumas vezes o começo não parte de uma decisão, já o recomeço, partir para outra, mudar, carece de uma decisão, de uma iniciativa própria. Por força das circunstâncias, por força de vontade.

Porque queremos, porque precisamos, porque desejamos. O mais certo é que seja preciso estar disposto a suportar o desconforto, a dor, torná-la nossa amiga, sabendo que o processo que a produz nos vai trazer novos horizontes, novas conquistas. Atingir outro plano, outros e melhores, mais ambiciosos resultados. Partir para atingir. E depois, quiçá, partir de novo. Acompanhado, de preferência.

Vamos? Eu vou.

 

Jorge Saraiva

 

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20.4.18

People - Stock Snap.jpg

Foto: People - Stock Snap

 

Quando naquela tarde a morte lhe tocou com seus dedos de pedra fria, não encontrou senão restos. Restos de uma força que o tempo foi consumindo, de um corpo outrora belo, de um ser em sofrimento. Restos de um quase acreditar nos avanços da medicina.

Tinha chegado o momento. Sentiam-no. Tomaram-se de uma tristeza que lhes gelou a alma e paralisou o corpo. Esquecer a inevitabilidade da partida tinha sido o esforço dos últimos tempos, mas aquela tristeza paralisante não os deixava iludirem-se por mais tempo. Não tinham mais do que segundos, talvez minutos. Quem saberia ao certo? Mas não mais do que isso. Pouco, muito pouco para serem e se darem. Ele lia-lhe a desistência no olhar. Ela queria compreensão. Não conseguia continuar, ele tinha que compreender e perdoar-lhe a fraqueza.

- Não te zangues, meu amor. Não encontro forças para continuar, já tudo me é insuportável. O fogo que me queima as entranhas é um sofrimento difícil de aguentar, desumano, e, no entanto, isso é nada comparado com a dor de te ver abandonado. Abandonado por mim! Não gastei a vida, ela é que me esvaziou. Escapou-me a concretização de alguns sonhos, haveria muito mais para fazer, para fazermos, mas já nada tenho que me possa manter.

Ela sussurrava despedidas num fio de voz emocionada, arrancada com esforço. Os olhos dele, pungentes, eram a expressão da dor. Uma dor seca sem lágrimas, que essas foram gastas nos dias a seguir à condenação, poucos meses antes. Desde então, viviam a acumular recordações, agarravam o hoje na certeza de que não existiria o amanhã.

Quando por períodos, ainda que escassos, conseguiam expulsar a nuvem negra que se abatera sobre eles, vendando-a qual jogo de cabra-cega e punham em campo a esperança de olhos bem abertos, viviam intensamente. Davam grandes passeios, admiravam as cores da natureza, sorviam o ar puro dos campos e os aromas delicados dos perfumes. Faziam duetos sem qualquer sucesso, ela de voz doce, mas desafinada, ele afinado, mas sem melodia na voz, e cantavam. Riam de alegria, gritavam ou choravam de medo, mas tudo isto fazia sentido e enriquecia os dias incertos.

- Sinto-me viva quando choro ou quando rio - dizia ela com vivacidade.

 

Era chegado o final. Sabiam-no. Antes do diagnóstico nunca perderam mais do que um minuto a pensar que um dia se separariam. Sonharam com uma vida, planearam e construíram o mundo deles, indestrutível e intemporal. Pelo menos assim o pensavam. Por vezes, franqueavam as portas desse mundo e deixavam-se visitar por familiares ou amigos íntimos, por momentos partilhavam a vida com eles, mas isso não os distraia um do outro, ao contrário, aumentava-lhes a saudade e o desejo de se entregarem rapidamente aos seus hábitos, horários, às brincadeiras quase infantis que só eles entendiam e que tanto os divertia. E ele, mais por admiração dessa jovialidade e menos por repreensão, perguntava-lhe se ela sabia a idade que tinha. Sabia e glosava o tema, nunca seria uma velha rabugenta. Que ironia! Agora também sabia que nunca seria velha. Triste sabedoria! Mas que ninguém tivesse pena, tivessem sim, admiração. A pena não faz justiça às coisas que triunfam, como este amor que os uniu.

