11.9.17

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Foto: Psychology - Clayton

 

Nas minhas consultas reparei, ao longo dos anos, que muitos pacientes dizem sentir uma saudade sem fim de algo ou de alguém, sendo que essa saudade lhes retira qualquer possibilidade de serem felizes. Tenho reparado também que grande parte desses mesmos pacientes recusa a ideia de abandonar a saudade que sente. Estão apegados a ela como se fosse uma entidade. Sempre que se apresenta uma solução para abandonar a saudade e seguir em frente, lá vem um “mas”, um “não pode ser”, um “e se”.

Então, comecei a perceber que a saudade não está relacionada com o passado, como inicialmente considerei. Não é a constante recordação de um acontecimento ou pessoa do passado que espoleta a saudade, mas sim o que já não se vai mais viver com essa pessoa ou com essas condições. É o medo do vazio do futuro sem aquelas caraterísticas do passado que nos faz ficar cativos nessa emoção. É a hipótese não vivida, a expetativa criada que nos deixa assim, presos a um vazio do futuro, mascarado com o que aconteceu no passado.

 

Porém, há boas notícias: a saudade cura-se! Como? Sendo profundamente agradecido pelo que se viveu, pelo que se evoluiu com a experiência. Mas seguindo em frente, rumo a novas lembranças, a novas saudades.

 

Sara Almeida

 

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8.9.17

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Foto: Girls - Nikola Pešková

 

Entraste na minha vida pela porta da frente. Foi em setembro, ainda numa manhã de verão (ou seria já de outono?). Sentada, sozinha, na sala de aula, na última carteira da segunda fila. A primeira impressão que tive de ti não foi a melhor: uma pessoa arrogante, de nariz empinado, com a mania a achar que era mais do que os outros. “Tira o limão da boca” foi a frase célebre que melhor caracteriza essa tua caraterística expressão facial.

Provaste-me como não podia estar mais errada. Aproximámo-nos por intermédio de amigos comuns que, sem darem conta, fizeram de nós amigas para a vida. Ou, pelo menos, assim pensava eu. Naquela altura, e durante muitos anos, achámos as duas.

Viviam-se tempos confusos dentro da minha cabeça, não fosse aquela a fase da adolescência. Eu não permitia a qualquer pessoa que entrasse sem pedir licença. Tu não pediste, mas acabei por gostar dessa tua ousadia. Talvez a palavra que melhor te definia naquela altura (se é que alguém se sente minimamente definido aos dezasseis anos!). Trouxeste-me uma nova perspetiva em relação às coisas, foste uma lufada de ar fresco.

 

Anos se passaram, dez para ser mais precisa, onde a convivência era imensa, mas a cumplicidade ainda maior e melhor. Vivemos aventuras juntas, noites bem passadas (dias também!), momentos menos bons; dividimos quase tudo: alegrias, risos e sorrisos, cigarros, conquistas, incertezas, conselhos, ideias, desilusões… Acho que só não dividimos homens! E, quanto a isso, continuo certa de que fizemos bem!

De tudo aquilo que partilhamos, a cumplicidade era, para mim, o que tínhamos de mais bonito e precioso. Quase como se fosse um tesouro. Perceber, como que por uma espécie de conexão telepática, que algo não ia bem, ou então que algo ia muito bem; a palavra falada que não revelava tudo, mas que a outra entendia o tudo que ela não dizia; aquele olhar trocado que bastava para perceber o que a outra estava a pensar; o riso malandro, porque tínhamos pensado exatamente na mesma piada obscena…

 

Considero que há muitas formas de amor, e de amar. Por isso, há também o amor que anda de mãos dadas com a amizade. Não é um amor romântico, mas não deixa de ser amor. Achava que esse tipo de amor era para a vida, mais do que qualquer amor romântico. Até que me apercebi que não é! A fragilidade da nossa amizade, coisa que eu achava difícil existir, revelou-se. É possível que tenha sido esse o meu erro: achar que as relações duradouras, com raízes (pro)fundas não são tão frágeis assim. Certo é que essa fragilidade apareceu. E da forma mais estúpida possível, levando, como se fosse o vento, tudo o que havia. Como é possível? Não sei.

Agora, no lugar da cumplicidade resta apenas… estranheza! Agarro-me às boas recordações dessa cumplicidade e às saudades que dela sinto. Mas a saudade é boa na mesma medida em que é má: e tanto é doloroso o vazio que essa estranheza provoca, como é dolorosa a saudade, por ser ela a única coisa que resta desta amizade. “O pior tipo de estranho é aquele que um dia você conheceu.”.

 

Sandra Sousa

 

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6.9.17

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Foto: Vintage-1950s - Jill Wellington

 

- Só temos saudades das coisas boas que vivemos, porque das más não temos saudades nenhumas!

 

Saudade é reviver memórias, momentos que nos fizeram sentir felizes! É aquela sensação de saborear de novo todas as nuances das emoções desencadeadas pelas vivências mais afortunadas.

As “saudades do que não vivi”, residem apenas na fantasia do que se ambicionaria viver de bom.

Saudade é viver amor, é amar em retrospetiva!

 

Tayhta Visinho

 

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4.9.17

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Foto: Nostalgia – Marko Lovric

 

“...

Senhora Saudade,

não sei por que encanto

me trazes espinhos

e eu te quero tanto!

 

Senhora Saudade

se o teu manto santo

servisse ao meu corpo,

não teria espanto...

...”

Senhora Saudade; T. T.

 

Ela vem sempre cheia de dores – às vezes grandes, graves, mortais; outras vezes, apenas pequenos achaques, pequenas febres, pequenas cismas. Mas volta sempre, isso é certo como o bater do nosso coração. Entra-nos de mansinho pela porta dentro, alquebrada e triste, vestida de cor indefinida, assim numa espécie de tom órfão de luz, ou viúvo de cor. Nunca se sabe bem... depende da maleita que a traz. Mas sei que não é preto, o seu manto. Tenho a certeza – a ilusória negrura que lhe atribuímos, na minha opinião, é devida ao mero facto de que ela, normalmente, nos aparece assim de repente, recortada no umbral da porta e nós a vemos em contraluz, do lado de dentro da vida onde nos calha morar, ou do tugúrio onde nos restou esconder.

Ela entra, fecha a porta atrás dela, abraça-nos como se nós fossemos a sua salvação (que ironia!...) e deixa-se ficar, invade cada cantinho da casa, paga, religiosamente, o tributo à penumbra que nos cerca e planta as suas próprias raízes no nosso coração. Ora é doce, ora é cruel. Ora nos prende com os seus braços asfixiantes, ora nos afasta dela, para que não nos pegue as suas maleitas. Ora nos beija em delírio ardente, contaminando a nossa pele com as chagas dos seus lábios, ora nos sopra as feridas vivas.

E as suas raízes vão crescendo, crescendo, dentro de nós. O nosso coração torna-se terra arável, fértil. Crescem dentro dele árvores, que nos servirão de sombra, e cujos frutos servirão de alimento à nossa alma. E cujos ramos servirão para construir todas as cruzes que carregarmos, ao longo do nosso percurso, as grandes, as pequenas, as assim-assim – mas todas elas necessárias, indeclináveis, para que cumpramos a nossa via-sacra e para que possamos pendurar as nossas memórias, como flores renascidas a cada estação de esperança.

