23.12.16

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Foto: Tub – Domenico Mattei

 

Ter ou não esperança depende de cada pessoa, do seu momento e do estado em que se encontra. Esperança no sentido de que acredita que aquilo que deseja seja atingido com mais ou menos dose de fé. Ter esperança é crer ser possível atingir um desígnio, um objetivo, uma meta. Portanto, ter esperança parte sempre da crença emocional na possibilidade de se concretizar determinados sonhos ou de conseguir determinados fins.

Ter esperança é ter um ato de fé nos propósitos e nas intenções. É acreditar em si próprio e nos seus talentos, acomodados por uma boa dose de esforços pessoais. Ter esperança é não desanimar ao primeiro sinal de frustração de expetativas; é não atirar a toalha ao chão à menor dificuldade; é não abdicar do objetivo à primeira contrariedade. Ter esperança exige perseverança, exige convicção, exige autoestima, exige lutar por algo que se deseja. Ter esperança é ter trabalho, esforço e dedicação a uma causa. É estar cheio de emoções, sensações e energias positivas. É acreditar em si próprio, no seu trabalho, no seu esforço, na sua dedicação, na sua utopia.

 

Nos dias que correm, fala-se pouco da palavra esperança. Vivem-se tempos de desconfiança, no próprio e no próximo, vive-se para dentro de si próprio, fechado no seu ninho, no seu mundo. O homem não é uma ilha. Por tal, perante a insensibilidade e falta de caridade que se semeia, dever-se-ia propalar os valores da solidariedade, da amizade, da compreensão, da paz.

No combate à guerra, à fome, à miséria, à violência, quem de direito deveria usar todos os meios no sentido de dar esperança a quem daqueles males sofre. Ter esperança é ter a coragem de remar contra a maré, é ajudar sem receber nada em troca, é defender os indefesos, é fazer com que aconteça.

Ter esperança é viver e fazer viver.

 

Fernando Lima

 

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21.12.16

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Foto: Fractal - Enrique Meseguer

 

A esperança é um desígnio referente a um estado ou evento positivo dentre vários cenários possíveis de uma atividade, sustentada pela fé depositada em Deus, no propósito altruísta que orienta a longo prazo, na equipe e/ou rede de parceiros associados ao projeto, na capacidade criativa e críticas, no valor do próprio produto, nos impactos sociais e ambientais do projeto, nas sinergias que podem ser geradas com a sua implementação, no estágio de evolução e maturação da envolvente que se pertence, enfim, na energia que é gerada pela combinação destes diferentes stakeholders e desideratos.

Como o Wikipedia refere, justamente para condizer com o postulado anterior, corrente elétrica “é o fluxo ordenado de partículas portadoras de carga elétrica, ou também, é o deslocamento de cargas dentro de um condutor quando existe uma diferença de potencial elétrico entre as extremidades. Tal deslocamento procura restabelecer o equilíbrio desfeito pela ação de um campo elétrico ou outros meios como reação química, luz, atrito, etc.”.

A compreensão desta lógica sugere uma gestão cuidadosa do esforço físico e mental, e em último da saúde, admitindo que não se pode e nem é necessário saber tudo. Deve-se, sobretudo, concentrar no core para perceber o processo e permitir que os outros se encarreguem de executar as suas especialidades, e posteriormente a coordenação encarregar-se-á de juntar as pontas.

 

O propósito, como prolongamento e interpretação da fé que reside no seu interior, é a maior fonte de poder, sendo uma dádiva do Todo Poderoso precisa ser protegido, tratado, cuidado e acarinhado para que o compromisso seja renovado, e continue a merecer a confiança. Diria que é um bem económico, sujeito a desgaste dependendo da forma e o respeito que formos a utilizar, pois, acima de tudo não se pode perder a humildade e empatia com o próximo e nem passar de vítima a agressor contra qualquer espécie ou a natureza em si. As boas práticas sugerem que, decorrente de um uso responsável e sustentável, permite-se defender dos agressores somente em casos extremos ou então para impedir que os mais fragilizados sejam vitimados, evitando assim holocausto ou canibalismo a olho nu.

