6.7.18

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Foto: Cloudy - Adlferry

 

Olho para longe e vejo lagos, montanhas, cascatas, animais à solta, pastos verdejantes, estradas que se cruzam entre si, céu e nuvens mais claras e mais escuras.

Chega-me tudo através da minha perceção, tal e qual as coisas se apresentam. Bem sei que cada um interpreta tudo à sua medida: É aquilo que ali está – umas mexem, outras não, umas brilham, outras não, umas assustam, outras não – mas é aquilo, não é mais do que aquilo. Não há elementos a retirar o que não pode ser retirado ao que é real, ao que é natural…

Olho para mais perto e apenas vejo tudo maior; não altera nada na sua essência. As coisas são aquilo que são, é aquilo que está ali. As cores estão mais nítidas, porque estão mais perto, apenas. Não há forma de alterarmos o que se nos apresenta, é verdadeiramente uma imagem deslumbrante, porque é aquilo que lá está e não estará noutro local. É tudo tão transparente, no sentido em que é real, verdadeiro. E os lagos? Esses são mesmo muito transparentes – não têm mais do que água, cuja cor apenas vai se modificando pela cor que o céu vai assumindo mas, ainda assim, não perde a sua transparência, naturalidade, verdade. A qualquer momento deixam de o ser, se forem introduzidos elementos que os perturbem – é como no ser humano. É melhor pensarmos que a transparência, a verdade, a naturalidade e o real são caraterísticas de tudo o que nos rodeia, também das pessoas. Eu ainda acredito!

 

Ermelinda Macedo

 

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2.7.18

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Foto: Anatomy - Gerd Altmann

 

Nas relações humanas, sejam profissionais ou pessoais, tanto como em Física, somos confrontados com o conceito de transparência.

Em Física, é apenas uma categoria que está em paralelo com opaco e translúcido. Opaco quando não deixa passar qualquer luz. Translúcido quando deixa passar a luz mas não a imagem tal como ela é na realidade. Transparente quando, do outro lado do obstáculo, vemos a imagem tal como ela é, não sendo apenas uma visualização da luz que tem.

Nas relações humanas podia ser tão simples como na Física, considerando que a luz seria a essência do ser que vemos. Será que é? Claro que não… As pessoas são diferentes de dia para dia, consoante as experiências de vida que vão tendo. Mesmo sabendo que a essência não deveria mudar, o nosso estado espírito não é totalmente controlado como e quando queremos. Seremos, então, opacos, pois não deixamos ver nada de nós mesmos? Não, também não é isso, pois seria impossível acontecerem relações humanas, qualquer que fosse o tipo.

Ser translúcido é, assim, a nossa essência. Deixamos passar a nossa luz mas a totalidade da imagem fica para quem aprofunda mais o conhecimento sobre nós. Tal postura perante a vida não é enganadora para quem nos conhece. É apenas impossível o Outro conhecer tudo do meu Eu. Por vezes nem eu mesmo conheço…

Quando ouvimos ou lemos “Total transparência no negócio”, deveremos então desconfiar.

Se ouvirmos “Um dos valores que defendemos é a transparência”, poderemos arriscar confiar pois o que afirmam é que apenas tentam ser transparentes e dão valor a quem também tenta ser transparente.

Opto por uma visão mais realista, considerando que somos translúcidos, mesmo tentando ser transparentes.

 

Sónia Abrantes

 

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29.6.18

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Foto: Woman - PublicDomainPictures

 

Saíram de casa num dia de sol, mas ainda que chovesse não teriam ficado.

Eram um jovem casal e saíram, deixando tudo o que de material haviam conquistado naquela cidade. Deixaram para trás a casa que Hana herdara da tia-avó, e as mobílias escolhidas com detalhe na loja de móveis usados. Deixaram as molduras com fotografias da família, e os álbuns com tantas recordações felizes.

O despertar não foi difícil, já que a noite havia sido de sobressalto, como todas as anteriores em que ouviram disparos e bombas ao longe. Cada um deu-se a oportunidade de um duche demorado, com água bem quente, numa tentativa de garantir a alma aquecida para a viagem.

Naquela manhã rezaram juntos, como sempre, mas desta vez com uma noção mais real da total entrega à providência divina.

O pequeno-almoço foi simples e salgado pelas lágrimas que não puderam conter. A comida que sobrou do jantar foi colocada num saco, onde Hana juntou duas canecas de latão e dois garfos.

Reviram a lista das coisas que não podiam deixar esquecidas, e cada um confirmou a mochila do outro, para que se sentissem mais confiantes ao fechar a porta.

Abraçaram-se com a certeza de quem sabe que tem Deus, limparam as lágrimas que insistiam em cair, e saíram com as mãos dadas.

Não. Não saíram. Fugiram.

Fugiram da guerra e de uma morte certa em data incerta. Fugiram dos sonhos desfeitos, com a certeza de que novos nasceriam, numa qualquer terra onde existisse paz.

Foi uma fuga sincronizada em duas velocidades diferentes: por um lado o coração, que voava quilómetros a cada minuto, na ânsia de chegar a um porto seguro a cada final do dia; e por outro os passos físicos, dos pés doridos e cansados.

Ademir e Hana seguiram em filas intermináveis de homens e mulheres de olhos postos no chão, salpicadas por crianças que, na sua inocência, brincavam sem se importarem com a distância cada vez maior das suas casas. Ademir e Hana decidiram não se preocupar com a casa que deixaram arrumada e com a porta bem trancada, na esperança de ali regressarem mais cedo ou mais tarde. Prometeram um ao outro que a casa seria sempre onde estivessem juntos. E assim a cada noite, fosse debaixo de chuva, vento, ou um céu estrelado, sentiam o conforto do lar quando abriam a bíblia e rezavam – umas vezes com palavras, outras com o silêncio do olhar que se inundava.

A bíblia e o crucifixo encabeçaram a lista dos indispensáveis, mas foram as últimas coisas que Ademir colocara na mochila, no dia em que deixaram Alepo. E foi intencional, pois sabia que tê-los sempre à mão lhe dava a segurança necessária e um incentivo adicional, quando as forças físicas fraquejassem.

 

 

- Mãe, os teus amigos devem ter sofrido muito!

- É por isso que te digo tantas vezes que tens de relativizar os teus problemas, Mariana!

- Eles demoraram quanto tempo a conseguir chegar aqui? No artigo que estás a escrever para a revista também vais explicar essa parte?

- A Hana não acha importante falar sobre quanto tempo levaram, mas ela costuma dizer que foi um tempo pensado por Deus, enquanto pôde aconchegá-los a cada noite no Seu colo...

 

HTR

 

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25.6.18

Woman - StockSnap.jpg

Foto: Woman - StockSnap

 

“Meu amor”. São duas palavras pequeninas que têm um valor imensurável e um significado intenso.

