25.2.11

 

Uma vez tive um amigo. Chamava-se Vítor. Tínhamos ambos doze anos, quase treze. Éramos colegas de turma. Vítor era franzino, corpo imberbe, mas tinha um olhar sério de rapaz mais crescido. Fazia-me lembrar um filho de um alfaiate, porque usava sempre calças de vinco. Apesar de pequeno, ficava sempre nos lugares de trás nas salas de aula, quase sempre silencioso. Dizia-se apaixonado por mim e seguia-me para todo o lado, como uma sombra. Nunca percebi aquela paixão, para mim estranha, e senti-me incomodada. Um dia disse-lhe para me deixar em paz. Ficou silencioso e conteve a custo as lágrimas que teimavam em cair. Senti-me uma pequena bruxa insensível. Percebi a sinceridade e pureza do seu sentimento. Pedi-lhe desculpa e disse-lhe que queria ser sua amiga. Ficamos inseparáveis desde então.
Ficávamos juntos todos os intervalos e conversávamos sobre tudo. Às vezes ficávamos apenas em silêncio a observar os outros a deambularem pelo recreio da escola.
Vítor sabia sempre quando eu estava triste. Vinha de mansinho, pegar na minha mão e dizia-me: - Não fiques triste. Eu estou aqui contigo.
Os meus dias eram mais felizes porque o sabia perto de mim. Não havia nada que eu não partilhasse com ele. Ouviu pacientemente todos os meus relatos enfadonhos sobre o meu quotidiano e acreditou como possíveis todos os meus sonhos. Nunca pediu nada em troca. Ofereceu-me a sua amizade e eu tomei-a como garantida.
 
Numa tarde de Dezembro, em que aproveitávamos uma nesga de sol de Inverno, perguntou-me sem aviso: - Se eu morresse, sentias a minha falta?
- Mas que pergunta a tua?! Claro que sim. Ele sorriu, satisfeito com a resposta.
Na segunda-feira seguinte, cheguei à escola e não vi o meu amigo à minha espera, à entrada da sala, como sempre estava. Entrámos. Era a aula de Português. O Professor esperou sério, com as mãos nos bolsos, que todos nos sentássemos e disse em voz trémula. - Meus amigos. Tenho uma notícia triste para vos dar. O vosso colega Vítor faleceu sábado passado, num acidente.
E depois… o silêncio…
Olhámos todos para o lugar vazio de Vítor, querendo inteirar-nos da absurda realidade, constatando a sua ausência. Senti que o meu coração parou e que a garganta se fechou, não deixando passar o ar e sufocando o lamento. Fiquei paralisada e as palavras do professor ecoavam ainda no meu cérebro à procura de lógica.
Parte de mim, ficou para sempre suspensa nesse momento de entorpecimento.
Uma vez tive um amigo. Chamava-se Vítor.
 
Teresa Moura
(Articulista convidada)
 
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22.2.11

 

Ela tinha um irmão de quem não gostava. Tinha uma amiga que adorava. A amiga tinha uma cadelinha que era como sua irmã. Mais tarde, uma amiga disse-lhe que ela era a sua família, porque a sua família não lhe era nada, não sabia quem ela era, ao contrário da amiga.
Há laços que não se explicam como a amizade. Há ligações mais fortes que o próprio sangue.
Quando alguém nos é tão próximo, alguém em que podemos confiar, em que nos podemos apoiar, em que podemos ser nós, esse alguém é um amigo, não temporário. Esse, temporário, talvez seja um colega especial, mas, amigo é sim, alguém que permanece.
As amizades são relações. E toda a relação deve ser alimentada, senão não sobrevive. A amizade não foge à regra. Porque também esta está constantemente à mercê da mudança. Mudança das idades, dos contextos, da nossa visão da vida. Tudo isso se manifesta também numa relação de amizade. Por vezes, há choques. Nada é como foi. Nada. Mas, felizmente o que permanece, evolui.
Amigo, é alguém que dá sem esperar nada em troca. Pode ser amigo uma vez com outro. Mas eu falo de amizades verdadeiras que perduram. Essas não se fazem num momento, constroem-se. Podem, claro, surgir de um momento. Mas precisam de continuidade, histórias, contextos e partilhas, para serem continuadamente.
Os amigos são fundamentais à vida. À minha vida. Por vezes, são um bálsamo. Outras vezes funcionam como espelho de reflexão. Mas, sobretudo, brotam alegria em nós. A não ser quando partilhamos uma tristeza. Nessa altura, são como uma capa para a chuva que aquece.
Contar histórias de amizade não tem fim. Inúmeras as histórias que mostram a amizade verdadeira. Mas sentir amizade, é algo que não se conta. É difícil descrever. De explicar.
Por isso, amigo foi quando o tirou da rua. O cuidou. O alimentou. O abraçou. E respondeu-lhe o outro, cuidado e alimentado, em termos de lealdade. Ficou. Permaneceu. Até ao fim, viesse o que viesse. Ficou, o amigo.
 