 

A esperança é assim positividade, diferentemente do pessimismo, augura sempre um melhor resultado da confiança que depositamos nas nossas ações, na expetativa que sejam capitalizadas e geradoras de rendimentos que compensem o risco outrora assumido.

Para Augusto Comte, filósofo a quem se atribui a autoria do termo positivismo e um dos principais percursores dessa doutrina, a busca pelo conhecimento positivo constitui a principal forma de construção do conhecimento, por via da observação e registo dos fenómenos em seu contexto físico, palpável, ao alcance dos nossos sentidos e submetidos a experiência.

Esperança é, em última análise, uma questão de gestão de risco, que segundo modelos cientificamente comprovados, o risco específico ou diversificável pode ser reduzido com a constituição de uma carteira com ativos distintos representativos de indústrias sujeitas a sazonalidades e ciclos operacionais distintos.

 

António Sendi

 

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19.12.16

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Foto: Refugee - Hassan T.

 

“A esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero.”

Victor Hugo

 

“Em todas as lágrimas há uma esperança.”

Simone de Beauvoir

 

A. partiu daquela pequena cidade, num país, num continente desta Terra onde as guerras se vão sucedendo por necessidade de afirmação de uns, para o enriquecimento de outros, por insanidade de alguns, para o desespero de quase todos. Levou consigo tudo o que lhe restou: B., o filho de 16 anos, C., a filha de 14 anos, e D., o cão de C., inseparáveis.

E., a sua esposa, não partiu; ficou para sempre naquela terra por eles outrora bendita, amada e trabalhada, agora maldita, odiada e abandonada. Foi trespassada por uma bala que lhe violou o corpo, num trajeto impiedoso que lhe feriu o peito de morte.

Partir era a única hipótese para a sobrevivência. Percorreram centenas de quilómetros, quase todos contados a passo. O percurso entre o desespero e a esperança era conseguido nas lágrimas que inundavam os olhos e que escorriam nos rostos.

Conseguiram chegar a uma aldeia, de um qualquer país, de uma união europeia que acreditavam rica e próspera, humana e recetiva, bondosa e compassiva. Encontraram isso, mas também o seu contrário em alguns olhos, em alguns rostos, em alguns gestos, em algumas palavras nas quais reconheceram o medo, transformado em ódio, que tinham aprendido na sua pequena cidade de onde fugiam.

Estão à espera, não sabem bem do quê. O desespero continua-lhes preso à pele, colado pelo lado de dentro. As lágrimas, essas, continuam a ser derramadas, continuam a ser o percurso interior para o seu precário equilíbrio, para a esperança.

 

Fernando Couto

 

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16.12.16

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Foto: new-years-day - Stefan Schweihofer

 

Ter esperança é algo bom, mas para uma pessoa ansiosa como eu, traz alguma melancolia. Acreditei sempre que, como já dizia Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora e não espera acontecer”. Mas com o passar dos anos, vamos aprendendo que muitas coisas dependem mesmo da gente, e é correr atrás. Outras, fazemos a nossa parte, mas nem sempre depende somente de nós. Por isso ter esperança é de alguma forma aceitar que determinadas coisas estão fora do nosso alcance; então só resta esperar que tudo corra bem. O ano está acabando e não há momento em que renovamos as nossas esperanças como no início de um novo ano. Muitas vezes nos vemos sem motivos para acreditar que algo possa mudar e que tudo não passa de festejos para vender presentes. Mas todo recomeço é uma nova oportunidade de fazer algo diferente, ou de observar de forma diferente um velho conhecido. Confesso que não é muito fácil para mim ser muito otimista como o ser humano moderno, mas ainda há aqueles poucos que nos surpreendem e é ai que surge a esperança de que as coisas possam mudar. Tento contribuir de alguma forma para que essas mudanças aconteçam.

Eu tenho esperança que 2017 seja um ano melhor que 2016. Espero que:

  • Tenhamos menos animais abandonados e que cada vez mais os animais sejam tratados com dignidade e não como produtos;
  • Que os pais e mães de família que procuram, encontrem trabalho e possam cuidar dos seus filhos;
  • Que os idosos sejam assistidos e que não sejam negligenciados;
  • Que haja menos terrorismo e mais respeito à liberdade.