Trocavam elogios que outros diriam, quão pouco fundamentados eram. Talvez fossem! Talvez se vissem como mais ninguém os via. E que importância isso tinha se, para eles, eram agrados e bondades com que se mimavam?

- Quem é linda, quem é? - perguntou ele olhando a silhueta sem forma e inchada da mulher, a cabeça lisa e a pele de lagartixa manchada e maltratada pelos medicamentos. Ela respondeu com fingida vaidade e sem nenhuma certeza:

- Não sei. E acrescentou: - Mas, muito, muito linda sou eu.

- Acertaste meu amor, mereces um prémio.

E o prémio veio prazenteiro num beijo quente. O sorriso que ela lhe devolveu não passou de um esgar sem profundidade, a pressão das mãos entrelaçadas afrouxou até à lassidão e ele, impotente, não conseguiu evitar que os olhos dela se fixassem, sem expressão, no vazio.

 

Cidália Carvalho

 

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16.4.18

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Foto: Autor desconhecido - Coleção F. Cabral

 

Dali, daquele sítio sobranceiro ao rio Douro, é possível desfrutar de toda a panorâmica fabulosa que a vista alcança, dominada por essa excelente via fluvial pela qual veio, desde tempos imemoriais, o progresso e o desenvolvimento à “mui” nobre cidade do Porto. O afluxo e o movimento de barcos às ribeiras de ambas as margens foi sempre uma constante, o que parece dar vida eterna àquelas paragens. As próprias marginais, com a intensa circulação de pessoas e tráfego de mercadorias, também muito concorreram para ser um lugar de grande atividade comercial e turística. Toda a zona envolvente está repleta de história e de “histórias”, não fosse aquele o lugar donde proveio o nome de Portugal. Era dali que o menino da “rua” observava o “vai e vem” dos barcos, a chegada e a partida dos navios de maior calado que rumavam para muito longe, para lugares distantes que ele sonhava um dia visitar.

De vez em quando, ouvia a narrativa dos “embarcadiços” que demandavam a Gronelândia à pesca do bacalhau, cujos barcos, na época do defeso, ficavam atracados no cais de Massarelos. O que mais o encantava e obcecava era o “partir” desses navios. Para ele, a palavra “partir” assumia um sentido mágico, qual sortilégio da imaginação infantil, porque significava ir viajar, ir conhecer outros lugares, outras gentes e, sobretudo, a possibilidade de adquirir mais conhecimentos, ganhar mais “vida da vida para a vida”. No sítio, que lhe servia de autêntico miradouro, podia divisar a entrada e saída de navios, ao mesmo tempo que lhe servia também de fonte de inspiração para os sonhos que alimentavam a sua fértil imaginação de menino. Mas do que ele gostava mesmo era de partir para alguma parte do Mundo, demandar outras terras, sentir o encanto, o fascínio e o cheiro de outros lugares; por isso, fechava os olhos e, nesse devaneio, sonhava como se estivesse a viajar. Queria ser um homem das “sete partidas” a exemplo de outras figuras conhecidas da nossa história.

 

José Azevedo

 

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13.4.18

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Foto: Auto - Albrecht Fietz

 

“Não vou procurar quem espero

Se o que eu quero é navegar

Pelo tamanho das ondas… Volto a partir em paz.”

Ornatos Violeta

 

Espero que o levante sopre quente e sereno nessa tua viagem. Decidiste pegar nas coisas e largar, mudar de ares. Que tinhas de ir, sentias ganas de sair. Na volta, é o mais simples. Começar novas pessoas e hábitos. Mesmo que depois tudo fique igual, temos a sensação de que algo se mexe, que não fica igual, não é verdade?

Na volta, um dia fitas o horizonte e pensas como estás no mesmo ponto. Como é que, a dada altura, mudar era mais simples que ficar. Até, sinceramente, uma parte de ti já tinha pegado nas malas e partido. A coragem veio depois com a crescente sensação de que dia-a-dia já não havia ali mais amor para ti e que saías da mesma forma que entraste. Pelo teu próprio pé.

