16.4.14

 

Falar de Infância por parte de um adulto é falar de saudade. Seja qual tenha sido a experiência de cada um, há sempre algo de saudade. Nem todas as infâncias foram felizes, mas houve em todas, num dado momento, um pingo de Inocência. E nessa Inocência, está para mim o conceito de Infância. A inocência que desperta a curiosidade, o espanto, o ar de maravilhado, o ar de desapontado, a descoberta, o crescimento. O olhar para o mundo como se tudo fosse uma descoberta, uma novidade. As conclusões brilhantes de tão simples e banais que eram, sem necessitarem de um raciocínio lógico-matemático, mas pura ligação de pontos de uma observação do que está diante dos olhos. E com as coisas complicadas, como às vezes, as falas dos adultos representavam e que nada se percebia, a imaginação ajudava sempre com um cenário espetacular! Tipo: “Não vale a pena chorar pelo leite derramado”, e lá íamos nós pela imaginação fora a pensar “qual leite, se estou a chorar porque perdi a borracha cor-de-rosa?”. E na cabeça só ficava a imagem de uma mesa a derramar leite, que pingava até ao chão. E bastava a seguir encolher os ombros e ir jogar à macaca, como se fossemos os maiores acrobatas! E assim, se descomplicava o complicado!

E aquelas vezes em que, em retrospetiva, nos vemos na nossa dimensão tão pequena, a ter uma perspetiva do mundo completamente diferente e tudo nos parecia enorme. A porta que era do tamanho de um gigante, o quintal que mais parecia uma quinta, as pernas debaixo da mesa altíssima, as coisas inantingíveis. E quando, na nossa pequenez, na rotina diária, seguíamos agarrados às mãos do pai, que no seu passo apressado, esquecido já da sua meninez, nos arrastava passeio fora em direção a uma meta, como a paragem do autocarro? Era uma prova de velocidade, que hoje nos parece o mais banal dos ritmos. Mas, na altura, só pensavamos em não perder o balanço, no meio de tanto tropeço.

Adoro olhar para trás e recordar todos os bons momentos que marcaram a minha infância, mesmo os mais simples.

Adoro o modo como as crianças olham para as coisas, para a realidade, como pensam com a sua tão fértil imaginação. Como fintam a inteligência dos adultos com perguntas sem constrangimentos, apenas sedentas de curiosidade. Como não optam pelo complexo para exprimir o simples. Como não se escondem em racionalizações, e sentem com verdade. Como fazem do mundo, um lugar à sua maneira.

O tempo passa, o crescimento dá-se, e toma-se outra perspetiva. Deixamos de olhar de baixo para cima, de olhar em redor, e passamos a olhar só para cima. Para onde temos de chegar. Ao topo. Para onde nos fazem sentir obrigados a estar. No topo. Para onde não podemos ousar olhar. Para baixo. Tentamos seguir de cabeça erguida, e, por vezes, esquecemos de olhar com diferentes perspetivas. Esquecemos de olhar o mundo com curiosidade. Esquecemo-nos de tentar esticar-nos nas pontas dos pés e ver mais adiante, mais além do que é visível, tal como uma pequena criança. Deixamos de acreditar que tudo é possível. Daí a insistência do aviso: “não deixes morrer a criança que há em ti”, porque só ela te levará mais longe, mais perto da tua essência.

 

Cecília Pinto

 

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