“Meu”. Porque és minha sem aquele sentido de posse, mas com aquele sentido de pertença, de existência em comum. Porque fazes parte da minha vida de uma forma única e especial, sem ser cliché, e ocupas um lugar exclusivo, nunca antes ocupado. Minha namorada, minha mulher, minha alma gémea, minha companheira, minha cúmplice, minha pessoa, minha mais que tudo, minha coisa boa, meu tesouro… e poderia continuar.

“Amor”. Não vou descrever esta palavra porque é o nome de um sentimento poderoso, de uma beleza singular, com um potencial incalculável. Por isso, vou apenas fechar os olhos e vou dizê-la para mim, vou repeti-la vezes sem conta e vou senti-la. Vou imaginar-te e vou só sentir aquilo que ela traduz para nós… e vou sorrir, certamente que vou sorrir, numa expressão facial e com o coração.

São duas palavras que utilizo neste nosso dia-a-dia de uma forma consciente, com sentido e com toda a emoção que elas traduzem. São bonitas e fazem-me todo o sentido. Gosto da forma como soam e gosto daquilo que provocam em ti.

 

Meu amor, isto é a introdução da nossa história. Uma história com muito mais do que 3 anos, uma história impossível de traduzir literalmente e na qual dificilmente conseguirei ser totalmente fiel. É uma história bonita que se continua a construir a cada dia e aqui ficarão essencialmente as experiências mais marcantes, os momentos mais emocionantes, os acontecimentos mais especiais e inesquecíveis que vivemos. Quero registar o que de melhor existe em nós, realçar o quão especial e únicas somos. Quero imortalizar o NÓS! Ambicioso? Talvez… mas, para além de gostar de desafios, também sou persistente!

Podia dar-lhe o título de livro porque é nos livros que se encontram as mais bonitas histórias de amor. Mas não quero, porque um livro é estanque e a história tem um fim. A nossa não tem e, por isso, não faria qualquer sentido. Quero que seja algo em constante crescimento e, assim, que seja o mais fiel possível. Cada uma com as suas particularidades, temos tanto de semelhanças como de diferenças. Lembro-me, desde cedo, de comentarmos o quão curioso era o facto de sermos tão parecidas mas tão diferentes.

Como é natural, fomo-nos conhecendo ao longo do tempo e fomo-nos descobrindo mutuamente. Porém, o mutuamente transcende-se, porque nos fomos igualmente conhecendo melhor a nós mesmas. Cada uma de nós conseguiu potenciar na outra as suas melhores caraterísticas. A vida faz-nos crescer, sem dúvida, mas o conhecimento que tenho de mim, hoje em dia, deve-se em grande parte àquilo que me foste mostrando sobre mim mesma. Sempre acreditaste em mim e nas minhas capacidades, muito mais do que eu, e isso fez-me vê-las como nunca as tinha visto.

No sentido oposto aconteceu o mesmo e as diferenças em cada uma de nós estão à vista, sentem-se. Essencialmente, somos pessoas mais otimistas, mais leves e confiantes, mais seguras, aventureiras, e mais felizes!

O “Nós” é difícil de definir. Consigo dizer que envolve sentimentos para além dos óbvios, caraterísticas específicas, pessoas em comum, paixões paralelas e objetivos semelhantes.

 

Foi assim que comecei por escrever uma história onde a confiança era inabalável. Eu sou uma pessoa desconfiada por natureza, nunca confio em ninguém até me provarem o contrário, porque as pessoas passam a vida a desiludir-nos. A minha quota de desilusão é tão imensa que foi assim que me tornei. Até tu apareceres!

Sempre otimista e crente nas pessoas, totalmente o oposto de mim, confias até que essa pessoa te dê razão para não o fazeres. Mostraste-me isso e convenceste-me a pouco e pouco. Mas acima de tudo confiei em ti, cegamente, sem quaisquer dúvidas de que estaríamos juntas para sempre. Porque foi isso em que me fizeste acreditar a cada dia que passei ao teu lado. Lutei para aceitar que era louca por ti e para revelar isso a todos os que nos rodeavam, que há muito já tinham percebido o nosso sentimento mútuo. As pessoas admiravam-nos e até certo ponto, invejavam-nos, de uma forma boa.

Demorei igualmente muito tempo a aceitar que algo estava mudar. Não queria ver algo que para mim era inimaginável, como era para ti sempre que falávamos no assunto. Falávamos sobre tudo abertamente. E deixaste de o fazer a determinada altura. Surpreendeste-me logo aí e a confiança abalou. Confrontei-te várias vezes e dei-te sempre uma nova oportunidade para mudares, porque eu confiava que tudo ia ficar bem. A confiança que tinha em ti era maior do que a confiança em mim mesma. Isto é tão verdade que, quando contei às nossas amigas que já não estávamos juntas, todas pensaram que tinha sido eu a desistir. Tu perdeste-te, deixaste-te deslumbrar pelo desconhecido e nem mesmo o amor que sentias (e que sei que ainda sentes) te fez parar. Nem os avisos, nem a desilusão que foste aumentando em mim. Um dia tudo desabou, não havia volta a dar porque a confiança acabou de vez. Apesar de toda a nossa história, aquela que introduzi aqui, não foi possível voltar atrás. A mágoa ainda existe, a dor permanece porque foste tu, a pessoa mais confiável que conheci, que me desiludiu.

Quiseste perdão, quiseste explicar-te, quiseste outra oportunidade mas não me foi possível porque a cada tentativa só me desiludias ainda mais. Ainda hoje desiludes e não te reconheço. Por ter perdido a confiança em ti, perdi para além do meu amor, a minha melhor amiga, a minha maior companheira, a minha melhor companhia, a minha pessoa, a minha maior cúmplice, o meu maior pilar… e poderia continuar.

 

Ainda te amo, morro de saudades tuas, nossas, mas sou incapaz de te olhar sequer!

E pergunto-me, como vou confiar de novo?

 

Marisa Fernandes

 

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22.6.18

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Foto: Girl - Bob Dmyt

 

As relações humanas, tal como todos sabemos e cedo aprendemos, são extremamente complexas. Elas regulam-se por diversos fatores, sendo talvez dos mais importantes os que se associam aos papéis sociais que assumimos. Da mesma forma, os conceitos associados aos diferentes contextos e papéis submetem-se a regras específicas, transformando-se em significações diferenciadas, querendo-se, contudo, objetivas na comunicação.

Assim, confiança entre um casal (dois elementos, dois papéis sociais, um contexto específico), não é a mesma coisa que a confiança entre um superior hierárquico e um subalterno (dois elementos, dois papéis sociais, um contexto específico). A palavra confiança mantém-se, verificando-se uma diferenciação quanto ao seu significado (extensão, profundidade e requisitos até – por exemplo legais).

