10.12.18

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Foto: Lemons - Richard John

 

Nunca houve tanta instituição de caridade como agora: empresas, organismos do Estado ou não governamentais, associações e entidades, com siglas quase indecifráveis, com enfoque na solidariedade, na proteção do indivíduo e do seu direito à subsistência, à segurança e a todos os cuidados primários.

Mas também nunca houve tanta solidão apregoada, tanta miséria humana, tanta desigualdade, permitidas (e perpetuadas) por gente com poder, dotadas de conhecimento e de estratégias de intervenção que nada mais são do que um manancial de benefícios em causa própria.

Nunca houve tanta gente alerta para as causas sociais, para o voluntariado, para a partilha do seu tempo, da sua condição humana, mais consciência do mundo, dos outros, na busca da consciência de si próprio, como no tempo presente. E como dói – descobre muita gente, com espanto – dar sem realmente esperar nada em troca (sim… às vezes, nem um obrigado), dar perante os desafios da humanidade, sem sucumbir à crítica, ao julgamento, sobretudo perante a ingratidão ou a ofensa. Na resiliência que se constrói, também a capacidade de enfrentar os desafios de outro ser humano e os próprios demónios, mergulhando na dor para sair dela. Como dói, a consciência. Como cura.

 

Oiço muita gente falar do quanto gostaria de ajudar, de fazer algo, um voluntariado, mas não podem, não têm tempo, têm família, empregos e uma carrada de obstáculos que os impossibilita de concretizar esse desejo. Não me cabe a mim julgar ninguém ou saber de que forma enfrentam os seus próprios desafios. Fico triste, todavia, quando percebo, no cantinho do olho, uma tristeza velada de quem realmente sente esse apelo e se sente frustrado por não o fazer. É para eles que escrevo hoje. Para aqueles que não têm tempo (ou meios) para dedicar umas horas semanais a uma instituição, para aqueles que não sabem como fazê-lo, para aqueles a quem a condição do outro não é alheia à sua própria condição e sentem faltar algo nas suas vidas por não serem solidários. Podem fazer muito, podem fazer a diferença na vida de vários seres humanos. Um que seja, acreditem, será extraordinário.

Comecem com o senhor da mercearia que, todas as manhãs, se cruza convosco e só espera um “Bom dia”, olho no olho; aquele minuto, junto da caixa, acompanhado de um sorriso, pode fazer toda a diferença. Ou comecem com a primeira pessoa que veem de manhã, ao abrir da pestana, e que partilha a vossa vida; fazê-lo antes de olhar para o telemóvel pode significar um chão seguro debaixo dos pés, em cada jornada. Se o vosso vizinho precisa de ajuda e podem ajudar, ajudem. Sem pedir nada em troca. Vale o primo, a mãe, o ilustre desconhecido, a velhinha que vive no 35, a senhora da padaria, o mecânico ou o carteiro, desde que seja genuíno.

Quando eu era catraia tinha um tio que, pelo menos, duas vezes por semana comprava limões, salsa e feijão-verde a uma senhora que vendia, com uma pequena banca, na porta do mercado. Acompanhei-o diversas vezes e interrogava-me sobre a quantidade de coisas que ele comprava e de que forma ele e a minha tia podiam consumir tanta coisa. Num certo dia, vencida pela curiosidade, perguntei como era possível comer tanto limão, tanto feijão… quando o meu tio comentou que pretendia ajudar a senhora, perguntei porque não lhe dava, simplesmente, dinheiro (já que podia), em vez de comprar tanta coisa. Na onda do seu sorriso respondeu à minha ignorância com carinho, dizendo-me que a caridade sem dignidade não existe; e que havia gente que o fazia, sim, mas que aquilo não era realmente caridade, era negócio. Acrescentou que quando queríamos e podíamos ajudar alguém, o devíamos fazer sem diminuir, sem humilhar, sem procurar exposição ou a atribuição de um prémio. Com respeito, humildade e integridade. A senhora Maria vendia os seus legumes e frutos, prestava um serviço, dizia-me ele. Comprar-lhos a um preço justo permitia-lhe valorizar o trabalho, o esforço e o sacrifício daquela doce senhora que, com quase oitenta anos na altura, ainda cuidava da terra, de um filho adulto com diversos problemas e vendia o fruto do seu trabalho, de segunda a sexta, na porta do mercado. Fez-me tudo muito sentido, mas disse-lhe que não havia respondido à minha questão inicial: os legumes, os limões, a tonelada de salsa, que destino lhes havia sido reservado? Depois de uma sonora gargalhada disse-me que teria deixado de comprar à D. Maria se tivesse deixado apodrecer um limão que fosse. Chegou a temer que isso pudesse acontecer, mas, ao longo dos anos, apareceu sempre alguém, na hora certa, com quem partilhar, o que lhe havia poupado esse constrangimento. Disse-me que não eram as palavras que lhe dirigia o que realmente contava, mas o que fazia, com o que ela produzia e vendia, quando lhe virava as costas. Com ele aprendi que a solidariedade não é um casaco que se veste consoante a estação do ano, tão pouco é algo que nos dá (ou deve dar) protagonismo ou “isenção moral”. Visa o genuíno bem de alguém, em primeiríssimo lugar, e o bem da humanidade, de uma forma mais abrangente.

 

Por isso, façam apenas o bem pelo bem. Parece difícil, bem sei, mas é tão fácil dizê-lo quanto fazê-lo. Não precisam de ir para o Quénia fazer voluntariado para se sentirem úteis. Abram os olhos, o coração e olhem em volta. Estendam a mão e façam milagres ao pé da porta. Se calhar não vão aparecer nas revistas ou ganhar um Nobel, mas garanto-vos a mesma sensação de orgulho e alegria do melhor dia da vossa vida. Há tanto sofrimento à nossa volta a que não podemos acudir, comecemos pelo que está ao alcance da nossa mão. Podemos fazer muito, de forma anónima, todos os dias. Não esperem “o momento”, comecem hoje. Pode parecer-vos tarde, mas jamais será em vão.

 

Alexandra Vaz

 

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7.12.18

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Foto: Portrait - Szilárd Szabó

 

Coisas bonitas. Gosto de coisas bonitas.