Os nossos olhos, entretanto, habituar-se-ão à penumbra que ela trouxe consigo, nas dobras das suas vestes de melancolia e já não a verão tão negra. As nossas mãos já lhe irão identificando as feições e os nossos ouvidos aprenderão a reconhecer os seus passos arrastados. O seu toque já nos será brando e doce, e a sua presença, prova de amor e promessa de serenidade. E entenderemos que somos ditosos por tê-la ao nosso lado, sempre, ajudando-nos a erguer todas as cruzes, mesmo aquela que lhe indicou o caminho para a casa lúgubre onde nos refugiamos, quando ela nos encontrou e entrou, sem bater, sem esperar que lhe abríssemos a porta. Entenderemos, sobretudo, que em algum ponto do nosso caminho fomos felizes – porque só se já tivermos sido felizes, nos calhará por companheira a Saudade. Para sempre, se a felicidade foi grande e a Dor maior. Ou até que a paisagem nos distraia, se a estação de rosas foi passageira e a continuação da viagem dispensar a sua sombra triste como companhia.

Num e noutro caso e em todos os incontáveis casos de permeio, a Saudade velará, atenta e pronta a coabitar connosco visceralmente, amando-nos na solidão e cuidando-nos na dor, com a ajuda do Tempo e da Serenidade. A nós, resta-nos amá-la e respeitá-la. Como se respeitássemos todas as árvores que nos crescem por dentro – e tudo o que elas nos dão, sem ruído nem lágrimas: sombra, flores, frutos, ar... As nossas cruzes, sim, também as nossas cruzes. Ah!... e ninhos. Esperança. E a seiva de que são feitos todos os sonhos.

 

Teresa Teixeira

 

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1.9.17

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Foto: Model – Engin Akyurt

 

Na cadência dos dias, não olho para trás com vontade de retroceder no calendário.

Quando digo isto, não raras vezes, alguém me devolve “Ah, pois, ainda não te bateu, foi isso… Quando te der, ainda vai ser pior do que a mim, vai ser assim, de repente, mas vai chegar, não tenhas dúvidas…”. Parece que esta coisa do envelhecer não está a funcionar comigo como “deveria”. Nunca senti “quem me dera ter vinte anos e saber o que sei hoje” – dizem-me ser o sinal inequívoco do “princípio do fim”.

Olho à minha volta, oiço os amigos, as meias conversas no café, no trabalho e nas ruas da cidade: depois de (in)determinada idade, um generoso número de pessoas parece abraçar um saudosismo doentio, repetido como um mantra, que as mantém reféns de memórias irrepetíveis. Como se cada dia mais nas suas vidas fosse uma sentença de morte e não uma bênção. Nem se dão conta do maior estrago de todos: na dormência autoimposta, perdido fica o dia de hoje e todos os que se lhe seguem, em nome dos dias idos. Das coisas mais tristes a que assisto. E eles repetem, “vai chegar, ah vai vai... Gostas de envelhecer, pois claro, andas é iludida… Olha que já não tens muito mais tempo para continuares a pensar que és nova e com saúde e que vais sempre viver com essa ligeireza…”.

Penso com frequência quando chegará o meu dia. O tal dia, o tal momento, em que também eu passarei a circular em sentido contrário na escada rolante. Mas ainda não chegou esse dia. Cada nova aurora impele-me a avançar, mesmo quando me levanto sem força para sonhar. Não olho para trás, não me dou a cenários do “…e se…”. Tenho outras formas de me atormentar mas, esta, não faz parte do meu cardápio. Sei hoje que existe uma lição a tirar e, consequentemente, uma aprendizagem de tudo o que já vivi. Até daquilo que quase me destruiu. Profunda gratidão pelas lições de vida que tenho recebido, mas a coisa nenhuma, boa ou má, eu gostaria de voltar. Nenhuma delas faria qualquer sentido hoje, por isso, não lhes dou muito tempo dentro de mim.

 

Quanto mais o tempo passa, quanto mais a minha consciência caminha a par e passo com o Amor-próprio, mais insuportáveis se tornam as relações de dependência que alimentei durante anos, com pessoas que nunca de mim cuidaram. Uma a uma, retiro-as da bagagem, sem as desprimorar, e permito-me caminhar mais leve. Fecho ciclos, deixo partir quem não está comigo por mim, mas porque precisa de mim. Gente que enaltece a minha força e a minha resiliência, enquanto cronometra o tempo que demoro a cair mas que, nas vezes em que me estendi ao comprido, não esteve lá para mim. É preciso deixar esse espaço, na alma e no coração, para aquilo que nos faz felizes, para aqueles que nunca de nós sairão, ainda que a vida os leve. Porque há gente verdadeira e integralmente insubstituível. Os que amo, nunca de mim partirão. É no amor sem fim que sinto a Imortalidade. É, com todos os que amo que hoje caminho, mais rica, mais forte. É por eles que faz sentido agradecer cada dia a mais que vivo.

Não tenho saudades de ninguém com quem ousei, um dia, sonhar construir uma vida porque o meu coração sabe que não era suposto acontecer dessa forma. Agradeço o que me foi dado mas não quero reviver nenhuma história. Entre uma ou outra página mais indigesta, folheio o livro da minha vida sem angústia ou saudosismos, sem sentir que “os melhores dias da minha vida já passaram” ou “se eu pensar neles até à exaustão, eles vão voltar“. Não os desejo de volta. Já vivi dias extraordinários, verdadeiramente mágicos, mas sinto que alguns dos melhores dias da minha vida ainda estão por acontecer. Cada dia tem sido único e irrepetível.

 

Tenho saudades daquilo que não vivi, das formas que encaixam em mim como uma luva mas que ainda não têm contornos definidos. Tenho saudade da essência da minha pele, antes da amnésia da educação. Isso a que chamais saudade, e que vos atira lá para trás, a mim move-me para a frente como uma catapulta. É ela que me guia, quando não vejo um palmo à frente do nariz, e me lembra o que é importante. Não tenho tempo para arrependimentos ou agonias prolongadas. Não posso caminhar para trás, já não sou a pessoa que um dia fui. Honro os dias que passaram, vivendo o dia de hoje com gratidão. É assim que descubro quem sou, nas nuances das pequenas/grandes coisas que tenho na minha vida, um dia atrás do outro.

Saudade é o que sinto aqui, agora, no alto desta montanha, abraçada pelo desconhecido e pelos sons da vida à minha volta. É este calor no coração, esta força que me faz fechar os olhos, abrir os braços ao mundo e sentir-me em casa, dentro de mim. Muitos dos meus dias serão vividos pela metade, soube-o à medida que a vida me foi levando os que amo. Sei também que nenhum dia vai sobrar no fim. É isto que a saudade me lembra. É isto que recuso esquecer.

 

Alexandra Vaz

 

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28.8.17

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Foto: Camera – Th G

 

Há momentos, generalizo assim porque acredito que acontece com toda a gente, em que não se sabe porquê, mas ficam-nos gravados para sempre, alguns constantemente, outros ativados de forma intermitente, de longe em longe. Momentos para os quais não é imediata a razão para tal distinção, de tão singelos, simples, vulgares que são. Haverá uma teia, de fios mais ou menos visíveis que resistem na memória, no tempo.