Desde crianças somos empurrados para a ideia que a confiança é um “bem caro”, logo nunca deverá ser “dado” cedo demais e nunca a quem não “a merece”. Entende-se, desta forma, que a criança deverá cultivar um espírito crítico relativo aos que a rodeiam, assim como um juízo de valor das situações (e também das pessoas) em que se vê em jogo. E de um jogo por vezes se trata. As motivações implícitas ou explícitas, os seus desejos, amores e ódios poderão ser o objetivo final de uma relação de confiança falseada ou, em contrário, verdadeira. Evidentemente que o desenvolvimento normal irá afinar todas estas questões, ajudando assim na construção de uma personalidade que se revelará (ou não!) na plenitude da sua maioridade.

 

Será uma criança desconfiada, um adulto desconfiado em potência? Sinceramente, não faço ideia. Mas mais importante ainda: será uma criança desconfiada, um marido ou uma esposa desconfiado/a em potência? Será uma criança desconfiada, um mau líder ou gestor em potência? A ser “verdade” esta relação causa – efeito, a verdadeira “mossa” encontra-se aí. Enquanto “adulto” não nos identifica ou diferencia praticamente de forma alguma, “pai”, “psicólogo”, “chefe”, etc., categoriza-nos de forma muito específica, balizando muito do que de nós se espera, na cultura em que nos inserimos.

 

Rui Duarte

 

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18.6.18

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Foto: Tree - Dimitris Vetsikas

 

Na selva do medo, pergunto a todos os sentidos que me habitam, a todas as pedrinhas que piso, a todos os ramos que estalam, à dor da minha passagem: “quantas vidas é preciso morrer para que se aprenda que a cautela é mais que instinto?” E só o vento que me atravessa ousa responder-me: “Tantas quantas mortes seja preciso viveres, para que confies nas clareiras – à luz, a verdade é memória de sangue, mesmo que eu dissipe o pó de todas as lutas, vividas e não vividas”.

Ah, as clareiras da Fé! – esse parente excelso da esperança. Não sei se no corpo que compõe a memória futura do pó que serei, ainda resta resquícios dela... pois que até ele me há de trair! Mas respeito a soberania do sangue. A verticalidade genética do caráter e o alcance transversal da experiência. A interdisciplinaridade dos saberes e a transcendência da coragem. Creio no vento.

 

Estudo o chão volátil da clareira à minha frente: há sinais de luta, riscos de arado, sulcos de águas rápidas, lamas de seca lenta. Sangue. Marcas que deixaram as presas arrastadas. Flores. Frutas esperando a sorte da fome, antes que o tempo lhes corroa a polpa. Sementes já sábias, ciosas e crentes no poder das chuvas. Vida. Despojos e oferendas. E o Sol passando alto, nomeando as cores, garantindo aos corpos a energia do calor, e a ambição do paraíso.

O vento abre-me passagem, eleva-se em alas de cicio leve, pousa nas copas altas das árvores expectantes. Respiro fundo - e abandono, enfim, a malha apertada da selva escura a que eu me agarrava por precaução e cegueira. Devagar, ofuscada pela luz, trémula mais por emoção que por medo, mas ainda cuidadosa, mas ainda ouvindo as vozes ancestrais de todas as minhas células perecíveis, liberto-me das sombras como réptil descartando a pele. Ou como crisálida eclodindo.

Vou. Voo. Mas a ousadia é um céu eletrificado, e eu um poço de água viva… – e caio à terra já macerada de outras quedas, de outros sonhos. Reergo-me e aprendo: a humildade é um veículo seguro e a coragem é o chão que me promete a eretilidade: já é tanto quanto baste à minha sobrevivência. E, apesar do meu corpo vulnerável a todas as coisas sob o sol, a minha sombra reconforta-me, garante-me que há norte ao largo da minha capacidade inata de sentir. Serei capaz de tudo, se respeitar os tempos, os espaços, as memórias, as razões, os ciclos, as pedras, todos os seres. E o instinto.

Confio.

 

Teresa Teixeira

 

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15.6.18

Supergirl - Thomas Abdella.jpg

Foto: Supergirl - Thomas Abdella

 

A autoconfiança é como uma bola de pingue-pongue: às vezes lá no alto; outras vezes no chão (ou mais abaixo ainda).

Recordo com amargura o período em que estive desempregada. Dois longos anos que juntaram uma licença de maternidade, uma empresa em decadência e um mercado de trabalho em franca contração.

Ser mãe a tempo inteiro nunca foi uma ideia que me atraísse, porque afinal, de que serve ser uma (super) mulher se não puder desempenhar diariamente dezenas de papéis e tarefas?

O arrastar dos dias, a ausência de resposta a candidaturas e entrevistas, a falta de contacto com a profissão, foram minando a crença nas minhas capacidades, e tornando cada vez mais ténues as esperanças de um dia voltar a trabalhar na minha área.

 

Mas o pior... foram as pessoas (algumas). Porque é quando estamos mais em baixo que descobrimos o pior das pessoas. A forma como ainda nos fazem sentir pior. Há pessoas que se superlativam diminuindo os outros. Período negro, esse...

Ficou para trás, felizmente. Mas ficou também gravado um ensinamento. Ou vários, até:

Perseverança, perseverança.

Tapetes e uvas podem ser pisados; as pessoas não.

Desistir? Nunca.

Confiança? Em mim. Todo o resto é de desconfiar.

 

Sandrapep

 

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11.6.18

 

Mafalda - Quino.jpg

Foto: Mafalda - Quino

 

Eu confio

Tu confias

Ele confia

Nós confiamos

Vós confiais

Eles confiam.

Que bando de ingénuos, não é?

Mafalda a Contestatária; Quino

 

Será? É de ingenuidade que se trata quando falamos em confiança?

Aparentemente sim, confiança e ingenuidade são duas palavras juntas e casam bem. Mas, sendo a confiança um sentimento de quem acredita, em algo ou alguém, e a ingenuidade uma qualidade ligada à falta de conhecimento, como é que este sentimento e esta caraterística caminham de mãos dadas? Acreditar cegamente que todas as pessoas têm um bom carater e confiarmo-nos a elas, é ser ingénuo. E, no entanto, que outra forma existe de ganharmos confiança, a nossa e a dos outros, se não falarmos uma linguagem de bondade, uma linguagem de ingenuidade?

Às vezes, muitas vezes, falarmos a linguagem do coração faz de nós ingénuos, se calhar sem impacto no outro, ou existindo, sem o efeito esperado e desejado porque não é garantido que quem ouve, ouve também com o coração, mas torna-nos confiáveis.

A ingenuidade é uma virtude que não dura mas, em nós, ela está em estado permanente porque, se descobrimos num momento o que desconhecíamos até então, estamos simultaneamente a ser ingénuos relativamente a outras novas e futuras situações. E continuamos confiando no Outro, no desconhecido, em nós e no nosso saber. Ingenuamente, acreditamos que o amanhã se não for melhor há de ser igual a hoje, e continuamos confiando.