Gosto de me emocionar – é um dos sinais mais evidentes de que estou vivo, desperto, tenho energia - e a estética, a beleza sensibilizam-me, motivam-me.

 

Portanto, aqui vai: todos iguais, todos diferentes. Falando de pessoas. Iguais em termos de oportunidades, de direitos, de deveres, de acesso. Diferentes na particularidade de cada um, na nossa individualidade, na história que fomos vivendo e que nos foi sendo transmitida. O nosso caminho.

As diferenças podem ser ínfimas, pense-se nos gémeos verdadeiros, quase impercetíveis à vista, como é a primeira. Esse mínimo se não for combatido vai, naturalmente, gerar a prazo diferenças mais ou menos evidentes. Somos pessoas, somo indivíduos, somos diferentes, especializamo-nos, adquirimos diferentes capacidades.

Referi-me à passagem do tempo e de como a mínima diferença, não interditada, irá gerar particularidades que nos individualizam notória e evidentemente.

É bom, é bonito, enriquecedor.

É como, passando para o espaço, duas retas quase, quase paralelas, de tal maneira que se nos fixarmos num segmento de um metro, aparentam ter a mesma distância entre elas nos seus extremos. Agora consideremos as retas sem princípio nem fim, haverá um ponto onde se cruzam, assim como há inúmeros pontos onde a distância entre elas é infinito. Só para visualizar.

 

Convém não esquecer que as diferenças, digamos individualizantes, convivem com as semelhanças, não as apagam. Não anulam uma caraterística do Homem que é a de ser gregário, organizar-se em sociedade, família, vizinhança, nação, cultura...

Diferença convive bem com semelhança. Como indivíduo com família, grupo, sociedade. Não só é compatível, como pode ser enriquecedor. Se se utilizarem as competências, interesses, gostos de cada um – sejam quais forem, técnicas, artísticas, sociais, abstratas, concretas, manuais ou intelectuais – numa perspetiva de troca, de distribuição, com o intuito de acrescentar algo a outro, individualmente ou em conjunto, se ganho com a ajuda de outros para suprir dificuldades próprias, estamos a ser solidários, gregários. A utilizar a individualidade, livremente, voluntariamente, como fator de gregarismo em que outros ganham competências e capacidades para as quais não estavam tão habilitados, circunstancialmente ou não.

 

É solidariedade. Troca de recursos, podem ser ideias, em que somos, todos, interdependentes. Solidarizando mutuamente. A troca não tem de ser imediata, nem é uma igualdade contabilística, mas é suposto acontecer. Assim não desvalorizemos, cada um ou a sociedade, a capacidade de ninguém. Assim reconheçamos o que precisamos, reconheçamos quem tem mais competência e saber, assim queiramos ser ajudados.

Não para criar dependência, não como obrigação, antes e primordialmente para melhorarmos, para sermos mais capazes. É solidariedade.

A solidariedade é bonita.

 

Jorge Saraiva

 

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3.12.18

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Foto: Ice-candy - Fireflydaily

 

“Ognuno sta solo sul cuor della terra

trafitto da un raggio di sole;

ed è subito sera.”

(Todos estamos sós no coração da terra

trespassado por um raio de sol;

e de repente anoitece.)

Salvatore Quasimodo

 

Compaixão pelos oprimidos e vulneráveis pode ser vista por vários ângulos: eu não sei como algumas pessoas se amam a si próprias, mas se forem sadomasoquistas, se calhar, passo à frente.

Durante a recessão económica, a situação de vulnerabilidade de países, famílias e empresas vestia palavras como PIGS, culpabilização das vítimas e da necessidade de empoderar e empreender. Nota-se mesmo que a língua portuguesa tem dificuldades com “empoderar”, tão feia que é a palavra, postiça.

Atualmente, quando penso nesses tempos recentes, cheira-me a cinzas, de ressentimento, de rejeição e de não pertença, falta de confiança e do muito que se perdeu. Da diferença entre os que ficaram, os que partiram e com o que podemos contar agora, olhando pela nossa janela. Erosão de valores, de vidas e de esperança. Ouvimos falar que as sociedades são líquidas e voláteis, do momento. Espero que daquelas que pondo no congelador com um pauzinho, dê para comer como gelado. Gosto muito.

Nussbaum escreveu sobre a inteligência da compaixão. Ela refere os três tipos de julgamento emocional que afetam o nosso modo de pensar perante uma situação de apelo à solidariedade. Refere o julgamento pela dimensão da tragédia, sinto-me mais solidária se a injustiça do outro é séria e não algo trivial; o julgamento por não merecer, ou seja, a pessoa não teve controlo em nada da injustiça em que se encontra; e o tipo de julgamento eudemónico (que vem do grego e significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom génio”, traduzido como felicidade ou bem-estar). Neste tipo de julgamento eudemónico, a pessoa a quem se destina o ato de solidariedade é parte integrante do meu esquema de objetivos, projetos e valores pessoais, um fim último pelo qual o Bem existe.

Este último é relevante pois, segundo a autora, vamos estar mais inclinados a ver o outro mais parecido connosco e só nos interessarmos mais por essa razão, pela probabilidade de algo similar nos acontecer.

Quando estamos mais em baixo, cuidar de nós passa por estarmos próximos de pessoas que são como casa para nós e, na ausência delas, sentir o bater do coração e respirar, como se estivéssemos mais próximos do verdadeiro coração do mundo. 

Em 20 de Dezembro, a solidariedade tem a sua celebração internacional. Esta preconiza, muitas vezes, a intervenção em situações de urgência e de preservação da paz social.

Por mim, atendendo à lógica de poder subjacente à narrativa da solidariedade, pensando em duas pessoas em diferentes posições de existir num dado contexto, penso que seria interessante um contacto de proximidade e de respeitar o outro na liberdade da sua decisão, como autor da sua própria vida. O contacto com o diferente traz sempre novidade e isso permite evoluir, como indivíduos e como grupo.