Cecília Pinto
 
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18.2.11

 

Para se falar de Amizade com justiça, devemos recuar até aos tempos idos das nossas infâncias. Quem eram, na altura, os nossos amigos? Eram aqueles com quem partilhávamos as brincadeiras, que faziam parte dos nossos jogos imaginários do faz-de-conta e que nos ensinavam, todos os dias, a partilhar, a negociar, a rir e a chorar. Sim, porque os amigos também se zangam, gladiam-se, magoam-se e fazem-nos sofrer. Mas eram essas mesmas pessoas, os amigos, que sabiam lamber as nossas feridas com carinho e dizer sem qualquer orgulho ferido “És meu amigo e eu gosto muito de ti. Vamos brincar?”.
Quando somos mais crescidos, os amigos são aquelas pessoas com quem partilhamos e “condividimos” ideias, valores, ideais ou objectivos. São aquelas pessoas especiais a quem, lentamente, vamos baixando as nossas defesas deixando-as conquistar o nosso forte (in)seguro e religiosamente guardado. E vamos descobrindo que são essas pessoas que possuem um dom particular: o de nos chamar à razão, colocando a nú a cruel realidade dos nossos defeitos e debilidades, ao mesmo tempo que nos afagam o cabelo num gesto terno e nos segredam em confidência “Conheço as tuas falhas, mas sou teu amigo. Vamos conversar?”.
 
Os amigos são a família que o nosso coração vai criando ao longo do percurso que desenhamos na nossa vida. Por vezes a distância, as armadilhas do tempo, os insolúveis mal-entendidos ou tão-somente os caprichos da vida, afastam alguns amigos dos nossos rumos, mas o seu lugar único e distinto no nosso coração mantém-se intocável e eterno. Cada um deles deixa a sua marca e a impressão digital da sua Amizade. À minha família do coração, um sentido Obrigada. Obrigada por fazerem parte da minha vida e da pessoa que sou hoje…
 
Liliana Jesus
 
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15.2.11

 