 

Há momentos em que é evidente porque os sabemos situar na circunstância, o quê, quem e onde. Usando as frases batidas e dependendo das idades de cada um: Onde estavas no “25 de abril”? O que fazíamos quando soubemos e percebemos o que estava a acontecer no “11 de setembro” em NY, nas torres gémeas...

Estes são tão chocantes, envolventes, positiva ou horrivelmente, que nem temos tempo ou capacidade para pensar que estamos com a História a passar frente aos nossos olhos e que nos vamos lembrar deles enquanto tivermos os nexos elétricos da nossa memória em funcionamento. Estamos, na ocasião, totalmente absorvidos, imbuídos daquilo que acontece e que, seja mais longe ou mais perto, nos toca, choca e espanta.

 

Depois há as situações que nos surpreendem, melhor, superam as expetativas elevadas para as quais vamos, ou então acontecem de imprevisto e que nos são tão agradáveis que nos fazem pensar de forma grata na vida, agradecer quem somos e com quem estamos. Perante elas e no seu decurso, como que parte de nós se destaca, para, observa, prenhe de satisfação, alegria, entusiasmo, olha para o “espetáculo” em cena e diz-nos: aqui está algo que vou gravar, mais tarde vou recordar, para memória futura!

Muitas vezes esta memória não permanece vívida, desvanece-se e não acontece o que nós prevíamos, o momento não se tornou, de facto, inesquecível.

Mas também são eles, o conjunto desses momentos, meio enevoados, que nos constroem, ligam os blocos que edificam a nossa vida, a argamassam.

É uma saudade, sem rosto, sem contornos ou com contornos difusos, indefinidos, mas sem a qual nós não seríamos integralmente nós. E, sim, a saudade é mais dos momentos felizes, de alegria transbordante, mas, com o longo prazo que já começo a experienciar, digo que também podemos ter saudade, sem ser incongruentes, de momentos tristes, infelizes. A vida é mais de emoções que de razões, será isso.

 

Eu sou a minha saudade (também pode ser no plural) mais o que me espera e procuro no futuro. Um filme, uma sequência de fotos, com muitos flashbacks, saudades, memórias.

 

Jorge Saraiva

 

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25.8.17

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Foto: Coffer - Anna

 

Ela vai e vem, percorrendo a nossa vida; é assim o movimento da saudade. Por ela somos levados ao passado, a um momento temporal determinado, que nos permite recordar o que de bom se viveu, ou do quanto se perdeu.

A saudade manifesta-se e sente-se no presente quando a memória a chama a si para fazer reviver o passado. É natural o despertar deste sentimento que nos revela, não raras vezes, uma reconfortante e suave melancolia dos gratos e felizes momentos vividos. Ela, que não deve ser obsessiva, é recorrente, na medida em que se repete, vai e volta, regressando sempre ao “baú” das nossas memórias.

Ela, a saudade, acaba por ser, principalmente, em finais de vida, a companheira mais fiel dos que não têm companhia e por isso, se refugiam num silêncio cúmplice. É nessa relação de cumplicidade, nesse estado de alma, em paz interior, que melhor se convive com a saudade. E é esta que nos ajuda a recordar o que de bom se viveu. Ora, como o diz o povo: “recordar é viver”, a que se pode acrescentar, quando há uma doce e inesquecível saudade, que, recordando momentos inesquecíveis, vive-se duas vezes.

 

José Azevedo

 

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23.8.17

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Foto: Playground - Maria

 

Para quê sentir vontade de reviver momentos que já não voltam, com quem já não se encontra fisicamente entre nós, em sítios que já não são os mesmos?

Este verão voltei à terra da minha infância.

O parque onde brinquei já não existe. Ficou apenas a área vazia de terreno. Os prédios enormes continuam lá, mas não vi ninguém, nenhuma criança a brincar ou a comprar um pacote de leite na loja do bairro. Onde estão? Elas devem existir pois, à janela daquilo que foi em tempos a nossa sala de jantar, estava um jovem a sacudir a toalha. Fitei-o, bem como ao interior da casa. Ele reparou e fitou-me. Mal sabe ele que ali passei toda a minha infância e adolescência. Que ali me chamavam aos berros quando era para ir almoçar ou jantar, depois de umas boas horas a brincar na rua sozinha com os meus 30 amigos do bairro.

Logo ao sair do carro, encontrei o Senhor da Padaria e a Mãe de uma das amigas. Iguais! Algo passou por ali, arrasou o parque mas deixou as pessoas iguais! “Os sobreviventes”, como o Senhor da Padaria disse.

Fomos convidados a visitar o centro comercial que, de dois andares de lojas, restam apenas três lojas abertas. Ao entrar no café, o Senhor do Café reconheceu-me e eu vi isso nos olhos dele. “Mal olhei para os teus olhos pensei: eu conheço aqueles olhos.”. Pois é... Há quem diga que pelos olhos se vê a alma e a minha alma é a mesma.

 

Tudo muda. As casas, as pessoas que lá habitam, a nossa estatura física, as pessoas que connosco convivem, a nossa própria família também muda. A alma não. O nosso interior e o que nos formou como pessoas, isso não muda. Já cá está carimbado e para sempre.

Depois de despedidas secas, vazias, lá fomos embora, com a sensação de que aquilo é uma realidade que já não existe pois o lugar é aquele, aqueles três comerciantes são os mesmos e penso que serão sempre, mas a vida real é outra. Serão eles os três anjos que nos fazem recordar o que nos tornou pessoas? Não estava mesmo lá mais ninguém...

Para quê saudades se a vida já não tem lugar? Nós fizemos desaparecer esse lugar...

 

Sónia Abrantes

 

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21.8.17

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Foto: People – Stock Snap

 

Chega-me com o perfume das noites quentes de verão, assim bem cheirosas porque plantas e flores, sem pudor, se despem das suas fragrâncias. Enchem o ar e levam uma direção. Não é um lugar qualquer aquele para onde vão ou de onde vêm e para o qual eu me deixo levar; é um lugar longínquo, mas que o cheiro a calor aproxima. Vou pela avenida junto ao mar até à Ponta Vermelha onde, por certo encontrarei alguém para uma partida no minigolfe. Desafio o vento que abana as palmeiras da marginal a fazer coisa idêntica nos meus cabelos, dou o exemplo passando os dedos pelo meio da cabeleira e levantando-a até ao cocuruto. A pele recebe uma lufada de ar e fica menos pegajosa, mas por pouco tempo. Repito o gesto vezes sem conta. Não está ninguém conhecido na Ponta Vermelha. Vou até à esplanada do Ciao. Peço uma cassata que não saboreio. Dizem que é dos melhores gelados da cidade, mas esqueço-me dele na taça de vidro; peço-o porque faz parte do ritual. O calor deforma-o rapidamente e a bola colorida passou a um líquido de qualidade duvidosa. Vão chegando amigos e com eles as histórias que têm para contar. O Dr. Óscar Monteiro é dos mais eloquentes a contar as peripécias de médico do antes e pós-independência. O humor que empresta aos dizeres faz do nada uma boa conversa. Tive notícias de que morreu, e que outros também já partiram. A bola de gelado não voltará a derreter à espera dos meus amigos e eu, mesmo querendo – e como quero – não conseguirei devolver à esplanada do Ciao a vida de outros tempos.