 

Referências:

Nussbaum, M. C. (2001). Upheavals of thought: The intelligence of emotions. Cambridge: Cambridge University Press

 

Maria João Enes

 

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30.11.18

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Foto: Holding-hands - Benjamin Balazs

 

“Fazer bem sem olhar a quem”, sem nada esperar em troca, qual aforismo popular ou máxima que não deve significar apenas um simples ato de caridade, mas antes, e muito mais do que isso, a expressão de sentir o prazer de praticar a solidariedade. O prazer de fazer o bem é, ou deve ser, – convenhamos – maior que o de recebê-lo. Necessário se torna, por isso, procurar sentir o que os outros do mesmo modo sentem quando lhes falta algo de importante na vida.

Na prática do dia a dia, fazer o bem deve constituir algo capaz de transformar e melhorar o meio e as pessoas que nos rodeiam. É maravilhoso saber cumprir de forma consciente e despretensiosa o que traz realização e felicidade ao próximo, exercendo a pedagogia de uma boa ação, imbuída esta de uma nobre missão de apologia ao amor. Quando nos colocamos no lugar do outro e tentamos confortá-lo e amenizar o seu sofrimento, isso cria empatia e tolerância, desperta a vontade de ajudar e de agir segundo princípios morais em que se destaca a importância da solidariedade, sentimento tão caro e relevante nas ações sociais.

 

Nesta vida, ninguém avança sozinho, precisamos uns dos outros, se possível, de “mãos dadas” para um mundo mais fraterno e solidário. Pequenos gestos, como um sorriso nos lábios, um olhar de esperança, uma troca de mimos e de carinho, de amizade e de respeito, bem como a indispensável compreensão para com o nosso semelhante, poderão ajudar muito e contribuir para um viver melhor com menos sofrimento. A isto chamamos solidariedade!

 

José Azevedo

 

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26.11.18

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Foto: People - Leroy Skalstad

 

Era um daqueles dias quentes de verão. Mais um ano que ajudava os meus avós na mercearia, penso que esperava quase o ano todo para o fazer.

Como eu gostava de aqui estar. Não só pela companhia dos meus avós, que tanto adorava, como os simples pormenores do campo que traziam o melhor à tona, coisas que não víamos na cidade. O simples cumprimentar do Sr. Manel, aquele sorriso e a importância em vir-me sempre dizer um simples “Olá”, ou a senhora Maria que me pedia sempre se podia levar-lhe as compras a casa e me dava sempre uns trocos, coisa que eu não aceitava, mas ela insistia. Não o fazia pelo dinheiro, mas sim pela doçura daquela senhora, por poder ajudá-la de alguma maneira. E ela ficava tão feliz quando o fazia. Era daquelas senhoras que os filhos pareciam ter-se esquecido dela. Era uma pena e partia-me o coração, dizia-lhe muitas vezes que, para mim, era como mais uma avó; e aquele sorriso? Nada se comparava.

 

Mas nesse verão não fora o amável Sr. Manel, nem a senhora Maria que marcaram tão intensamente aqueles momentos prazerosos que tinha na aldeia do meu avô. Fora outra coisa.

Tal como fazia sempre, o meu avô dizia-me para ver as datas dos produtos, dar uma vista de olhos à fruta e deitar fora o que não estivesse de agrado ao cliente. E assim era, todos os dias o fazia. E todos os dias colocava num saco esse “lixo”, muitas das coisas ainda estavam boas, mas não para se apresentar num supermercado. O meu avô dizia-me sempre para colocar em sacos e deixar junto à porta, nas traseiras da loja. Que uma senhora que vivia em péssimas condições ia mais tarde buscar. Era a maneira do meu avô a poder ajudar de alguma maneira. Por vezes, até colocava mais alguma coisa, mesmo estando em plenas condições. Mas apesar de contribuir para esse ato caridoso que tanto adorava no meu avô, fora algo que despertou a minha atenção. Foi naquele dia quente, em que eu tive de ir às traseiras da loja já depois de ter deixado os saquinhos como de costume, que me deparei com a senhora que prontamente me pediu desculpa e eu disse-lhe logo não ter mal, para estar à vontade. Mas o que me fez escorrer as lágrimas pelo rosto, fora o olhar do pequeno menino que vinha com ela, os olhos brilhantes, emocionados ao olhar para um dos saquinhos e dizer “Mãe!! Hoje temos brócolos, gosto tanto de brócolos mãe!”. Ele estava embriagado de felicidade, apenas por um pedaço de brócolos. E aquele brilho nos olhos, aquele olhar doce e triste apesar da felicidade do momento, fez-me sentir uma tristeza profunda. Fez-me voltar para dentro e trazer o pedaço maior de brócolos que o meu avô tinha na mercearia. Não consigo explicar em palavras a gratidão, nem do menino, nem da mãe. Mas sei que tinha ganho o dia, a semana, todo esse ano. Apenas pelo olhar daquele menino. Quando muitos deitam fora, outros ficam radiantes. Dão importância, por não terem. Por querer e desejar tanto, mas não ter posses.

E foi aí que despertou em mim o desejo de ajudar, de fazer a diferença, de poder receber mais sorrisos como aqueles – genuínos.

E foi assim...

 

Inês Ramos

 

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23.11.18

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Foto: Hug - Anemone 123

 

Numa era em que somos mais do que parecemos, temos tempo e vontade para pensar nos outros. Até a mais egoísta das pessoas dá por si a ajudar, mesmo não estando à espera, mesmo não sendo esse o seu modo de vida.

Num tempo em que todos temos muito, em que o luxo se confunde com banalidade, e em que, mais do que esses todos, há os que não têm nada, escondidos pela poeira da hipocrisia dos mais fortes, daqueles que decidem o que deve ser ou não ser sabido, a ajuda confunde-se com oportunismo.

Sim, de que vale dizer que fazemos se, na prática, não abdicamos do nosso conforto em prol de quem precisa?

De que serve dar, fazer angariação de fundos e eventos sociais relevantes, se não vamos ter com quem precisa e lhes damos um abraço, rimos com eles, choramos ao lado deles?

Se realmente a solidariedade acontecesse genuinamente, não iriamos para o café ou para uma grande plateia falar dela. Não abriríamos a carteira, simplesmente, e daríamos as notas que reservamos para a solidariedade. Essa é a parte fácil.