Um dia o horizonte fita-te e responde se o desafio maior não será ficar. Perto do bater do teu coração, partindo dentro de ti.

Um dia contar-me-ás que mundos e peles cruzaste e quem te deixou a pele tisnada pelo sol e pelo sal. Até lá, encontras-me por aqui.

Boas marés!

 

Maria João Enes

 

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9.4.18

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Foto: Airport - Jé Shoots

 

Pensámos muito relativamente a esta partida. Ponderámos prós e contras. Chegou o momento. Despedimo-nos das pessoas que nos acompanharam ao aeroporto. Que despedida! Entramos no avião ainda com incertezas. Sabemos que vai ser uma viagem que nos vai transportar para aquele lugar por algum tempo. Vamos à procura de qualquer coisa que não temos cá. A saudade começou quando ainda ponderávamos os prós e contras.

 

Durante a viagem apetece desistir. Agora já não dá. Ainda na viagem, a nossa cabeça lembra-se daquela festa onde conhecemos algumas pessoas que deixamos cá; das corridas que fazíamos ao fim de semana, todos juntos; dos encontros ao fim da tarde com aqueles que escolhemos para nossos amigos; das namoradas e namorados que deixamos cá, dos pais e irmãos com quem partilhamos, face a face, os nossos problemas, os nossos segredos e as nossas aventuras; dos filhos que deixamos cá; a relva que regávamos ao fim de semana, das flores dos nossos jardins; daquele quarto onde dormimos toda a vida; daquele recanto da casa onde nos sentíamos melhor; das desavenças que tivemos com os nossos pais, com os nossos filhos, com os nossos irmãos e com os nossos amigos; dos momentos de alegria e de sofrimento que fizemos questão de partilhar com os filhos, com os pais, com os nossos irmãos e com os amigos; dos momentos de alegria e de sofrimento que os filhos, os pais, os irmãos e os amigos fizeram questão de partilhar connosco; dos altos e baixos das nossas vidas. Na viagem, a nossa cabeça lembra-se de tudo isto… e de outras coisas. Estamos sozinhos com o nosso pensamento.

A viagem continua e a incerteza também. De cima, conseguimos ver que passamos mar, cidades, montanhas e aldeias. A nossa cidade ficou para trás no mapa.

 

Chegamos ao destino. O que nos reversa este destino? Nós pesámos prós e contras e os prós ganharam, por isso, a decisão foi de partir. E agora? Vamos iniciar um ciclo novo da nossa vida? Como fazemos relativamente a tudo o que a nossa cabeça pensou no avião? Como gerimos a saudade? Partir para outro lugar no mapa, para nos dar qualquer coisa que não temos cá, implica um descontinuar de tudo o que deixamos cá? Dizem que agora estamos todos muito perto; que “somos do mundo”; que temos instrumentos fantásticos, como a Internet, viagens baratas e rápidas que nos permitem entrar na nossa cidade num instante e, também, que o ser humano se adapta com facilidade. Pois… talvez seja verdade. Sim, vamos ter experiências novas e diferentes, talvez enriquecedoras, mas não podemos “tocar” nas pessoas que deixamos cá. Isso é problema? Bem… vou fazer o exercício para aceitar que “somos do mundo”, que temos instrumentos fantásticos, como a Internet, viagens baratas e rápidas que nos permitem entrar na nossa cidade num instante e, também, que o ser humano se adapta com facilidade e talvez, assim, me sinta mais tranquila.

 

Ermelinda Macedo

 

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6.4.18

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Foto: Train - Luís Ferreira 4X4

 

Sim, gostava de apenas ir.

Ir para um lugar longe daqui, onde tudo seja mais fácil e descomplicado. Onde o sol brilha mas não magoa, onde a chuva faz crescer mas não constipa. Será que existe?

Tiro o bilhete de comboio e vou, mas quando lá chego é tudo igual. Diferente, é certo, mas igual.

