31.8.15

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Foto: Woman And Mirror – George Hodan

 

- Sabes o que me mete confusão?

- Não.

- Que haja tantas pessoas sem espelho em casa.

- Como assim? Andam mal vestidas?

- Antes de mais, andam com máscaras.

- Com máscaras?

- Sim. Máscaras de juízes.

- Juízes?

- Sim, juízes.

- Não estou a perceber nada.

- Então não tens consciência do mundo ao teu redor.

- Claro que tenho consciência do mundo ao meu redor. Porque dizes isso?

- Porque dizes que não vês pessoas mascaradas de juízes.

- Talvez esteja a precisar de óculos.

- Talvez elas precisem. Óculos virados para dentro. Nunca sentiste a necessidade do outro criticar cada opção que tomas? Tenta reparar, na próxima vez que seguires por um caminho que não seja o habitual, para a maioria da população. Repararás como será instantânea a crítica, mascarada de alerta.

- Demasiadas máscaras para mim. Sim, claro que há pessoas que criticam. Mas, às vezes criticam por tudo e por nada.

- E porque achas que o fazem?

- Porque pensam que te dizem o que é correto.

- O que é correto para quem? Para ti ou para elas? Para a tua vida ou para a delas?

- Correto para todos.

- E isso existe? Uma decisão única correta para todos? Afinal somos seres únicos ou máquinas da mesma série?

- Ahahah… És engraçado.

- Pois, piada tem esta mania das pessoas se armarem em juízes, detentoras da verdade absoluta. Salvadores do mundo. Digo-te já que, para começar, para mim não têm consciência alguma de si.

- Não se conhecem a si próprias?

- Não têm espelhos em casa, tal como disse.

- Para olharem para elas próprias?

- Não. Para olharem por elas próprias.

- Como assim?

- Preocupam-se tanto em dar opiniões alheias à sua vida, que se esquecem da sua. Porque é mais fácil olhar para o erro do outro do que para o nosso próprio erro. Porque é sempre mais fácil ter soluções rápidas para os outros, do que para nós próprios. Se sabes sempre o que é o mais correto, se sabes julgar, é porque não tens imperfeições. Porque deténs o correto. Logo se o deténs, aplicá-lo-ás, à partida, a ti próprio. Correto?

- Mas ninguém é perfeito.

- Mesmo? Talvez os juízes mascarados o sejam. Já reparaste no modo como lançam as suas críticas? Tão certeiras. São tão conscientes dos erros que é impossível que cometam algum.

- Oh, estás a gozar comigo. Ninguém é perfeito. Talvez essas pessoas tenham medo de olhar no espelho.

- Oh, agora já compreendes o espelho. Sim. Talvez tenham medo de assumir que falham. E que não há mal nenhum nisso. Que as falhas existem para nos tornarem mais sábios, não para nos fazerem perdedores. Porque, quando falhas, ganhas sempre uma lição de vida. Claro, se tiveres consciência da falha, do teu erro e, sobretudo, do que podes aprender com ele. E quase que aposto que, na maioria, todos temos consciência quando cometemos um erro. E que, antes de qualquer crítica alheia, já nós nos julgámos em tribunal e ouvimos a sentença da nossa mente. Mesmo assim não estamos imunes às críticas alheias. Pena é que, na maioria, essas críticas não sejam para nos tornar melhores. Servem apenas para mascarar a dificuldade de alguém em se olhar no espelho.

- E se olhassem no espelho o que veriam?

- Talvez descobrissem que não têm de usar máscaras. Que não têm de irradiar negatividade em redor. Talvez tomassem autoconsciência e começassem a olhar por elas próprias. Porque não basta olhar para mim, para me tornar mais consciente de quem sou. Tenho de olhar por mim, para querer evoluir do ponto onde me encontro. Se não me quiser cuidar, se não quiser ser mais sábio, não terei interesse nenhum em evoluir. Apenas olhar e fazer de conta de que sou o que a máscara aparenta.

- Hummm… Compreendo o que me dizes.

- Como podes conhecer um lugar se não estás disposto a explorá-lo? Verás apenas o superficial e parecer-te-á que sabes tudo sobre ele, porque é o que está à vista. Como podes conhecer-te, se apenas te olhas, tantas vezes de relance? Se evitas focar em ti e nos teus passos, para olhar na direção dos outros?

- Sim, parece-me difícil.

