30.11.10

 

Não sei que horas eram. Sei que era noite. Nos últimos meses as horas só se tornavam relevantes quando não passavam e o desespero era maior que o desespero normal que sentia. Sentia o seu peso mas não importava se eram 3 da tarde ou 3 da manhã. Não queria que o dia acabasse pois não era uma questão de luz ou de compromissos. Só queria dormir. Quando se dorme a dor desaparece e com ela a ansiedade, o desespero e a angústia. Os sintomas de uma depressão major estavam todos lá. Havia vezes em que o corpo doía sem ser magoado. Sem toque. Havia outras que o corpo não sentia. Mesmo com toque. O pior era o acordar. Lembro-me de dizer numa consulta (já não sei de quê, porque durante meses e meses passei por Psicologia, Reiki, Psiquiatria e uns pseudo-terapeutas / médiuns), que a sensação que tinha quando acordava era a de bater numa parede de ansiedade. Nunca experimentei uma sensação assim. Adormecia do cansaço de chorar, passava para o vazio e despertava para uma sensação imediata de sufoco, o coração perto do ataque e o vómito perto da boca. Escusado será dizer que na maior parte das vezes levantar-me era um sacrifício muito alto. Em raras ocasiões, se não me levantasse depressa tinha a sensação que nunca o faria.
A vida constituía-se de farrapos. Vagas memórias de momentos e sensações, na sua maioria negativas. Pedi a todos os santos por uma solução, isto nas fases de religiosidade exacerbada, quando sabia no íntimo que a solução estava em mim. Esteve sempre lá. Eu sabia que sofria por amor. Sabia que só não era feliz porque não queria. Mesmo sabendo de tudo isso não tinha força para mudar, para avançar, para respirar, para viver. Mas não foram poucas as vezes que tentei, principalmente naqueles momentos em que o bater no fundo não era uma força de expressão dado que, no chão era onde o corpo se retorcia num choro constante de vários sentimentos que de tão intrincados não se conseguiam exprimir. Quantos murros nesse chão dei… Basta! – dizia para mim decidindo que esse era o último minuto de sofrimento. Mas não foi.
 
Não sei que horas eram mas sei onde estava. Fiquei em casa dos meus pais porque era uma daquelas noites em que um apartamento para uma pessoa só era um inferno privado. Não sei que horas eram mas sei onde fica a gaveta onde estava a faca. Não sei quanto tempo fiquei a olhar para ela, medindo o seu comprimento e as consequências de um acto. Estava sentado no chão, costas na parede, mangas arregaçadas. A faca passou impiedosa, cortando pele e carne expondo o sangue. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… e perdi a conta. Lembro-me também da sensação. Estranhamente, ou não, em cada corte sentia-me… livre? Enfim. Ali fiquei.
O meu irmão encontrou-me, ou a minha mãe. Não tenho a certeza. O assunto não é tabu, mas também não é falado. Hoje, reconheço a validade do que fiz. Não que tenha sido certo, é claro, mas ainda hoje na varanda, com os meus filhos e com a mulher que amo, olhar para as cicatrizes que ficaram faz-me perceber que se não fosse por um momento de violência, se calhar nunca me tinha permitido ser feliz.
 
Rui Duarte
 
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