 

Leticia Silva

 

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14.12.16

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Foto: Man – Leandro de Carvalho

 

Ele escrevia num dos piores momentos da sua vida. Da vida deles. Quando a porta da frente se fechou ele caiu. Caiu num chão frio e num buraco do qual parecia não conseguir sair. As tábuas magoavam-no e as pernas estavam sem circulação. Mas não queria levantar-se. Mas não conseguia levantar-se. Ainda escreveu no telefone para um amigo ir lá a casa. Não chegou a enviar a mensagem. Acho que não sabia o que dizer-lhe ou então teve vergonha. Sim, daquela que o constituía como cobarde, como há pouco ela o acusou de ser.

 

Doía-lhe tudo… Doía-lhe a cara de tanto chorar, doía-lhe o peito de tanto e com tanta força respirar, mas o que lhe doía mais era ver finalmente no que ele a tornou. Angustiava-o perceber, finalmente, que a ruína de parte do âmago dela teve dedo seu. Não lhe importava mais quem tinha as culpas, seja do que for. Não lhe importava que ela o insultasse e que fizesse dele alguém mesmo mau. Merecia-o, merecia tudo, qualquer castigo que lhe viesse pela frente.

Corroía-lhe algo que não conseguia identificar, apenas sabia que habitava no seu peito. Percebia que algo quebrou. Pensava em magoar-se. Fazer como já fez anteriormente. Um gume afiado, o fio escarlate a correr para o chão. Na verdade, talvez a única coisa que o impedia de repetir vil ato era a lembrança do estado dela, quando o foi buscar às urgências, da última vez. Sentia-se um fraco. Voltou a pensar em ligar a alguém, mas colocou impedimentos a todos de quem se lembrava. Ninguém iria entender o que sentia.

Nos intervalos do choro secavam-se-lhe os olhos. A visão turvava e algumas teclas tornavam-se indistintas. É incrível como conseguimos perceber trivialidades em momentos como este. Parece que o cérebro se ocupa em autodistrair-se para não te autodestruíres. Autodestruição. Sim, se calhar tinha sido o caminho que tinha percorrido sem o escolher. E tendo-a arrastado consigo. Disse-lhe, antes de ela sair de casa, que aceitava tudo o que quisesse, divórcio incluído. Ele tem noção que terá de cumprir pena. Questionou-se se o que irá fazer nos próximos tempos, a ele mesmo, será suficiente.

Sim, porque bem se conhecia. A autocomiseração irá ser o seu farol. A tristeza também. Tudo aquilo que ele tinha feito, pensava, trazer-lhes-ia felicidade. Todos os gestos, os discursos, os comportamentos. Jurava, de coração, que pensava agir bem. “Lida com tudo, mas em partes de cada vez”. Sabia que não estava bem e, ao admitir frequentemente tal, acreditava ser suficiente para domar o que estava a florescer. Ciúmes. A merda dos ciúmes… Como pôde ele duvidar dela e não perceber o quanto errado isso era? Como pôde ele não perceber tanta coisa?

Ele sabe como. Pensava ser mais forte do que era. De saber já muito da vida. Mas ninguém sabe. Em certa medida somos sempre crianças indefesas, rodeadas de dúvidas e medos. As rugas e as costas curvadas ajudam a disfarçar.

 

As lágrimas voltaram a lembrar-lhe do motivo do texto. Continuava no chão, computador no colo. Obra do destino, ele estava ali. À distância de um braço, quase já sabendo que poderia substituir o aço. Escrever era, em certa medida, aplicar golpes profundos em si. Que merdas! Que traste! Não se trata apenas de ter magoado a pessoa mais importante para si. Mais uma vez, trata-se de a ter transformado em algo mais sombrio do que quando a conheceu. Pede perdão ao teu anjo. Nem que seja pela milionésima vez. E não lhe prometas nada de nada! Tem apenas a humilde esperança de conseguires fazê-la voltar ao seu melhor.

