17.4.12

 

Poderemos dizer que estar desempregado é muito mau, mas se pensarmos bem, tem mais vantagens do que desvantagens! Sim, ao escrever isto também me soa a brincadeira... Porém, o que vivo hoje não é brincadeira, mas sim um desemprego que só o é porque recebo o subsídio de desemprego, porque entro nas estatísticas dos milhares de desempregados, porque tenho muitas horas vagas para fazer muita coisa que não seja ir para um emprego com horário pré-estabelecido.

Desde Agosto de 2010 estou desempregada, de facto por opção, mas também porque a vida assim o desenhou. Antes de o ser pensava “Como poderei sobreviver dia a dia sem ter o que fazer, acordar sem objetivos diários como ir para o local de trabalho e desempenhar as funções que alguém espera de mim?”, ou seja, “como ficar acordada se não serei útil para ninguém durante um dia inteiro?” O problema era só esse e não o dinheiro, pois quem trabalha o suficiente para ter direito ao subsídio de desemprego, tem problemas maiores com o desemprego do que meros euros no final do mês, principalmente depois de uma década a trabalhar naquilo que se gosta.

Foram esses problemas que me deixaram a pensar o que seria de mim... Até que me lembrei dos tempos em que procurava o primeiro emprego, quando tudo era um campo novo por explorar, quando a adolescência dava lugar à juventude e o mundo era “meu”. Peguei nesse espírito e imaginei algo que gostaria mesmo de fazer. Era agora ou nunca! E foi!

Sem compromissos com instituições a nível de presença física, apenas com compromissos financeiros e pessoais que podiam ser adaptados, parti para outro país numa missão humanitária. Se não fosse quando estava desempregada, quando poderia ser? Até ir, continuei a fazer a procura mensal de emprego, obrigatória por lei, mesmo sabendo que passado alguns meses iria partir. Como as coisas acontecem quando menos esperamos, foram algumas as respostas positivas à candidatura e, por ironia do destino, tive que recusar, pois uma nova missão esperava por mim.

Fui para África e voltei, recomeçando desde o primeiro dia a procura de emprego, desta vez, mais a sério, sem ser apenas por obrigação legal. Claro está que as respostas positivas escassearam, ou então eram propostas não compensatórias face ao subsídio. A velha história “Mais vale ficar em casa quieta e não gastar do que pagar para trabalhar.” Isto é muito inteligente financeiramente mas não psicologicamente. Qual a solução para fazer face a este conflito, viável financeira, pessoal, profissional e psicologicamente? É aqui que vejo a grande vantagem do desemprego: temos muito tempo para pensar e refletir. Depois de muitos dias a inventar o que fazer, parei e fiquei realmente desempregada.

Finalmente acordei, já com objetivos traçados e, por surpresa, chegaram também as respostas positivas a candidaturas de emprego, tendo até a possibilidade de ser desempregada a part-time. Trabalhar a part-time, no que gosto de fazer e para o qual estudei, e ainda continuar a ser subsidiada como desempregada, na legalidade.

Hoje, já com 1 ano e 8 meses de desemprego, percebo que isso não passa de um rótulo, pois o nosso estado de espírito comanda as nossas ações e se continuarmos a mexer, a pensar, a inventar, a traçar objetivos, estamos sempre com a mente empregue em alguma coisa muito nossa, que não depende de subsídios ou patrões. E, melhor ainda, ao optar pelo não pacifismo, não sei que força é ativada, mas as respostas positivas a candidaturas de emprego e a projetos por nós pensados começam a surgir, e o desemprego deixa de ser a palavra certa para nos caraterizar.

 

Sónia Abrantes (articulista convidada)


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