A reclusão desempenha um papel basilar no sistema judicial português, ao isolar os indivíduos que constituam risco para a sociedade. Desta forma, os indivíduos afectos aos estabelecimentos prisionais cumprem pena por ordem judicial e pelos tipos de crimes mais gravosos.
Além deste aspecto punitivo, a reclusão agrega uma série de acções referentes ao tratamento penitenciário. Nesse sentido, durante o processo de reclusão é facultado ao recluso um conjunto de ferramentas que lhe permita modificar o seu comportamento, manter a sua saúde física e mental e providenciar as ferramentas para que, no futuro, se integre social e produtivamente na comunidade de origem, diminuindo, desta forma, a probabilidade de reincidência. Os programas de combate à propagação de doenças infecciosas e toxicodependência, de intervenção com delitos estradais, de prevenção da reincidência e da recaída, de intervenção com agressores sexuais, o acesso ao trabalho, ao desporto, à educação, entre outros, fazem parte desta estratégia.
Contudo, este aspecto ressocializador da execução da pena, valorizado particularmente pelas administrações prisionais, contrariamente ao desejo punitivo da opinião pública, acaba por ser um pouco utópico perante a presente realidade carcerária. Deveras, não existe capacidade do sistema para ressocializar todos os reclusos. Depois, nem todos os reclusos aderem a este processo ressocializador, uma vez que a sua adesão carece de sua anuência. Por fim, é impossível punir quando o recluso já tem direito a luxos como TV, DVD e Consola de Jogos na própria cela.
À parte deste aspecto particular do tratamento penitenciário, a vida em reclusão é muito diferente do observado extra-muros. E aqui é importante ter em conta a subcultura prisional, que se relaciona intimamente com o ambiente prisional de cada estabelecimento prisional. O ambiente prisional é fruto da normatividade prisional, das suas privações e das características sociodemográficas e criminais dos indivíduos reclusos. Em Portugal, maioritariamente indivíduos jovens, com crimes e práticas de abuso ou dependência de substâncias, com nível diminuto de instrução e formação profissional, provindos de grupos socioeconómicos desfavorecidos.
A necessidade de adaptação deste estrato populacional às privações do ambiente prisional, deu lugar ao surgimento de uma cultura com valores, normas, crenças, atitudes e comportamentos específicos da reclusão - a subcultura prisional.
Existem essencialmente duas abordagens teóricas para se conceptualizar a adaptação à subcultura prisional, a perspectiva da privação e a perspectiva da importação. Segundo a perspectiva da privação, o processo de encarceramento é sinónimo de privação da liberdade, privação de bens e serviços, privação de relacionamentos heterossexuais, privação de autonomia e privação da segurança. A privação destes direitos e necessidades humanas elementares é responsável pelo mal-estar físico, psicológico, emocional e social do recluso, que, para sobreviver, para se adaptar, vê-se obrigado a adoptar um código de conduta informal peculiar da comunidade carcerária. O recluso aprende a ser camarada, não ser delator, não mostrar fraqueza e a demonstrar hostilidade para com o staff. Em sentido oposto, de acordo com o modelo da importação, a adaptação à vida em reclusão será moldada pelas experiências de socialização pré-prisão. Assim, o recluso em vez de adoptar o código de conduta informal peculiar das instituições prisionais, adopta sim, os mesmos valores, atitudes, crenças, normas sociais, regras e comportamentos disruptivos internalizados enquanto vivia em liberdade e, como tal, importa esses comportamentos e atitudes para a prisão. Desta forma, aspectos relacionados com a pobreza, exclusão social e saúde em geral irão influenciar demograficamente a população prisional e serão os reclusos provindos de grupos socialmente excluídos que apresentam maior risco de saúde mental e física inerentes ao contexto de origem.
Contemporaneamente, é possível encontrarmos uma ampla gama de normas, crenças, valores, atitudes e comportamentos de acordo com o tipo de prisão e de população prisional. Sem nos esquecermos que actualmente as prisões recebem diariamente indivíduos com perturbação mental, que deveriam estar internados em instituições psiquiátricas, nunca nas prisões, criaram-se as condições ideais para as elevadas taxas de vitimização a reclusos e guardas, suicídios e de introdução, distribuição e consumo de substâncias verificadas em reclusão.
Este triângulo amoroso molda e moldará o sofrimento e desespero em contexto prisional. Desmotiva e continuará a desmotivar os funcionários prisionais, particularmente, perante a abismal incapacidade ressocializadora da reclusão.
 
Nuno Alexandre Costa Moreira
(Articulista convidado)
Unidade de Desenvolvimento Social do Instituto da Segurança Social
 
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11.2.11

 