Assim emparelhadas, confiança e ingenuidade, não nos deixarão demasiados permeáveis, desprotegidos e à mercê de forças alheias que nem sempre são de boa vontade? Para nossa defesa, não sejamos ingénuos, nada nem ninguém merece uma confiança ilimitada. É da sabedoria popular que todos temos um preço; encontrado esse preço a tentação é grande e destrói-se a confiança. Confiança perdida dificilmente é recuperada e, de tantas vezes se perder, passamos a conjugar o verbo pela negativa:

Eu não confio

Tu não confias

Ele não confia…

 

Cidália Carvalho

 

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8.6.18

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Foto: Waterfall - Gerhard Bögner

 

Assim no imediato é como se fosse um delta de um rio a espraiar-se por terrenos quase absolutamente planos, com um caudal grande, pujante, tranquilo, entregando as águas no oceano final, imenso, depositando a aluvião nas margens, assim contribuindo para a sua continuada fertilidade.

Nada aqui nos fará pensar que estas mesmas águas serenas, dóceis, espelhando as margens e as cores e as nuvens do céu, já foram, pelo menos, buliçosas, convulsas, rasgaram saída através de encostas, precipícios, buscando caminho, indómitas, para se juntarem a um curso de água maior, mais caudaloso, mais pacífico, que, por sua vez, segue o seu caminho e termina noutro rio maior, mais largo, mais profundo, mais influente.

 

Nos tempos imemoriais em que as águas pensavam, muito, muito tempo antes desses tempos perdidos em que os animais falavam, nesses tempos as águas sabiam, desde que eram uma gota de orvalho, um pingo de chuva ou um floco de neve, confiavam que iriam, no final, tranquilamente chegar ao mar. Essa confiança, uma crença plena, enchia-as da vontade, meninas agora já em forma de regato, que as fazia escolher o melhor percurso, por mais escolhos, obstáculos que encontrassem. Essa confiança dava-lhes o atrevimento para continuar, mesmo que empoçassem quase estagnando e, com a familiaridade de tanta água junta, haviam de ir mais longe, sempre mais longe, até cumprirem o seu destino.

Sim, a água é fundamental para a vida como a conhecemos, é de lá que vimos e temos avançado, caído, voltado a levantar, porque temos curiosidade, atrevimento, vontade, sonhos, objetivos.

 

Sem confiança não chegamos lá, não vale a pena, sem confiança não acreditamos nos que nos rodeiam. À falta de confiança vivemos e convivemos tão mais dificilmente.

A confiança torna o impossível realizável. Mais do que as águas que têm um destino a cumprir, proporciona-nos construir novos, e no início impossíveis, destinos.

 

Jorge Saraiva

 

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4.6.18

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Foto: Achievement - Rawpixel

 

Acreditar em si próprio e, se possível, nos outros com quem se convive, deverá ser o lema da vida de cada um de nós. Acreditar significa ter confiança em si e nos outros, significa ter confiança naquilo em que se acredita, significa saber lidar com o melhor e o pior, significa ter força mental para vencer as barreiras e dificuldades que se nos colocam no dia-a-dia. É no acreditar que está a raiz da confiança, tão necessária para se conseguir o que se deseja. Quanto mais se acreditar, mais confiança se ganha, mais a esperança será robustecida como força inspiradora e motivadora para se confiar no futuro.

Óbvio que a confiança deve ser mútua, deve ser um elo de fortalecimento entre nós e os outros, para se poder construir qualquer tipo de boa relação entre as pessoas.

Por isso, não basta confiar e acreditar só em si próprio, devemos acreditar e ter confiança nos outros, para deles podermos ganhar a sua confiança. Quem não tem confiança nos outros, deles não pode esperar confiança.

Segundo François La Rochefoucaul, na sua obra “Reflexo”: “a confiança que temos em nós mesmos, reflete-se, em grande parte, na confiança que temos nos outros”.

A confiança mútua, para além de se exprimir num dar e receber de afetos é, acima de tudo, um sentimento que nos traz paz e serenidade, tão necessária nos tempos atuais.

Citando ainda Thomas Atkinson, extraído da sua obra “Crer em si mesmo”: “O mais importante para o homem é crer em si mesmo. Sem esta confiança nos seus recursos, na sua inteligência, na sua energia, ninguém alcança o triunfo a que aspira”.

 

José Azevedo

 

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1.6.18

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Foto: Girl - Alteredego

 

Tudo começou quando nasceste. Quando nasceste, algo em mim nasceu também, um novo sentimento, ou vários ao mesmo tempo. Desconhecia alguns deles, mas eram todos tão bons de sentir.

Foste crescendo e eu fui crescendo contigo, ensinei-te tudo o que sabia e desde a tua nascença que nos tornámos inseparáveis, ríamos vezes sem conta quando as nossas primas se zangavam uma com a outra, quando lutavam porque queriam a mesma coisa, mas nós… Nós não, nunca fomos de guerrear por nada, partilhávamos uma com a outra, nunca quis ter mais do que tu, queria sempre que tivesses mais e melhor, queria que estivesses sempre feliz; era a irmã mais velha, tinha que olhar por ti.

Lembro-me, tão bem, da primeira vez que fomos ao parque – estavas com medo de subir as escadas e com medo de descer pelo tubo do escorrega; apesar da enorme curiosidade o medo era superior. Lembro-me, tão bem, de te dar a mão e a apertares – olhaste para mim e sorriste. E foi aí, foi nesse exato momento que soube o que era a palavra CONFIANÇA, quando confiaste em mim e me agarraste na mão para subir as escadas, quando esperei por ti no fim do escorrega e te vi descer tão confiante depois de dizer que conseguias. Foi daqueles momentos indescritíveis que nos ficam na memória para sempre.

E foi a partir daí que juntas fomos ganhando forças, fomos ganhando coragem para enfrentar cada obstáculo da vida, enfrentando o medo e ganhando confiança a cada experiência vivida. Prometi estar ao teu lado, prometi ajudar-te, ensinei-te a importância de teres confiança em ti mesma para conseguires olhar em frente e seguires os teus sonhos, acreditando que consegues.

A confiança é a luz que vês ao fundo do túnel, é o alento e a força de que precisas.

 

Inês Ramos

 

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28.5.18

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Foto: Vietnam - Jess Foami

 

Gosto do mundo, das pessoas, das múltiplas formas de vida, dos mil encantos que encontro em cada esquina, em cada nova rua que percorro. Gosto do que sinto em mim quando me deparo com o milagre da existência, da singularidade de cada universo com que me cruzo – cada um de nós é um mundo sem réplicas. Todavia, mergulhar na Humanidade é, também, aceitar as suas facetas mais negras. É saber que haverá sempre quem faça o pior ao seu semelhante, quem se venda por muito pouco, gente para quem respirar não vale nada. Aprendi, também com a vida, que esses estão, na grande maioria das vezes, demasiado perto, debaixo da nossa asa, a partilhar o nosso espaço íntimo e pessoal. Aqueles que mais nos ferem não são os desconhecidos, são os que amamos; são aqueles com quem partilhamos, com frequência, laços de sangue. E aos quais, pelas mesmíssimas razões, não podemos, simplesmente, virar as costas e partir.