 

Chega-me com o pão quente pingado de mel. Fino e transparente, cor de ouro, combinado com o pão acabado de sair do forno, faz da simplicidade um manjar de réis. Nunca se esquece de, em cada fornada, fazer um pão pequeno só para mim. Ouço-a dizer com carinho: “uma bolinha pequena para gente pequena”. Querida avó, que bem que me sabia esta e tantas outras das tuas atenções. Como gostaria de poder dizer-te o quanto admirava essa tua magia de mimares tanto com tão pouco.

 

Chega-me com o choro dum bebé. Sinto nos braços o teu corpo frágil abandonado aos meus cuidados e na ponta dos dedos o toque da tua pele macia. O prazer de me entregar ao papel de mãe foi muitas vezes abafado por receios e dúvidas. Gastei as páginas do “Meu Filho Meu Tesouro”, de Benjamin Spock, na tentativa desesperada de aprender a educar. Hoje, teria mais serenidade e saberia retirar mais gozo dessa nobre função. Mas, a falta de experiência de então, não rouba o carinho com que recordo essa nossa fase de crescimento, tua, na direção da infância e da adolescência, minha, na direção da maturidade.

 

Chega-me com o abraço que me dás. Cativaste-me assim, num abraço sentido.

 

Chega-me com as inquietações amargas do passado, com a solidão, a alegria e a tristeza do presente, com as fantasias do futuro.

 

Chega-me com a perda de conhecidos, amigos e familiares.

 

Chega-me com pormenores que, de tão insignificantes, só não escapam aos meus sensores.

 

Chega-me do nada e sem saber porquê, mas agora e sempre, rendo-me a este abusivo e posseiro sentimento de saudade.

 

Cidália Carvalho

 

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18.8.17

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Foto: Girls – Cheryl Holt

 

Lembro-me de a ver na piscina quando era pequenina; de interceder a nosso favor para podermos sair de casa; de pedir chocolate à mãe para todas; dos momentos em que contava aos pais as nossas aventuras de adolescentes na ausência deles; do cheiro; da saia curta castanha e top amarelo que a faziam ainda mais bonita; do beijo carinhoso; de a ver comer, elogiar e criticar negativamente a comida (não gostava de empadão); do boneco que tratava como se fosse seu doente e das receitas de ben-u-ron que lhe prescrevia numa folha de um bloco A5; de a ver por a mesa com toda a parcimónia; das canções que cantava num inglês imperfeito (gostava da Tina Turner); da sua memória impressionante; da palavra frigorífico, entre outras, que não conseguia pronunciar bem; dos momentos da sua higiene, que inicialmente fazia sozinha, acompanhados de todos os cremes; de debitar a programação da televisão como se estivesse a ler por qualquer lado; dos elogios que nos fazia quando estávamos “bonitas”; dos pedidos que fazia à mãe para lhe dar um cafezinho; da cumplicidade com o pai e a mãe; da felicidade que demonstrava quando chegávamos ao fim de semana… Até tenho saudade dos momentos tardios mais agressivos, mas inconscientes. Já lá vão alguns anos e, neste momento, restam as recordações e a saudade (a saudade eu não sei definir). É assim…

 

Ermelinda Macedo

 

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16.8.17

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Foto: Womens – Engin Akyurt

 

Saudade. Uma mera palavra, plena em substância. Uma palavra tão nossa, tão lusitana. E essa portugalidade inerente é transposta para o mundo, refugiando-se nos recantos das almas humanas, além-fronteiras. Ela sussurra-nos baixinho aquando o repassar das memórias de outrora que marcaram a existência, crescendo connosco e com todos aqueles e tudo aquilo que é parte de nós.

E se um pedaço se arranca ou o tempo avança, albergando vazios na sua travessia, a saudade aflora, relembrando-nos que os sabores agridoces que a vida apresenta são porção inevitável do caminho. Sinais inequívocos de que algo de positivo ocorreu, de que algo ou alguém importou, e isso nunca se perderá. Não na essência, no conteúdo… Só na forma. Serão tesouros guardados, a todo momento passíveis de serem resgatados.

E no decorrer da vida que sempre seguirá, naqueles instantes em que se desvanecem as barreiras e se denunciam as fragilidades, ali estará a saudade, bem ao lado do coração, lembrando que o que houve será pilar para o que haverá.

 

Sara Silva

 

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14.8.17

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Foto: Birdie – Shakti Shiva

 

- Eu tenho sempre os mesmos pesadelos, que se repetem noite após noite numa sequência que não tem fim. E por vezes volto a eles durante o dia, como se o pesadelo continuasse quando estou acordado, como que tomando conta de mim, por inteiro.

Rodrigo parou e pousou o olhar sobre a mesa, mesmo ao lado do novo copo de cerveja que o empregado trouxera uns segundos antes.

- E sonhos? Tens sonhos?

Juliana procurou assim abrir uma porta, uma janela, qualquer espaço que fosse permeável à luz, na tentativa de aliviar o semblante de Rodrigo.

- Não! Quer dizer, dos sonhos e dos pesadelos só temos as memórias que se agarram a nós, atravessam a noite e acordam connosco, coladas por dentro. Desde que esta sequência de pesadelos se iniciou, não tenho memória de qualquer sonho, não sei se sonho ou não, sei que não tenho memórias desse tipo.

- Mas, de que matéria são feitos os teus pesadelos?

- Em verdade, não sei do que são feitos, mas fazem-me viver atormentado.

- Mas isso é terrível! Conta, por favor!

Rodrigo suspirou, pegou no copo e bebeu dois longos golos. Pousou os braços sobre os braços da cadeira.

- Como expliquei, são uma sequência, todos os dias é um e apenas um, mas sucedem-se e repetem-se. Quando chega ao último, volta ao início; mas a sequência não é sempre a mesma, ou seja, de uma série para a outra, alguns pesadelos trocam de posição na sequência.

Juliana assentia com a cabeça, completamente focada nas palavras de Rodrigo, que continuou:

- Num deles fico desempregado. Chego pela manhã à escola e o diretor chama-me ao gabinete, onde já estão alguns dos meus colegas e o meu avó paterno a cofiar o longo bigode e com um sorriso (ele nunca sorria). E o diretor despede-me porque não preenchi uns formulários e preenchi outros de forma indevida ou errada. Eu saio do gabinete do diretor e estou de imediato no cimo de uma falésia, com sol mas vento forte. Sinto-me humilhado, com vergonha e com medo de cair ao mar.

- E é tudo?

