6.7.12

 

Dizia há dias uma colega enquanto tomávamos café:

- Que sacrifício! Estou com tanto sono que só com muito esforço a cabeça não me cai em cima do teclado. Não sei como vou aguentar até ao final do dia!

- E porque é que tens assim tanto sono?

- Não tomei o comprimido.

- O comprimido?! Observei timidamente receando que a minha ignorância ferisse a suscetibilidade da minha amiga. O artigo antes de “comprimido” define-o, torna-o único, deveria ser óbvio para mim, do que é que ela falava.

- Sim, o comprimido para dormir.

- E porque tomas comprimidos para dormir?

- Porque a minha médica os receitou.

- E desde quando é que a tua médica os receita?

- Desde que comecei a ter insónias e pesadelos, logo a seguir à morte do meu marido. Nessa altura tive muito medo que me acontecesse o mesmo, e temi pelo futuro dos meus filhos. Por outro lado, a tarefa de os educar sozinha não tem sido fácil, eles estão em idades complicadas e muito marcados pela morte do pai. Às vezes rebentam tempestades lá em casa e acalmá-los não é fácil.

- Falaste à médica sobre a morte do teu marido?

- Não foi preciso, ela sabe, por isso é que receitou os comprimidos.

- E não te encaminhou para um psicólogo, sei lá… para um psiquiatra?

- Ela não, mas quando tive aquele ataque de ansiedade aqui no emprego e me levaram ao hospital, o médico que me viu disse que eu deveria consultar um psiquiatra.

- E então?

- Achas que sim?! Achas que tenho dinheiro e que aqui o chefe me dispensava para andar nos psiquiatras? E os colegas não iriam pensar que eu estou mas é maluca? Conto a ti porque somos amigas, mas nem toda a gente vê com bons olhos as visitas ao psiquiatra.

- Então com quem confidências as tuas tristezas, os teus medos, as tuas ansiedades, a tua perda?

- E alguém quer saber dos meus problemas? As pessoas têm os seus próprios problemas e olha que algumas não têm poucos, então agora com esta crise...

- Mas voltando ao teu amigo comprimido, até quando é que a médica receitou o comprimido milagroso?

- Não disse até quando vou tomá-lo; receitou uma caixa e quando ela acaba volto lá e ela passa nova receita, eu até estou a pensar em mudar para os que me deram no hospital, achei-os mais eficazes, estes acho que já não me fazem grande coisa. 

- Isto é: és médica de ti própria.

- Se assim se pode dizer.

 

Li, depois desta conversa, um estudo sobre a saúde mental em Portugal no qual o investigador, concluía que a prevalência dos problemas mentais em Portugal é muito superior à de outros países da Europa. No topo dos problemas estão as perturbações de ansiedade – 16,5%, seguidas das perturbações depressivas – 7,9%, perseguidas pela incapacidade de controlar os impulsos – 3,5%, e as perturbações relacionadas com o álcool – 1,6%.

À minha amiga não lhe diagnosticaram qualquer perturbação mental, assim, não está incluída nestas percentagens. E quantos mais não terão ficado de fora? É caso para dizer que Portugal está doente e não sabe quanto.

 

Cidália Carvalho

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 00:05  Comentar

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