Encho o depósito de combustível do carro e parto, percorrendo quilómetros. Por fim, chego ao meu novo destino e sinto o mesmo. Vejo diferente, é certo, mas tudo igual.

Compro um bilhete de avião e faço o check-in. Ao levantar voo já me sinto diferente, como se estivesse a encher a alma. Quando lá chego, o cheiro é diferente, é certo, mas tudo igual.

Depois de tantas viagens, acredito que a maior viagem que fazemos é a interior. Mas como sair de mim mesma e partir para outra? Será possível?

 

Sónia Abrantes

 

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2.4.18

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Foto: People - TréVoy Kelly

 

Há sempre um ponto de partida e de chegada. Dia a dia. De mês a mês. Ao longo de vários anos.

Toda a existência é feita de estações, transportando memórias e impactos. Das pessoas que vêm e permanecem, das que saem sem enunciar o adeus, das que expulsamos por vontade própria ou até das que entram de rompante, conquistando um teimoso lugar. Elas vêm com as suas próprias bagagens, a par da mercadoria preciosa que se enche e preenche de relatos, vivências e marcas.

É nesta relação simbiótica conjunta que prosseguimos viagem, abarcando as flutuações inevitáveis dos seres e bens que alternam quantitativamente ao longo do caminho, deixando apenas espaço para a saudade.

O que é certo, é que nada do que está fica. Não na escala do tempo que nos ultrapassa. Pouco a pouco os vazios agigantam-se e contemplamos, de forma cada vez mais próxima, o nosso destino.

 

E que mais se pode dizer face a isto se não que é uma aventura num imenso transporte coletivo que todos acolhe e abrange, não requerendo assinatura mensal.

Pagamos apenas em sorrisos, lágrimas, abraços, amuos... O que de outra forma não teria preço.

E de estação em estação partimos, recheando o saldo memorável (que não bancário), até ao derradeiro ponto de chegada.

 

Sara Silva

 

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28.3.18

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Foto: Persons - Free-Photos

 

Sentia-me quase 100% feliz com a minha vida, não podia realmente queixar-me. Tinha sido adotada muito cedo, não me lembrava tão-pouco dos meus pais biológicos. A família que me adotou, para mim… são os meus verdadeiros pais. Não os vejo de outra forma. Deram-me a melhor educação que podiam, transmitiram-me valores e nunca me faltou amor e carinho.

Tornaram-me na pessoa que sou hoje. Acabei nova os estudos, pois além de ter entrado cedo para a escola nunca perdi nenhum ano. Sempre fui empenhada e dedicada nos estudos e fiz parte dos quadros de honra da escola. Os meus pais inscreviam-me em algumas atividades extracurriculares para me ajudar a socializar mais com as outras crianças, talvez também para me esquecer de que fora adotada; acho que eles sempre tiveram uma panóplia de receios no que toca a esse assunto. Penso que sempre houve uma voz pequenina no meu subconsciente que me questionava sobre esse assunto. Mas os anos iam passando e coisas novas iam sucedendo na minha vida, o que me fizera esquecer um pouco, ou colocar de parte algumas das minhas questões.

 

Foi quando terminei os estudos, que algo em mim despertou, uma curiosidade de saber quem eram os meus pais biológicos. Não só quem eram, como queria entender o motivo que os levou a desistirem de mim. Não que eu não tivesse sido amada, não que tivesse falta de algo. Mas porque sentia que não me conhecia na totalidade e precisava. Precisava de saber o porquê de me terem abandonado em pequena. Os meus pais adotivos, eles sabiam, notava no olhar deles por vezes, como se estivessem à espera do momento em que eu lhes colocasse a questão: “Vocês sabem quem eles são? Gostava de os conhecer”. Acho que sim, que temiam esse dia; e esse dia tinha chegado. Coloquei-lhes aquelas questões. Eles não levaram a mal, mas notei uma certa apreensão nos seus rostos. Não foram rudes, nem egoístas, nem esperava outra coisa deles. Só possuíam um número de telefone e um nome, o nome da minha mãe: “Carolina Mateus”. Deram-mo e abraçaram-me, pediram-me para ter cuidado, com medo que a verdade me magoasse demais. Mas eu sentia que precisava de descobrir, para conseguir conhecer-me a mim mesma. Para prosseguir com a minha vida para a frente. E pais, seriam sempre eles.

