29.2.16

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Foto: Mulher Falando ao Telefone – Petr Kratochvil

 

Nos tempos modernos, conhecer pessoas como tu pode ter efeitos nefastos sobre a saúde, de uma forma generalizada: quantas mais pululam no nosso universo, mais afetados ficamos – e eu conheço umas quantas, por sinal. Os padrões da disfuncionalidade confundem-se com os sinais da modernidade, de uma forma tão natural que uma criatura que não seja capaz de manter uma união em permanente estado de delírio cibernético, sente-se incompetente no departamento dos relacionamentos atuais. À volta, todos parecem viver assim, imersos nas imensas solicitações, notificações, aplicações, apressados, ansiosos, ligados por wi-fi a uma espécie de vida que nos nivela a todos por baixo. Enveredamos por relações tão destrutivas quanto delirantes, no abraço da tecnologia e do imediatismo, cegos à verdadeira natureza dos que nos abraçam. Eu, na aprendizagem contínua da minha vida, fiz uma licenciatura inteirinha contigo.

 

Durante vários anos, amar-te levou-me numa odisseia olímpica de que nunca te deste conta. Implicou trabalhar dias inteiros, noites inteiras até virar o dia no calendário e no relógio, organizar a vida, a família, as mil tarefas e estar para ti, nas tuas demandas, no tempo que te era útil. Que bom, amor, claro, vamos partilhar uma chamada, vamos ouvir a voz, matar a saudade. Percebes que estou cansada, que fofo, mas tens tantas saudades minhas. Pedes que tire uma foto, queres ver-me, não sabes como vives sem mim. Ok, respiro fundo. Queres seduzir-me mas entretanto tenho de ligar o candeeiro, segurar o telefone fixo, procurar o telemóvel para a foto. Credo, estou de fugir. Tenho mesmo de começar a dormir como deve ser (mantra sussurrado nos últimos cinco anos). Boa, adoraste. Volto a deitar-me. Apago a luz. Quero concentrar-me em ti, na tua voz, naquele momento que, infelizmente, tem de ser partilhado virtualmente – implicações de um relacionamento a milhares de quilómetros de distância. Estou tão cansada, amor. Gostaste muito, queres mais. Nunca é demais. Nunca chega, dizes, amas-me tanto. Ok, aí vamos de novo. Oh não, a bateria está nas últimas. Vá lá, só mais quinze fotos. Já tenho menos de cinco horas para dormir, um trabalho para corrigir, uma máquina de roupa para estender, contas para pagar, um banho para tomar e uma sopa, era bom, uma sopinha, ainda não jantei. Mas sim, claro, estou superexcitada e adoro esta cena toda das fotos, das gravações, do virtual, dos gritinhos e tudo e tudo, a altas horas da madrugada. Sim, também te amo muito. Ah, já está? Não tinha percebido que tínhamos começado, distraem-me muito estas manobras. Em centenas de momentos destes contigo descobri que tinha, não duas, mas três, quatro, cinco mãos… no auge do cansaço, cheguei a balbuciar “Deus me acuda” (na realidade, se o aperto for mesmo grande e Deus não estiver disponível, qualquer outra entidade que me possa valer, será sempre bem acolhida). No meio de tanta acrobacia, cheguei a temer pela minha vida. Devia ter percebido que tanta ginástica virtual te levava ao profundo desespero, quando a dois. Apenas a dois, sabes, concentrado na coisa a sério? Com essas duas mãos que esqueceste ter, tal é o rodopio de tudo em ti. Lamento ser eu a dizer-te mas a versão poética de “curvas de enjoar”, não se parece nadinha com isso. Devia ter entendido, em tempo real, que quem vive de sinopses e réplicas, não chega a fazer bem coisa nenhuma, ainda que me diga religiosa e diariamente que me ama. Nunca está. Aqui e agora. Está em fluxo permanente, em águas pantanosas, sem perceber que não vai a lado nenhum. Sempre, daqui para ali. Mas, sem sair daqui, se é que me faço entender. E, o teu aqui e agora, é mais uma cópia de qualquer outra coisa, algo estranho, sem denominação adequada, algures entre o “quero ser qualquer outra personagem mais linda e mais poética” e o “cala esse bicho que me preenche a agenda e me esvazia a alma”. Pois, amor, claro que entendo. Deve ser muito difícil, claro. Andas perdido e queres que te entenda. Sobretudo porque me amas muito. Não: porque sempre me amaste, sublinhas. Querias tudo ao mesmo tempo, sem ondas e sem dramas, claro. Não querias magoar ninguém, é óbvio, que disparate. Era suposto ter ficado tudo no faz-de-conta que tu comandas. Amas-me tanto. Falas em honra e em respeito. Claro. Não é tão lógico? Pois, não te entendo assim tão bem, não peças demasiado. Mesmo com todo o realismo das tuas lágrimas, continuas a vender-te barato. Pouco me interessa o que fazes agora, como fazes, com quem fazes, ou se um mundo inteiro te valida. Disso ainda me lembro o suficiente para te dizer que não há nada, absolutamente nada, que eu pudesse desejar novamente. Não tens puto de ideia do que é viver sem representar e tens duplos para as cenas mais simples. Pois digo-te que não há nada mais belo que quatro mãos que se enaltecem. Não, não são as tuas quatro mãos (ou todas as que consegues manipular na tua “cena perfeita”, no teu medíocre horizonte de amante). Se soubesses quantas vezes, no decorrer daquelas performances virtuais, me apeteceu virar para o lado, chorar e dormir. E não, não foi pela clara demonstração acrobática mas pela falta de autenticidade em ti. Podes abrir a boca de espanto, podes arrepiar a sobrancelha até quase acreditares no que dizes. Podes encenar tudo à distância, com a prática de quem domina todos os truques, para a coisa parecer bonita. É quando fazes, é quando És, que a coisa se torna verdadeiramente dramática.

