16.1.17

RoastedChestnuts-CristinaPechirra.jpg

Foto: Roasted Chestnuts - Cristina Pechirra

 

“Vá, não te lamuries mais, serve-te aqui de umas palavrinhas, que ainda estão quentinhas (ai, se não fosse eu a acudir-te os gritos!).

Está bem, o raio da vida que te calhou não é flor de se cheirar. Mas já que a (es)colheste e a puseste em jarra tipo sempre-em-pé, que queres? Limpa lá os vestígios da água entornada, antes que o tampo da mesa-de-cabeceira fique corroído do sal e serve-te aqui de umas palavrinhas, vá…

Está bem, não te queixes! Sei que hoje as tirei tarde demais do forno e ficaram assim um bocadinho a amargar de queimadas. Mas sempre aconchegam o estômago e dão-te sustento.

 

Mas quem te manda a ti querer da vida o que tu própria não te dás? Olha, rapariga, devias ouvir mais a minha voz. Estou farta de te dar lições, será que é tão difícil aprenderes? Eu até acredito que és inteligente, aprendeste muito bem na escola, caem-te muito bem as palavras à-la-crème-de-la-crème sem perderes a delicadeza de gostares das minhas, caseiras, simplórias, às vezes ázimas (que se me esquece sempre de comprar fermento), cozidas em forno de pedra e às três pancadas (ou mais!).

Mas dizia eu que devias dar-me um bocadinho mais de crédito. Ouvir os meus conselhos. Lembrar-te das águas passadas que, apesar de já não moverem moinhos, guardam a memória do trigo e do suor do moleiro. Às vezes, quando calha, até do sangue do moleiro. Parece impossível, tu, sempre tão esperta para aprender teorias e tão burra para as por a bulir! Corrigir-te, digo eu. Olha que vale mais quebrar que torcer! Mas já não vais lá. Eu sei, estás fraquinha de forças, os danos já são irreversíveis. Não é brincadeira, toda a tua vida deixaste-te minar por maleitas, sem ires ao doutor, agora, olha… Ó rapariga, pronto, não ias ao doutor, ias à bruxa, caraças! Principalmente assentavas bem o que eu te digo, cadernos não te faltam, que andas sempre por aí a escrevinhar pelos cantos! E até acho que escreves bem, lês ainda melhor; o que te falta é saber ouvir-me. É que não dá para entender, valha-me Deus!

Ai, não venhas agora tu pedir-me que pare de te azucrinar. Trata do corpo e da memória, rapariga! E não me venhas com essa que se não morresses da doença, morrerias da cura! - olha, e achas que tu ainda estás viva? Sei lá, às vezes duvido. Não é que eu ache que pena te ajude em nada; penas têm as galinhas. Mas, pronto, às vezes tenho pena de ti.

Tanto te aconteço, tanto te moo o juízo, tanto te trago à lembrança golpes sem perdão, palavras vãs e promessas de lobo disfarçado de cordeiro. Já era tempo de emendares a tua fé e remendares o teu hábito. Ou, como quem diz, mandares às favas quem te não merece.

Olha que é a experiência que to diz, pau que nasce torto jamais endireita!

...

Vá, serve-te de mais umas palavrinhas.

Pronto, deixa lá, vá... Amanhã a ver se faço uma receita nova, com mais açúcar, e a ver se não as deixo esturricar.”.

 

Teresa Teixeira

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:30  Comentar

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