 

Os meus dedos suavam, toda eu tremia, digitei o número de telefone e hesitei durante alguns segundos. Respirei fundo e fiz a chamada. Tinha o coração acelerado e congelei quando uma voz rouca disse do outro lado da linha “Estou?”. A única coisa que consegui dizer foi “Sou eu, a Ana. A tua filha”. Por momentos o silêncio instaurou-se naquela chamada. Mas rapidamente ouvi- a chorar. “Ana… nunca pensei que me fosses ligar”.

Pouco falámos depois, mas tínhamos combinado um encontro num parque, não muito longe de onde eu morava. Estava nervosa à medida que as horas passavam.

Mais uns minutos e saí de casa em direção ao parque.

As folhas caíam agora das árvores, para dar lugar a outras novas que já espreitavam. Tinha um calor agradável. Fui caminhando pelo parque até que reparei numa figura estranhamente parecida a mim, sentada num banco, os cabelos ruivos, magra e com um aspeto algo envelhecido para a idade que supostamente tinha. Tive a certeza que era ela quando ela olhou para mim e as lágrimas lhe escorreram do rosto. Foi quando me dirigi a ela e, educadamente, me sentei e a cumprimentei. Não com um abraço, pois sentia uma controvérsia. Não queria, mas queria no fundo, mas não o fiz. Não a conhecia. Ela sorriu e pôs-me a mão no ombro. “Ana, estás tão grande, tão bonita”. Eu apenas tentava perceber que vida tinha tido aquela mulher para ter ficado com aquele aspeto tão triste e pouco saudável. Apenas me saíram da boca as poucas palavras que tinha realmente de dizer. “Porquê? Porque é que me abandonaste?”.

“Ana… eu abandonei-te para poderes ter uma vida melhor”. “Mas porquê?”, perguntei. Não poderia ela ter-se esforçado mais um pouco e ficado comigo?

“Era nova demais e com muitos vícios, o teu pai desapareceu e eu não tinha ninguém, sou uma sem-abrigo e já o era na altura. Foi quando vi um casal chorar à porta da igreja, falavam um com o outro, falavam com Deus ao mesmo tempo. Pediam um milagre, não conseguiam ter filhos. Vi como desejavam tanto um, eras tu Ana, tu eras o milagre deles.”

Eu estava perplexa, as lágrimas corriam-me pelo rosto. Ela também chorava. Levantou-se e abraçou-me. Disse mais uma vez antes de se ir embora: “Ana, eu abandonei-te para poderes ter uma vida melhor, mas nunca deixei de te amar”.

Antes que eu conseguisse fazer algo, ela tinha desaparecido por entre os arbustos.

Uma sensação de vazio apoderava-se de mim, mas de alívio também.

 

Inês Ramos

 

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26.3.18

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Foto: Walking - Public Domain Archiv

 

Andava pelos seus cinquenta e poucos e andar é palavra que lhe assentava. Durante o dia poucas vezes estava sentado. Percorria o pavimento não fazendo sequer círculos. Para a frente e para trás, para a frente e para trás. Gostava de sair da sala e andar pelo exterior, assim, sem rumo. Repetia quase sempre as mesmas palavras, ou as mesmas frases curtas. Levava a mão ao queixo ou ao cabelo, repetindo estereotipias (não podia ser de outra forma) que provavelmente lhe dariam conforto no contacto com o corpo que era seu.

Gostava muito de comer, pelo menos até certa altura em que esse mesmo corpo começou a dar de si. Mas continuava a caminhar. Muitas vezes em sofrimento. Caminhava em casa, caminhava no centro e caminhava para consultas e análises. E caminhou assim durante anos.

Durante anos esteve entregue a uma instituição que o acarinhou, confortou, alimentou, vestiu, etc. As pessoas dessa instituição tornaram-se sua família.