- Então porque é tão difícil esse autoconhecimento, essa autoconsciência? Talvez porque se perguntares ao espelho – espelho meu, espelho meu, há alguém mais consciente do que eu? - a resposta não será a que esperas. Talvez que, se em vez de tanto julgamento houvesse mais compreensão e abertura de espírito, para dentro e para fora, não precisássemos de tanta orientação alheia para o caminho mais correto a seguir na nossa evolução. Bastava usar a nossa bússola interna.

 

Cecília Pinto

 

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28.8.15

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Foto: The Man Face In The Hands – George Hodan

 

Consciente ou inconscientemente, cada um de nós carrega em si mesmo uma multiplicidade de “eus”, seja por força das circunstâncias, das experiências, das pessoas, ou de nós mesmos. Diferentes pessoas arrancam diferentes eus de nós mesmos: há aqueles que conseguem tirar de nós a mais amável das pessoas e outros que despertam o espírito mais malévolo que habita dentro de nós. Tão depressa podemos estar a dançar e cantar, soltando a veia artística que corre em nós, como, em questão de minutos, podemos estar retrospetivos e circunscritos dentro do nosso próprio mundo, qual caranguejo dentro da carapaça. Somos moldes de nós mesmos.

Todos os dias, cada ser humano se adapta a novas situações, circunstâncias, desafios… Mudamos de papel na mesma medida que a nossa vida muda de cenário, rumo ou direção. Se olharmos para dentro de nós, descobriremos uma incalculável e inesperada variedade de “eus”. Talvez por isso admiremos tanto Fernando Pessoa, não só pelas suas obras literárias, mas especialmente pela descrição deslumbrante dos seus múltiplos “eus”.

Ao longo da vida, ao longo de um dia, de uma hora, às vezes em questão de segundos, assumimos múltiplas facetas, personalidades, papéis, ainda que nem sempre tenhamos consciência de tal. A nossa (in)consciência acaba por criar e determinar o papel da personagem que seremos a seguir, provavelmente diferente do que fomos ontem, do que somos agora mesmo, neste instante.

Sendo e vivendo nesta multiplicidade, ainda que não em plena consciência, vamos sendo isto, mas também o seu contrário, seres antagónicos, a voz de inúmeras contradições, olhares paradoxos…

A multiplicidade é a expansão de nós mesmos, uma forma de nos conhecermos melhor, descobrindo em igual medida os nossos limites. É a incessante descoberta de “eus” que nunca acabam e que vão acontecendo na vida.

 

Sandra Sousa

 

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26.8.15

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Foto: Man On The River – Peter Griffin

 

A vidinha vai correndo, as coisas vão acontecendo, lá vamos dando umas braçadas ou, simplesmente, vamos vogando mais ou menos ao sabor da corrente, tanto quanto possível longe das margens, onde há sempre mais redemoinhos, perturbações, para que a rapidez, ou a fluidez, e a facilidade no percurso sejam maiores, imperem, haja o menor número de obstáculos possível.

No entanto nem tudo está sob controlo e muitas vezes somos apanhados pelo imprevisto, na curva, ou por aquilo que tentamos evitar há que tempos e que acabou por deixar de ser possível.

Estamos perante um redemoinho e, queiramos ou não, é a hora, temos que abrandar, parar, dar uma volta sobre nós próprios. É agora e é inadiável... vamos ter que meter a mão na consciência. O debate connosco próprios urge e, interiormente, com mais ou menos profundidade, vamos pôr-nos em causa. Estamos a fazer o que devemos, como e quando devemos? Claro que não estamos sós, claro que sofremos e beneficiamos da influência daquilo que está à nossa volta, é impossível esbracejar constantemente contra a corrente; mas é claro, também, e isso vem à tona a qualquer momento, que não podemos empurrar tudo para a responsabilidade da corrente, das circunstâncias. Não posso empurrar, esconder, a minha individualidade para o imponderável.

Quanto mais frequentemente metermos a mão na consciência e agirmos em consequência, mais leves poderemos tornar-nos, sentir, e aquilo que poderia aparentar ser demasiado pesado, mais difícil de fazer, acaba por facilitar que permaneçamos à tona, mão no leme, e que façamos o nosso caminho, livre, entre as margens.

 

Jorge Saraiva

 

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24.8.15

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Foto: Relaxation In Nature – George Hodan

 

Às vezes sonho… acordada…

Não é bem um sonho porque não tem um princípio, um meio e um fim. É mais… uma realidade paralela…

Pode não se ver, não ser palpável, mas existe. Está ali, eu sinto-a. E preciso dela. Porque lá eu vivo intensamente! Porque lá eu posso ser eu, mas um eu alternativo. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. Ou até o oposto de mim, mas eu.