Dar o nosso coração numa relação de comunicação direta tem mais impacto a longo prazo do que o dinheiro. Esse, só por si, nada faz. Precisa dos solidários para se tornar ajuda.

Solidariedade é dar-se, amar-se a si e aos outros, apenas para gerar felicidade.

 

Sónia Abrantes

 

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19.11.18

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Foto: TV - Alexander Antropov

 

Um novo amanhecer e eu desperto. Pronta para a rotina que se estende.

Eis que aura carregada da matina cede perante um pequeno-almoço conjunto que me é oferecido. Agradeço e prossigo.

Após a espera exasperante de quem conta com a mobilidade pública, deparo-me com novos cenários. Entro no transporte e vejo, uns metros adiante, alguém a ajudar uma senhora de idade a subir, e na paragem seguinte, o cuidadoso motorista aguarda por um transeunte que consegue alcançá-lo, já ofegante. Durante o trajeto, o silêncio. Partimos todos para os nossos recantos.

 

E eu dou início à minha jornada laboral.

Não me importo de ir além do dever, esperando contagiar os demais com uma pronunciada e trabalhada boa-disposição. E no decorrer das tarefas troco produtos por sorrisos, pensando que deveria ser assim que a economia deveria funcionar.

À saída, acompanho com o olhar um miúdo enérgico e distraído que tomba no chão. Ups!... A sua mãe aproxima-se e ajuda-o a levantar-se. O miúdo logo recupera.

Antes de chegar ao exterior, forneço indicações a um consumidor perdido neste labirinto comercial e contemplo as horas. Estou pronta para o que resta: o descanso. Ou assim julgava eu.

Ao receber sinais de que há uma alma inquieta, nomeadamente por meios tecnológicos, faço uso da amizade e empresto os ombros, cedendo de igual modo os ouvidos. O melhor é que, mesmo não o esperando, recebo-os em retorno, na mesma dose. Um contacto que enriquece e preenche, arrumando para canto os vazios.

 

Recuperado o contentamento de ambas as partes, volto para casa, para o meu doce lar.

Ligo a televisão em busca de boas novas e ali está uma, entre tantas outras que recheiam o passado e o presente: conjugados os esforços, romperam-se probabilidades e reergueram-se as nações! As tragédias foram colmatadas, os jovens foram salvos e os homens foram resgatados. Quanto não se consegue com um pouco de cooperação!

É a grandiosidade do bem de que a humanidade é capaz. Do mais pequeno gesto quotidiano à mobilização internacional altruísta, tornando todo e cada dia um pouco melhor para as vidas que se cruzam e se entreajudam. É a nossa potencialidade, multiplicada nos diversos cenários práticos.

 

Sara Silva

 

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16.11.18

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Foto: Solidarity - Stefano Ferrario

 

A pessoa solidária é sempre conotada de forma positiva, boa pessoa, que exerce atos de bondade e compaixão, sensível, assim, ao sofrimento e às dificuldades do outro. As diferentes fases da vida que vivemos levam-nos, por vezes, a questionar tudo. Pois bem, neste momento, permitam-me que questione a solidariedade.  Não questiono a pessoa que tem dentro de si esta “coisa” de ser solidário pois, essa, nunca me causaria questionamento. No caminho e na vontade de ser solidário há pessoas que se cruzam, vontades que se cruzam, objetivos que se cruzam e sentimentos que se cruzam. Nem sempre esse cruzamento é assente em princípios comuns às duas pessoas para que a solidariedade se desenvolva no sentido verdadeiro. A pessoa que precisa (ou não) de uma pessoa que lhe dê a mão, nem sempre é boa pessoa e, provavelmente, no lugar oposto nunca exerceria atos solidários. A pessoa que exerce atos solidários por convicção e por vontade intrínseca não se apercebe que, do outro lado, está uma pessoa que não merece o seu esforço, a sua dedicação e que lhe empreste a sua vida e, a dada altura, vê-se a percorrer caminhos que nunca desenhou.  Estou, concretamente, a dirigir-me às pessoas que, de forma inadequada, se apoderam do lado solidário dos outros, manipulando toda a situação, extorquindo sem que, verdadeiramente, precisem que lhes deem a mão. Apenas é mais cómodo ter ao seu lado uma pessoa com “bom coração” pois, assim, a vida torna-se, de facto, mais facilitada. Não é justo que isto aconteça à pessoa que tem dentro de si esta “coisa” de ser solidário. A solidariedade deveria remeter sempre para uma responsabilidade recíproca e nunca deveria assumir estes contornos. Desculpem se desiludo.

 

Ermelinda Macedo

 

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14.11.18

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Foto: Portrait - Khusen Rustamov

 

Não sei ser, sem ser eu.

Não sei fingir que sou melhor. E espero nunca ser pior.

Não sei sorrir, sem ser eu.

Não sei chorar quando convém. E não quereria ser menos sensível.

Não sei preocupar-me, sem ser eu.

Não sei desligar-me do mundo. E há tantos temas que me preocupam.

Não sei sair à rua, sem ser eu.

Não sei virar a cara e ignorar quem sofre. E assusta-me tanto a indiferença.

Não sei cumprimentar, sem ser eu.

Não sei fazer-me sisuda e altiva. E agradeço por isso.

Não sei estar, sem ser eu.

Não sei olhar com olhos menos atentos. Nem com menos vontade de agir.

Não sei ser, sem ser eu.

E eu, cheia de defeitos e dificuldades, medos e indecisões, aprendi que ser eu, não é bom nem é mau – é apenas ser de verdade.

 

HTR

 

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12.11.18

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Foto: Girl - C_Scott

 

Com amor, no respeito e no cumprimento dos votos prometidos em altar, foste concebida. Gerou-te um ventre palpitante, desejoso de se perpetuar. Desenhei-te. Sabe-se lá porquê e onde me inspirei, mas desenhei-te loirinha e de olhos azuis. E, assim nascente. E como eram azuis! E transparentes!