Essas mesmas pessoas perderam-no há duas semanas. Perderam a sua presença, o seu andar. Restou um vazio no chão, no pavimento, na porta por onde ele passava para ir para o exterior. Em vazio caiu também (finalmente) o seu sofrimento. Os dias de lamúrias e gemidos que não conseguiam traduzir onde lhe doía. Doeu a quem o cuidou e teve de tratar do seu funeral. Não se sabe se doeu à família, que, afinal, sempre tinha. Enfim. Pelo menos no abandono, nunca esteve abandonado.

 

Rui Duarte

 

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23.3.18

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Foto: Girl - Free-Photos

 

“Nos dias cinzentos da rua, é mais fácil ficar cinzento cá dentro” - pensava eu, abandonada na minha tristeza, enquanto olhava pela janela à espera de te ver chegar, embora soubesse que não chegarias.

Por mais dias que passem, vou sempre esperar que chegues, cansado, depois de um dia de trabalho. Por mais luas e sóis que se sigam, uma parte do tempo parou no dia em que os dias deixaram de contar para ti. A outra parte, a que continua a correr, é ditada pelas estrelas que pões a brilhar para nós aí de cima, de onde nos vês e acompanhas. E pelas centelhas de luz, que na terra brilham por ti: os nossos filhos.

 

Sempre soube que me amavas. Mas foi só depois de partires, que percebi a força poderosa do Amor. Foi depois de ficar sozinha, que entendi que o Amor salva e que Deus não nos abandona. Foi só depois de não estares aqui fisicamente, que vi que afinal a morte não é o fim e a vida é apenas uma parte do caminho.

Mas mesmo assim... queria muito que o teu caminho tivesse sido mais longo. Merecia-lo! Queria que Deus não tivesse precisado de ti no Seu jardim. – E na horta? Tens trabalhado muito? Imagino-te sempre aí, com os teus biscates, sobretudo quando preciso de usar a chave de fendas, ou a enxada.

 

Tem chovido tanto, que me ri a pensar que devias ir ajudar o São Pedro a arranjar as canalizações. Ou foste tu que rompeste os canos de propósito, por saberes que estava tudo seco cá em baixo?

 

Todos temos aprendido esta nova forma de viver – sem ti. E todos os dias, mesmo não estando aqui fisicamente, fazes parte dos nossos dias. Umas vezes fazes parte de sorrisos. Outras, fazes parte de teimosias. Uns dias fazes parte de derrotas. Outros, das nossas conquistas.

Há muitas manhãs em que me apetece abandonar-me à dor e às lágrimas. E é o teu exemplo, de força e coragem, que me faz sair da cama. Mas ainda não consigo deixar lá a tristeza, ponho-a no bolso e levo-a comigo para viver o dia.

Quando há sol, sinto que a luz me ajuda a sorrir. Lembro-me de quando éramos jovens namorados, a passear de mãos dadas e a fazer promessas de amor eterno – que eterna e amorosamente cumprirei.

Depois, nos dias de chuva na rua, é mais fácil chover nos meus olhos.

Mas tal como a chuva faz brotar a vida na terra, assim as lágrimas serão fecundas em mim. Exatamente como o teu Amor.

 

HTR

 

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19.3.18

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Foto: Sunflowers - Rudy and Peter Skitterians

 

- Eu podia ter-te feito tão feliz... mas tu abandonaste-me.

- Nunca te abandonei. Como poderia? – os sonhos são feitos de matéria intáctil, inconsistente, incrível. Sustentável apenas pela sua própria leveza e transparência – como se pode abandonar o que nunca sequer conseguiu iludir-nos à desilusão? O que nunca sequer tocou o horizonte da nossa capacidade de ver?

- Mas tu viste-me, tu conseguiste ver-me, nitidamente, apesar da minha forma de ilusão. Apesar da minha débil natureza onírica...

- Consegui, confesso. E de que me valeu isso? Apenas fazer-me ganhar o tempo de um arco-íris... Ou de um sorriso. Ou de um beijo... Ou de um suspiro fundo...