 

Rui Duarte

 

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12.12.16

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Foto: Angel - Myriam

 

“Nesta noite negra e chuvosa de 20 de dezembro de 2009, deslindei o verdadeiro cerne do meu ódio: não, não odeio o Natal, pior, odeio-te é a ti.

Odeio as pessoas e as suas palmadinhas nas costas com olhar quase piedoso a imaginar como devo sentir a tua falta nesta altura. Mas são burras ou quê? Eu sinto a tua falta 365 dias por ano com a mesma faca espetada no ventre. Odeio este meu sorrisinho irónico que lhes devolvo, como se tivesse uma tira de fita-cola em cada face e como se fosse uma mulher de força. Não sou nada disso.

Não fiques chocado por dizer que é a ti que odeio, amor. Odeio que me tenhas ensinado a gostar do Natal (lembras-te das minhas “reservas”), que tenhas estimulado o espírito de união e de família, e agora não estejas aqui. União com quem, se me faltas tu? Nem te atrevas a dizer que sou injusta. Talvez, mas deixa-me destilar o vinagre à vontade.

Odeio que agora os nossos amigos não se encantem com o “pais do Natal” que era a nossa casa. Odeio as músicas de Natal porque não estás aqui para eu te inundar a casa com elas até à exaustão da tua paciência. Odeio que não estejas ao pé de mim para gozarmos com as parolices do Natal dos Hospitais e sucedâneos.

Odeio não ter que te comprar presentes de Natal e não ver o teu ar de menino deslumbrado na hora de abrir os meus presentes.

Odeio este meu pavor que as nossas lembranças se tornem baças com o correr dos tempos, porque odeio que Daí, talvez já te tenhas esquecido de mim.”.

 

Era habitual Maria Antónia encontrar, entre os seus pertences, papéis com cartas e rascunhos de poemas, mas desta vez encontrara algo que não mais lera depois que o escreveu, talvez por doer demais.

Era uma tarde solarenga de início de dezembro, em que a agitação reinava pela casa, sobretudo pela sala, onde os seus rapazes tentavam montar a árvore de Natal. Olhou-os embevecida. Aos poucos iam construindo os três uma família, e o seu rapazinho mais pequeno já não largava o homem que nos últimos anos a tinha ajudado a criá-lo. Era um trabalho em crescendo, como gostavam de dizer.

Ao mesmo tempo, Maria Antónia recordou com dor a amargura do momento em que, movida entre raiva, tristeza e uma solidão desmedida, agarrou num papel – naquele papel - e derramou aquelas palavras. Recordou também o primeiro Natal depois que ficara viúva e que decidira passar sozinha, com um bebé de meses ao colo, para não chorar. Lembrava-se dos sons que vinham das casas dos vizinhos que recebiam as suas famílias e até do cheiro a canela que povoava todo o prédio.

Foi então que agarrou numa caneta e apressou-se a escrever no mesmo papel:

 

Meu Amor,

Peço que não leias mais a carta do verso desta folha. Dói.

Neste momento, ouve-se o “White Christmas” e faz-se a árvore de Natal. Está uma montanha de presentes ao canto da sala por embrulhar e estou a experimentar uma receita de sonhos de abóbora.

Este ano a casa vai encher-se com toda a nossa família e até tivemos que comprar uma árvore de Natal mais pequena! Nem sequer vamos poder montar o presépio grande na sala. Já imaginaste? Eu a receber cá em casa tanta gente? Quem diria… Estamos em pulgas!!! Para mim é uma minha oportunidade (muito aquém) de agradecer por tudo aquilo que fizeram por mim e pelo nosso pequeno desde que ficámos sem ti: amor sem limites, proteção, compreensão, sorrisos e colo, muito colo…

Com o passar do tempo, o amor voltou à minha vida. É um homem maravilhoso que descongelou este meu coração petrificado pela tua ausência e com a dose certa de tranquilidade e racionalidade que contrasta com este meu espírito imprevisível e hiperativo. É com muito carinho que te digo que o amo profundamente e cada vez é mais importante na vida do nosso filho. Juntos tentamos fazer o melhor para o criar e fazer dele um homem feliz e de bem.