Via-te através e para lá deles. De tanto nos conhecermos os segredos eram de nós desconhecidos. Assim seria para sempre, jurei eu. Por muito tempo acreditei. Não havia dor ou inquietação que a transparência do teu olhar não me revelasse e que eu não resolvesse num beijo ou num abraço mimado.

Cresceste e não perdeste essa clareza e transparência do olhar. A adolescência conservou em ti essa capacidade de seres verdadeira. Deixavas-me sentir-te para lá da pele branca e fina, quase transparente. Privilegiavas-me dando passagem para lugares inacessíveis. Eu desnudava-te de angústias e incertezas com promessas de um futuro promissor junto de um marido que te amaria e dos filhos que viriam desse amor.

Rodeada das minhas certezas fizeste-te uma linda mulher.

Estava feliz com a minha criação, tão feliz que não vi chegar o momento em que foste tomada por essa estranha inquietação e desassossego. Também não me apercebi quando deixei de te ver porque te tornaste impenetrável, fechada em ti, isolada no quarto. Fugias-me. Já não bastava ler na transparência do teu olhar para que vertesses em verdades pequenas mentiras e chorasses tristezas e dores. Os teus olhos nada me devolviam a não ser a certeza de um segredo.

São fases de crescimento, arrufos de namorados, os jovens precisam de espaço – diziam-me. Mas não me tranquilizava.

E, quando por fim, corajosamente quiseste ser transparente e verdadeira como há muito não ousavas ser, proibi-to. Não precisaste falar, firme nas tuas opções a vida ia ser o que tu quisesses e não o que eu tinha programado.

Saíste de casa para viveres o teu amor proibido.

 

Cidália Carvalho

 

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5.11.18

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Foto: Legs - Lisa Runnels

 

Amanhã pode ser tarde demais. Por isso, hoje vou vestir a minha roupa favorita, vou vestir a minha pele e comportar-me como eu própria. Vou ser fiel a mim mesma e deixar cair as máscaras que uso para me proteger. Quero ser transparente para que todos me vejam tal como sou. Quero viver intensamente e sentir o coração a bater forte. Vou arriscar e afastar os medos que me paralisam. Quero sentir-me bonita, atraente e confiante, e isso leva-me a colocar aquele vestido que adoro, a calçar os ténis que combinam na perfeição e a caprichar na maquilhagem. Acentuo o tom dos meus olhos e dou cor aos meus lábios. E saio para a rua para sentir o calor do sol na minha pele. Está um dia maravilhoso para ser eu própria. Quando passa um desconhecido por mim sorrio-lhe e ele, meio confuso, sorri-me de volta. O poder do sorriso é imenso, contagia e desarma. E por isso hoje ele faz parte do meu fato. Sinto-me feliz e cheia de energia e apetece-me gritar isso ao mundo.

 

Pego no meu carro, sem destino, deixo-me levar tranquilamente. Tenho como companhia a minha playlist, elevo o som e canto no meu tom desafinado. Abro o vidro e sinto o vento na minha pele, no meu cabelo e arrepio-me. O meu instinto leva-me até àquele jardim junto ao rio de onde a vista para Lisboa é um privilégio. Fico sempre sem fôlego quando aqui venho, porque ainda me surpreendo com a beleza deste lugar. Inspiro-me. Pego no telemóvel e tiro várias fotografias àquilo que vejo, mas nenhuma traduz fielmente a sua beleza. Quero partilhar este momento, quero que os outros saibam que me sinto viva e a sorrir interiormente também. Coloco uma das fotos no meu mural do facebook, é desta forma que chego a todos apesar de não me agradar que assim seja. Queria estar num palco onde todos me pudessem ver, se deixassem contagiar e vivessem comigo este momento. Queria que todos se recordassem dele. Fecho os olhos e imagino-o, deixo-me levar mais uma vez e quase que flutuo. Abro os olhos e estou a rodopiar. Sinto-os perto, sinto o seu carinho, a amizade e o amor. Tenho tudo o que preciso e é tão simples. Sem reservas, escrevo a frase que me vem à cabeça e que me expõe por completo. Sem máscaras, sem medos, com confiança e com um sorriso aberto, hoje, agora, porque amanhã pode ser tarde demais.

 

Marisa Fernandes

 

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2.11.18

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Foto: Woman - melancholiaphotography

 

A sensualidade de cada momento está na mente do observador. O estimulo que realmente existe é percecionado de forma diferente e, por vezes até, de forma muito diferente. É certo que branco é branco e que frio é frio, mas o “meu” branco pode ser diferente do “teu” branco. Os processos de filtragem e de interpretação dos estímulos exteriores são muito complexos, como sabemos. Para além das “ferramentas sensoriais” que cada um possui, ainda temos de contar com limitações ou imposições externas das quais sofremos, ou então nos sujeitamos. Quantos copos de um bom tinto são precisos para as pessoas ficarem mais bonitas?

 

Acho que o mesmo acontece com o verão. As pessoas ficam mais atraentes nesta estação do ano em particular. Pode ser devido aos meses de preparação anterior no ginásio. Pode ser da dieta alimentar mais cuidada. Mas também pode ser das transparências. Bem, é melhor a partir de aqui estreitar o texto apenas para as mulheres... São as saias, as blusas, os decotes. São os algodões e os linhos. O calor impõe o tecido mais afastado da pele. Pele essa que se quer à mostra do sol, contacto astral que nos faltou durante tantos meses.

De repente há um novo jogo em campo. São os gestos de toque discreto no ombro de colegas, os olhares transviados para silhuetas já conhecidas, mas agora redescobertas, e o desejo encoberto em elogios que não ultrapassem o bom-senso. Enfim... “eu gosto é do verão”.

 

Tudo isto para fugir da “transparência”. Não me apeteceu escrever acerca do que, provavelmente, se esperava. É que, quando não há nada de bom a dizer, talvez a melhor opção seja estar calado. Acabo apenas com uma conclusão retirada da vida real (por oposição à virtual, para a qual, confesso, cada vez tenho menos tolerância): a transparência não se advoga. Pratica-se. E aqueles que mais a clamam, são os que mais a atraiçoam.