E quando mergulho nesta dimensão que só eu conheço, choro, rio, concretizo, repouso… escondo-me dos monstros que teimam em assombrar a outra realidade (a verdadeira).

E no “regresso” sinto-me mais forte, quase feliz! Assim, torna-se mais fácil, tolerável, aceitável.

Se sou louca? Não. Tenho plena consciência daquilo que estou a fazer. Simplesmente decidi viver assim: uma vida dupla, mas em que nunca vou correr o risco de ser descoberta, como aqueles homens que têm duas mulheres e um dia são apanhados por causa de um telefonema ou de um bilhete no bolso do casaco.

E é apenas uma questão de controlar a dosagem: para uma dor ligeira, 10 minutos de realidade paralela; para dores intensas ou crónicas, doses ilimitadas 3 vezes ao dia.

E resulta mesmo! O apogeu do tratamento placebo, à distância de um pensamento. Sem efeitos secundários.

 

Sandrapep

 

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21.8.15

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Foto: Overwhelmed Employee – Petr Kratochvil

 

Hoje levei um abanão… Às vezes acontece-me isso. Vezes demais até!

Todos os dias acordo para dar o melhor de mim em tudo o que faço, sempre.

Alguns dias são bastante bons e tudo o que me acontece só me traz energia para mais e melhor.

Outros dias, como o de hoje, lembram-me que outros conseguem mais com menor esforço aparente do que eu.

Esta consciência da realidade, de que nem tudo é um mar de rosas como eu gostaria que fosse bastando para isso esforçar-me, deixa-me cansada, muito cansada.

Deixa-me com vontade de parar tudo e viver apenas sem consciência do mundo à minha volta.

Enche-me de vontade de apagar as histórias que me rodeiam apenas para me centrar na minha própria história.

Ao menos se fosse possível que as histórias dos outros não me afetassem…

Tenho consciência de que o que dou de mim é bom, mas isso não chega.

Tenho consciência de que se me rodear das pessoas certas, tudo corre melhor. Mas onde é que elas estão? Como sabemos se são ou não as certas?

Mais do que ter consciência, porque isso já tenho demais, deveria ter também a capacidade de saber lidar com a informação que essa consciência me dá de forma incessante.

Ah! Também tenho consciência de que estou cansada. O que fazer com isso?

Parar?

Não posso porque… Tenho consciência de que se parar passam-me à frente. Ou será que não?

Se calhar o que tenho é receio e não consciência…

Não, na verdade, estou mesmo apenas cansada…

 

Sónia Abrantes

 

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19.8.15

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Foto: Happy Wedding Day – Geoff Doggett

 

- Vejo-te ansiosa, olhar o relógio à espera do encontro que não vai acontecer. Não me escapam as vezes sem conta que olhas o telemóvel, na esperança de veres brilhar um número no pequeno écran. Uma chamada, uma mensagem, qualquer coisa que te tranquilize. Esperas, desesperas e continuas a aguardar que aconteça, não sabes bem o quê, mas que aconteça. Queres sair desse estado de ignorada e não sabes como fazê-lo. Vejo-te triste. Explodes de ódio quando percebes que embarcaste sozinha numa viagem que termina no sítio e no momento em que começou. Início e fim são dois momentos colados de tão vazios que estão de acontecimentos. Não há dimensão onde há vazio. Tudo não passou de um delírio teu. Não, não me venhas culpar. Os meus avisos de nada valeram. E, se em algum momento me ouviste, inventaste explicações para me aplacar mas que só serviram para te encorajar a viver paixões inventadas, sem culpa ou contrição. Sabias que esse não era o caminho mas iludias-te, enganavas-te. Em questões de coração tens mentido sempre – não agora em que a dor e as lágrimas são sinceras - só és verdadeira quando a paixão te abandona. Faz um favor a ti mesma, não te enganes! Sê honesta e vais ver que te poupas a muita dor.

- Quem quer que tu sejas, o que te leva a pensar que podes dar-me conselhos?

- Sou a tua consciência. Enfrenta-me! Não tenhas medo, de nada serve evitares-me, estarei sempre contigo ainda que tu me ignores e não queiras ouvir-me.

- Eu só conheço a felicidade quando estou apaixonada, tu és diferente, basta-te a razão. Deves estar muito feliz porque transbordas de razão. O teu dedo apontado e as tuas unhas afiadas sangram-me o coração. Onde estavas quando era preciso temperar esta paixão com a razão?

- Já te disse, eu nunca te abandono, tu é que nem sempre queres ouvir-me. A minha voz incomoda-te.