Em contrapartida, fizeste-me perder bocadinhos preciosos do tempo que eu precisava para os projetos. Projetos viáveis, concretos, para os quais eu tinha capacidade e me foram dadas ferramentas. Coisas que eu tinha que fazer, para sobreviver.

- Não posso acreditar que, ainda por cima, me cobras os pequenos-grandes instantes que te fiz perder... Reconhece: a maior parte desses projetos de que falas com tanta ou tão pouca convicção, apenas fizeram de ti o que és hoje: infeliz...

- Tens razão. Ou talvez não. Digamos que fizeram de mim uma pessoa bem-sucedida, segundo os moldes da sociedade em que vivo. Construí família, criei os meus filhos em segurança, singrei na vida desafogadamente, direi até, com bastante sucesso...

- ...material. E que fizeste ao teu compromisso com a felicidade? Que fizeste com a esperança de me realizar? De te realizares...?

- Ah, para de me lembrar a paixão antiga que tive por ti. Quer dizer, a certeza de que poderia levar por diante essa paixão. Isso são águas passadas! Como eu já te disse, eu nunca te abandonei – apenas, para sobreviver, te releguei para o fundo mais fundo do meu coração – lá, onde hão de morrer todos os meus sonhos, afinal...

- Ainda bem que me guardaste no teu coração... Obrigadinha... Olha se fosse no fígado, num joelho... pior!!! – na cabeça: detestaria conviver lá com os teus preciosos e inadiáveis projetos.

- Não sejas irónico... Já te disse que a vida não se faz de sonhos?

- Já. E eu emendo-te: a vida não se faz só de sonhos. Mas negar o teu sonho, a tua paixão mais funda... (não te esqueças, foste tu que disseste que me exilaste no lugar mais fundo do teu coração...) Ah, negar o teu sonho de vida inteira é negar-te a ti próprio!

- ...

- Que foi? Emudeceste, agora?

- Posso confessar-te uma coisa?

- Claro, sou o teu sonho, que melhor confessor arranjarias?

- Não brinques, estou a falar a sério.

- Está bem, diz. Sabes que podes ter confiança em mim (assim essa confiança fosse recíproca...)

- Que disseste?

- Nada, nada. Diz lá o que querias dizer.

- É tarde. O sol já desce e tenho medo...

- ...

- Não dizes nada?

- Digo. Digo que te amo e que, para mim, serás sempre a criança ingénua e crente que me colheu numa manhã de girassóis e fez de mim a sua grande paixão. Digo que acredito em ti, no teu poder de me reabilitar e fazer do meu nome a tua melhor Obra. O Teu Sonho realizado. Não é tarde, é apenas o nosso tempo. Salva-te, salvando-me do limbo dos sonhos incumpridos.

E não tenhas medo. Eu estou no comando, agora... e a vida que te resta é, verdadeiramente, a Vida Inteira.

 

Teresa Teixeira

 

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16.3.18

Alone - Mike.jpg

Foto: Alone - Mike

 