 

Rui Duarte

 

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29.10.18

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Foto: Act - Kai Kalhh

 

Lembram-se daquela história do tio Hans, que todas as nossas avós nos contaram em pequeninos? Sim, aquela do rei vaidoso que foi na conversa de dois vigaristas e deu um dinheirão por um fato invisível.  Sim, esse.  Bem, na verdade, como sabem, o fato não era invisível, que isso é coisa que, até hoje, ainda ninguém inventou.  Nem sequer transparente, nada disso – o tecido de que era feito era, apenas... inexistente.  Uma patranha, portanto.  Uma tanga, uma treta muito bem urdida, para, não só extorquir dinheiro ao tal do rei vaidosão, mas também fazê-lo cair no ridículo, levando ao extremo a sua sede de excelência ímpar, de elegância, e de inteligência – claro, segundo ele, acima de todos os olhares e de todos os conceitos.

Mas o maior problema desse mui nobre senhor (que eu sempre imaginei gordo e com dentes amarelos) nem era a vaidade, porque essa é natural e abnóxia.  O grande problema era a sua doentia necessidade de adulação, de endeusamento.  E, claro, a sua leviandade de espírito, pronto a ser mais facilmente seduzido pela mentira e hipocrisia que pela verdade e honestidade.   Não havia nele um pingo de respeito pelos seus súbditos – nobres ou plebeus, ministros que o assistiam, ou gentalha incógnita que o sustentava.

Reza a história antiga que o desgraçado pagou caro, pelo seu deslumbramento e fé no invisível escudo que, afinal, o não protegeria da inteligência dos hipócritas e da inocência do medo: bastou uma criança. Bastou uma criança esfarrapada e ranhosa, ingénua e honesta, para deitar por terra todo o embuste e fazer desmoronar o dique de silêncio podre que segurava os risinhos dissimulados e as palavras de escárnio. 

 

“O rei vai nu!” – quem dera que fosse sempre assim tão fácil desmascarar a mentira e por a nu a verdadeira pele da verdade.  Quem dera que o tecido da dúvida não fosse uma teia intricada e invisível... mas uma malha apenas transparente.

À cautela... vista-se sempre à verdade roupa de dentro bem bonita.  E limpinha.

 

Teresa Teixeira

 

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26.10.18

Girl - Anastasia Borisova.jpg

Foto: Girl - Anastasia Borisova

 

Ao longo dos anos, fui-me sentindo cada vez mais grata pelos relacionamentos reais, profundos, sem máscaras, que enriqueciam a minha vida. Eram tão raros que a sua simples existência – de um que fosse, esporadicamente –, era suficiente para sentir validada a minha fé no dia seguinte, nos outros e, inevitavelmente, em mim própria. Contudo, perceber a fragilidade dos outros não me permitiu antecipar (ou acarinhar) a minha própria fragilidade. Num mundo onde um elevado número de pessoas vive, única e exclusivamente, em torno do seu umbigo, é muito perigoso não nos cuidarmos, em primeiro lugar. Quando caímos, a menos que tropecem em nós, são poucos aqueles que sentem a vibração da queda e nos vão procurar, sem pensar duas vezes. Essa é a realidade. A esses, eu chamo “tribo da alma”. Uma espécie de lugar seguro onde se entra sem máscaras ou rótulos, e se é amado na totalidade do Ser. Sobretudo naqueles dias em que não nos conseguimos amar… Na expansão da mente e do coração, a tribo vai crescendo também. Pertencemos (sempre que possível, escolhemos estar), pela frequência silenciosa que vibra debaixo da nossa pele, muitas das vezes, sem sequer o percebermos. A magia da vida.

Gosto tanto da minha individualidade, da minha jornada em mim própria, dos meus momentos em silêncio, quanto aprecio a partilha, a comunidade, a sensação de pertença, de escolha e de ação. Gosto da pertença, sim, porque, só livre, se pode pertencer. Escolher estar, lembra-me que jamais me devo acomodar ao que me faz mal, ao que me rouba a paz ou me estende ao comprido. Só inteira posso pertencer porque ninguém me pode dar o que não sou capaz de dar a mim própria. Pessoas inteiras têm vidas fragmentadas também, malhadas no calor da bigorna da existência, mas escolhem, todos os dias, ser a pessoa de quem precisam. Há pessoas de quem faço parte e que fazem parte de mim. Pessoas com quem adoro estar e que me fazem sentir em casa, mesmo que não nos possamos abraçar ou falar, durante muito tempo. Agarro-me a elas com braços e pernas, lembro-lhes o quão importantes são para mim, valorizo a nossa transparência, nos sentimentos, nos pensamentos, nas ideologias diversas que fazem parte, também, do nosso espólio mental e visceral. Chamo a isso honestidade, lealdade, respeito e integridade. Para mim, constituem os vetores mais importantes no que toca à existência de pessoas na minha vida privada. Sem eles, fico perdida, sem rumo e sem vontade.

 

Aos poucos, houve gente de quem me fui afastando porque não faziam qualquer sentido na minha vida. Falavam de valores, pregavam a justiça, a coerência e a compaixão, mas, na prática a teoria era outra. Vezes sem conta. E quando aquilo a que chamo valores, depende de quem faz o quê e a quem, não são realmente valores, são apenas conceitos vazios e abstratos que uso quando me dá jeito. Não consigo respeitar a falta de congruência, a injustiça, a maldade ou o comodismo da ignorância. Nada nem ninguém pode construir camadas dentro de mim se não sabe viver para lá do seu umbigo ou se dedica a ferir o seu semelhante. Sem aquilo que para mim é importante, nenhum pacote promocional me seduz. Nem sempre foi fácil fazer esta triagem, mas, em nome da dita transparência, ganhei coragem para virar as costas, sempre que possível, assim que possível. Fosse família, amigos, conhecidos. Fosse quem fosse. Contudo, demorei décadas a assimilar tudo isto e a agir sem me sentir totalmente culpada pelo sofrimento dos outros. Como se as dores do mundo fossem minha responsabilidade e, virar-lhes as costas, fizesse de mim uma megera. Embora progressivamente consciente, foi um tremendo desafio separar, eficazmente, a ação necessária à mudança, da programação mental (deficitária) previamente instalada. Mas, finalmente, percebi que ninguém salva ninguém que não quer ser salvo. Ninguém. E que há gente que permanece, sim, enquanto poder alimentar-se da nossa energia, do nosso tempo e da nossa vontade. Por mais que me tivesse custado, hoje não é algo que me tire o sono, o apetite ou me aperte o coração. Fechar portas que não levam a lado nenhum, tem sido das melhores aprendizagens da minha vida.

