2.9.09

 


 


O abandono é consequência de um acto, o acto de abandonar.


Quem abandonou tomou uma decisão, reflectida, egoísta ou altruísta, é uma decisão que manifesta uma vontade e, como tal, estará preparado para as consequências do acto, ou não estando, revelar-se-á esta como uma má decisão. Se alguém abandona o emprego, o curso académico ou o lar, terá prevenido alternativas, ou não; em todo o caso, recairão sobre o próprio os efeitos da sua conduta, responsabilizando-o.


A mesma responsabilização não se pede ou exige a quem é abandonado. Este, impreparado porque se confronta com uma situação inesperada, e quase sempre indesejada, desenvolve outros sentimentos e comportamentos por forma a adaptar-se, resultado que nem sempre é conseguido. Neste caso, o abandono passa a ser causa de outros sentimentos, como a tristeza, o isolamento, a solidão, a falta de auto-estima e de amor próprio.


Normalmente, à dor de “se fui abandonado é porque desiludi, não estou à altura”, sobrepõem-se comportamentos doentios, depressivos. A vida de Florbela Espanca foi marcada por abandonos sucessivos e perdas dos quais resultou uma depressão e a concretização do suicídio à terceira tentativa. Por vezes a reacção é destrutiva, transfere-se para outros toda a raiva e frustração, impõem-se comportamentos agressivos e violentos, e inflige a si próprio uma destruição lenta; as dependências podem ser sintomas disso mesmo.





A reacção ao abandono, dos movimentos migratórios é algo bizarra. Os pais migrantes vivem com o sentimento de que abandonaram os filhos; “arrumam” este sentimento e vivem o dia-a-dia na convicção de que esta separação contribui para o bem-estar dos filhos e para lhes proporcionar um futuro melhor. Os filhos, sem a visão dos pais, sentem-se desprotegidos, desamparados. É no mês de férias que passam juntos, que tudo se compõe. Os pais compensam os filhos com exuberantes manifestações de afecto; os filhos fazem perante terceiros exibições narcisistas dos seus pais. Todos se esforçam por mostrar que são uma família normal; na prática, estão a armazenar reservas para mais uma ano de separação.





Cidália Carvalho


 

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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 13:37  Comentar

De Cidália Carvalho a 7 de Setembro de 2009 às 20:36
Zilda,

O seu comentário é um carinho mas quanto à admiração é muita bondade sua.
Não é obrigação/missão de todos ajudar quem precisa?
Lembra-se que já contribuiu, aqui neste espaço, para essa ajuda?

Beijinho e Fique bem!

De Cidália Carvalho a 7 de Setembro de 2009 às 20:25
Anibal V,

De facto, o que muda são as formas de migração mas as consequências são as mesmas: separação - abandono.
Este último, nuns casos mais presente e sentido noutros mais acomodado e resolvido.

Fique bem!

De Aníbal V a 6 de Setembro de 2009 às 14:35
Muito interessante a questão dos sentimentos de abandono nos migrantes e nas suas famílias. E sempre tão actual, nuns tempos duma forma, noutros tempos de outra. Parabéns por esta abordagem que nunca vi ser feita.

De Zilda Cardoso a 6 de Setembro de 2009 às 14:06
Todos os artigos publicados neste blogue estão muito bem pensados e escritos. Pretendem ajudar quem precisa e quem quer ajudar. Conseguem-no muito bem, pois embora cada um tenha as suas próprias tendências, obrigações e limitações, é sempre possível e de tentar que essa pessoa se ajuste ao meio em que vive.
A saúde mental preocupa-nos a todos: é o bem mais precioso na nossa época tão complicada e difícil de vive. E nunca está suficientemente estudada, talvez porque surgem novos casos mais subtis mas que levam ao mesmo desfecho.
Admiro-a muito, Cidália Carvalho, pela sua acção toda voltada para os problemas importantes dos outros.

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