3.4.12

 

Passamos muitas horas do nosso dia no trabalho e são essas horas que sustentam todas as restantes da nossa vida. São horas de atividade, de produção, frequentemente de ansiedade e de pressão, por vezes também de alegria e de conquista, em alguns casos de desespero e até de histeria. São horas longas ou curtas para mostrarmos o que valemos, somos valorizados (ou não) por aquilo que fazemos, se somos pontuais, assíduos, empenhados, respeitadores dos códigos impostos, se desempenhamos bem as nossas funções e de preferência mais alguma coisa. Os desafios nas tarefas e nas relações profissionais, ao ritmo das quais os jogos de cintura se vão sucedendo, obrigam-nos cada dia a estar mais atentos. Ter como qualidade o dom de adivinhar é certamente uma mais-valia muito útil para saber de antemão qual será o humor do chefe, antecipar que o colega se vai esquecer de fazer aquilo que pedimos, ou perceber que o nosso interlocutor afinal não entendeu nada daquilo que acabámos de dizer, apesar de querer parecer o contrário. Sucedem-se por e-mail as expressões “com muita urgência” ou “p. f. leia esta informação com a maior atenção” que de tão gastas se apagam no olhar do nosso leitor. Os incontornáveis “a.s.a.p.” (*) e “f.y.i.” (**) lembram-nos que não podemos perder tempo com pormenores supérfluos, porquê escrever tudo quando a mensagem já passou? Existe igualmente a expressão, não tanto usada por escrito: “isto não é comigo” que taxativamente significa: “não sei se houve asneira, mas se por ventura houve, não fui eu que fiz! E na eventualidade de haver no futuro, também não terei sido eu!”. Essas horas desafiam os mais elevados graus de paciência quando temos que repetir dez vezes a mesma informação à mesma pessoa que, para manter a postura, faz aquele ar de quem está a ouvir tudo pela primeira vez. Nestas alturas respiramos fundo e, das duas uma: ou nos visualizamos a dar uma valente tareia a esta personagem que está à nossa frente (o que poderá suscitar em nós uma certa vontade de rir que nem sempre será bem interpretada pelo outro lado); ou resolvemos acenar lentamente com a cabeça com o ar pensativo de quem acabou de fazer uma grande revelação ao mundo. E continuamos a desempenhar as nossas tarefas, às vezes melhor outras pior, como sabemos, como podemos, como nos deixam.


No final do dia, com o sentimento de um comprido dever cumprido não percebemos por que razão nos parece termos sido atropelados por um camião, quando nem sequer saímos da cadeira. Ficamos tão moídos pelas longas horas que pensamos então no euromilhões que temos absolutamente de registar. Apesar de tudo, sabemos que são estas horas que, felizmente, sustentam todas as restantes horas da nossa vida.

 

Estefânia Sousa

 

(*) - as soon as possible

(**) - for your information

 

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