 

Aqueles que permanecem, para quem a minha porta está sempre aberta, são-me muito preciosos. São muito menos do que pensaria há poucos anos, mas são exatamente aqueles que me acrescentam tudo. Amo-os, tal e qual como são, e construo a seu lado um caminho sólido nos afetos, nos desafios que todos enfrentamos (e que nos podem mudar, num pestanejar), bem como nas decisões que resultam de tudo isto. Algumas das pessoas mais importantes da minha vida não podiam ser mais diferentes de mim, e entre si, mas com cada uma delas encontro a linguagem comum que nos faz permanecer. Revejo nelas os mesmos vetores que me movem e é-me suficiente para caminhar mais tranquila. Mas hoje, que sei mais um bocadinho, reconheço que, com alguns amigos, existimos porque não dizemos tudo, porque sabemos calar-nos para não ferir. São amizades, tão belas quanto frágeis, que devem ser protegidas das arestas afiadas da incompreensão e da injustiça, em nome dos valores (reais, sustentados pela ação) que as alicerçam. Dizem que não há pessoas perfeitas ou relações perfeitas, na verdade, isso não me importa nem um bocadinho. Sacrifico qualquer momento de razão, qualquer dor mal resolvida, em nome das pessoas “imperfeitas”, mas absolutamente íntegras, que tenho a honra de ter ao meu lado. Não quero começar discussões que vão apenas magoar, tão pouco desejo alimentar expetativas irreais – neles ou em mim própria. Não quero perder aqueles a quem chamo irmãos, irmãs, companheiros de uma vida. Prefiro ter paz com eles e aceitar que preservar o bem maior, implica abdicar de alguma dessa transparência que tanto aprecio, escondida por detrás das muralhas que as pessoas erguem.

 

Dizia Francisco Xavier: “Aos outros, dou o direito de ser como são. A mim, dou o dever de ser cada vez melhor.”. Continuo a aprender a estar com os outros, mas, dentro de mim, não permito mais portas fechadas ou quartos secretos; devo essa honestidade a mim própria, mesmo quando doer. Ao mundo, não peço (mais) nada. Já me sussurrou, diversas vezes, que o tempo será curto para todos nós e mais veloz do que imaginamos.

 

Alexandra Vaz

 

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22.10.18

Light-bulb - Jukka Niittymaa.jpg

Foto: Light-bulb - Jukka Niittymaa

 

- Luz, quero mais luz! Dai-me luz!

Urgiu, nas suas últimas palavras, reza a lenda, Goethe, no seu leito de morte, para com quem o acompanhava.

Mas a morte, surda, cega, opaca, não deixou passar a luz.

Ver, no sentido de saber, conhecer, é viver. Para ver precisamos de fazer com que a luz chegue até nós, sem obstáculos.

 

A falta de luz, assim tal e qual, deixa muitas criancinhas, com medo do escuro. O desconhecido faz-lhes medo, torna-as inseguras, ansiosas. Precisam de uma luzinha, de presença que seja, para se sentirem no controlo e poderem adormecer. É como o obscurantismo, com consequência nos adultos, vive do medo, do rumor, da distorção, alimenta e cavalga a ignorância.

 

O ar do dia ensolarado e de límpida atmosfera, o vidro amplo, liso, perfeitamente fabricado, a água cristalina, mesmo que corra, permitem ver através de si, são transparentes. Deixam passar a luz.

A transparência deixa passar tudo, ver e ser visto com nitidez: a verdade, a mentira, o reflexo, a refração. Ela, assim, vai-nos enriquecendo de ferramentas que nos permitem ver e saber e criticar e analisar.

 

A transparência faz, proporciona, com que cada um aja como se estivesse a ser observado.

Dá poder. Dá responsabilidade. Gera respeito.

Informação é poder, com informação, formação generalizada, ajo e uso o poder com responsabilidade e respeito, entre semelhantes.

 

Se não houver black outs e a transparência for generalizada, a luz beneficia todos, todos teremos acesso a saber, conhecer pelos nossos próprios meios. E assim estaremos mais bem preparados para saber das coisas, compreendê-las, discuti-las, dar contributos. Sem intermediários que nos contam a sua verdade. Sem alguém com poder para decidir o que cada um pode ou não saber.

 

Sim, é utópico.

Haja luz.

 

Jorge Saraiva

 

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19.10.18

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Foto: Dolphins - Free-Photos

 

O meu elemento é a água, sempre foi, o que não será de estranhar e de ser natural, porque o meu signo é Peixes. Penso sempre na água como algo ligado às emoções, graças à sua transparência que faz com que todos os sentimentos ganhem fluidez, nutrição e força por onde passa. Daí se explique também o meu fascínio pelo Mar, que nunca me canso de o observar e, sobretudo, de o contemplar sempre que posso ouvir o seu espantoso silêncio e por ele deixar-me envolver, evadir-me até aos limites da minha imaginação.

Quando o vejo calmo e tranquilo, observando a sua condescendente mansidão, sinto-me tentado a entrar mar dentro, mergulhar nas suas águas profundas, límpidas e transparentes e ir conviver com as suas miríades habitantes. Só ele, o Mar, enquanto elemento da Natureza, é capaz de revelar através da sua infinita e genuína transparência as suas maravilhas e os seus encantos. É, sem dúvida, o maior reino de águas transparentes que se conhece no Universo, dir-se-ia uma porta aberta a todo o mundo, em que nele se pode entrar sem pedir licença, penetrar até aos seus confins infindáveis, o que nos permite desvendar os mistérios que tão ciosamente guarda. Ele é infinitamente grande, poderoso, dominador e misterioso, mas, porque é generoso, nem por isso deixa de exibir, de mostrar, através da sua enorme transparência, toda a vida maravilhosa que nele existe.