Com o amor voltou a esperança ao meu coração e a felicidade de partilhar, não só a minha vida, mas também o crescimento do nosso menino.

Obrigada não só pelo teu eterno brilho, porque eu sei que intercedes em todas as coisas boas que acontecem na nossa vida, mas porque um dia me ensinaste a gostar do Natal: disseste que o Natal é a época mais bonita do ano porque era altura em que todas as pessoas se podiam aventurar a sentir esperança e bondade. E tu foste o meu maior exemplo de esperança e bondade.

PS – Ah! E eu sei que nunca te esqueces de mim.”.

 

É certo que o verde é a cor da esperança mas, naquele momento, tudo o que Maria Antónia viu foi uma imensidão de branco povoar-lhe a alma. E foi para junto dos seus rapazes atiçá-los, tirando as bolas que eles já haviam colocado na árvore.

 

Ana Bessa Martins

 

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9.12.16

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Foto: Dog - Petra

 

Acordei virada do avesso: pronto, já percebi porque dormi mal, com as costuras do pijama a magoarem-me a pele de princesa(-faz-de-conta). A nesga da manhã que eu vejo da minha cama rasteira, hoje cinzenta e carrancuda, abriu-se num risinho sarcástico de sol – “quem te manda ir para a cama tarde e a más horas, já sem saber se é sono ou desleixo, essa tua mania de não virares o pijama do direito quando o vestes?”.

A nesga da manhã, o ronronar do dia, a vida que é tarde, o desalento que é sempre. E o aperto no peito, que não quero chamar angústia. A entrega. A entrega, essa companheira maldita, que me reduz à paralisia do corpo e me seduz com o voo da alma.

NÃO! – repito-me, enquanto o motor do universo lá fora tenta adormecer-me de novo, como que esmagando-me, como que tolhendo-me, como que aliciando-me com mais um minuto, uma hora, uma manhã, um dia, uma eternidade. Que eu sei, eu sei, são só ilusões que tomo com o copo de água que não bebo, ao acordar.

O meu bichinho de estimação remexe-se algures, pelo quarto, talvez não-incomodado com as não-costuras da sua cama rasteira. Não-costuras. Que sorte a dele, não viver condicionado por costuras e pijamas, e asfixiado por minutos, horas, manhãs, tardes, dias – eternidades.

 

Que sorte a tua, Kookie, por viveres aprisionado num espaço confortável e seguro, e numa vidinha de pequenas exigências: uma festinha de vez em quando, um olhar cúmplice quando te entendo, um passeio na erva molhada, uma corrida sem trela no hall do prédio, e os poemas que escreves no ar, com a tua cauda felpuda e sempre inspirada.

Vens até à minha cabeceira buscar o teu primeiro mimo, reclamando-o meigamente com a tua patinha-de-lã quase carícia, e tentas alcançar-me, com o narizinho ávido de cheiros, de respostas, de ar, principalmente do que me cerca. E entregas-te, no reconsolo simples da minha mão displicente e lenta. Encostas a cabecita na beirinha da minha cama, contentando-te com o meu toque leve e o meu olhar fundo e a tua expressão é mais que gratidão, é mais que plenitude, é mais que confiança, é quase Amor. Doce – fecho também os meus olhos – “como é doce essa segurança de te ter: aveludado e morno, atento e disponível, feliz e sem cobranças.”.

 

De repente, uma verdade de fundo magoa-me as pálpebras e obriga-me a abrir os olhos, como se uma força física me estivesse a apertar, em círculo de poder esmigalhante e, ao mesmo tempo, reconstituinte e reconstrutor:

“E se eu NÃO te tivesse, meu companheirinho de pelo demasiado, e carinho nunca em excesso?”.

“E se eu NÃO tivesse um pijama, de costuras tão avessas e um aconchego nunca agradecido?”.

“E se eu NÃO tivesse uma manhã para me acordar, birrenta e cinzenta, mas tão garantidamente atestada pelo ronronar da vida lá fora?”.