Hoje decidi partir. Podia ter avisado com algum tempo de antecedência mas não nos supus à mercê de maleitas sazonais. Enquanto oscilámos entre a primavera e o verão a coisa foi correndo, o outono e o inverno são impossíveis de aguentar ao teu lado: quem tu és nos dias negros nem o diabo quer para companhia. Transfiguras-te, insidiosamente, trazendo os piores sacanas do mundo na algibeira. Demorei a perceber que os conhecias de longa data e que te construías, enquanto pessoa, sob o seu patrocínio. Acreditei piamente seres apenas uma alma perdida e mal-amada mas cheia de vontade de ser tudo aquilo que dizia (querer) ser. Acreditei nas tuas palavras, nos teus silêncios, na tua presença, na tua ausência, nas tuas intenções e gestos “genuínos”. E, até depois de já não acreditar, escolhi ficar. Fui incapaz, apesar dos sinais cada vez mais evidentes, de ver o pior em ti, de te imaginar capaz de tudo aquilo que hoje sei. Em boa verdade, jamais acreditaria em tal se o mesmo me fosse narrado por terceiros. Tinha de ser assim: ver para crer, preto no branco, uma chapada dada pela língua de uma baleia azul. É indescritível o que se sente quando tudo aquilo que se pensava ser verdade não o é. Quando nos percebemos atores num enredo do qual nunca escolhemos fazer parte. Na verdade, por opção, nunca estaria aqui. Esta história contada ao pormenor seria igual a muitas outras, sobretudo depois de a teres tornado vulgar, decadente e pequena. Estabeleceste as regras do jogo mas eu escolho dar-lhe um final. Hoje. Sim, hoje mesmo. Não consigo respirar, não sinto nada mais do que desespero neste momento em que a vida, tal como a conheci nos últimos anos, ruiu perante os meus olhos. É desolador saber que tudo o que disseste e fizeste foi estudado, que faz parte do teu jogo doentio e que vais mentir até ao último minuto comigo. Claramente, não lamentas nada no teu discurso contraditório, apenas teres sido desmascarado. Não há em ti um pingo de honestidade, e nem isso consegues fingir, mesmo que penses que sim… Por isso, hoje, decidi partir. Não sei de quanto tempo vou precisar para curar o que ainda sinto mas jamais o farei permanecendo contigo. Preciso de sair deste pesadelo para poder pensar com clareza, longe da angústia que me consome. A tua máscara caiu por terra, por mais que te esforces em mantê-la. Já só quero que te cales e me deixes ir embora. Não peças desculpas vãs, não justifiques o indesculpável. Deixa-me regressar a casa, respirar amor e reconstruir-me na dor que me trouxeste, longe do asco que agora me causas. Tenho mil perguntas mas não vou fazer nenhuma: não quero ouvir mais nenhuma mentira, não quero lágrimas de crocodilo e acessos de raiva. Cala-te, suplico. Só quero ir-me embora, não há mais nada a dizer. Já não aguento ver-te aí, de pé, na cena teatral que ensaias há anos, consumido pelo ego e pela maldade, incapaz de perceber que já não há mais nada em ti que eu deseje, mesmo que ainda te ame. Atrai-te o abismo, nadas no sofrimento como um peixinho mas não pertenço aqui, nunca pertenci. Por favor, cala-te. Não precisas de entender. Não quero explicar nem mais uma linha. Quero ir para casa. Quero chorar em paz. Quero respirar fora do lodo em que te agitas e resgatar todos os meus sonhos. Deixa-me partir, simplesmente. Não contribuo, nem mais um dia, para esta farsa.

Respiraste sobre mim, pela última vez, há minutos. Com um ar dramático e choroso, balbuciaste: “com que facilidade me arrancaste da tua vida”. Olhos nos olhos, respondi-te: “com que facilidade nunca me fizeste parte da tua.” Amorfa e em choque, aceitei aquele beijo tenebroso que encerrou uma história de vários anos, como se de uma brisa se tratasse. Deixei-te encenar e protagonizar a cena final, insípida e doentia, sem paz, sem verdade, sem respeito. Fiquei aliviada quando me soltaste e pude, finalmente, virar-te as costas, sem vontade de olhar para trás. Já não me podes magoar mais, mesmo que eu ainda não saiba quando vais deixar de doer em mim.

 

Sentada no avião, lavada em lágrimas, abracei-me por ter sabido resgatar-me a uma meia vida contigo, num limbo demasiado perigoso que tu trilhas de olhos fechados. No regresso a casa, caminho trémula, não consigo respirar; ainda me sinto perdida porque mergulhei inteira em nós e andei à deriva, sem o saber, mas em momento algum me abandonarei. Amei-te como mereço ser amada, as tuas sacanices a ti pertencem. No final de um dia que começou tão mal, respiro de alívio, apesar da catástrofe que tenho ainda de digerir. A esta distância percebo que muita coisa terrível aconteceu, é um facto, mas que podia ser muito pior: eu podia ser tu. Como diria a minha avó: “Fosga-se”!

 

Alexandra Vaz

 

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