- Despeitada, é como te sentes quando não vejo nem ouço nada para além da minha paixão. Sim, não aceitas que a paixão me domine, gostavas de ser tu a fazê-lo, obediência cega, ponderada, assertiva nas palavras e nos atos, tudo calculado e analisado à luz da razão. Mas eu não sou assim. De novo hei de deixar-me levar pelo desejo, entregar-me e exigir entrega. E sabes, alegra-me ver-te assim, medrosa por saberes que as minhas paixões são fortes e me animam, e que tu não consegues destruí-las; por isso cala-te!

- A paixão rouba-te lucidez, ela é o teu maior inimigo. Apaixonada, és patética. Mas se a paixão te cega e não te deixa ver com clareza, se não encontras em ti razões que te impeçam de te lançares em aventuras malucas, pensa ao menos na exposição pública que te ridiculariza. A família não te compreenderá, os amigos rir-se-ão nas tuas costas, os conhecidos não atribuirão seriedade e a sociedade ignorar-te-á. Achas ainda que devo calar-me?!

- Tu és forte. Transformas, dás vida, matas princípios e moralidades, vigias e ordenas comportamentos, mas, bem podes continuar a ditar-me as tuas regras que nada vai ser diferente. Quando ele chegar vou ignorar-te, vou fazer o que a minha vontade mandar sem medo do que possa acontecer, por isso, cala-te! Deixa-me ser feliz! E, quando ele sorrir para mim e me abraçar, desse cantinho seguro de onde nunca mais sairei, hei de rir-me de ti, das tuas cautelas e da tua moralidade. Por isso cala-te!

 

Cidália Carvalho

 

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17.8.15

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Foto: Woman In The Shadow – Gorge Hodan

 

Quando temos consciência daquilo que se passa à nossa volta e de grande parte do que se passa “dentro” de nós, estamos acordados, em estado de vigília; o estado do lado de luz da nossa vida. Neste estado vivemos continuamente experiências, atribuídas pela perceção, que nos permitem dizer que estamos conscientes. O córtex cerebral encontra-se ativado. Este é o conceito de consciência integrado na avaliação do estado mental das pessoas.

Prestar atenção e perceber aquilo que nos rodeia obedece à presença de algumas funções de forma sequencial: 1º - é necessário que estejamos em estado de vigília; 2º - é necessário que se preste a atenção necessária ao fenómeno e este processo é muito complexo; 3º - é necessário haver compreensão do fenómeno e este processo também é muito complexo. Estes acontecimentos neurofisiológicos funcionam em todas as pessoas de forma similar, mas a verdade é que aquilo que nos rodeia, apesar do estado de vigília, nem sempre é alvo da mesma atenção e compreensão.

A consciencialização torna-se fundamental para existir mudança. Esta está relacionada com o reconhecimento de uma experiência ou de um fenómeno, que se suporta no conhecimento e na perceção dos mesmos. A ausência de consciência do fenómeno poderá significar que a pessoa não inicia a consciencialização e, portanto, não é empurrado para a mudança, ou para a ação.

Apesar de estarmos em estado de vigília, no lado de luz da vida e, deste modo, estarmos conscientes, a consciencialização nem sempre acontece... a consciencialização social; a consciencialização moral; a consciencialização política… mas, cada vez mais, a consciência(lização) dos fenómenos e das experiências é necessária! Às vezes é mais cómodo “andar” no lado de sombra da vida… talvez seja o “sistema imunitário” que pede!

 

Ermelinda Macedo

 

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14.8.15

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Foto: It’s Just Love – William Morris

 

Ela sabe bem o que é a marginalização: é sermos empurrados para as franjas da sociedade porque, de algum modo somos diferentes da maioria. O normal e o anormal perdem-se ao sabor dos números; os muitos são normais, os poucos são estranhos e, portanto perigosos. A marginalização, infelizmente, vem do medo irracional, da falta de respeito e sobretudo, do receio de ser “contagiado”. E depois, se formos? É o fim do Universo? Ou só um Novo Mundo a despontar?

Ela já foi posta de lado por ser mulher, por ser branca num mundo onde essa cor escasseia, por ser bonita (só pode ser burra?), por não querer um emprego tradicional, por ter optado por não ter filhos, por gastar tudo o que ganhou em viagens, por escrever textos que ninguém publica, por pintar quadros que não vendem; e, agora, horror dos horrores, porque partilha a sua vida com outra mulher. E também, por se assumir como é.

