11.9.09

 


  

Quer dizer, andamos para aí com uma ideia alojada no cérebro a dizer-nos que devemos alguma coisa a alguém, seja uma pessoa ou um Deus. Faz comichão.

Ao mesmo tempo, claro está, é porque nos aconteceu algo de bom, ou recebemos algo valioso (amizade, um bom conselho, ajuda para resolver um problema, um Porsche Carrera...).

Vá lá que hoje em dia a gratidão parece estar em vias de extinção. Quando nós nascemos, não sabemos já que tudo nos é devido? Não foi para isso que viemos aqui parar, para ser felizes? Para quê sentir gratidão por ter saúde, amigos, família, um tecto sobre a cabeça, trabalho. E as obrigações, sobretudo o conceito de estar em dívida a alguém, é um aborrecimento.

É então que normalmente entra em jogo a realidade. A vida nem sempre corre bem. Aliás, muitas vezes não corre nada bem. E é injusta. E passa-nos rasteiras. E julgamos que tomamos a decisão certa e quando damos por ela, tudo se desmoronou à nossa volta. Ou então, um belo dia fomos de férias para um destino exótico e reparamos que há pessoas a nascer, viver e morrer nas ruas, a passar fome e a ver os filhos a morrerem-lhe nos braços. Pessoas sem nenhuma das coisas que tomamos por certas.

Quando era miuda, um gelado de chocalate chegava para eu me sentir agradecida. Na adolescência juntei outras coisas: ter amigos divertidos e boas notas – precisamente por esta ordem. Depois fui acumulando outras coisas, como ter tanta gente que gosta de mim e de quem eu gosto tanto e não ter dívidas ao Fisco.

Agora estou a tentar passar ao patamar seguinte, aquele em que agradecemos por aquela velhinha que vai a conduzir o carro à frente do nosso a 12 km/hora quando já estamos atrasados para o compromisso mais importante da nossa vida, porque nos vai ensinar a ser mais pacientes e a exercitar o auto-controlo.

Ou quando estamos na fila na estação dos correios há meia hora e alguém nos passa “distraidamente” à frente, porque vamos poder conversar sobre o que é o civismo e depois vamos ter uma oportunidade de testar os nossos reflexos.

É claro que há dias em que tudo isto falha e eu mando a gratidão às urtigas. Se bem que isso é outra história...já fizeram algum artigo sobre “a neura”?

Mas de um modo geral, sinto-me muito grata por ter tanta coisa de que me sentir agradecida.

Ah, e em jeito de nota de rodapé: sempre que possível, é mooontes de giro retribuir toda essa gratidão que sentimos dando aos outros motivos para se sentirem agradecidos também.

 

Dora Cabral

 
Temas:
Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 00:12  Comentar

De Aníbal V a 22 de Setembro de 2009 às 15:29
Obrigado, Dora!

De Rui Duarte a 14 de Setembro de 2009 às 15:32
É de facto muito importante estarmos gratos por tudo. Principalmente pelas coisas que parecem ser mais simples ou menos importantes. Nessas reside a verdadeira essência da vida e são as mais dificeis de se perder. Os bens materiais vão e vêm mas o beijo de um filho numa tarde de verão dura para sempre.

De ©Marcolino Duarte Osorio a 11 de Setembro de 2009 às 03:32
Olá, Dora!
Li atentamente o seu artigo, sem me deixar levar pelas emoções, desejava ver até onde iria com este seu desafio. A resposta encontrei-a no seu penúltimo parágrafo: «Mas de um modo geral, sinto-me muito grata por ter tanta coisa de que me sentir agradecida.»
Cumprimentos
Marcolino

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