Para mim, quero a banda sonora, a pele, a alma. Quero aquele momento ali, por inteiro, sem telemóveis, sem apps marados ou qualquer outro meio de registo que não sensorial. Não quero um polvo, multi device system, que se ache um garanhão por conseguir gerir seis aparelhos em simultâneo mas que me deixa à deriva na maior parte dos mergulhos reais. Quero um ser humano, infinito na sua existência, único em cada instante. Não quero a snapshot entre frases bonitas e ousadas, enquanto encontro a luz perfeita, o ângulo perfeito, o teclado mais intuitivo, tudo isto, claro, sem perder o erotismo e a vontade; não dá, não aguento. Não há líbido que resista a tanto efeito especial quando depois, no aqui e agora da pele e dos sentidos, comme il faut, tantas, tantas vezes a leoa vai dormir com fome. Mas a leoa é fofa, é estupidamente leal. Ama o seu leão, voilà. Gostava dele mais tribal, mais genuíno, tem de admitir, mas percebe que, neste mundo de superficialidade, talvez isso seja um pouco démodé. Aceita o seu leão, coxo e inseguro, porque o ama e acredita que ele a ama também. Engole a insatisfação e a tristeza e caminha ao seu lado, como se ele fosse o arquétipo da perfeição. Não precisa que ele seja o rei da selva a tempo inteiro, só nos intervalos, isso. Com delicadeza. Com lealdade. Já era bom. Mas nada de genuíno pode vir de um ser sem alma. Afinal o leão, toldado pelas cataratas da mediocridade, não reconhece uma rainha. É quando a lucidez se instala que a leoa percebe que um leão que não sabe amar, e se veste de mentira, não serve para coisa nenhuma. A integridade acolhe muitas fragilidades. A falta dela torna-as insuportáveis.

 

Queres ser o Houdini da ciberesfera e do fast-food. Gostas disso. Boa. Faz lá isso tudo. Mas não precisas de mentir a todo o momento. Ou queres viver toda a vida com esse imbecil que vês no espelho, o único com quem, garantidamente, passarás todos os teus dias? És um péssimo amante, homem-polvo. Falta-te luz, falta-te alma no desempenho, falta-te a honestidade que faz dos machos verdadeiros Homens. E não, não me refiro à tua performance física. Não tenho qualquer intenção de te denegrir na tua “masculinidade”. Nos dias de hoje, não precisas de te preocupar com isso: é tudo tão fugaz que já ninguém exige grandes requisitos em desempenhos de curta duração. Mas para seres um bom amante, precisas da profundidade que nunca tiveste. Refiro-me à tua incapacidade de sentir, realmente, Amor. De seres Amor. De fazeres Amor. De deixares Amor na tua saída. Não imaginas como estou grata por essa tragicomédia já não ser a minha história. É preciso ser muito cego para viver tão insatisfeito ou ser igual a ti para suportar tal falta de graça: não me encaixo, atualmente, em nenhuma das categorias.