Atualmente, a marginalização está pior do que nunca: existe como sempre existiu, está forte e viva e bem de saúde, enriquecida por ataques muçulmanos, imigrantes ilegais a fugir da morte, e assassinatos, mais ou menos impossíveis de perceber, por todo o mundo. É o alibi perfeito para a desconfiança e a agressividade, e os ignorantes agradecem.

Está apenas mais dissimulado nos países ditos desenvolvidos, onde atualmente fica mal falar mal das minorias, mas já não fica mal continuar a retratá-las e a tratá-las como lixo. Posso garantir que as vítimas sabem e sentem na pele essa falta de respeito, essa vontade de aniquilar ou de rebaixar à norma. Eu aliás sei bem que é isso o que se pretende.

Mas há algo de novo e muito belo a surgir no Horizonte: a malta que ama as margens, que só respira bem nas orlas, que em vez de querer estacionar no meio de um rio que desagua em parte alguma, prefere deambular a seu gosto, ao sabor dos seus amores dos seus impulsos, das convicções da sua alma, fiel ao seu ser e à sua essência.

É aí, nessas esquinas escusas longe dos pressupostos, nesses espaços abertos das pessoas que se amam e amam o mundo, mesmo imperfeito, que surge e cresce a genialidade e a criatividade. Beethoven não era “normal”. Nem a Susan Sontag. Nem o Pollock, por amor de Deus. E Mozart… podemos todos rir em conjunto. E Jesus, se aí quiserem ir ter.

Um brinde aos marginalizados, portanto, porque deles vai ser… é… qualquer Reino que jeito tenha.

Eu, cá por mim, tenho muito orgulho e muito Amor por todos os que seguem o seu caminho nas margens verdes dos rios da sua imaginação e da sua força de espírito. Porque sem eles, nada evoluimos.

Eu só quero e só posso ser assim. E Deus, ou Ganesh, ou seja quem for, me guie para que nunca desista de ser Eu.

 

Laura Palmer

 

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12.8.15

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Foto: Mulher Congelamento – Petr Kratochvil

 

Che cos'è?

C'è nell'aria qualcosa di freddo

Che inverno non è.

 

Sentou-se paulatinamente e, com o corpo, fez a cadeira deslizar um pouco até ficar colada à mesa. Pousou nela os braços, inspirou fundo, rodou um pouco a cabeça para a direita e olhou através da vidraça da janela desejando que aquele olhar a escondesse, a levasse para bem longe dos olhos mas sobretudo das mentes daqueles cinco outros marginalizados, irmanados mas com nada em comum, juntos naquele parque de estacionamento para gente enjeitada. Lá em baixo, na verdadeira zona de estacionamento, um pequeno carro azul estacionava rápido e uma carrinha branca indolente saía, sem que o condutor atentasse em quem circulava. Do outro lado, no passeio, uma menina saltava, dançava, frente a um menino, ainda mais pequeno do que ela, talvez seu irmão, preso pela mão, talvez da avó. Levantou os olhos lentamente, pelas motos estacionadas no passeio, pelas árvores de troncos fortes e folhagem maciça, pelos telhados de alguns prédios, até ao céu, de um setembro ainda quente, espesso, húmido e pegajoso para quem dele não pudesse fugir e encontrar conforto, talvez ali, sob o ar condicionado do sexto piso daquela colmeia onde nunca quis nem gostou de trabalhar, já perdeu a conta de há quantos anos.

Foi há quase vinte e sete anos que começou a trabalhar naquela empresa, de local para local. Durante muitos anos lá esteve feliz, em muitas lutas, umas grandes outras pequenas, umas importantes outras da treta, numas sozinha noutras acompanhada, numas vezes a passar o tempo que a separa da morte, noutras a ganhar vida a fazer coisas diferentes, a inovar, a antecipar, sempre com correção, tendo nisso conquistado o respeito e a admiração dos colegas que não foram completamente tomados pela inveja, pela competição, pela indiferença. Sabe muito bem, para si própria, o valor do seu trabalho, a qualidade dos seus contributos. Recordou as palavras de um colega, dois dias antes: “Se fizeram assim contigo, então poderão fazê-lo com qualquer um de nós. Ninguém está a salvo!”. Hoje tem dificuldade em avaliar aquelas palavras. Ao ouvi-las sentiu-as elogiosas, devolveram-lhe coisas boas, mostram-lhe um bom resultado, uma camaradagem que sempre quis construir. Mas hoje a sua alma está muito amarga.

