24.9.10

 

Foi há muitos anos mas parece que foi ontem!
Era ainda criança e, naquele tempo, não abundavam as oportunidades de conhecer pessoas da minha idade, para além do círculo familiar. Mas, num domingo de Setembro fui a uma festa da aldeia, a convite da minha prima. Nesse dia, na casa grande cheia de gente adulta e alguns da nossa idade, apareceu um rapaz, primo da minha prima. Logo chamou a minha atenção. Primeiro, por ser desconhecido, depois pelo seu ar intelectual e simultaneamente cativante. Não era exuberante nos traços físicos mas exalava um charme que não passava despercebido. Não tardou a sermos apresentados: Este é o meu primo; esta é a minha prima.
Foi um dia inesquecível. O almoço, a tarde na romaria, a procissão vista da varanda. Privei com um rapaz culto, educado, atencioso e, direi até, um pouco maroto. Findo o dia da festa, despedimo-nos com um beijo. Na face, como apenas era permitido na época. Este beijo durou anos na minha lembrança! Tantas vezes o senti!
 
A vida levou-nos para caminhos e vidas distantes. Desencontramo-nos.
Anos e anos passaram. Raras vezes ia tendo notícias dele, pela minha prima. Foi sempre o melhor aluno, estudou medicina, foi assistente da Faculdade, transformou-se num notável cirurgião, casou, teve filhos. Eu também. Estudei, casei, criei e geri uma empresa, tive uma filha, uma neta, fiquei viúva, viajei, fui feliz.
Muito tempo foi passando, menos contacto com a minha prima, escassas notícias daquele rapaz que se fez homem e que nunca saiu do meu pensamento.
 
50 Anos depois …
Num almoço com vários amigos, fora do país, quando me preparava para sair, um senhor que conversava com uma das amigas próximas, perguntou-me: Não nos conhecemos? Lembras-te de mim? Ao ouvir estas palavras e a forma como foram ditas, respondi: És tu? Eledisse: Sou. Não quis acreditar! O homem por quem estive apaixonada durante tantos anos, estava ali, tinha partilhado o almoço com ele. Não resisti ao impulso e disse-o. O meu primeiro amor! Apagou-se tudo à minha volta, nem reparei que estava rodeada de tantas pessoas! Caí em mim quando vi o ar de constrangido dele.
Não poderia permitir que este encontro ficasse por um só dia, como o primeiro. Trocámos contactos para não mais nos perdermos.
Desde então encontramo-nos regularmente para conversar, recordar o que eu sonhei com ele. Sempre que há disponibilidade de ambos, lá vamos almoçar. Sinto que a intensidade não é recíproca, mas que importa isso? Quando há amor, nunca acaba. Por isso o amor que senti há 50 anos atrás ainda existe. Vivemos de palavras, de emoções, de desejo.
 
Cumpriu-se o ditado: “Não há amor como o primeiro”. Houve amores maiores, melhores, os apaixonadamente vividos, os dificilmente conquistados, mas nenhum deles superou o primeiro.
 
Ana Santos
 
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