J. J. Russeau (1712-1778) refere "O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto eles."
 
Reclusão poderá ser privação de liberdade. Que liberdade? A do movimento físico? Ou poderá ser o espartilho, o condicionamento de todas as escolhas que fazemos forçados? Poderá dizer respeito a toda a frustração inerente a cada decisão que fazemos? Seremos nós reclusos?
Dentro ou fora da instituição, qualquer que ela seja, podemos sentir-nos, vermo-nos como um ser sem liberdade ou um ser completamente livre e feliz.
Teremos evoluído? O que mudou? Ontem enclausuravam-se os “loucos” em instituições de reclusão, hoje faz-se exactamente o mesmo. Retira-se a capacidade de escolha ao homem em minutos e institucionaliza-se o “louco”.
Por quanto tempo? Depende do tipo de resposta que o desviante dá à sociedade e depende de quanto tempo isso demora. E quando o afastamento dura tanto que parece já não haver outra realidade? E depois? Será que o inadaptado quer regressar ao outro lado? O que o espera lá fora? Ali é a sua casa, o seu mundo. Lá fora não tem nada…. E voltam a dizer-lhe o que fazer, o que comer e comprar, como comportar-se e viver a sua vida e, inclusive, o que pensar… Enfim, não muito diferente do hospital psiquiátrico ou de um qualquer estabelecimento prisional.
Ouvimos desabafos sobre o tormento de viver o quotidiano, numa sociedade cada vez mais egoísta e individualista. Assistimos a uma intransponível incomunicabilidade do ser humano que se fecha em si. 
Liberdade ou reclusão pode ser um sentimento puramente interior, um estado de espírito. Perdido, terrivelmente só, preso em nós mesmos, nos nossos próprios pensamentos, ou refém de uma multidão, de uma cultura, ou de valores morais. Ou livre, magistralmente livre, num qualquer espaço de cinco metros quadrados?
A reclusão é muitas vezes uma indescritível solidão. Às vezes é uma necessidade premente de fugir desse insistente ruído. Pode ser sinónimo de paz, reunião e união interiores. E quando este movimento, este caminhar, é realizado numa só direcção? Podemos assistir à alienação total do ser ou da realidade circundante. Por outro lado, estes estados temporários podem traduzir-se por um fluir de reflexões, por um eterno retorno, por um entrar e sair, por um pasmar na linha do horizonte alternado por um olhar atento ao ser.
Quero silêncio, quero afastar-me, ouvir os meus pensamentos… longe deles e daquilo. E, às vezes, imensas vezes, vezes sem conta, quero ser escutado, sentido e amado, estar no meio e com todos e quero rir, rir muito com eles.
 
Álvaro de Campos, in "Poemas", em “Esta Velha Angústia”, escreve: 
(…) Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim... (…)
 
Ana Teixeira
 
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8.2.11

 

 

Há três semanas que aqui estou. Três longas e eternas semanas. Como era possível o tempo passar tão depressa lá fora, parecia que eu andava sempre a correr atrás do que me faltava ainda fazer, passava tudo tão rápido. Queixava-me tanto… queixava-me porque tinha de andar de transportes públicos, porque não tinha dinheiro para férias, porque a minha vida era uma rotina entediante, porque nada de especial me acontecia, porque nunca tinha tempo para nada, porque tinha demasiadas responsabilidades que me impediam de fazer o que me apetecesse.
 
E agora o tempo parou. De um momento para o outro, a minha vida parou. A rotina quotidiana que me parecia tão aborrecida mas tão certa deixou de acontecer abruptamente. Esta vida enfadonha que me fazia sentir encurralado no meio das minhas obrigações deixou de existir. Subitamente fiquei sem chão. Bastou receber um telefonema. A partir daí um atropelamento de diagnósticos e más notícias levaram-me ao ponto onde estou agora, este interminável ponto. Há três semanas que tudo ficou em suspenso, há vinte e três dias que estou enfiado nesta cama. Para além das dores e das náuseas a minha vida deixou de acontecer. Nas poucos momentos em que consigo ver televisão fico em primeiro surpreendido como parece estar tudo normal lá fora. Como é que eles fazem para continuar a rir, a actuar e a cantar? Este sentimento dura apenas uma fracção de segundo, rapidamente tomo consciência da minha realidade. É claro que está tudo normal, o mundo não acabou só porque a minha vida se desmoronou. A vida continua lá fora, sem mim.
 