- Sim, neste é tudo. Num outro, regresso a casa depois das aulas e ao entrar na rua, um colega da escola primária, que não vejo há mais de quarenta anos, mete-se à frente do carro (eu vou sempre a pé para a escola que fica a dois quarteirões) e grita que eu não deveria estar ali àquela hora. Continuo e quando chego à minha casa, que é uma moradia (eu moro num andar), vejo que ardeu, completamente. As pessoas passam na rua, indiferentes. Fico no carro a chorar, a pensar onde irei dormir, onde irei morar, como me arranjarei sem as minhas coisas, e reparo que do céu caem um paralelepípedos de pedra, gigantescos, cada um com um cordel enrolado à sua volta e que se vai desenrolando à medida que a pedra cai. São muitas destas pedras que caiem do céu ao mesmo tempo e eu tenho medo que uma delas me esmague dentro do carro, mas as pedras estão sempre a cair, a desenrolar o cordel e, de facto, não vejo nenhuma delas a chegar ao chão.

- E mais?

Juliana engole em seco.

- Num terceiro, está um tipo de fato e gravata, penteadinho, numa espécie de palco que apenas tem lugar para ele, com um microfone à frente, e ele diz: “Nesta tragédia, houve pelo menos uma dezena de pessoas que se suicidaram enquanto tentavam fugir, por não o conseguirem fazer, encurralados pelas chamas!”. Um outro, vestido e penteado como o primeiro, chega junto deste como que a voar, pois não tem palco, chão, para ele e diz-lhe ao ouvido, mas eu ouço, pois sou o único a assistir: “Sr. Primeiro-ministro, peço imensa desculpa mas, afinal, essa notícia não se confirma. Parece que morreram todos queimados a tentar fugir. Peço imensa desculpa.”. O que fazia o discurso diz então: “Porra, não me chame isso que já não sou! Oh Lopes, mas isso é uma merda, homem! Nem um suicídio… pequenino? E agora?”. O outro já lá não está. Então o discurso continua: “Portuguesas e portugueses, tenho de corrigir a informação que acabei de dar, pois afinal parece que não houve suicídios. Mas a culpa não é minha, é ali do Lopes, um tipo que até agora sempre mereceu a minha confiança. A culpa é dele; deve estar vendido ao governo. Eu sou responsável e, quando é preciso, dou a mão à palmatória.”. E aponta para mim e há minha volta está agora um mar de gente a olhar para mim e a gritar: “O Lopes é um traidor! Suicídio já!”. E eu deixo-me cair de joelhos e sinto-me culpado e com medo da multidão em fúria.

- Chamas-te Lopes?

- Eu não.

- E há mais?

Com a pergunta, Juliana avançou um pouco mais para Rodrigo, que em sua defesa bebeu mais um golo de cerveja.

- Neste, estou amarrado numa cadeira frente a uma televisão e só consigo mexer o indicador direito que tem ao seu alcance o botão que permite mudar de canal. Na televisão está a dar um programa daqueles de comentários aos jogos de futebol, com cobertura total e completa, antes, durante e depois do jogo, e eles dizem sempre as mesmas coisas e eu mudo de canal e é outro programa idêntico ao anterior, e volto a mudar de canal e é outro programa idêntico. A televisão tem 250 canais, ou melhor, 125 normais e 125 em réplica HD, todos a darem programas daqueles. Não me consigo libertar, não consigo respirar, sinto muito medo de perder a capacidade de pensar.

- Terrível!

Juliana acomodou-se melhor na cadeira.

- Noutro, estou a ler o jornal, que não tem letras, nem imagens – só o cabeçalho e folhas em branco, e ouço no rádio que o meu neto está desaparecido, que há suspeitas de rapto. Pouso o jornal e estou no centro de uma cidade antiga. Começo a correr pelas ruas estreitas e cheias de pessoas, procurando o meu neto, e à medida que corro as ruas vão ficando cada vez mais estreitas, até que já não consigo progredir pois a distância entre as paredes, ou seja a largura das ruas, é tão pequena que não consigo passar. Então paro e junto a mim, na montra de uma loja, está uma televisão ligada e aparece uma senhora, líder de um partido, que diz com ar grave: “A culpa do desaparecimento desta criança é do ministro da agricultura e eu, em meu nome pessoal e do meu partido, exijo que o ministro assuma as suas responsabilidades e se demita.”. Ao lado dela, um jornalista pergunta: “Mas doutora, os ministros não são nomeados para resolverem os problemas quando eles surgem? Se ele se demitir, quem assumirá a responsabilidade de resolver o problema?”. E ela irritada: “No limite a responsabilidade é do Primeiro-ministro que o nomeou. E nada mais tenho a declarar. Boa tarde.”. E eu sinto medo de perder a minha família e ninguém me ajudará a procurá-la.

- E ela vai embora sem dizer mais nada?

- Sim, e a notícia seguinte é a mesma senhora na abertura de uma feira de kiwis.

Juliana ergueu o braço e pediu mais uma cerveja e um pratinho de tremoços.

- Este último é o único que tem variantes, mas o conteúdo é sempre o mesmo. Por regra é um tipo grande e largo, vestido com um daqueles fatos integrais dos bebés, e com o cabelo cor de laranja que está a falar a uma multidão, tipo comício e diz “Os perigos são enormes, é um enorme pesadelo, mas eu irei proteger-vos sempre, protegerei sempre o meu povo dos inimigos externos, fanáticos e cruéis!”. E a multidão rejubila de alegria. E eu fico cheio de medo que venham estrangeiros e me matem. Fico com ódio aos estrangeiros.

- E quais são as variantes?

- Umas vezes é o tal tipo de cabelo cor de laranja, vê só… Outra vezes é um tipo com um fato de bebé igual ao do anterior, com o cabelo rapado dos lados e atrás e grande em cima, que dá muitos saltinhos quando fala. Outras vezes, é um tipo de barbas brancas, com uma veste comprida e larga, preta, e um turbante branco. Outras vezes é um tipo com um bigode forte, preto que fala em espanhol e tem um passarinho numa janela. Outras vezes é o tipo dos suicídios, que não fala como os outros – canta, mas este acrescenta sempre: “Mas se forem trabalhar lá para fora, para o estrangeiro, verão que nada de mal vos acontecerá.”. E eu fico com medo de sair do país.

- E é tudo?

- É. O que achas disto?

- Não sei o que diga…

Juliana e Ricardo ficaram em silêncio a observar o largo à sua frente, cheio de “populares”, enquanto eram sobrevoados por dois “meios aéreos”.

 

Fernando Couto

 

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9.8.17

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Foto: Alone - Barn Images

 

Qual foi o seu maior pesadelo? Você se lembra?

Comigo já aconteceu de ter um pesadelo brutal, daqueles em que acordamos transpirando, com o coração acelerado. Demorou um pouco para eu me recompor. E o pior é que mesmo depois de algum tempo acordada, ouvindo o barulho do vento a soprar com violência e o despencar das folhas das árvores, eu voltei a dormir. Dormir e sonhar (afinal um pesadelo nada mais é que um sonho; mal sonhado). Voltei a sonhar com as mesmas coisas que me fizeram acordar encharcada de suor. Era uma sensação ruim, como se eu não conseguisse respirar, talvez. Acho que não conseguia enxergar, faltava-me ar e pouco via, andava tateando, tentando desviar, tropeçava, acabava no chão. Sozinha, sem conseguir enxergar. Não sei quanto tempo durou esse sonho-pesadelo. Me pareceu uma eternidade.