 

José Azevedo

 

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15.10.18

Background - Public Domain Pictures.jpg

Foto: Background - Public Domain Pictures

 

“Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem

E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,

E passa para o outro lado da minha alma...”

Fernando Pessoa

 

Sem bluff, ver logo a pessoa como é. Através dos gestos e palavras. Talvez mais do que faz e, se calhar, nem tanto como o faz. Talvez o que não faça e, nesse instante, o silêncio que estilhaça. Ver uma serenidade ou a indecisão que toma conta desse estar.

Uma terra que se sente revolvida à espera de ser cultivada. Os frutos e as plantas. Tomilhos e flores de borragem.

Contar contigo porque me dizes o que pensas a cada momento, ver essa liberdade, senti-la como partilhada comigo e podendo eu também respirar desse teu estar de cabelos soltos. Permitir-me deixar ir contigo.

Perguntar como será ser e estar assim de um modo simples, direto e quase desarmante, ser o que se é e como se sente.

Por vezes, atento sobre as amarras de uma invisível embarcação, como se se tratasse de um “navio de espelhos / não navega, cavalga” do Cesariny. E, nesse navio de espelhos, deambulamos por entre os fios de ouro envoltos em brumas e névoas ou quando o sol aparece, pelo ar que transpira das janelas que não conhecíamos encerradas, do lado de dentro.

Abrir os meus olhos ao outro e, nesse encontro, exalar uma mesma música que soa, de mim para ti. Chegando mesmo ao outro lado.

 

Maria João Enes

 

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12.10.18

2 Face.jpg

Foto: Face

 

Eu sentia, eu sabia. E ela perguntava-me: “Sabias o quê?”.

Sabia quando olhava para ti, sentia aquelas ditas “borboletas no estômago”, aquele friozinho que arrepiava até ao fundo da alma. Os meses iam passando e a paixão acentuava-se, nada diminuía, muito pelo contrário. O carinho que sentia era cada vez maior, a cumplicidade e o amor. Dizia-te muitas vezes que eras daquelas pessoas únicas, que dava para passar por ti como se nem estivesses presente. E tu rias à gargalhada, não entendias – dizias tu. Dizias que não eras nenhum fantasma, que eu estava a ver muitos filmes, como era possível passar através de alguém, e rias novamente. Eu ria-me também. Não, não era nada fantasmagórico, era uma maneira de te dizer que isso era uma das tuas melhores qualidades. Uma das coisas que mais admirava em ti, a tua transparência. Eras das poucas pessoas que conheço que eram exatamente aquilo que transpareciam. Que nos tranquiliza à primeira, que nos faz apaixonar sem medos, que nos transporta para outro mundo, um mundo mais leve, mais colorido. Coisas assim, nos dias de hoje, estão a ficar em vias de extinção. Tu rias-te quando dizia tal coisa. Porque a tua bondade às vezes era ingénua, mas esse olhar doce e ingénuo só me fazia amar-te ainda mais. Em ti eu sabia que podia confiar, sabia que me podia apoiar. Que podia ser sem medos. Sem segredos.

 

Digam-me vocês. Não é bom amar assim? Poder ser livre estando com alguém? Podermos ter a certeza da transparência da pessoa com quem vivemos, que amamos? Sim! Eu sinto-me uma sortuda. Amo-te “fantasmagoricamente”, dizia-te. E tu? Sorrisos com esse sorriso doce e ingénuo.

 

Inês Ramos

 

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8.10.18

2 Driving - Jake Heckey.jpg

Foto: Driving - Jake Heckey

 

Nada é o que aparenta ser. Há sempre o reverso, a perspetiva contrária ou o outro lado da história.

Nem nós somos consensuais. Geramos impressões e opiniões díspares, multiplicando-nos pelos contextos e papéis assumidos. É assim que nos interligamos com o mundo e as suas diversas faces. E todos apreendemos a realidade através da subjetividade dos sentidos e dos significados atribuídos, construindo assim um quotidiano entre o preto e o branco.

Presos às conceções que ganham raízes, tornamo-nos incapazes de ver mais além, de encarar o outro e as (suas) circunstâncias, de buscar a verdade por detrás das magras aparências. Limitamo-nos à passividade, amealhando, sem contestar, tudo o que nos chega.

Mas há muito mais para além disso. Há que romper com esta falsa transparência, que se assume como janela para o interior do outro ou mesmo da verdade e afinal não é mais de que um espelho de nós mesmos e da nossa visão do mundo, não como ele é, mas como pensamos que seja.

 

Sara Silva

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6.7.18

Cloudy - Adlferry.jpg

Foto: Cloudy - Adlferry

 

Olho para longe e vejo lagos, montanhas, cascatas, animais à solta, pastos verdejantes, estradas que se cruzam entre si, céu e nuvens mais claras e mais escuras.

Chega-me tudo através da minha perceção, tal e qual as coisas se apresentam. Bem sei que cada um interpreta tudo à sua medida: É aquilo que ali está – umas mexem, outras não, umas brilham, outras não, umas assustam, outras não – mas é aquilo, não é mais do que aquilo. Não há elementos a retirar o que não pode ser retirado ao que é real, ao que é natural…

Olho para mais perto e apenas vejo tudo maior; não altera nada na sua essência. As coisas são aquilo que são, é aquilo que está ali. As cores estão mais nítidas, porque estão mais perto, apenas. Não há forma de alterarmos o que se nos apresenta, é verdadeiramente uma imagem deslumbrante, porque é aquilo que lá está e não estará noutro local. É tudo tão transparente, no sentido em que é real, verdadeiro. E os lagos? Esses são mesmo muito transparentes – não têm mais do que água, cuja cor apenas vai se modificando pela cor que o céu vai assumindo mas, ainda assim, não perde a sua transparência, naturalidade, verdade. A qualquer momento deixam de o ser, se forem introduzidos elementos que os perturbem – é como no ser humano. É melhor pensarmos que a transparência, a verdade, a naturalidade e o real são caraterísticas de tudo o que nos rodeia, também das pessoas. Eu ainda acredito!

 

Ermelinda Macedo

 

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O tempo, a arbitrariedade da vida e as fragilidade...
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