O quanto eu dava para poder sair à rua, apanhar sol, caminhar normalmente, correr atrás deste bendito metro. Fi-lo tantas sem lhe dar a devida importância. Era livre sem saber. Só sabia queixar-me, desejar aquilo que não tinha. O quanto eu dava para me levantar e sair por aquela porta fora, correr até onde o fôlego me deixasse. Mal tenho forças para me aguentar sentado. Recebo todo o apoio dos meus, visitas, telefonemas mas sinto-me tão longe deles, tão isolado. Apesar das muitas manifestações de carinho, ninguém pode aliviar este sentimento de opressão, ninguém me consegue libertar. Depois de estarem comigo, todos saem por aquela porta e eu fico aqui, preso, por quanto tempo ainda? A dois metros de distância, aquela porta abre-se e fecha-se tantas vezes durante o dia, mas nunca é para mim.
 
Estefânia Sousa
 
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4.2.11

 

Manuel chegara a casa não havia uma hora. Fora ao hospital saber notícias do seu filho João. Tinha sido avisado pela direcção do estabelecimento prisional: um recluso chegou fogo à sua cela – incendiou o colchão, talvez numa tentativa de suicídio. Alguns reclusos tiveram de ir ao hospital. Escoriações sem gravidade, algumas queimaduras. O João estava bem, dali a pouco teria alta e voltaria ao estabelecimento prisional.
Mais uma prova para o Manuel, para o seu coração de pai. Nunca imaginou ver o seu filho condenado, preso. Sabe que o João é bom rapaz, mas teve um momento de fraqueza. Há momentos assim, de fraqueza, que estragam a vida a um homem. Uma pessoa tem muitas coisas dentro de si e a fraqueza é uma delas. Qualquer um de nós pode um dia, ter um desses momentos de fraqueza, e ver-se por isso fechado entre quatro paredes, a cumprir uma pena. Mas se isso acontecer, não deixamos de ser pessoas, não passamos a ser diferentes, a ser menos, por causa disso.
Manuel sofre pelo João, cumpre pena com ele, mas em liberdade. Continua a reconhecê-lo como filho, continua a amá-lo. E sabe que um dia a pena do João terminará, que ele recuperará a liberdade e que a vida continuará, que nas prisões, todos os dias, continuarão a entrar e a sair pessoas como o João, como o Manuel, como todos nós.
Manuel sentou-se e procurou colocar a sua atenção noutras coisas, criar alguma distância, descentrar-se um pouco daquele acontecimento que lhe marcou o final da tarde. Começou a ler as notícias na Internet. Lá estava a notícia do incêndio. Leu os comentários que algumas pessoas, anonimamente, foram colocando:
 
“Pena não fazerem serviço comunitário e contribuírem para a despesa que dão ao Estado. E se chegassem à noite cansados de trabalhar, de certo dormiriam em paz. Terapia de trabalho é o que lhes faz falta.”
 
“E que tal uma pena acessória de um mês a dormir no chão de cimento, para ele aprender a valorizar os objectos que colocam à sua disposição, para seu conforto!”
 
“Mais um que come à conta dos contribuintes e ainda não está contente com o hotel. Por mim, para além de levar um enxerto de porrada, ainda ia dormir no cimento até ao final da pena.”
 
“Se fosse eu o guarda prisional poupava dinheiro aos contribuintes portugueses, esquecia-me de passar no corredor por 15 minutinhos e se quando passasse na ala ele ainda estivesse vivo, aproveitava e abafava-o. Era menos um a sair em liberdade.”
 
Manuel ficou com o sangue gelado, pela leitura. Ficou paralisado, em choque pela desumanidade, pelo julgamento ignorante e fácil, pela condenação sumária, pela arrogância daqueles que pensam os outros diferente de si, que se pensam diferentes dos outros, pela estupidez, pela falta de amor e de compaixão. E formulou um desejo, do fundo do seu querer:
- Espero que Deus nunca permita que as pessoas que assim se expressaram, com tamanha frieza, rancor e desumanidade, tenham um momento de fraqueza, que nunca permita que sejam condenadas a uma pena de prisão, para que elas nunca tomem consciência de serem pessoas, para que nunca descubram como são frágeis e fracas, pois nunca conseguiriam sobreviver a tão grande prova.
 