 

Continuo a confiar na raça humana porque mo validam, dia após dia, as pessoas incríveis que tenho tido o privilégio de conhecer ao longo da minha vida. Considero as histórias de caos (também pessoal) e que dão nota de algumas facetas menos nobres da Humanidade, a exceção que confirma a grandeza dos meus congéneres. Acredito, piamente, que são mais os que amam e lutam, com e pelo seu semelhante, no mundo; do que aqueles que, em cada acontecimento, vislumbram (e executam) a oportunidade de “lixar” o próximo. Às vezes, só porque sim. Pois, pasmem: Também há quem seja bom, genuinamente bom, só porque sim – ideologias, género, crenças e rótulos à parte. São estes que tornam os meus passos mais seguros, a minha mente mais leve e o coração mais sereno. A eles devo a validação contínua da minha fé na raça humana e a sensação de pertença a algo muito maior do que eu.

Apesar de amar a vida, em geral, e me sentir grata por ser pessoa, em particular, caminhar entre humanos é um desafio mental tremendo. Nem sempre encontro uma linguagem comum que me permita comunicar com clareza - e não, não me refiro aos obstáculos linguísticos que trazem, por exemplo, os cerca de seis mil idiomas falados nesta “nossa” Terra, o que me impede de entender a realidade dos outros e as suas circunstâncias. Sinto-me, com frequência, impotente, incapaz de concluir com êxito as interações em que, voluntária ou involuntariamente, sou interveniente. É neste complexo processo de adaptação, na (des)aprendizagem de paradigmas e modos de ação que encontro forma de sobreviver e aceitar que jamais entenderei tudo. Sobretudo, no que toca à natureza dos outros e às suas camadas emocionais. Às vezes, é preciso aprender a sair de cena, simplesmente. E confiar que, cada decisão que tomamos, nos afasta de tudo aquilo que não é para nós.

 

Amo a Humanidade mas confio em muito poucas pessoas. Abraço toda a gente (creio que quem sofre e magoa precisa de mais amor ainda, talvez seja apenas uma ferida que fere) mas não me deixo abraçar (inteira) por quase ninguém. A minha alma resguarda-se, cada vez mais, perante as atrocidades do mundo, este pobre infeliz que precisa de amor e de esperança como de “pão p’ra boca”. Entendo as urgências dos que gravitam à minha volta mas não lhes entrego as minhas. Isso seria vilipendiar a minha própria existência, a única que será minha, nesta vida terrena. Não posso servir as minhas inquietudes com um chá e esperar que os outros me estimem como me devo estimar, bem sei, mas gostava tanto de poder confiar inteiramente noutro ser humano… Gostava de poder descansar em alguém, de chegar a casa, de conhecer esse sítio para lá de mim mesma, de total confiança e amor, onde a alma repousa e os olhos se podem fechar, sem medo do dia seguinte. Sei exatamente o que é que esse sítio, que ainda não conheço, me faz sentir. Por causa disso, não consigo viver pela metade, com ninguém, em lado nenhum.

Talvez um dia alguém decifre o meu idioma e leia nas linhas da minha pele, sem esforço. Talvez, nesse dia, eu possa ser quem sou, partilhar o que carrego há uma vida inteira e sentir-me, finalmente, segura e protegida. Talvez.

 

Alexandra Vaz

 

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25.5.18

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Foto: David Gareji - Goda Kupryte

 

A vingança é um prato que se serve frio. Ou será a confiança…?

Por vezes, a reação a uma situação desagradável é, de imediato, a vingança, mesmo que involuntária e inconsciente. A confiança, por sua vez, só a conquistamos depois de algum tempo a conviver e a viver, a dar provas de que somos de confiança, de que podem contar connosco para aquilo a que nos propomos, mesmo com alguns erros. Nós próprios, apenas desenvolvemos a confiança individual depois de muito trabalhar para isso. Uns, mais facilmente e mais rapidamente do que outros, é certo, mas não é imediato.

Conhecemos alguém e depositamos toda a nossa confiança logo na primeira vez em que nos vemos? Se assim for, teremos também que estar preparados para que corra mal e não considerar muito as desilusões. A confiança ganha-se quando permanecemos coerentes, fiéis àquilo que pretendemos transmitir e realmente ser.

 

Tenho-me deparado com imagens, primeiras imagens, que induzem a grandes erros. Quantas vezes pensamos que podemos contar com alguém que se apresenta com imensos floreados e depois, na hora certa, depois de muito conviver mas sem provas dadas sobre determinado aspeto, a pessoa falha? Falha, não… Deixou de ser de confiança, ou nunca chegou a sê-lo pois não foi posta à prova antes disso. Não deixamos o prato inicial arrefecer da euforia do início, então todo o calor e ímpeto inicial induzem a grandes erros.

“Nem em mim própria confio, quanto mais…”. Sim, quando estou muito entusiasmada com algo, a vontade é imensa e a energia também, mas ao longo do processo tudo se pode gastar muito depressa. Se se mantiver o mesmo nível, passamos a ser de confiança. Se baixarmos o nível a que nos propusermos, deixamos de ser fiáveis. Como alguém diz por aí: “Keep it simple.”

 

Sónia Abrantes

 

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21.5.18

Girl - Lisa Runnels.jpg

Foto: Girl - Lisa Runnels

 

Para vivermos precisamos de confiança no outro e em nós… penso eu…

 

O que é confiar no outro?

É esperar que o outro não nos desaponte.

É esperar que o outro seja sincero.

É esperar que o outro guarde para si aquilo que partilhamos.

É esperar que o outro seja uma referência para nós.

É esperar que o outro nos dê segurança.

É outras coisas, com certeza…

 

O que é confiar em nós?

É esperar que as expetativas que temos sejam congruentes com o que fazemos.

É esperar que tenhamos autoestima suficiente para que acreditemos nas nossas potencialidades.

É esperar que tenhamos a certeza do que fazemos.

É esperar que aquilo que sabemos dará resposta ao que nos é pedido.

É outras coisas, com certeza…

 

A confiança ganha-se e perde-se num minuto, com uma palavra certa ou errada, com um gesto certo ou errado.

 

Há dias, quando eu me “queixava da vida” num momento de indignação, uma pessoa com os seus sábios 90 anos disse-me: “Não fales com a boca – fala sempre com coração; só assim Ele te ouve e leva a sério o que dizes e pedes.”.

Pensei… De facto, quando penso e falo com o coração confio no que digo e confio em mim, porque não digo nem mais nem menos do que aquilo. Está lá tudo! Provavelmente, os outros receberão assim a mensagem (transparente; está lá tudo). Não há razão para não confiar.

A confiança transporta-nos para o mundo das relações humanas, cujas variáveis são difíceis de controlar… penso eu...

