14.6.17

Headache-DarwinLaganzon.jpg

Foto: Headache - Darwin Laganzon

 

A última recordação que tenho é de estar deitado, na minha cama, a contemplar e a olhar o teto, enquanto a luz do sol espreitava por entre os buracos da persiana. Não estava mais ninguém em casa. Só o silêncio que lá mora e eu. Um momento apenas interrompido pelos pássaros que chilreavam lá fora e pela passagem de um ou outro carro que seguia o seu destino. E eu ficava ali… estava naquela serena tranquilidade.

Fechei os olhos e as vozes começaram pouco tempo depois. Primeiro, ao longe. Quase como um murmúrio. De seguida, aumentaram de intensidade, mas não de sentido. Não era a voz de um anjo e de um diabo, como naqueles típicos dilemas. Era pior do que isso: eram vozes de pessoas, que surgiram, de repente. Apareceram sem serem convidadas, simplesmente.

 

A partir daí, a clareza deixou de fazer parte da minha realidade. As vozes não paravam de me dizer o que devia dizer, davam-me ordens, falavam por mim. Em momentos de lucidez, conseguia perceber que uma delas era feminina e outra masculina, mas confundia o que ambas diziam.

Serviam-se do meu corpo para ter onde habitar, tal como um parasita que se alimenta às custas do seu hospedeiro. Inventavam histórias dentro da minha cabeça e faziam-me acreditar que era nelas que eu vivia. Gritavam comigo, falavam em simultâneo, deixavam-me perdido. Era como se eu, enquanto ser individual, tivesse deixado de existir. Tudo era desordem, caos e confusão. Lembro-me de movimentar-me como se estivesse a livrar-me de alguma coisa e de bater com as mãos na cabeça. Só queria que elas parassem…

 

Abri os olhos. Assim como surgiram quando os fechei, podia ser que se fossem embora quando os abrisse. Mas elas continuavam lá. Abrir e fechar os olhos não é a fórmula mágica para fazer desaparecer o que não queremos.

O silêncio é subvalorizado. Não é oco e tem as mais diversas formas. Há um turbilhão de coisas a acontecerem enquanto ele acontece também. Aquele quarto onde habitava o mais profundo silêncio e sossego contrastava com a mente que não sossega nem deixa sossegar. Talvez o silêncio seja isso: um contraste. Uma dádiva e ensurdecedor ao mesmo tempo.

 

Sandra Sousa

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

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