Sente-a quase sempre amarga desde que o director, naquela manhã no início de maio, a informou com eficácia e celeridade de que fora sacrificada, porque alguns teriam de o ser e ela estava a jeito, assim posta sem saber por um chefe pequenino e cavernoso que durante anos acumulara inveja e negatividade. Estava dispensada pela direção, mas a empresa encontraria um lugar adequado para ela. Triste forma de o diretor a ela se dirigir pela primeira vez ao fim de anos em que a ignorou por completo, escudado na distância ao seu gabinete na capital da empresa e do reino. Questões não havia e por isso a despedida foi tão rápida como o cumprimento e a função – ao todo, nem cinco minutos. Sempre foi muito objetiva, pragmática, e sabia como estas coisas são feitas e como são resolvidas, por isso percebeu que tinha sido colocada à margem porque sim, e porque alguém, incompetente e mesquinho, a lixara. Era necessário levantar a cabeça e seguir em frente, sobre os escombros, mas com o cuidado de não calcar ninguém.

Na verdade, a amargura maior não vinha da questão central, de ter sido descartada porque sim. O sabor mais amargo tinha outra origem. Desde aquela manhã de maio que a maioria dos colegas passaram a ignorá-la, a não lhe concederem sequer um indiferente bom-dia. Agora completamente marginalizada, como se o mal de que foi vítima pudesse salpicá-los. Compreendia o mecanismo do medo, de a ignorarem, de a querem esquecer, na crença insana de que ela tinha defeito mas eles não, e que se não olharem para o lado, se não atenderem à realidade circundante, nada os afetará. Ser colocada à margem, assim, provoca um frio imenso. Era esse frio amargo que ela sentia, da alma para todo o corpo. O calor que observava pela janela pertencia a uma outra realidade, com outros protagonistas.

Foi então que decidiu que o seu lugar seria lá fora, no calor de outras lutas.

 

Fernando Couto

 

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10.8.15

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Foto: Friends – Lisa Runnels

 

Fazer caixinha é assim uma espécie de bullying, mas entre adultos. É quando duas ou mais pessoas se juntam em grupinho, isolando uma única pessoa, que fica fora da “caixa” por razão nenhuma que não seja a maldade gratuita.

É um comportamento repleto de crueldade que muitas vezes vemos nas crianças, só que sem ponta de ingenuidade ou da inconsequência que (até) tentamos compreender, e algumas vezes desculpar, nos miúdos. Nos adultos é indesculpável.

É um comportamento quase premeditado, ou em alguns casos menos maldosos, “só” leviano e absurdo. Não é ingénuo porque é consciente e, pior de tudo, consequente.

E deixa marcas. E magoa. E faz sofrer.

É o “não brinco mais contigo” dos grandes. É o “não fales mais com ela/ele” dos adultos.

Quase sempre é protagonizado por um “cabecilha” (que pode usar calças ou saia), e a que nos mais novos chamamos “o líder”, aquele que manda na ganapada e que, ou vai ou delega, o bater ou roubar a sanduíche ao cristo que - lá está - se encontra fora da caixa.

Nunca fui vítima de bullying, em criança. Aliás, nessa idade idiota, onde tantas vezes podia ter subido ao pódio para receber o prémio “miúda-parva-mais-parva-não-há”, talvez tivesse um perfil mais inclinado para “agressora” que para vítima. [Felizmente, ao chegar ao 1º ciclo, apanhei logo umas miúdas mais velhas (ou mais vividas, ou menos parvas), que rapidamente me colocaram no meu lugar].

Anyway, não guardo memória de nenhum episódio marcante com esse nome estrangeiro e feioso, antes boas memórias de quem me ajudou a crescer e a “ter menos a mania”.

Já em adulta, embora pouco marcantes, lembro-me perfeitamente de pelo menos dois momentos em que vivi, e tive que conviver, fora da caixa. Foi meio triste, ainda que as “agressoras” fossem, na sua maioria, tão desinteressantes e vazias de conteúdo que, no fundo, eu tinha a consciência de que não perdia nada. E elas, sim, perdiam muito.

Estes episódios, assim como muitos outros a que tenho assistido ao longo dos anos mas com outras pessoas, fazem de mim, hoje e para sempre, uma caixa-aberta. Como observadora que sou, de quando em vez lá me vou apercebendo, em todas as vertentes da vida, que volta e meia e meia volta, lá aparece alguém com vontade de “minar” relações, afastar pessoas, isolar um(a) qualquer, com quem por um motivo fútil não lhe apraz conviver. Fútil, idiota e maldoso, é quase sempre o (não)motivo.

