14.12.10

 

Não reconhece o lugar onde está mas o desconhecido não lhe causa qualquer medo ou ansiedade. Não ter medo do desconhecido alimentou-lhe a certeza de ser capaz de concretizar o plano, o seu plano, que começou por ser uma vaga ideia. Não a quis partilhar com ninguém, e sozinho, amadureceu-a, deu-lhe um meio, marcou uma data. Talvez tenha sido esse o único plano que conseguiu elaborar para a sua vida -  o da sua morte.
Quer mexer-se mas o seu corpo não obedece. Está confuso. Sente-se cansado, muito cansado. As pálpebras pesam-lhe, abre-as mas desiste do esforço para as manter abertas, deixa-as descair para as abrir não sabe quanto tempo depois. Sombras e imagens difusas. Os olhos baços fixam-se no tecto e repousam naquela suavidade que o branco sempre transmite.
- Onde estou? - Pensou que não tivesse feito a pergunta mas o som quase inaudível aproximou do seu, um rosto triste, angustiado, nas rugas agora mais fundas, um medo mal disfarçado. Reconhece-a e é então que tudo faz sentido. Quis morrer mas não resistiu ao desejo de a ouvir pela última vez. Oferecer-lhe os últimos momentos da sua vida ajudá-la-ia a despenalizar-se. Telefonou-lhe. Ouviu chorar desesperadamente, chorou com ela. Depois, tudo se apagou.
Não aguenta ver tanta dor, quer fugir daquele olhar interrogativo que espera saber as razões para acto tão tresloucado. Razões? Mas será que ela, ou alguém, o poderá compreender? Tentou uma ou outra vez abrir o seu coração, falar dos seus tormentos, mas quê, apontavam-lhe a sua juventude, os recursos académicos e a folgada situação financeira que lhe permitiam ter um futuro risonho. Que forma tão simplista para um problema tão grande como era o seu! Como se sentia sozinho e incompreendido nesses momentos! 
- Tome o remédio!
Não diz o que realmente pensa, olha-a simplesmente e obedece, segura o remédio sem a convicção da enfermeira, como é que ela pode achar que aquele é o seu remédio? Se ao menos tomasse muito daquilo e de uma só vez, sim, poderia ser o seu remédio.
 
Tomei conhecimento do que aconteceu porque a irmã, extremosa, nos pediu que no regresso ao emprego o acolhêssemos sem constrangimento nem julgamento.
Quando voltou não nos pareceu diferente. Reservado como sempre mas simpático e sempre, sempre muito educado. Mostrámos compreensão e disponibilizámo-nos para ajudar. Negou o acontecido. Desvalorizou o internamento: a mãe e a irmã assustaram-se porque ele dormia há muito tempo, e levaram-no ao hospital.
 
Não sei precisar quanto tempo depois mas não terão passado mais do que dois meses quando, num Domingo à noite, no café com os amigos, agitado olhou o relógio: 23 h 45 min.. Apressou-se a sair. Já na porta ainda ouviu um amigo a perguntar qual era a pressa, se ia apanhar o comboio da meia-noite. Virou-se e sorriu...
 
Cidália Carvalho
 
Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 01:05  Comentar

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