 

Quando acordei pela amanhã, abri os olhos e tudo estava como antes. O sol a brilhar pela janela nos primeiros raios do dia. As gaivotas a grasnar, o mundo como eu conhecia, estava em seu lugar. Que sorte a minha. Tudo não passara de um sonho ruim. Retomei os meus afazeres diários um pouco mais feliz que um dia normal, mas fiquei a pensar naqueles que não tiveram a mesma sorte. Que por um infortúnio da vida, deixaram de ver, de andar, mas ainda assim não deixaram de viver.

 

Leticia Dumas

 

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7.8.17

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Foto: Girl – Claudio Scott

 

Numa luta contra o tempo acelero ao máximo tentando chegar mais depressa do que o relógio ameaça. Previsivelmente, todos os lugares de estacionamento mais próximos estão ocupados e, claro, lá tenho que voltar a estacionar numa curva de interseção entre duas ruas – sempre a desafiar o código da estrada (ousadias que já me valeram umas multazitas, um reboque e tal).

Num passo saltitante sobre o tacão alto (que jeito me faziam agora as sapatilhas!), que é um misto de elegante com desesperada, lá chego à empresa: 09h02! Vá, que até não foi mau! Não consigo perceber porque é que ando a levantar-me cada vez mais cedo e continuo a chegar atrasada!! Quer dizer, perceber, até percebo. Aquela miúda… Porque quer mais um abraço, e porque quer um bocadinho de colo, e porque deixo ficar-me a saborear umas beijocas tão boas, e porque ela tem sempre tanto para me dizer enquanto toma o pequeno-almoço… Amanhã vou pô-la em sentido!

 

Inicio no habitual e delicioso ritmo frenético da rotina laboral e, de repente, quando estou a ler um e-mail daquele Cliente que muda de ideias como quem muda de camisa, pouso o queixo sobre a mão e… Horror! Estou a senti-lo! Enorme, grosso e – imagino – mais negro que o tom de preto mais preto, um pelo no queixo!!!! Começo imediatamente numa demanda por toda a área queixal a identificar outros invasores pilosos e… sim, parece-me que, mais um, NÃÃÃOOOO!!

Mas como é que eu nunca me apercebo disto em casa?! É claro que não me apercebo porque em casa eu paro lá a pousar o queixo sobre a mão! Em casa as mãos andam sempre cheias de roupa ou alimentos, ou filhos, ou…

“Bem, esquece isto que agora tens que trabalhar.” Mas estar a trabalhar temendo que, a qualquer momento, alguém me encare e veja que estou a tentar competir com a barba do patrão… Discretamente, disponho o polegar e o indicador em forma de pinça e enceto tentativas enraivecidas para tentar arrancar um dos usurpadores… em vão!!

 

O dia lá passa e, horas depois de chegar a casa, munida de pinça e espelho encarrapito-me sobre o candeeiro da mesinha de cabeceira. O cenário é ainda pior do que eu imaginara: o meu queixo está a ser conquistado e eu quase pareço a minha avó octogenária – mas ela tem uma boa desculpa!

Enquanto arranco minuciosamente estes espetos negros do rosto, não consigo evitar um suspiro de angústia. Andar minimamente arranjada, ter a casa minimamente organizada, ter sempre ideias minimamente saudáveis para as refeições diárias (e tempo para as concretizar!), dar alguma atenção aos filhotes e ao marido, atualizar-me sobre a minha profissão para levar ideias frescas e boas para o trabalho… Como é que faço tudo isto em 24 horas (e abdicar de dormir as minhas 7 horitas diárias não é uma possibilidade)?

Termino a tarefa e dou uma espreitadela rápida às sobrancelhas que também estão a precisar de um arranjo; mas ainda se aguentam mais uns dias.

Tenho que ir surfar na minha tábua de passar a ferro porque a miúda amanhã tem um passeio e tem que levar o uniforme. E ainda tenho que magicar o que lhe vou preparar para o almoço partilhado...

 

Sandrapep

 

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4.8.17

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Foto: Hand – Gerd Altmann

 

Por vezes acontece um bloqueio face ao tema que é proposto e desta vez tal sucedeu. O significado de pesadelo é para mim demasiado lato para que tivesse conseguido, assim repentinamente, descortinar uma linha de orientação para o que fosse escrever. Assaltaram-me várias ideias, todas elas com um cariz negativo e, algumas, com uma nota vincadamente trágica.

Perder um filho. Pesadelo.

Perder a casa. Pesadelo.

Perder o emprego. Pesadelo.

Perder, perder, perder. De repente temos que o pesadelo já não toca no domínio do sonho. Dos monstros que nos perseguiam à noite e que nos obrigavam a esconder a cabeça debaixo dos lençóis e por vezes gritar pela mãe ou pelo pai.

Agora, para nós, outrora crianças, os pesadelos tornaram-se sérios. Demasiado sérios para passarem com o embalo carinhoso e um “Chiu, dorme bem meu amor. Foi só um sonho mau”.

 

Agora, que somos grandes, os pesadelos escaparam da noite. Quando surgem atacam indiscriminadamente e não olham a horas. Nem onde estamos, nem com quem estamos. Os monstros de outrora podem agora ser um chefe. Ou um colega de trabalho, um vizinho ou um familiar. Os monstros nunca foram O pesadelo, mas sim o instrumento do mesmo. Agora não é diferente.

O chefe que nos persegue. Pesadelo.

O vizinho que não nos dá descanso. Pesadelo.

O irmão que nos quer mal. Pesadelo.

Contudo, acredito que o instrumento mais recorrente do pesadelo tem o nosso rosto. Os rostos que chegam às consultas. Os rostos que anseiam por respostas a questões que, por vezes são mal colocadas. O pesadelo do descontrolo emocional. O pesadelo do abandono daquilo que já foram. O pesadelo do que outrora foi e que amanhã talvez possa já não existir. O pesadelo da culpabilidade. O pesadelo de não haver um rumo. O pesadelo de “não saber o que se passa comigo”.

Filhos, casas, empregos, chefes, vizinhos e familiares. Tudo são elementos externos. Não são o nosso núcleo, a nossa identidade, a verdadeira raiz da existência individual. Muitas das vezes perdem-se e perdem-se sem termos controlo sobre o acontecimento. Acontece o luto, a dor, o questionar, a revolta. Contra Deus, o chefe, o irmão ou o universo.

 

E quando nos viramos contra nós? E quando já não nos reconhecemos como somos? E quando já não gostamos do que vemos ao espelho? Enfim, quando somos nós o instrumento do nosso pesadelo?

 

Rui Duarte

 

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2.8.17

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Foto: Weapon – Michal Jarmoluk

 

“A História é um pesadelo do qual tentamos acordar.”

James Joyce (romancista)

 

Pesadelo... E a primeira visão mental que faço é das noites em que rebolei de forma incessante entre os lençóis de meu leito pelas mãos deste instrumento cerebral de alerta máximo de stress, tal chaleira ao lume gritando para que a desliguem. Haverá contudo uma visão de pesadelo aplicada à existência humana. É nesta que me centro.