 

Ermelinda Macedo

 

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18.5.18

Child - Jonny Lindner.jpg

Foto: Child - Jonny Lindner

 

A vida amedronta. Di-lo a criança em nós, saudosa das liberdades e inocências de outrora. Desde então que ela se tornou num conto sem fadas, dragões ou príncipes, e aqui estamos, adultos, com os nossos próprios monstros e heróis.

Continuamos com medo do desconhecido, dos passos que ainda nos falta dar ou do que se encontra ao virar da esquina, todos eles derivados da incerteza daquilo de que somos capazes. E é a própria vida que se encarrega de o evidenciar. Ela pega na crença necessária em nós mesmos e nas potencialidades latentes e impele-nos à ação. E nós seguimos, bravos, destemidos, aventurando-nos pelos recantos obscuros que antes nos intimidavam. Tudo porque ousamos. Porque acreditamos.

Para quê deitar a perder os inúmeros momentos de que poderíamos usufruir tão viva e intensamente, só porque partimos derrotados e desvalorizados? Somos humanos, cometemos erros e sem a tentativa não há a experiência. Há que dar uma chance às infinitas capacidades humanas e assim, talvez, nos convertamos nas princesas arrojadas e cavaleiros valentes dos quais esta realidade urgentemente necessita. E juntos, rumaremos em frente, batalha após batalha, com confiança!

 

Sara Silva

 

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14.5.18

Generations - Tammy Cuff.jpg

Foto: Generations - Tammy Cuff

 

Não decidiste partir, mas foste-te mesmo assim. Acredito que fosses, de todos, o que menos se queria ausentar, mas de nada adiantou. Tiveste a sorte de ver cumprido um último desejo, algo que poucos terão hipótese de conseguir. Posso dizer que aí foste feliz. Não sei se terei o mesmo. Na verdade, não sei se terei tanto.

Fazes-nos falta e fazes-me falta… Aborrece-me pensar que as memórias de ti, de nós, vão ficando fracas com o tempo. Algumas dessas memórias estão a partir também. Por vezes, socorro-me de outros para não sucumbir, finalmente, a esse vazio. Conversas de “lembras-te daquela vez…” enchem-me o coração e os olhos também.

Houve quem gravasse na pele o teu rosto e quem desse teu nome a um filho. Homenagens nobres para um nobre. Homenagens para um ciclo que se queria eterno. O teu nome, nem que seja num outro, mantém-te vivo entre nós.

Esse outro que nunca te conheceu, mas que ainda ontem via fotografias tuas. Perguntou-me coisas sobre ti. Sobre como eras, como era o original. Respondi-lhe e falei-lhe de ti. Não sei se alguma vez, contudo, conseguirá perceber o que foste para mim. Para nós. Gosto mesmo de acreditar que, de alguma maneira, esse outro herdou mais de ti que apenas o nome.

O ano da tua partida foi o mesmo da chegada do teu homónimo. Propositadamente. No início e final do mesmo. Final e início de dois ciclos. Quem sabe se num lugar, que não este, vocês se encontraram e conheceram? Se lhe passaste o testemunho e avisaste da responsabilidade de carregar o teu nome? Se assim foi, obrigado. Se assim foi, então peço-te que esperes por mim nesse outro lugar. Não sei de momento o quê, mas tenho mesmo tanto para te contar. Tanto para te abraçar.

Partiste, e o aperto na garganta permanece, assim como a tua fotografia na minha sala de jantar. Amo-te. Ainda hoje e sempre.

 

Rui Duarte

 

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11.5.18

Farm - Helge Leirdal.jpg

Foto: Farm - Helge Leirdal

 

Do corpo curvado pelo peso dos anos, pendiam memórias de tempos idos. As rugas do rosto eram as marcas visíveis dos dias difíceis, embora não fossem as mais profundas. As mãos trémulas, quase a lembrar os dias frios que conhecera na serra, sempre seguravam quaisquer outras que lhe tocassem, que lhe trouxessem carinho e a aquecessem com dois minutos de atenção.

Amélia – contou-nos – casara cedo. Não suportava as discussões diárias dos pais, nem o som daquele cinto castanho a cortar o ar, segundos antes de atingir as costas da sua mãe. Não suportava o grito mudo que se seguia. E menos ainda o medo e a angústia de calar. Decidiu partir. Casar com o primo afastado, construir uma vida na pacatez do interior e poder assim esquecer tantos gritos calados que trazia em si.

 

Começava o mês de janeiro quando chegou à aldeia. As ruas eram estreitas, as casas em pedra, e não se avistava quem mais fizesse frente ao vento gélido, que vinha dos campos e atravessava até o casaco de fazenda que a mãe lhe oferecera.

Ainda assim, foi o assobio do vento nos ciprestes, geometricamente alinhados, ao portão da casa onde iria viver, que lhe causou um arrepio.

Demorou uma semana a entender que o marido não era a companhia que tinha idealizado. Mas estava fora de questão a possibilidade de abandoná-lo e voltar para junto dos pais e, por outro lado, não tinha meios para subsistir sozinha. Restava-lhe ficar e viver com as consequências da decisão que tomara.

 

Amélia acordava cedo, tinha sob sua responsabilidade um rebanho de cabras que era necessário levar ao monte a cada manhã. E que bem lhe sabiam aquelas horas de liberdade! Apenas as cabras testemunharam as muitas vezes em que, no sopé da montanha, os olhos de Amélia choraram lágrimas saídas diretamente do coração.

No regresso à aldeia trazia um enorme sorriso, uma palavra de consolo para os mais velhos e um “quem me apanhar primeiro come uma moeda de chocolate” para as crianças sentadas no degrau da porta da mercearia. Claro que todas corriam e, fazendo um círculo, cercavam-na, exigindo a moeda.

Amélia nunca deixou de sorrir para a aldeia que a acolheu, e que não fazia ideia daquilo que se passava para lá dos ciprestes, geometricamente alinhados, ao portão de sua casa.

Amélia agradecia todas as noites a Santa Rita de Cássia por ter intercedido no pedido a Deus para que não lhe desse filhos. Não queria que mais ninguém no mundo tivesse de passar por aquilo que ela passara com os seus pais. E todas as manhãs pedia perdão por recusar a bênção de gerar uma vida no seu ventre.

 

Naquela altura do ano em que era Inverno para todos, o inferno da sua vida intensificava-se. O ego inflamado do marido bem-sucedido era inversamente proporcional à sua humanidade. O homem, aclamado nas ruas da aldeia pela capacidade de negociação e altruísmo, era afinal um monstro, depois de passar aquela porta.

Amélia recordava-se do som do cinto castanho a cortar o ar, segundos antes de atingir as costas da sua mãe. Agora eram as suas a ser atingidas. E mais uma vez sem motivo aparente, além dos muitos copos de vinho bebidos a mais pelo marido, antes de chegar a casa.

