27.12.11

 

O sol quente teimava já em entrar pelas frinchas distraídas da persiana. O quarto ia-se iluminando devagarinho, descobrindo a pouco e pouco um corpo entorpecido na cama, desajeitado, deitado ao acaso e ainda com as pantufas nos pés. A cama ainda por desfazer e, na colcha, a forma desenhada e amarrotada do peso do António. Lenta e dolorosamente, deixou-se tombar para o lado e esfregou os olhos contrariado. Com o peso do seu mundo sob as costas curvadas, levantou-se e apertou melhor o roupão folgado. Vagarosamente, deixou-se arrastar até à casa de banho onde um espelho pequeno e frio lhe devolveu um rosto sonolento e amargurado. Repetiu os seus rituais de sempre e regressou ao quarto. A cama esperava por si, sedutora e apetecível. Mas naquele curto instante, mesmo antes de se deixar levar pela força da gravidade e afundar no leito dormente da cama, António hesitou e deu um passo atrás. Naquele momento começou a ser um dia diferente, algo inédito nos últimos meses. Sentou-se na escrivaninha e arrastou para os lados as pilhas de livros desarrumados. António pegou numa folha perdida e numa caneta e fez algo que nunca tinha feito antes: escreveu uma carta ao seu pai. “Pai, as tuas críticas foram sempre muito duras e sinto que nunca estive à altura das tuas expetativas. Estou magoado contigo… Mas amo-te muito e tenho muitas saudades. Lamento tanto nunca te ter dito isto, tanto… porque somos tão orgulhosos?” A tinta continuou desenhar letras e palavras naquela que seria a primeira e última carta que António escreveria ao seu pai que havia sofrido um AVC fatal na Primavera. Quando terminou, quem estivesse muito atento poderia ver o atenuar subtil da sua curvatura.

“Uma já está!” – pensou António. Um pouco animado e sem saber muito bem como ou porquê, via-se agora decidido a arrumar cada uma das gavetas da sua alma. Aqueles sítios secretos onde vamos colocando tudo aquilo que nos toca e que nos dói, às vezes tanto ao ponto de as fecharmos a sete chaves. O pó que se vai acumulando dentro delas vai-se tornando cada vez mais dolorosamente denso, pesado. Juntamente com a poeira, cresce o medo e a vontade de evitar mexer ou remexer nestes compartimentos escondidos cuja morada apenas nós conhecemos. Porém, um dia acordamos e sentimos que já temos pouco de humanos, pois tudo aquilo que nos define e que nos impulsiona, as emoções, as angústias, os desejos, ficaram presos nestes pequenos baús. António, nesse dia, sentiu-se um pouco mais vivo. Guardou a carta num envelope distinto e vestiu-se à pressa. Ainda meio zonzo por todas as decisões que havia tomado em tão pouco tempo, apalpava freneticamente a desarrumação do seu quarto em busca das chaves de casa. O quarto, assim como toda a casa, era um pequeno caos. A sua alma, essa, começava agora a ser desempoeirada, aos poucos, gaveta a gaveta. Já na rua, António caminhava tranquilo, com as mãos nos bolsos e numa passada segura e decidida. O frio daquele entardecer de outono beijava-lhe a face e um sorriso desenhou-se nos seus lábios. A casa da sua mãe ficava a uma dezena de minutos de distância e, no entanto, desde o funeral do seu pai que não se falavam. Era tempo de arrumar mais uma gaveta…

 

Liliana Jesus


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