12.4.11

 

A actual crise política em Portugal domina as atenções nos nossos media. Há uma semana atrás, os protagonistas foram os desastres naturais no Japão, nomeadamente o terramoto e o maremoto que se lhe sucedeu. Duas semanas antes disso, era o denominado movimento de protesto Geração à Rasca quem ocupava o lugar de destaque nos nossos meios de Comunicação Social. E, há cerca de um mês, o país chocava-se com notícias sucessivas relatando as mortes silenciosas de vários idosos, esquecidos nas suas casas. Quantos terão morrido nas mesmas condições, desde essa altura, mas que não receberam as luzes dos holofotes do meadiatismo? Alguns? Muitos? Mesmo traçando-se o cenário mais optimista possível, certamente que terão sido demasiados, pois ninguém deveria ter que morrer sozinho, abandonado e esquecido.

 

A nossa sociedade idolatra os jovens e venera os anos gloriosos do período da juventude. As pessoas recordam, com nostalgia, as doces memórias dos seus tempos de criança e de adolescente e, com a mesma intensidade, recusam pensar no seu futuro enquanto pessoas velhas que virão a ser. Na rua, quando os nossos olhos se cruzam com o olhar de um antigo, sequioso de atenção e de alguém que lhe retribua um sorriso disfarçado, por entre os vidros de uma janela empoeirada, quase que, involuntariamente, a nossa atenção se desvia para o lado contrário. Porque é triste sentir que aquela pessoa está só e sofre em silêncio. Porque sentimos a nossa quota-parte de responsabilidade de sermos cúmplices de uma sociedade que negligencia os seus anciãos. Porque, talvez, inconscientemente, tememos vir a ser aquela pessoa que, na recta final da sua vida, se vê, quanto muito, tolerado pela família, desprezado pelos jovens e abandonado pela comunidade.

 

A solidão dos velhos é pobre, cruel, silenciosa e confinada às quatro paredes de uma casa. A sua voz rouca de protesto não se consegue fazer ouvir e o seu corpo, cansado das amarguras da vida, teima em aprisioná-lo a um espaço exíguo que pouca gente visita.

Enquanto não chega o dia em que nos orgulharemos das notícias sobre o lugar dos nossos idosos na sociedade, porque não aproveitar o presente tempo de crise para reflectirmos, enquanto filhos, enquanto netos, enquanto cidadãos, sobre a dívida que temos para com os nossos velhos e de que forma poderemos tentar, pelo menos em parte, saldá-la? Porque, querendo-se ou não, os jovens de hoje serão os velhos de amanhã. E amanhã poderá ser já tarde, já poucos nos ouvirão porque já não seremos jovens....

 

Liliana Jesus

 

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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 00:05  Comentar

De João Sá a 12 de Abril de 2011 às 19:41
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