 

Ao início daquela tarde começou a nevar e teve de regressar mais cedo à aldeia. Notou que não se ouvia o assobio do vento nos ciprestes e pensou que seria pelo peso dos muitos flocos que já começavam a pintar os ramos de branco. Entrou em casa e cumpriu a sua rotina: acendeu o lume, fez um chá de tília e cortou uma fatia de pão que sempre comia com a marmelada que aprendeu a fazer em criança, com a sua tia-avó. Era dezembro e o seu corpo já se contorcia com as dores que sentiria, duas horas mais tarde, quando o homem que escolheu para seu, atravessasse aquela porta.

As duas horas passaram e, ao passarem mais quinze minutos, alguém bateu à porta. O comandante da GNR, amigo da família, vinha de lágrimas nos olhos dar-lhe a notícia da morte abrupta do marido, num acidente com o velho trator que usava no cultivo das terras.

Amélia não pôde manifestá-lo no momento, mas confessou-o na conversa que tivemos: o desaparecimento daquele homem foi para ela um alívio. Sentiu-se tão leve, que chegou a julgar-se genuinamente feliz no final daquele dia. Na aldeia pacata, de ruas estreitas e casas em pedra, era agora unicamente perturbada pelo corredor de ciprestes – que mandou cortar sete dias depois.

 

HTR

 

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9.5.18

Worried girl - Ryan McGuire.jpg

Foto: Worried girl - Ryan McGuire

 

Minha flor. Foi assim que me batizaste quando a tua memória te começou a pregar partidas. No meio da tristeza que era ver-te desaparecer aos poucos, fazias crescer em mim uma alegria imensa quando me vias e esboçavas aquele sorriso só a mim concedido, à tua flor. Provavelmente, esqueceste o meu nome e era-te mais fácil tratares-me assim. Eu não me importei, era um privilégio só meu. E que grande privilégio!

A tua doença transformou-te e inevitavelmente transformou-nos a nós. Tivemos que aprender a ver-te partir. E como foi difícil! Porque nem sempre estivemos à tua altura, nem sempre conseguimos dar-te aquilo de que mais precisavas da forma que te era necessário. Éramos iniciados nesta lição que a vida nos impôs.

Existias no teu canto, confortável naquele espaço, e a tua companhia deixou de aparecer junto de nós. Não conseguíamos perceber porquê, queríamos-te por perto mas tu recusavas. Éramos nós que aparecíamos para te fazer companhia, para cuidar de ti. Estranhavas aqueles que te acolheram com amor, olhava-los desconfiada e elevavas o nosso desafio diário. Exceto quando eu aparecia porque era a tua flor. Os teus olhos enchiam-se de esperança, nascia-te uma vivacidade que não aparecia noutros momentos, aparecias. Minha flor, dizias a meio da tua refeição ou ao deitar, já cansada e com poucas energias, ou a meio da tarde quando já tinham passado horas sem veres ninguém. Sempre!

 

O ciclo da vida devia ser invertido. Devíamos nascer velhinhos, de cabelos brancos e curvados, com dificuldades na mobilização. Tristes por sentirmos que não nos compreendem e, por vezes, por estarmos sozinhos e desamparados. Mas sábios, com a bagagem da sabedoria às costas, ávidos de percorrer o caminho da vida. De inocência perdida, acolher cada experiência com garra. Justos conhecedores do mundo, hospedar cada pessoa com paciência, tolerância, compaixão, amizade, carinho, amor… Deveríamos percorrer esse desejado caminho ganhando energia e ignorando tudo aquilo que a sugasse. O auge da vida não teria como panorama um abismo, mas sim uma íngreme colina para subir. Acabaríamos nos braços calorosos dos nossos queridos, a encher bocas de sorrisos e de lindas afirmações. Derreteríamos então corações. Agora sim, inocentes e esquecidos das mágoas do percurso. O final seria desejado e feliz, uma felicidade entendida por várias gerações e distribuída com entusiamo aos demais envolvidos.

Contudo, a velhice é triste, entristece o próprio e os próximos. O final da vida deveria ser o auge da felicidade, livre de sofrimento.

A tua velhice teve sofrimento não merecido e não calculado. Desejo que o teu esquecimento, que foi doloroso para nós, tenha sido uma bênção para ti. Não precisavas de recordar os dias mais negros.

Para além da tua cabeça, o teu corpo foi fraquejando nos nossos braços. Foste perdendo a energia que te caracterizava, as forças que utilizaste no teu árduo trabalho no campo enquanto jovem, as capacidades que entregaste ao cuidar de mim na minha infância. Fizemos o melhor que podíamos, sem saber agora se fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Eu sinto necessidade de te pedir perdão por não ter feito mais. Eu não sabia e, ingenuamente, pensava que estava a fazer tudo bem.

 

Naquele dia tu foste a mais forte de todos. Aguentaste firme enquanto nós hesitávamos. Não te queríamos a sofrer mais do que o inevitável. Protelámos a tua saída de casa por desejarmos o melhor para ti. A tua saída seria temporária, para te curar ou apenas para te melhorar se fosse essa a única opção. Levei-te, estive sempre junto a ti, desejosa de te trazer de volta ao teu cantinho.

Mas rapidamente te levaram para longe de mim e não quis perceber porquê. Não pensei e não parei de pensar, parei e estive irrequieta. E esperei, aquilo que pareceu uma eternidade. Finalmente saiu um grupo de pessoas para falar comigo e aí senti-me a não sentir absolutamente nada.

Naquele segundo, o mundo desabou. Em cima de mim, senti todo o seu peso e as minhas pernas falharam. Encostada à parede, sustentei-me ali, e ali permaneci sem tempo, incrédula e sozinha. Perdi-te! A tua voz, o teu carinho, a tua bondade, o teu sorriso, a tua pessoa. Solucei inconsolável perante desconhecidos com ar intocável. Não podia ser verdade porque ainda agora me tinhas chamado Minha flor.

Ainda respiravas, ainda existias fisicamente. Mas já tinhas partido… há tanto tempo que nos tinhas deixado. Acompanhei-te nessa longa e triste partida, sem saber que estaria contigo na abalada definitiva para o outro mundo.

 

Vi-te numa sala pequena e fria. Não eras tu. Eras um corpo disforme, uma feição irreconhecível, uma respiração irrespirável. Falei-te ao ouvido, pedi-te perdão, e sei que me ouviste. Não queria deixar-te ali mas não havia outra opção. Tu já tinhas decidido. Acarinhei-te até ao último suspiro e, aí, abracei-te com força. Senti-te fugir de mim, mas agarrei-me com toda a força que tinha para não cair. Partiste, tranquila e acompanhada por aqueles que mais te amaram na tua longa despedida.

Agarrei-me ao teu amor e honrei-te o melhor que soube. Mas ainda hoje te peço perdão porque sinto que nunca valorizei devidamente as tuas palavras “Minha flor”.

