19.5.14

 

O meu corpo macilento tornou-se tão repugnante que choca os poucos que ainda me visitam. Estou condenada e é assim que me veem. Leio-lhes no rosto o alívio indisfarçável por não estarem no meu lugar e à vista do meu fim sentem-se longe do deles. Afastam-se com medo de serem contaminados e eu fico ainda mais só. A minha família continua no estado de negação. Os seus olhares são tão desesperadamente sofridos que me enchem de compaixão e não consigo pedir-lhes a única coisa que me poderia aliviar, a presença serena e tranquila nos últimos minutos para não morrer sozinha. Mas o sopro da morte é tão difícil de encarar e de aguentar que a ninguém quero pedir para estar comigo até ao fim. Morrer é um processo individual de grande solidão. Uma solidão que dói e que nos faz gritar como Cristo na cruz: Pai, porque me abandonaste?

Preciso de alguém que não me chore ainda, que me dê as mãos e afaste o frio deste corpo macerado, e que deposite em mim uma nesga de vida que engane a morte. Por um segundo que fosse, gostaria de enganá-la e roubar-lhe tempo. E então, de mãos dadas, com a ilusão de a ter vencido, abrir o meu íntimo e confidenciar o que fiz e o que fui. Preciso de fazer novamente o mesmo percurso, rever todos os momentos que foram a minha vida. Como seria bom poder fazê-lo acompanhada! Riria das brincadeiras e partidas que sempre gostei de pregar; voltaria a alegrar-me com os momentos de felicidade; reveria os momentos tristes; falaria dos meus amores e desamores; dos amigos e dos que não quiseram ser meus amigos; das minhas expetativas, frustrações e conquistas; do que fiz ou não fiz e quis fazer; falaria das minhas dúvidas e certezas; choraria pelas perdas que sofri; lamentar-me-ia da minha doença. Tranquilizar-me-ia na certeza de que todos ficariam bem, tristes, naturalmente, mas conformados com esta realidade que é absurda. Não guardo mágoa de ninguém e ninguém me deve explicações ou pedidos de desculpa. A minha vida foi aquilo que eu quis que ela fosse, boa ou má, foi o que escolhi para mim, ninguém deve sentir-se responsável. Programei-a sem ter em conta um limite temporal. O futuro tinha duração a perder de vista e qualquer altura era boa para planear, fazer ou sonhar. Adiei decisões, diferi projetos, esperei que o tempo resolvesse problemas, dei tempo ao tempo porque o tempo me parecia inesgotável.

Não tive em conta a finitude da minha vida. Eu sei, todos sabemos, que a vida tal como a concebemos tem um fim, mas a consciencialização desta condição não existe, ou se existe, esforçamo-nos por arrumá-la de forma a que não nos atormente. Para mim assim foi. Ignorei o fatalismo e adotei a máxima, longe da vista, livre para a vida. Aflige-me hoje quase tanto como as dores que me retêm nesta cama, a ignorância de então. A leviandade com que teorizava justificações para os meus comportamentos, atormentam-me tanto como as chagas que a doença vai cavando no meu corpo. Lamento ter-me esforçado tanto por ignorar a minha morte e, no entanto, ainda agora, se pudesse voltaria a ignorá-la. Afastar-me-ia e passaria assobiando para o lado. Mas este é o meu momento, sou única, ninguém me pode substituir e não sinto orgulho ou grandeza nisso.

Sim, estou com pena de mim! Quero ter pena de mim! Nunca quis ter pena dos outros porque ter pena seria condená-los a um fatalismo irreversível, não lhes reconhecer capacidades para escolher e alterar acontecimentos, mas no meu caso, que alternativas me restam, que poder tenho para alterar os acontecimentos? Que outro sentimento faz mais sentido do que a pena e a solidão?

A família e os amigos vão chorar-me e fazer o luto pela minha perda, mas neste momento em que ainda existo, é o momento para me enlutar de mim mesma.

 

Cidália Carvalho

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 08:00  Comentar

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