Fernando Couto
 
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1.2.11

 

Com passadas rápidas dirige-se para a porta, vai vestindo o casaco, despede-se gritando:
- Até logo!
Da cozinha, a mulher pede-lhe para aguardar um segundo e aparece com um embrulho numa mão e um saco na outra.
- Obrigada querida, ele vai apreciar.
- É apenas um pequeno gesto sem qualquer valor se comparado com o que ele fez por nós. Dá-lhe um abraço e não te esqueças de dizer que tenho pena de não ir, mas com a Matilde doente… Não posso deixá-la sozinha. Dá-lhe saudades da mãe mas não lhe fales dos resultados médicos, não o preocupes ainda mais.
- Sim querida, mais alguma recomendação?
Não há censura na pergunta. Ele, como ela, está muito reconhecido ao António; por mais que façam será sempre nada.
- Olha, fala-lhe do negócio, das encomendas que temos tido e que esperamos ansiosos o dia em que ele ocupará, de novo, o seu lugar na fábrica.
Maldita fábrica, praguejou ele, entre dentes, enquanto batia com a porta da rua. Por ela o seu irmão viu a vida interrompida, aos 20 anos.
O António é o mais novo dos cinco irmãos mas naquela fatídica noite provou que para ser homem não é preciso ter idade mas atitude.
 
Não era a primeira vez que, noite dentro, vinham do lado da fábrica ruídos estranhos, movimento de camiões. O pai dava o alerta e todos se dirigiam para lá. A chegada tardia apenas constatava mais um roubo. A única maneira de os impedir seria surpreendê-los.
- Malditos! Sempre quero ver a cara desses gatunos quando se depararem com uma comissão de recepção!
Organizaram-se, fizeram turnos, vigiaram noite após noite. Muitas noites. Nada! Os meliantes não apareciam, dir-se-ia avisados. A família ponderava interromper a vigilância.
Foi então que, uma noite, altas horas, ouviram o trabalhar de um camião. Era o sinal que esperavam. A juventude irrequieta do António adianta-se à maturidade do irmão que o acompanha naquele turno. Puxa da arma, encosta-se à coluna junto à porta. O irmão fez-lhe sinal para se acalmar. Não podem cometer erros. Primeiro têm que verificar se é desse camião que estão à espera, se sair da estrada principal e entrar na picada que termina na fábrica, basta acender os holofotes para perceberem que não estão sozinhos. Surpreendidos e assustados fugirão.
O ruído do motor estava cada vez mais próximo, abrandou no entroncamento, virou à direita. Os faróis dirigidos ao portão da fábrica. Parou. As vozes que ouviram indicaram que saíram do camião e se dirigiam para o portão que os separa dos dois irmãos. No interior, António tentou chegar ao interruptor para ligar os holofotes. Estava muito escuro, não via nada, a ligação tardou. O portão abriu-se no mesmo instante em que as luzes se acenderam. Os assaltantes, assustados fugiram. António perseguiu o mais atrasado. Estava quase a alcançá-lo. Agarrou-lhe a camisa. O outro, quando se sentiu preso, virou-se e encostou uma arma à testa de António. O tiro que cortou o silêncio da noite, confundiu-o. Uma arma foi disparada - deveria sangrar em alguma parte do corpo. Mas não, não sentia nada. O corpo que segurava pela camisa escapou-se-lhe, caiu no chão perto de si. De pé e ainda com a arma na mão o seu irmão olhava-os com um misto de terror e alívio. Matou um homem mas o seu jovem irmão está vivo.
Abraçaram-se longamente. Muita coisa passou pela cabeça de António mas a imagem dos seus pequenos sobrinhos a crescerem com o pai ausente, recluso numa prisão, não o abandonava. Como um autómato tirou do bolso o telemóvel, ligou o 112.
- Matei um homem, venham buscar-me.
 
Aconteceu há cinco anos, a pena ainda não terminou mas António não tem medo do futuro - a família ama-o e admira-o, cuida dele. Hoje é dia de visitas, tem a certeza de poder abraçar um dos seus. A sua cunhada fez o bolo de iogurte que lhe será entregue juntamente com o saco da roupa cuidadosamente limpa e arranjada. Terá notícias de todos.
É assim desde aquela noite.
 
Cidália Carvalho
 
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