 

Marisa Fernandes

 

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7.5.18

Park - Виктория Бородинова.jpg

Foto: Park - Виктория Бородинова

 

Deixaste-me num dia que não existiu. Sei-o agora, já fora do glaciar sem contornos onde tentei decifrar explicações para as minhas lágrimas tão ardentes – escrevendo, escrevendo, quase furiosamente, os mais doces poemas de amor. Sei-o agora, que o destino está mais perto, agora, que a paisagem me reconhece, agora, que a poesia me estranha. Agora, já certa de que o Céu é mais baixo e mais nítido do que eu pensava, e de que a Terra é um lugar de invisibilidades e de abismos.

 

Jamais partiste, meu amor. Aquele dia de dezembro, tomou-o o nevoeiro pela eternidade, decerto, e embrulhou-o em si, para sempre, como cobertor de papa que não sabe as mãos do tempo que o teceu. Na altura fiquei confusa, achei que te tinha perdido também, que tinhas sido escondida de mim, pelos fiapos espessos do nevoeiro. Dividi-me entre Terra e Céu, estiquei-me toda para ti, encolhi-me toda para amimar os teus irmãos, caí, voei, voltei a cair, caí tantas vezes, meu Deus. Fugi e voltei. Parti e perdi-me. Fiquei e parti-me. Ah, tantas vezes me parti!... Mas, sempre, sempre, consertada pelo amor dos teus irmãos, a mim regressava. E fui aprendendo, devagarinho, a serenar e a agradecer. E agora sei que sempre estive inteira – que nunca me partiste, meu amor...

 

Os filhos crescem, seguem as suas vidas, partem-nos. Os teus irmãos, tu sabes, tu vês, enchem-me a alma de amor e de orgulho. Enchem-me os olhos as suas asas e eu fico feliz por eles voarem... mas partem-me. Mas partem...

Tu ficaste. Sempre. Tu hás de ficar, sempre. Colada a mim pela humidade longínqua de um dia que não existiu. Tu ficaste, com a inocência feliz do teu riso. Com as flores frescas que nasceram nos teus olhos e que eu cuido, todos os dias. Com a leveza flexível do teu corpinho de anjo, que se agarra a mim como a brisa se abraça às rosas do maio. Com a melodia da tua voz pequenina, chamando-me, em urgência adocicada: “Mãe!”.

- Estou aqui, filha, estou aqui. Quando for para eu partir, partiremos juntas...

 

Teresa Teixeira

 

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4.5.18

Grandfather - Dan_Kelli Oakley.jpg

Foto: Grandfather – Dan/Kelli Oakley

 

O sol brindava-me logo pela manhã, ao entrar de rompante pela janela. Ouvia o assobiar dos pássaros à janela. Era impossível acordar triste. Saltei da cama e olhei para o relógio. Já passavam alguns minutos das 10h15 da manhã e tinha combinado ir visitar-te, avô. Estavas constipado e ia levar-te ao médico. Num instante estava à porta da tua casa. A avó abriu toda sorridente, deu-me aqueles abraços maravilhosos de que gosto muito, mas avô, não desfazendo dos abraços da avó, os teus eram o meu alento – era a menina do avô. Quando entrei no quarto, também já estavas pronto. Tinhas algumas olheiras – maldita constipação que não te deixava dormir bem – mas os teus olhos brilharam quando me viram e os meus também. Dei-te um longo abraço e sorri. “Vamos avô.”, disse-te. “Como estás? Estás melhor?”, tu sorrias e dizias que não era uma constipaçãozinha que te ia deitar abaixo. Eras forte. Tão forte, avô.

 

No médico, ele mediu-te a diabetes, sim porque os diabretes eram o teu grande problema, achava eu, achavas tu, todos nós. Lá ralhou o médico um pouco contigo porque estavam muito altos. Mas em relação à constipação receitou-te aquelas coisas normais, eu tinha-te dito para tu ires ao teu hospital privado, já que tinhas lá seguro, mas não, quiseste ir ao público. Se eu soubesse avô, se eu soubesse. Acho que te tinham dito para fazeres mais exames, mas tu eras tão teimoso, avô. Tão teimoso. Não sabias, nem eu, nem todos nós.

 

Fomos para casa, estavas cansado e tossias, eu preocupada questionava-te se querias algo, se precisavas que fizesse algo. Mas tu sorrias, dizias que estavas bem. Eu sorria, preocupada, fingindo acreditar. Levei-te a casa e lanchei contigo e com a avó. Foi tão bom passar aquele momento com vocês. As horas foram passando e eu tive que me despedir de vocês para ir trabalhar. Mas voltei todos os dias para lanchar.

 

Só tinham passado dois ou três dias de estares constipado mas parecias estar melhor. Fiquei feliz. Num dos dias refilavas à tua maneira com a avó, que não podia trazer todos os dias os bolinhos de que gostavas, ou os diabretes vinham em festa. Ri-me disso.

No final dessa semana, tive que fazer mais horas, o trabalho estava um caos. Recebi uma chamada da avó, ela tentava disfarçar a preocupação, dizia-me que estavam no hospital, no privado, do avô. Que possivelmente eram só os diabretes mais altos que o normal, mas como eu não podia vir, para não me preocupar, que vinha quando conseguisse, para não me prejudicar no trabalho. Fiquei preocupada, muito. Mas não podia sair, não tinha ninguém para me substituir e tive que ficar à espera até ao fim do dia para que viesse alguém. Liguei para a minha mãe, para ela ir por mim, rapidamente, ver o avô. Ela foi. Eu não consegui.

Tantos foram os contras nesse dia – quem me vinha substituir teve um percalço com o carro, teve um furo, atrasou ainda mais a minha hora de saída. Mas eu respirava fundo. Pensava: “foram apenas os diabretes que ficaram demasiado altos”, “o avô só estava constipado, provavelmente foi por precaução”. Fazia figas. Ninguém me atendia, nem a avó, nem a minha mãe. Toda eu tremia. Apavorada.

A minha colega chegou e eu saí a correr, acho que nunca corri tanto, nem conduzi tão rápido, eu que não tinha costume acelerar nem andar fora do que é o limite. Nesse dia, não podia ser, tinha de estar lá, tinha de estar ao pé do meu avô.

Quando cheguei ao hospital, a minha mãe chorava sentada num banco, a minha avó estava pálida. Sem expressão alguma. Corri para a minha mãe e perguntei pelo avô. Perguntei por ti, avô. Ela acenou-me com a cabeça que não. O meu mundo caiu. ”Porquê, avô? Tu só estavas constipado.”, mas não, afinal não te diagnosticaram uma pneumonia que se foi agravando durante aquela semana. Uma semana. Num instante partiste, sem me conseguir despedir. Queria pelo menos ter conseguido ver-te, dizer-te que te amo, uma última vez. Porquê, avô?

Porque partiste assim? Uma parte de mim morreu contigo. Eras a pessoa que mais admirava, que me dava os melhores conselhos, o melhor ouvinte, o melhor avô!

Não quero acreditar. Não pode ser verdade. Não vás, avô! Volta!

Partiste sem saber que o ias fazer, deixaste um vazio, mas para mim vais estar sempre vivo no meu coração.

“Porquê, avô?”

 

Inês Ramos

 

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