 

Sigo as palavras de James Joyce. Que pesadelo poderá ser mais assustador que aqueles que vivemos durante o sono e logo sentimos o alívio de fazer apenas parte de um Mundo imaginário, se não aqueles aos quais não podemos mais fugir? E que vêm de encontro a nossos olhos, através das notícias, a diário? Vivemos um Mundo de pesadelos. Pesadelos reais. Fome, guerra, corrupção, um sem fim de crimes contra a humanidade das mais variadas espécies, cometidos sobe as mais variadas formas e feitios.

 

Seu antônimo... O Sonhar, torna-se pois antídoto crucial, essencial para a luta contra os pesadelos da humanidade que são sim, ao revés dos pesadelos reflexos do viver de cada um e daquilo que nos perturba a alma individualmente, um mal geral que nos atinge sem distinção. Uma espécie de pesadelo-lei que é para todos. Como tal cabe a todos nós sonhar em união para que possamos pois acordar sem pesadelos da História, num futuro que começa agora.

 

Landa Cortez

 

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31.7.17

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Foto: Portrait - Catharina Rytter

 

Pesadelos são sobretudo medos que nos perseguem, alguns nunca acontecem, outros acabam por realizar-se e percebemos que afinal não é assim tão trágico, porque esse pesadelo-medo é enfrentado e desvanece, mas há também aquele pesadelo que se realiza inevitavelmente. Foi o que me aconteceu há dias.

 

Lembro que a primeira vez que presenciei um funeral, tinha aí uns catorze anos, foi porque cismei que tinha que acompanhar o meu Pai, como de resto fazia em quase tudo, não só porque se tratava de um amigo da família, mas também porque queria perceber que ritual era aquele do qual as crianças eram banidas. É claro que me comovi, primeiro porque conhecia as pessoas envolvidas, depois porque a descida do caixão à terra impressionou-me, mas o que mais me marcou, foi perceber que um dia seria, inevitavelmente, o funeral do meu Pai, e isso aterrorizou-me. Durante anos, em todos os funerais a que assisti, na minha cabeça passava uma espécie de mantra: “Ainda bem que não é o meu Pai. Ainda bem que não é o meu Pai. Ainda bem que não é o meu Pai.” Confesso que apenas em uma ou duas ocasiões, por estar tão toldada pela dor, esse mantra não soou na minha mente.

Esta semana, o meu maior pesadelo aconteceu. O meu Pai deixou-me. Depois de ultrapassar quatro internamentos nos últimos meses, partiu pacificamente durante o sono, numa tarde de sol. Partiu como viveu: cheio de luz em volta. Minutos antes, deu-me o privilégio de deixar-me despedir dele, de lhe dizer que aceitaria quer decidisse ficar ou partir, disse-lhe que o que eu gostava dele cá, seria quanto eu iria gostar dele Lá. Pude, acima de tudo, dizer-lhe mais uma vez que se tivesse sido eu a escolher o meu Pai, o teria escolhido a ele, e que ser sua filha é o maior orgulho da minha vida. E acreditem que, apesar do momento de dor, para mim, foi uma honra estar ao seu lado quando decidiu caminhar em direção à Luz.

Inevitavelmente, um dia depois, dei comigo numa missa, agarrada a um cachecol do Salgueiros e a olhar para o meu Pai, sereno, que muito provavelmente estaria a cantarolar o “Não venhas tarde” que era o que ele sempre fazia quando queria gozar com alguém. E o meu Pai definitivamente gozaria com aquele padre… Depois, lembrei-me de uma crónica do Lobo Antunes sobre a morte do seu pai e, tal como ele afirmara na altura, também a mim só me apetecia gritar “Isto Não é o Meu Pai!”. Até que foi hora de chegar uma dor excruciante quando percebi, ali, agarrada àquele corpo inerte, que nunca mais abraçaria o meu Pai; dessa sensação nunca irei esquecer-me. Nesse momento, uma voz Amiga veio sussurrar-me ao ouvido qualquer coisa como: “Lembra-te que um dia o teu Pai também teve que te deixar ir, para viveres a tua vida, agora és tu que tens que o deixar ir a ele, para viver na Luz”.

 

Ser filha do meu Pai significa o mundo para mim: nasci de semente tardia, os meus pais já estavam praticamente nos quarenta anos, o que na altura já era considerado tarde, por isso, por brincadeira, o meu Pai e os seus amigos diziam que eu era sua neta – a Neta do Bessa – chamavam-me eles. Ainda hoje não sabem o meu nome. Tive o privilégio de ser a sua grande companheira e de o acompanhar para todo o lado, até praticamente aos 21 anos. Foi pela sua mão que fui pela primeira vez a Vidal Pinheiro, ver o clube que acabaria por se tornar a grande paixão da minha vida – porque era o clube do meu Pai, obviamente, e também porque me ensinou sobre a humildade de aceitar as derrotas e sobre apreciar as vitórias.

Uma das coisas mais fascinantes no meu Pai, é que tendo ido para a guerra colonial logo em 1961, onde assistiu a cenas inenarráveis, quando falava de Angola, tinha um brilho nos olhos indisfarçável. Contava-nos sobre a beleza daquele país e de Luanda em particular, e das suas aventuras futebolísticas, mas sempre nos poupou aos horrores a que assistiu.

O meu Pai era um homem de trabalho, não era um homem de grandes conversas profundas, ensinou-me mais com o exemplo da sua conduta do que com falinhas meigas. Uma coisa que eu também adorava nele era o orgulho com que ele falava no seu trabalho, nas casas que construía e, quando me levava a conhecer as suas obras ao domingo de manhã, eu sentia-me tão vaidosa, meu Deus, como eu me sentia vaidosa…

 

É claro que nem sempre foi fácil ser filha do meu Pai, não lhe foi muito fácil perceber que eu tinha crescido e que tinha direito a fazer as minhas próprias escolhas, mas com isso sei que conquistei o seu respeito. Muitas vezes fazia questão de me levar às festas, a mim e à minha melhor amiga, “para ver o ambiente”, ou então aparecia de surpresa para ver se estava tudo nos conformes, e sair à noite com os amigos, nem pensar! Claro que dava comigo em doida, mas hoje até disso tenho saudades.

Haveria milhares de coisas a contar sobre o meu “Herói de olhos verdes”, mas fico-me por aqui, porque neste momento o pesadelo que se abateu sobre mim não tem jeitos de se desvanecer, talvez um dia eu consiga ver através da névoa, ou pelo menos fingir que consigo ver, porque se há coisa que a vida me ensinou a construir, foi uma bela fachada. Agora só me apetece gritar, gritar muito e dizer palavrões, apetece-me apontar uns e outros na rua e dizer-lhes cara a cara que eles é que deviam ter morrido em vez do meu Pai. Sinto um grito preso na garganta que me asfixia, e visto-me de cinismo. Literalmente.

