25.1.13

  

Sonhei toda a vida com quimeras. Tenho-as sonhado com muito empenho. Acreditado bastante. Apostado ainda mais. No entanto, nada do que me foi dado ficou. Nada do que vivi me pareceu certo, a não ser pela metade: metade deste, metade com aquele, metade de alegria, metade de metade da metade. Concluo que tudo aquilo que desejei não existe na vida real; tem apenas a importância que sempre lhe dei e que me leva a sentir-me insatisfeita a dada altura da viagem. Um pormenor, um gesto, uma mentira pestanejada com languidez, um momento qualquer em que tudo muda. Faço as malas e vou-me embora; não me acomodo mas demoro uma eternidade até dar o grito do Ipiranga. Sofro como o caraças, faço um luto lento e esmiuçado e almejo, de novo, a quimera: o amor, o tal, aquele de que toda a gente fala. Aquela coisa maravilhosa que faz a alma planar em torno do sol, sem se queimar, e que torna o chão mais seguro debaixo dos pés, sobretudo nos dias em que tudo o resto desaba. Voar nas asas da quimera impede-me de ser feliz com qualquer outra coisa, com qualquer vírgula da existência que ouse encostar o casaco num ponto sem escrita da minha história. A quimera torna o resto insosso e insuficiente. Intragável. Ato insano o meu! Se não existe, porque a procuro? Serei tolinha, masoquista, dona quixote da parvalheira? Tanto mastiguei esta minha alucinação que deixei de a procurar, deixei de pensar nela. Passei a adormecer sem chorar e a acordar sem saudade. Cá dentro, o vazio deu lugar a uma paz que me transcendeu. De repente, podia ouvir uma música lamechas sem sentir um aperto no coração. Guardei a quimera na gaveta dos biquínis, para me lembrar dela apenas sazonalmente, e saí prá rua com o coração mais leve do que se este fosse feito de papel da mais fina gramagem.

Mas a quimera não gostou de ser esquecida. No meio da multidão, fez-se ver. Fez-se sentir. Aquele par de olhos verdes trazia a mesma paz que senti quando deixei de sofrer. Não sei como duas almas se redescobrem no mundo a sério mas deve ser algo muito parecido com isto. Com inteligência e subtileza, para não assustar, foi estreitando mais o abraço; foi dando forma ao amor sem lhe chamar amor. Aquela coisa magnífica era, nada mais, nada menos, do que a materialização dos sonhos mais belos, a simbiose que permite vibrar na mesma sintonia. Num passe de magia, encheu a mente de cores vibrantes e envolventes e o coração de uma plenitude que trouxe o mais doce dos amores, na mais absoluta paz de espírito. E, quando finalmente abraçou a alma e a fez sentir-se em casa, todo o chão tremeu. O encaixe que não precisa de palavras assusta, afinal, mais do que todas as desavenças do mundo. Como diz a canção: “Procuramos os sonhos no céu mas o que diabo fazemos com eles quando se concretizam?”. Ninguém me ensinou a viver a plenitude. E agora, faço o quê com tudo isto?

 

Alexandra Vaz

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