Não sou, nem nunca fui, um aperitivo para o teu ego. Não estou disposta a alimentar o ego de ninguém, na realidade. Sou uma alma para alguém que seja realmente uma alma. Conhecer-te validou tudo o que não quero, nesta Era ou noutra qualquer: viver na superficialidade. E, pouco me importa que isso seja trendy. Não precisava de te deixar duas vezes para despir o manto dessa mentira. Não precisava de ter vivido tantas vezes na resignação do meu ser quando, claramente, nunca estiveste à minha altura. Esqueci-me, completamente, que sempre senti vontade de ser inteira com alguém, também inteiro, no momento presente. Que quero as mãos e os sentidos ocupados apenas com o que está ali comigo, de corpo e alma. Que não procuro ninguém que me complete mas que me acrescente. E não, não me refiro a aparelhos eletrónicos. Refiro-me a alguém com uma identidade apenas, que saiba que a grandiosidade vem das coisas vividas devagar, na totalidade do ser. Ah, tontinho, tinha sido tudo muito mais simples se me dissesses que procuravas um mundo de Tinderellas e speed-datings. Tinhas-me poupado o mergulho profundo nas águas frias e rasas em que te agitas. Pessoas como tu não se apaixonam, fazem reféns. Deixei-me encolher para caber inteira num mundo a que não pertenço e, no fim desta novela, percebo que nunca me conheceste. Agora, longe de ti, constato que o que me incomoda não são os sinais da modernidade: é a falta de caráter. É viver pela metade. É partilhar o palco da existência, numa morte lenta e diária, com aspirantes a atores sem alma, que torna a vida um engate barato e sem sentido. Já percebi que a miséria funciona como um íman mas eu não me sinto miserável, por isso, não gravites à minha volta. Para ti, a partir deste abençoado dia, estou em permanente offline.

 

Alexandra Vaz

 

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26.2.16

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Foto: Bernese Mountain Dog – Karen Arnold

 

Gosto de animais, acima de tudo. São puros, ingênuos. No olhar de um cão, vejo a maior prova da existência de Deus. Por isso, deixei de comer carne, não julgo quem come, acho que é uma escolha individual mas, quando perdi minha cadela, uma dobermann linda e meiga que me lembrava um bezerro, deixou de apetecer.

Gosto de ficar na cama mais um pouco e deitar tarde, gosto da noite. Ainda que seja bom acordar com um dia de sol brilhante, as luzes das estrelas, para mim, iluminam mais.

Os filmes fazem parte da minha vida, seja pela profissão ou gosto. Aprendo muito com eles, já ri muito e chorei bastante também. Muitas vezes encontro nos filmes as respostas que procuro. Quando já deixei de procurar, elas aparecem. Gosto muito de ver um filme na última sessão quando tudo já está tranquilo e, às vezes na madrugada, um torpor: fica difícil distinguir o cinema do sonho.

Não sonho em ficar milionária, mas era bom ter dinheiro para não me preocupar com a velhice, para ajudar aqueles de que eu gosto e poder viajar com meu marido, para onde eu bem entendesse, ao menos três vezes por ano. E também para comprar uma casa no campo e ter muitos, mas muitos cães (é claro). Não sou daquelas pessoas superotimistas que acham tudo na vida uma maravilha. Me pergunto, muitas vezes, porque passamos por experiências tão duras, que parece às vezes impossível ultrapassá-las. Mas acho que, quando encontramos um amor verdadeiro, achamos força para continuar, nos levantar e seguir em frente. Ainda que custe um pouco. Nem é preciso dizer que eu sou romântica. Acredito no amor, sim. E não só no amor entre homem e mulher, no amor de amigo também, de pais e filhos, dos animais, ou de qualquer pessoa que nos ame e que possamos amar, independente quem seja.