“E se eu NÃO sentisse esta angústia que é desalento, mas tão nítida e humanamente aberta aos estímulos, às sensações, à voz interior que me diz: ‘levanta-te!’?

‘E se tu NÃO pudesses...?’

‘E se tu NÃO fosses...?’

‘E se eu NÃO...?’

Olho de novo o meu cãozinho, ainda ali, amparando-me a raiz de uma pequena força, algures nas profundezas do meu ânimo. E vejo-A, nitidamente, nos olhos dele – a ESPERANÇA não é verde, não é palavra, não é lato conceito – neste momento, é apenas uma luzinha de cor indefinida, bailando trémula nos olhos do meu animalzinho de estimação.

Sorrio, quase sem querer, embrulho-me em mim mesma, num gesto intuitivo de reconforto, puxo o Kookie para cima da cama, e ficamos os dois, saboreando a proximidade dócil da ternura e do amor incondicional – a Vida é um colo. Um castigo, às vezes, mas sempre MÃE.

E permite-nos sempre a Esperança, sim - que se lixe o pelo nos lençóis!

 

Teresa Teixeira

 

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7.12.16

Earthquake-AngeloGiordano.jpg

Foto: Earthquake – Angelo Giordano

 

A dor lancinante que lhe subia pela perna despertou-a da morte iminente. Não conseguia distinguir se tinha os olhos abertos ou fechados, tamanha era a escuridão.

Demorou a perceber o que lhe estava a acontecer. Minutos antes, estava sentada a estudar na mesa da sala quando um ronco profundo e seco soou da terra e tudo tremeu violentamente. Refugiou-se debaixo da mesa, tal como tinha aprendido na escola, para estas situações de emergência. Dificilmente conseguia mexer-se debaixo dos escombros, tinha um pé preso, já anestesiado pela dormência que tomou o lugar da dor. Assustada, chamou pela mãe que estava na cozinha momentos antes, gritou por socorro, mas a negritude apenas lhe devolveu o silêncio de morte. Aterrorizada com a sua sorte, tentou manter-se calma, não entrar em pânico, esforçou-se por ocupar os seus pensamentos com as boas memórias da sua vida, com os pais, os amigos e colegas, listou mentalmente os seus gostos, comidas preferidas, filmes e músicas preferidas. Antes de adormecer, teve tempo para imaginar os locais que ainda gostaria de visitar.

 

Acordou sobressaltada, com fome e sede. Não podia perder a esperança de ser encontrada e ser salva. Gritou por socorro, gritou até esgotar as suas forças. Entretanto, os seus olhos já habituados à escuridão, conseguiram distinguir no seu lado esquerdo uma luminosidade ténue. Esticou o braço em sua direção e sentiu na mão uma humidade refrescante que lhe caía gota a gota. Levou a mão à boca para saborear o líquido. Sim, era água! Esticou desenfreadamente o braço uma e outra vez, quantas as necessárias para satisfazer a sua sede.

Desorientada, entre adormecer e acordar, perdeu a noção de tempo. Desconhecia se era dia ou noite, se estava ali há vários dias ou apenas há algumas horas… Saciava-se com as gotas que caiam mais espaçadamente. “Se as gotas pararem de cair estarei perdida!” Este pensamento feriu-a como uma flecha espetada no coração. Sentiu a morte a espreitar.

Já no seu limite, pediu novamente ajuda. Os pensamentos atropelavam-se na sua cabeça, sentia o desespero a invadi-la. Não estava preparada para morrer, ainda tinha tanto que experimentar, tanto que viver! Entrou em luta com o seu corpo dormente e com vontade de desistir. Não podia desistir, esperava que alguém a viesse salvar. Envolvida numa languidez sonolenta, começou a cantar. Começou a cantar as canções da sua infância, continuava com as suas canções preferidas e todas as que conhecia. Sempre que acordava, cantava, cantava já embrulhando as letras, cantava como se de um mantra se tratasse, como uma ladainha promissora de vida.

