20.7.10

 

 

Criar expectativas é tão natural como respirar. Desde sairmos de casa à hora habitual, contando demorar os 20 minutos conhecidos até ao lugar de trabalho, como sempre acontece se saímos àquela hora, com bom tempo e sem acidentes de percurso, até esperarmos gozar a nossa reforma após uma vida de trabalho. Que as expectativas nos criem, também o é. Nascemos no contexto de uma determinada cultura, movemo-nos em grupos sociais com costumes e regras mais ou menos explícitas que assimilamos mesmo sem nos apercebermos; a dinâmica instala-se entre o anuir e esperar corresponder, e a rebelião, na procura de uma forma de estar que identifiquemos como “sou eu e tenho um lugar”; assumimos um compromisso, múltiplos compromissos, ou a ausência deles, que modelam a nossa identidade - não nos é dado escolher.
 
Ao longo da vida aprendemos a lidar com as múltiplas e flutuantes camadas de expectativas: as que são nossas e as que recaem sobre nós, as que fazemos recair sobre os outros, aquelas de que não tínhamos consciência e as que alimentámos deliberadamente (que não raro são metas ou objectivos, encadeados), as que são inevitáveis e as que não são, as que são realistas e as que não são, as que são inócuas e as que são armadilhas, as que são pequeninas (espero que a compota de cereja fique boa!) e aquelas que definem a forma como conduzimos as relações mais íntimas, a vida de quem está ao nosso cargo, o quão bem estamos connosco, como lidamos com os outros, o que nos move, as decisões que tomamos, o que produzimos, o que fazemos de nós.
Da mesma forma que nos impulsionam, as expectativas podem ser expressão de pré-conceitos e manietar-nos ou agarrar-nos ao passado, porque construídas sobre experiências que já foram, que tiveram os seus condicionantes e desenlaces. Podem impedir a comunicação de mensagens muito simples. Esta semana explicava por email a uma amiga como remodelar um documento com a formatação automática no Word; é simples, mas por qualquer razão ela não estava a conseguir. Decidimos falar ao telefone e ela diz-me “Mas é só isso?” Esperava outra coisa, daí achar que estava a falhar.
 
Uma vida em que faltem expectativas positivas (de realização, de bem-estar), na série que alimentamos continuamente, deve ser como um carro que trava a todo o momento e que no final do percurso se gastou em 50 quilómetros. Por outro lado, acontece ouvirmos alguém balbuciar “esperava muito mais desta relação”, para justificar o estado deplorável em que está. Há quem se instrua em não criar expectativas - será possível? Parece-me que é inevitável criá-las, até como um sentimento de fundo, talvez como ser-se optimista ou pessimista, como ter ou não ter esperança, ou fé.
 

Ana Álvares

 

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De Treza@blogs.ao a 22 de Julho de 2010 às 16:24
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