Falo mais que devia, é daquelas manias que temos que controlar, mas quando vejo; falei. Acredito que saber ouvir é um dom. Estou trabalhando nisso...

Acho que a vida passa rápido e temos mesmo que saber vivê-la (como já dizia Roberto Carlos), ainda que não haja receita, cada um faz da sua maneira.

 

Leticia Silva

 

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24.2.16

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Foto: Man – George Hodan

 

Cá estou nas compras, observando tudo, perguntando, tentando perceber onde se praticam os melhores preços, o que é que há de novo relacionado com o que quero comprar – podem ser sapatos, pode ser uma casa, podem ser roupas, ou um automóvel. Recolho toda a informação possível. Se não fosse assim, como é que poderia tomar decisões?

Já quando quero vender o meu carro, a minha casa, onde vivi momentos tão importantes, meus tesouros, não preciso de carregar em nenhum botão para mudar a minha atitude, já quase não quero saber o que se passa à minha volta, com carros idênticos ou com as casas lá da zona. É este o preço que quero porque sim, porque são os meus tesouros, porque paguei por eles.

Eu sou o mesmo, mudou foi a circunstância. Não sou eu na mesma.

 

Eu sou do tamanho do mundo, acabei de conseguir aquilo que tanto queria e por que tanto lutei. Consegui! Sou imbatível, enorme, eterno!

Faleceu um ente querido, parte da minha vida, percebo a perenidade das coisas, das pessoas. Triste, revoltado, sinto-me pequeno, ínfimo perante o universo e a vida. Transitório, parcelar, o que ando aqui a fazer, vale a pena? E ainda há dias, como se fosse ontem, me sentia do tamanho do mundo...

Como é que os meus filhos me descrevem? E os meus atuais colegas de trabalho? E se forem os da empresa anterior? E quando fui eu o patrão?

Sou o mesmo quando vou ao estádio de futebol ver os jogos do meu clube ou quando os vejo na televisão? E se os jogos são entre outros clubes, tenho o mesmo comportamento?

 

Posso ser eu o mesmo que alguém, de acordo com o que conhece de mim, descreve como rigoroso, quase sisudo, que não dá ponto sem nó e outra pessoa conhece como brincalhão, divertido, amigo da boémia, sempre a dizer piadas e na brincadeira?

Eu sou um camaleão?

 

Jorge Saraiva

 

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22.2.16

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Foto: Assorted Buttons – Peter Griffin

 

Será de mim, ou os dias cinzentos deixam-nos cinzentos?

Vestimos roupas com cores mais mortas, falamos com menos euforia, pensamos e repensamos na vida e em como ela é triste...

Pensamos se estamos a seguir os nossos sonhos ou a ir com a maré.

E sofremos… Sofremos porque alguém está longe, porque está a chover e não podemos fazer nada que não seja ficar em casa a fazer alguma coisa.

Sofremos também porque continuamos a pensar e descobrimos que somos alguém que não queremos ser e não temos energia para pensar no nosso Eu verdadeiro pois não temos o sol para nos dar essa energia.

Então, olhamos para os botões e falamos com eles… Decidimos que são eles os nossos melhores amigos e ouvintes nos dias cinzentos.

Pegamos no botão vermelho e pensamos: “Este sou eu quando estou romântico.”.

Olhamos para o botão verde e afirmamos sem dúvidas: “Assim fico eu quando estou enjoado!”.

O botão amarelo sugere-nos: “Que inveja que eu tive naquele dia…”

O carinho de um beijo é relembrado ao pegar no botão rosa e recordamos: “Eu estava tão bem!”.

E assim continuamos, a pensar nos botões e no que eles conseguem fazer com o meu Eu.

 

Sónia Abrantes

 

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19.2.16

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Foto: Diverse Faces – Dawn Hudson

 

Sou um ser diferente a cada momento que passa. Os acontecimentos, factos sucessivos e constantes que preenchem cada momento, transformam-me, não me deixam indiferente, e impedem-me de estar sempre da mesma maneira.