“Ei! Vocês estão a ouvir? Estão a ouvir?”, perguntou aos colegas, o jovem bombeiro que tinha acabado de se sentar para descansar uns minutos. “Estou a ouvir uma voz delicada a cantar!” Começou a bater nos pedaços de parede caídos e a chamar a pessoa soterrada, pedindo que continuasse a cantar até conseguir perceber a sua localização e a salvá-la.

 

Tayhta Visinho

 

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5.12.16

OsCondenadosDeShawshank-Frank Darabont-CastleRockE

Foto: Os condenados de Shawshank - Frank Darabont - Castle Rock Entertainment (1994)

 

Andy: Há alguma coisa dentro de nós, que eles não podem tocar. É nosso!

Red: Do que estás a falar?

Andy: Esperança.

Red: Vou dizer-te uma coisa, meu amigo. A esperança é uma coisa perigosa. A esperança pode levar um homem à loucura.

 

Este é um dos diálogos de Andy (Tim Robbins) e Red (Morgan Freeman), duas personagens do filme “Os condenados de Shawshank”, de 1994.

 

Só para contextualizar: Andy Dufresne é um bancário de sucesso, que vê a sua vida dar uma reviravolta quando é condenado, injustamente, pela morte da esposa e do amante. Com pena de duas prisões perpétuas é, então, enviado para a prisão de Shawshank. Aí desenvolve uma inesperada e especial amizade com Red, outro preso. Além disso, durante a sua estadia, o diretor da prisão obriga Andy a entrar num esquema ilegal de lavagem de dinheiro. Apesar das constantes humilhações, das injustiças, da solidão e do isolamento, e do desespero, há algo que nunca abandona Andy, nas quase duas décadas na prisão: a esperança.

A esperança pode ser aquilo que resta. A esperança pode ser como que a rampa de lançamento. A esperança pode ser o impulso, a mola que nos faz saltar para outra coisa. Por si só, não chega, mas é o estímulo que nos leva a agir, a mudar, a ser paciente.

“Os condenados de Shawshank” fala-nos de esperança, de redenção, de paz interior. Mas fala-nos de algo ainda maior: do espírito humano. Daquilo que existe dentro de cada um de nós, que não é palpável ou explicável. É um poderoso grito de liberdade e salvação, quando tudo parece perdido. Faz-nos acreditar que a redenção e o perdão são possíveis e que há por aí um futuro melhor à espera de ser agarrado por nós. E, que se nós não acreditarmos nisso, há sempre alguém que nos pode fazer acreditar em algo melhor. Assim como sucedeu com Red, que duvidava das palavras de Andy, mas que achou o sentido daquelas palavras algures na sua vida.

O ex-bancário consegue, por fim, fugir da prisão. Deixa uma carta a Red, que este lê quando já se encontrava também em liberdade. Na missiva, diz:

“A esperança é uma coisa boa, talvez a melhor das coisas, e uma coisa boa nunca morre.”.

 

Sandra Sousa

 

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2.12.16

Star-FineMayer.jpg

Foto: Star – Fine Mayer

 

Naquele dia de desespero, em que detesto quem sou e a vida que tenho. Nesse dia em que ninguém me compreende, o amanhã parece ser negro. Não tenho sonhos, só pesadelos. Não espero nada. Tudo é negro. Tudo é nada. O silêncio é um barulho ensurdecedor. No barulho nada consigo escutar. Não estou bem em lugar conhecido nem desconhecido. Nesse dia, precisamente nesse dia, olho para o céu. Vejo lá no alto essa luz que brilha no escuro. Alguém chamou essa luz de Estrela. Mas o nome não interessa. É a sua luz que brilha no escuro que importa. Dizem que as estrelas orientam quem está perdido na escuridão. Então é para ela que vou olhar sempre que me sentir assim, no escuro, pois aquela pequena estrela lembra-me que afinal é na mais completa escuridão que se veem as luzes mais brilhantes. Então sorrio e sinto tranquilidade no meu Ser. Agora sei, agora tomo consciência que, no ponto em que a minha vida se encontra, uma luz brilhante vai conduzir- me na escuridão. Afinal, nada está perdido. Muito menos eu.

 

Sara Almeida

 

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