Assim que o meu radar os deteta, abro a minha caixa e tento alargá-la a todos. O mais possível. De preferência, agarrando os elementos já “minados” ou infetados pelo vírus da crueldade e da estupidez, que é ser mau só por ser.

Por isso, digo sempre aos meus amigos: em momento nenhum contém comigo para “fazer caixinha”.

Porque eu sou uma pick-up, uma “caixa-aberta” e nunca, por nunca, compactuarei com o “não brinques mais com ela/ele”, só porque sim.

 

Joana Pouzada

 

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7.8.15

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Foto: Meninas Africano – Maisner Mark

 

Ousado a refletir em torno do termo marginalização, remete-me forçosamente a uma tentativa de enquadramento do mesmo e perceção da sua morfologia. Fora possíveis equívocos, lamento aceitar que este fenómeno de natureza social é consequência, dentre outros fatores, da pobreza.

A dimensão social e cultural da marginalização remete o indivíduo a viver alienado do resto da sociedade, vedado do acesso a saúde, alimentação, morada e educação, situação esta resultante da insuficiência orçamental para cobrir os custos de acesso a estas oportunidades e em alguns cenários mais graves que se configuram em privilégio.

Segundo relatório da UNICEF, A Pobreza na Infância em Moçambique, a pobreza na infância considera a pobreza específica vivida por seres humanos em qualquer sociedade durante a sua infância. As crianças são mais prejudicadas pela pobreza do que os adultos, na medida em que nestas, para além dos efeitos imediatos, tem efeitos tardios recalcados para a vida adulta.

As ações de luta ou combate à pobreza exigem esforços multifacetados envolvendo diferentes atores, desde o Governo, as próprias crianças, as famílias e as comunidades, as organizações da sociedade civil, o Parlamento e os Parceiros Internacionais de Desenvolvimento.

Um aspeto peculiar demográfico no contexto do desenvolvimento é a densidade populacional que no caso de Moçambique é bastante baixa, tornando difícil a prestação eficiente de serviços básicos e programas de apoio em áreas rurais, realçando muitas das disparidades urbano-rurais. Outra caraterística colateral da pobreza em sociedades subdesenvolvidas é a desigualidade social, onde, com frequência, os pobres vivem ao lado dos não-pobres.

Muitas famílias vivem o drama da pobreza dia-a-dia, onde crianças andam à deriva atrás da sua sorte já que as suas necessidades não são amparadas dentro de suas famílias.

Estas aprendem, muito cedo, a seguir um percurso sinuoso que não depreende onde irá desaguar, movidos pela impetuosa tenacidade descritiva dessas criaturas inocentes. O medo e a agitação enferma preocupa alguns encarregados quando notam a ausência dos seus educandos, ou passa despercebido e ainda por normalidade, quando estes não se dão ao tempo de acompanhar a progressão dos seus petizes.

Os seus sonhos nascem de forma genuina e espontânea na rua, onde passam a maior parte do tempo, observando o meio que os rodeia, podendo até serem considerados torpes quando forem alinhados com as perspetivas e planos das suas famílias de origem.

Devido à exposição ao mundo, desde muito cedo, resulta um elevado contacto com a natureza e a realidade crua da vida, tornando-os voluntários precoces da escola da vida, esta que destapa completamente a face algo fantasiada da vida contada pela voz de alguns progenitores. Embora a versão da vida contada pelos próprios pais seja uma boa indução à vida futura, conteúdos mais realísticos e aliados à própria experiência da existência dos progenitores seja o maior testemunho que se pode transmitir.

Preocupações com o ambiente, com as artes e cultura e com a filosofia, encerram um percurso de resgate do humanismo, conseguido através da contínua evocação ao renascimento como condição para a descoberta e autosuperação, faculdades mentais que centralizam o homem rumo a sua independência, a auto-descoberta uma fonte de vida plena, uma via alternativa à almejada prosperidade espiritual e mental.

 

António Sendi

 

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5.8.15

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Foto: Ouvir Música – Petr Kratochvil

 