Chegam-me imagens que interiorizo e retenho algures dentro de mim, não sei onde, que alimentam os meus “eus”. Triste ou alegre, cordata ou renitente, tranquila ou desassossegada, sou tudo isto de acordo com o que me chega.

Se o amor me toca sou poderosa e crio beleza até nas coisas mais improváveis, nos dias cinzentos, nas árvores nuas, nos campos secos, e nas águas turvas, mas, não passarão disso mesmo, coisas horríveis e feias, se o desamor me arranha.

Se o manto frio da morte se estende na minha proximidade, sou outra, que não era até então. A proximidade com a morte dá-me uma lucidez incapaz de experimentar em qualquer outra circunstância. Faz de mim um ser finito e humano como comumente se diz, afinal, muito menos poderosa do que o amor me fez crer.

Sou o que não quero ser, o que quero ser, não sou. Sou o que é preciso ser. Sou o que tem de ser. Sou o que sou, sem mesmo saber o que isso significa. E, nesta diversidade de “seres”, a única certeza que tenho sobre mim, é a de que nunca saberei quem realmente sou.

Hoje, não é por acaso que sou diferente de ontem. Agora, sou sem dúvida diferente do que era há dois minutos antes desta reflexão.

 

Cidália Carvalho

 

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17.2.16

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Foto: I See You – George Hodan

 

O “eu” pode ser entendido como um conjunto de componentes que, individualmente, representam uma combinação de informações importantes para a promoção e qualidade das relações interpessoais.

O exercício que é importante fazer liga-se à identificação dessas componentes e como elas se apresentam e se manifestam. É um exercício de autoconhecimento.

O que conheço do meu “eu”? O que desconheço do meu “eu? O que os outros conhecem do meu “eu”? O que os outros desconhecem do meu “eu”?

A combinação do que eu conheço/desconheço/escondo do meu “eu” e o que os outros conhecem/desconhecem do meu “eu”, influencia as relações entre o “eu” e os “outros”.

O exercício no caminho do autoconhecimento pode influenciar a forma como a pessoa dá ou solicita informação aos outros. Parece que a forma como o “eu” se apresenta aos outros, tendo em atenção a estrutura que conhecemos/desconhecemos/escondemos do nosso “eu”, influencia os “outros” e, consequentemente, tem repercussões nas relações interpessoais.

Na interação com os outros a informação é partilhada pela própria pessoa e pelos outros. É um campo de atividade complexo, sendo a relação aberta aquela onde a pessoa cede aos outros informação, o mais completa possível, sobre o seu “eu”, e que diminui a probabilidade de ocorrerem más interpretações do seu comportamento. É neste cenário que, quanto a mim, acontecem relações sinceras, participadas e produtivas.

 

A vida tem tido o efeito de me obrigar a pensar cada vez mais na forma como nos apresentamos aos outros, e nas consequências que essa apresentação pode assumir na construção de relações interpessoais!

 

Ermelinda Macedo

 

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12.2.16

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Foto: Woman Reading A Book – Petr Kratochvil

 

Falam de mudança. Dizem que se não estou bem assim, devo mudar. Mas mudar para onde? Para um outro estado no qual me sinta melhor. Mudar como? Terei de ser eu a descobrir como mudar. Mudar o quê? Tudo aquilo que eu queira e possa mudar para que a minha vida fique diferente.

E eu concordo. Se não estou bem assim, se não me sinto bem, se morro quando quero viver, terei de mudar, terei de estar bem, de me sentir bem. Entendo e concordo até ao fundo da minha razão. Mas como mudo? Como posso eu mudar? O fundo do meu coração não entende isto. Ele entende que estou mal, mas não sabe como mudar.

 

Acho que não posso mudar; não tenho poder para isso. É isso! Para mudar eu necessito de poder, de um poder de mudança. Mas agora, aqui, nada posso. Como consigo arranjar poder? Onde está? Quem o dá? Como o procuro? Como o recebo? Como trabalho o poder para aquilo que quero?

