21.7.09

 


  

O sol está a esconder-se, o dia está a acabar. Não gosto desta parte do dia, da parte que começa agora. Significa que tenho que ir para casa, assistir mais uma vez a todo um filme que já sei de cor.

Faço parte do elenco, é verdade, mas só até um dia. Até o dia em que eu seja maior que ele, em que a minha raiva, o meu nojo me tornem um gigante. E nesse dia tudo vai acabar.

Eu sei que não tenho que lá estar quando ele chegar, mas também sei que se não estiver, elas vão sofrer por mim. Que vai ser contra elas que ele se vai virar mais uma vez. Que amanhã, para saírem de casa, vão ter que abusar dos cremes e pinturas para tentar disfarçar.

O corpo fica a doer, muito, muito pior que todos os trambolhões que já dei. Mas muito pior do que isso é a dor de cá de dentro, aquela dor que se sente, perto do coração, como se fosse real.

Às vezes imagino como seriamos se ele não existisse. Ou se ele não fosse dependente (palavras delas para explicar…).

Felizes, acho que seriamos felizes. Ir para casa era uma coisa boa, e não um pesadelo.

Não consigo sentir carinho por ele, nem pena, nem nada. Não sinto nada…

Não, estou a mentir… sinto com todas as forças do meu ser uma enorme raiva, um nojo, uma dor a que não sei dar um nome. A tal dor que sinto perto do coração…

Li um dia que de todas as más experiências se tira algo de bom. Não sei o que de bom há nisto, neste viver cheio de medo, de ódio… só sei que nunca irei ser como ele. Que nunca irei fazer aos meus nada que os magoe.

Sei que quando crescer elas vão ter orgulho em mim, porque vou conseguir ser aquilo que ele nunca foi.

 

Filipa Pouzada

(Imagem: Self-Portrait, de Francis Bacon, 1971)

 
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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 20:28  Comentar

De Aníbal V a 22 de Julho de 2009 às 14:53
Gosto deste texto.
Face a situações do tipo daquela que ali é narrada, temos a tendência em pensar que o melhor é fugir dela, quanto antes, e que o ideal seria juntar a essa fuga/libertação, a observação da justiça punitiva sobre tão cruel infractor.
Mas a vida não é um ideal e por isso, na maioria das vezes, nem há fuga/libertação possível, nem a justiça se faz sentir.
Então, há que saber estar, aguentar, resistir, esperar. A "heroína" desta história parece ter essa capacidade - a da sobrevivência.
Sinal de inteligência e mais de meio caminho andado para preservar a sua saúde mental num ambiente de profunda degradação. Quantos conseguem esse equilíbrio?

De ©Marcolino Duarte Osorio a 22 de Julho de 2009 às 14:25
Olá, Filipa!

Citando-a: «Li um dia que de todas as más experiências se tira algo de bom. Não sei o que de bom há nisto, neste viver cheio de medo, de ódio… »

A meu ver, antes que uma experiência negativa, perante a sua existência persistente, nos faça tirar conclusões destas, o melhor é desactivá-la, imediatamente, doa a quem doer, não vá o seguro morrer de velho, e dar cabo do seu amor-próprio!

Gostei muito deste seu texto!

Marcolino

De Augusto Küttner de Magalhães a 21 de Julho de 2009 às 23:53
O dia a acabar, o fim do dia, dá que pensar! Pelo que se fez, pelo que ainda se vai fazer, pelo que se deixou de fazer!
Podemos ver que mais um dia está a passar, que está na tal hora de chegar, de chegar a casa.

Pode até ser um momento prazeirozo, como pode ser um desatino, de mau. Talvez em fases da vida, por circuntâncias da mesma, ou nossas, a vontade, quase que nos leva a não ir para casa, ao fim do dia, de um dia, de uma serie de dias, mas é esse o nosso caminho.
Mas em outras fases da vida, ambicionamos por esse mometo, por chegar/estar em casa! Estas alterações, estas formas de viver e estar no “momentum” têm muito a ver com a vida que estamos aviver! Claro que de quando em vez é tremendamente mau, outras tão bom. Tudo muda conosco, mas não só, com a forma como estamos, com a forma como a vida nos acompanha ou desacompanha, com desfios que temos e vencemos( ou nem por isso)...........como conseguimos lutar pela vida, e estar na vida!!

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