 

Nestes últimos dias não paro de me lembrar daquela ocasião em que fui com o meu Pai à bola, nesse dia foi também o meu cunhado. Foi um Salgueiros-Belenenses, num glorioso domingo de Vidal Pinheiro e na confluência da saída do estádio, vinha eu toda animada e distraída a falar com o meu Pai e, como habitualmente, dei-lhe a mão. Só que não era aquela a sua mão. O meu Pai tinha um aperto forte e uma mão áspera e calejada de pedreiro, aquela mão não tinha expressão nenhuma. Entrei em pânico à procura do meu Pai e logo percebi que eles estavam a atrás de mim, a rirem-se divertidos, tal como o senhor a quem eu tinha dado a mão: “Bessa olha, a tua neta quer ir comigo para casa!”. Isto foi numa fração de segundo, foi tempo de dar a mão e olhar para trás, mas foi o suficiente para nunca mais me esquecer do susto que foi não encontrar o meu Pai e sentir-me perdida. Eu saberia ir a pé para casa, se preciso fosse, saberia ir pedir ajuda a um polícia, sabia onde estava o carro, mas queria encontrar o meu Pai. É assim que me sinto nos dias de hoje: perdida. E hoje não há um polícia que me possa valer e nem sequer me adianta ir a pé para casa. O meu Pai morreu, partiu, deixou-me, e eu não consigo aceitar que nunca mais o verei.

 

Ana Bessa Martins

 

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28.7.17

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Foto: Girl – Jerzy Górecki

 

Um pesadelo é um sonho assustador que pode causar ansiedade e sensações muito desagradáveis. Mas também designa, na linguagem corrente, algo “que nem em sonhos” gostaríamos que nos acontecesse.

 

Foi nesta linha de pensamento que resolvi questionar algumas pessoas com que convivo sobre qual seria o seu maior pesadelo. Tive respostas diversas, desde ficar na falência, ficar sem caminhar, perder o juízo, ficar na solidão, etc. Mas a resposta mais comum foi perder alguém que se ama.

Interessante, porque aqueles que disseram que o seu pior pesadelo seria perder uma pessoa amada, são precisamente aqueles que nunca têm tempo para estar com quem amam. Porque trabalham, porque viajam, porque nunca pensam que realmente o tempo tem um fim. Então, um pesadelo, seja um sonho ou apenas um medo aterrador, pode ter um lado muito luminoso. Lembra-nos o que não se pode controlar. Mas mostra também o que se pode fazer para minimizar o efeito.

 

Um professor que tive há muitos anos dizia: “Onde está o teu pior medo? Ali? Então é nessa direção que tens que ir.”. O pior pesadelo poderá ser olhar para o passado e saber que se podia ter feito diferente.

 

Sara Almeida

 

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26.7.17

Camera-StaffordGreen.jpg

Foto: Camera – Stafford Green

 

Saíra do trabalho por volta das dezoito horas. Naquele dia, dispensara o autocarro. Preferira o caminho a pé. Olhos haviam em todo o lado. Mesmo a pé, caminhando sozinho, não descurara os seus cuidados. Mas, naquele momento, achara que era mais prazeroso ir assim consigo mesmo e com os seus pensamentos. Permanecera fechado num cubículo durante horas. Achara que, naquele dia, merecera apreciar a brisa fresca do final daquela tarde, ainda quente, de outono.

Apesar do final de dia agradável, a cidade era negra, impregnada com cheiros descaraterizados, cinzenta e fria, tal como as pessoas. Os transeuntes, anestesiados para o mundo, indiferentes ao que se passava ao seu redor e cabisbaixos, percorriam aquelas ruas todas iguais. E era exatamente isso que se pretendia. Afinal, olhos haviam em todo o lado.

Não sei por onde vagueavam os seus pensamentos, a sua expressão mantivera-se inalterada durante todo o percurso. Imagino, apenas, que a cada passo que dava sentira-se um pouco mais perto de si e de quem era.

Chegara, por fim, a casa. Subiu as escadas do prédio, as chaves do apartamento já iam na mão. Fez uma pausa, suspirou e rodou a chave na fechadura.

Era um apartamento modesto e cinzento, tal como o resto da cidade, primado pela limpeza e pela organização. Tinha apenas uma divisão e uma pequena janela, que não deixava entrar muita luz. Ao fundo do lado esquerdo encontrava-se a cama; olhando para o lado direito tinha a cozinha e a mesa de jantar.

 

Ao entrar em casa, ligara logo a televisão, que se encontrava no centro da única divisão da casa. No mesmo canal de sempre e com programação, digamos, seletiva. O alerta passara, agora, para o nível máximo. Os cuidados com os gestos, movimentos e expressões redobraram e a anestesia voltava o fazer o seu efeito.

Tirou do mini frigorífico as sobras do jantar do dia anterior e saboreou-o com o gosto amargo de quem sabe que até isso é controlado. Lavou a loiça, pois impecavelmente limpo e organizado era ordem, e preparou-se para dormir.

Deitou-se olhando para o teto com a indecifrável expressão que o acompanhara sempre. Adormeceu, enfim. Era no son(h)o que começava realmente a viver, livre. Amanhã, quando acordar, a anestesia voltará a fazer o seu efeito.

 

Sandra Sousa

 

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24.7.17

Humanitarian-aid-Skeeze.jpg

Foto: Humanitarian-aid - Skeeze

 

“- Anda daí!”.

Uma mão luminosa e transparente estende-se na minha direção. Elevo o olhar, um ser com uma luz esbranquiçada e figura humana que mais parece um holograma, faz um pequeno aceno com a cabeça, incitando a que eu lhe pegue na mão translúcida. Subitamente, de mãos dadas, sinto o meu corpo ficar suavemente mais leve, como se eu me transformasse num ser de energia translúcida como aquele que me levava.

Refeita da surpreendente transformação que vivia, contemplo do espaço a cidade iluminada, os pontinhos alinhados da iluminação das pontes sobre o rio. O nosso voo etéreo desacelera e sobrevoamos o centro do país. Longos troncos inertes elevam os seus ramos negros aos céus como preces. Sinto o cheiro intenso da morte e das cinzas. Estranhamente ecoam na minha cabeça os lamentos de dor daqueles que tudo e todos perderam.

Aquela mão abruptamente puxa-me acelerada. Agora sobrevoamos o Atlântico em direção a sul. Aquele ser transparente mostra-me agora os milhares de refugiados que mal sobrevivem nos Camarões, fugidos das atrocidades que viveram na República Centro-Africana.

Mais a sul, vejo uma adolescente a ser mutilada, privada de todos os prazeres sensoriais. Com o choque o meu corpo torna-se pesado, materializando-se.

Mas um novo impulso do ser de energia que me leva, transporta-nos a Moçambique. O meu coração despedaça-se de dor ao sentir o pavor dos albinos que são sequestrados e assassinados a troco de dinheiro para alimentar crenças e abomináveis ambições.

Novo voo à velocidade da luz. Consigo vislumbrar um bote de borracha no Mediterrâneo. Sobrelotado. Novamente ecoam na minha cabeça, o choro dos bebés, ressoam em mim os pensamentos, receios, expetativas dos que vão em busca da paz, de sobreviver na Europa.

 

Um calor febril invade-me. Os cabelos húmidos colam-se ao rosto e à almofada. Acordo angustiada. Sento-me na beira da cama. Mãos na cabeça, curvada sobre mim, repito monocórdica, “- Que pesadelo! Que pesadelo!”.

Delicadamente materializa-se na minha cabeça uma voz inaudível.

- Pesadelo? Não! Realidade! A tua realidade! A realidade do teu mundo! E agora, o que vais fazer? Ficar indiferente?

 

Tayhta Visinho

 

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