 

Vamos lá, eu ainda não sei se quero. Logo, não sei o que quero. Bem, querer, quero que toda esta gente se lixe, que vão para Marte, que desapareçam, que tenham aquilo que merecem e me deixem em paz. Isso, eu quero. Mas a mudança não deve ser isso. Então, para mudar é necessário querer e poder. E eu não quero, nem posso. Logo, nada feito.

 

E para quê mudar? As pessoas serão diferentes? A minha família passará a visitar-me? Os meus colegas de trabalho serão mais solidários e dialogantes? O meu chefe deixará de ser um ditadorzinho? Os meus vizinhos serão mais simpáticos e colaborantes? Não acredito. O que os faria mudar? Também não devem querer, nem devem ter poder. Estamos todos no mesmo barco, todos perdidos. Isso de querer e de poder é só para privilegiados.

 

Não me venham falar de mudança! Para isso tragam, numa mão o poder e na outra, o manual de instruções. Assim, sim, estarão a ajudar e eu saberei o que fazer. Assim já quererei e já poderei, já mudarei. Mas isso eles não fazem. Se calhar não podem…

 

Fernando Couto

 

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8.2.16

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Foto: Child Pied Piper – Circe Denyer

 

O poder exerce-se através da capacidade de influenciar os outros, convencê-los que o caminho sugerido é o que melhores resultados proporciona para o todo. Ora este pressuposto demonstra que o ciclo do poder ocorre num ambiente que envolve um grupo de pessoas, havendo abertura para a criação de equipas se estas pessoas estiverem misturadas. É também mérito dos liderados conscientes, ao obedecerem aos seus instintos, que assim permitem libertar-se para outras funções mais produtivas.

O fator que equilibra o todo e a soma das partes é a liderança, pois esta articula as partes tornando-as, pelo menos, iguais ao todo. Esta é a equação fundamental da liderança num contexto e dimensão organizacional entendido como um conjunto de pessoas; a sua perceção e domínio prático permitem a todo o momento maximizar os resultados que se podem obter gerando sinergias positivas.

As redes sociais e/ou profissionais que congregam diferentes sensibilidade vincam melhor o papel de um líder sem título, chamado a perceber a dinâmica e o contexto motivacional, bem como o rumo que o veículo pode atingir. Até porque o líder é um bom artista, articulador das pessoas, suas ideias e objetivos organizacionais. O conhecimento profundo da orientação estratégica da organização mobiliza-o a ser um espetador atento às qualidades de cada elemento, de onde retira os requisitos e competências necessárias a um bom e efetivo desempenho, através dos instrumentos da comunicação, motivação e coaching.

 

O líder é didata e autodidata, sabe ouvir os outros, é entusiasta, sonhador, gosta de aprender por isso não tem medo de errar. É um dialético dissimulado, porém bastante oportunista e com sentido de orientação esclarecido. Aliado a isso possui um apurado sentido de grupo, coesão e solidariedade que o tornam altruista, eis a desnatação de um líder natural que sabe sacrificar interesses individuais em prol do coletivo, no prolongamento desta profecia augura a prevalência e vitalidade da sustentabilidade, dispensando o lucro imediato, qual ilusão no tempo e espaço.

A sustentabilidade tem um horizonte intemporal e um alcance de longo prazo, sendo percecionada pelos outros e beneficiando a todos, pois o líder trabalha uma marca atuando sobretudo nas linhas orientadoras e ideológicas. O papel do líder é executivo mas também pensador da organização, daí que a sua contribuição na organização ultrapassa o tempo efetivo de permanência nela. Isso torna o objetivo da sustentabilidade num interesse e propósito impessoal; é na verdade um efeito maio, impactando na criação de valor. O modelo tripé da sustentabilidade que assenta nos pilares transversais people, profit and planet (3 p) elucida eloquentemente esse conceito.

O impacto da liderança é aquilatado pelo sucesso de toda a organização, da micro à macro estrutura, mas também o sucesso da liderança é percecionado pela satisfação dos clientes internos. A liderança distingue-se das outras formas de direção porque ela é a extensão dos valores éticos e morais, conformada por um conjunto de valores e princípios que catalizam a criação de valor no processo de transformação da matéria em substância.