Estar fora do grupo foi sempre uma condição para a definição de quem está dentro. Há os que reúnem condições para estar dentro e há os que não, tal como há os que aceitam pertencer e há os que não. No entanto, entre o estar fora voluntariamente (como por exemplo não querer pertencer ao rancho folclórico de Zebreiros) e o estar fora por imposição da vontade do grupo, do sistema ou das circunstâncias (como por exemplo, não ter emprego), jaz uma diferença abissal. A primeira não nos belisca de todo; a segunda fere-nos de morte lenta. Mas uma terceira circunstância mata-nos de todo: quando não queremos pertencer a determinado grupo mas, por força de pertença a outro, obrigamo-nos a fingir que pertencemos ao primeiro. É o caso de todos aqueles para quem o peso da marginalização exercido por um determinado grupo é maior do que a assunção pública de pertença a outro grupo. Até há pouco tempo (e ainda nos dias que correm) havia muita orientação sexual escondida; uma boa parte de nós faz por parecer ter mais dinheiro do que aquele que verdadeiramente tem, quer na roupa que usa, quer nos lugares de lazer que frequenta, quer nos comportamentos sociais que adota, quer mesmo nos empréstimos suicidas que contrai; por vezes mesmo a música de que gostamos é alvo de crítica, seja porque não passa nas rádios (que são formatadoras de gostos), seja porque confere ao ouvinte um estatuto de rebeldia ou o conota com alguma seita satânica, seja até porque, de tão medonha escolha musical, o ouvinte passe por extraterrestre e assuste as crianças e as gentes de bem.

A definição da identidade pessoal é, em boa medida, a definição do, ou dos grupos de pertença, ou seja, somos os grupos de que fazemos parte ou, pelo menos, daqueles a que queremos aceder (ou com os quais nos identificamos). E quando nos é vedado o acesso, nem que temporariamente, ou, como vimos, quando nos obrigamos a ficar de fora, somos também o reflexo dessa exclusão, com todas as marcas que ela deixa na nossa autoestima, crenças e valores.

O que une as pessoas e as agrupa não passa de um motivo para justificar aquilo que para o Homem é uma necessidade básica – o gregarismo –, como se de tanta evolução resultasse na noção de que as necessidades básicas carecem de razão. Assim, a exclusão de um grupo tem efeitos diretos nesse gregarismo, seja de forma neutra, leve, moderada ou severa, consoante a valorização que a pessoa atribua à necessidade de pertencer a esse grupo. Por vezes pode sentir-se feliz, por vezes marginalizada. Por vezes pode marginalizar-se, quando percebe que o grupo não lhe confere o sustento material ou emocional de que necessita. E aí pode não só não pertencer como agir contra o grupo.

A marginalização tem implicações pessoais muito pesadas: na adolescência as implicações são trágicas, moldando para toda a vida (ou, pelo menos, por um longo período da vida adulta), o comportamento alimentar, os padrões exagerados de beleza ou a seleção daquilo que verdadeiramente importa, por exemplo. Na idade adulta, a tragédia não é menor, refletindo-se na autoestima e na força com que se olha para a vida social.

Marginalizar é, no fundo, um ato de defesa e de identificação: como se o bicho Homem necessitasse de exemplos vivos para se aperceber de que não tem esta ou aquela caraterística que lhe conferem exclusão: enquanto não as tiver, ou seja, enquanto não for como aquela pessoa que, à luz do seu grupo de pertença, as tem, pode dormir descansado, com a garantia de que amanhã acordará do lado de dentro da tranquilidade e segurança que os grupos lhe conferem.

 

Joel Cunha

 

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3.8.15

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Foto: Hands Holding Jigsaw – Petr Kratochvil

 

Primeiro surgiu o nome – margem. O que não estava no centro, mas na periferia; a borda, o terreno que ladeia um rio; um limite, uma fronteira.

Depois fez-se o adjetivo – marginal. Tudo o que não está no centro, mas na margem é marginal. Quando se aplica à estrada que acompanha a margem do rio é positivo e bonito, porque pode ir-se passear para a marginal. Quando se aplica a pessoas é algo muito pejorativo, porque a pessoa torna-se criminosa e excluída e, portanto, ninguém quer ser qualificado por este adjetivo.

A seguir fez-se o verbo – marginalizar. Aqui o pejorativo é de quem pratica a ação. Quem põe à margem, quem exclui, quem tira do centro. Não me parece que este verbo faça algum sentido. Não se deveria atribuir esta ação a alguém. Nem nenhum sujeito deveria querer praticá-la!

Pôr-se à margem pode ser uma escolha. Pôr à margem também, mas não uma escolha acertada, diria.

Tem antes que se chegar às margens e chamá-las ao centro. Trazê-las para a nossa beira, incluir, integrar, ajudar. Todos estes verbos são tão melhores!

Nesse sentido penso que se deveria criar outro verbo – desmarginalizar. Tem todo um sentido positivo e traz energia de mudança. Esta ação, sim, deveria ser atribuída a, e praticada por todos os sujeitos! Este verbo, sim, é que deveria derivar do nome. Sem margem para dúvidas!

 

Patrícia Leitão

 

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