 

António Sendi

 

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5.2.16

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Seria uma reunião importante que poderia mudar a sua vida. Sabia que não poderia vacilar, não se mostrar inseguro, nem amedrontado. Tinha lido sobre o poder de uma primeira impressão e sabia reconhecer como ela poderia influenciar o sucesso ou não da reunião. Pensou como era admirável o cérebro ter a capacidade de construir uma imagem acerca de uma pessoa em segundos, apenas com uma imediata apreciação sobre a pessoa que tinha à sua frente. Observando apenas a forma como a pessoa surgia, se deslocava, como era a sua postura corporal, a sua fisionomia, o seu aspeto geral, mesmo antes da pessoa sequer pronunciar uma palavra! Tinha o seu discurso e argumentos bem estruturados e sabia que estava bem preparado. Mesmo assim, apesar da água quente que escorria sobre o seu corpo, sentiu um arrepio gélido percorrê-lo. Deixou-se estar mais uns minutos sob o chuveiro, refugiando-se no aconchegante calor que deslizava e o envolvia.

Os pensamentos invadiam-no. Compreendia que o impacto da primeira impressão seria o promotor da interação interpessoal e como seria difícil não comunicar, mesmo em silêncio. Todo o seu corpo emitiria sinais que iriam ser captados por todos os presentes na reunião. E continuou. Teria que preparar a sua entrada de modo triunfal. Todos os seus gestos, a postura, as expressões do seu rosto, o sorriso confiante e seguro, a sua voz, a irrepreensível aparência, seriam decisivos para a sua plateia ficar de imediato rendida numa primeira impressão. Vestiu o seu melhor fato, ajustou o nó da gravata que tinha minuciosamente elaborado na noite anterior. Cogitou como o poder que exercia num primeiro momento, poderia intimidar o outro, dando a ilusão de o estar a dominar. E lembrou-se do Haka, da dança típica e grito de guerra do povo Maori, para intimidar o adversário e se incentivar, exibindo a sua coragem, paixão e vigor.

 

Olhou o espelho, mirou-se de frente, depois de perfil, mirou um lado após o outro. Subitamente vê refletido no espelho o seu rosto delineado com desenhos Maoris, a língua de fora, as mãos a tremer, simbolizado o vento quente de verão… A imagem refletida ganha vida própria e numa dança brutal e viril, a Ka Mate, a cerimónia haka que celebra o triunfo da vida sobre a morte. Na sua cabeça ressoa o grito pujante “Ka Mate! Ka Mate! Ka Ora! Ka Ora!” (É a morte! É a morte! É a vida! É a vida!)

Sentiu-se revigorado e confiante. Com passadas potentes dirigiu-se à porta, abriu-a num movimento decidido e saiu poderoso com um sorriso esboçado no rosto.

 

Tayhta Visinho

 

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1.2.16

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Foto: People – George Hodan

 

Há quem defenda que a vida é o que nós fizermos dela.

Eu digo: é mentira.

Às vezes a vida faz-nos mais que nós a ela. Às vezes a vida faz-nos muito menos do que tentamos fazer por ela, que é como quem diz, por nós.

Outras vezes temos sorte, nunca gratuita mas só com esforço, e fazemo-nos dela, da vida. Do que nos acontece, do que nos rodeia.

Podemos e até teremos capacidade de a mudar, de quando em vez, mas é uma possibilidade com limitações. Porque há tanto nesta vida que não depende de nós...

 

Mas há um poder, que é um querer e um fazer, se nós quisermos e fizermos, que nos veste a pele desde que viramos gente. O poder de nos reinventarmos. O poder de nos transformarmos, adaptarmos, mexermos, mudarmos.

E a reinvenção não conhece fronteiras, não veste barreiras, não tem limites.

Não podemos mudar os acontecimentos mas poderemos, sempre, mudar-nos a nós.

Porque a vida é o que é, mas nós não somos o que somos. A vida é só uma, mas nós somos muita gente numa pessoa só.

Somos e seremos sempre as circunstâncias e aquilo que fazemos delas. Somos hoje o que não fomos ontem. Seremos amanhã o que nunca pensamos ser antes. Mas somos.

E esse poder, o poder ser, ninguém nos tira.

 

Joana Pouzada

 

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