16.11.18

Solidarity - Stefano Ferrario.jpg

Foto: Solidarity - Stefano Ferrario

 

A pessoa solidária é sempre conotada de forma positiva, boa pessoa, que exerce atos de bondade e compaixão, sensível, assim, ao sofrimento e às dificuldades do outro. As diferentes fases da vida que vivemos levam-nos, por vezes, a questionar tudo. Pois bem, neste momento, permitam-me que questione a solidariedade.  Não questiono a pessoa que tem dentro de si esta “coisa” de ser solidário pois, essa, nunca me causaria questionamento. No caminho e na vontade de ser solidário há pessoas que se cruzam, vontades que se cruzam, objetivos que se cruzam e sentimentos que se cruzam. Nem sempre esse cruzamento é assente em princípios comuns às duas pessoas para que a solidariedade se desenvolva no sentido verdadeiro. A pessoa que precisa (ou não) de uma pessoa que lhe dê a mão, nem sempre é boa pessoa e, provavelmente, no lugar oposto nunca exerceria atos solidários. A pessoa que exerce atos solidários por convicção e por vontade intrínseca não se apercebe que, do outro lado, está uma pessoa que não merece o seu esforço, a sua dedicação e que lhe empreste a sua vida e, a dada altura, vê-se a percorrer caminhos que nunca desenhou.  Estou, concretamente, a dirigir-me às pessoas que, de forma inadequada, se apoderam do lado solidário dos outros, manipulando toda a situação, extorquindo sem que, verdadeiramente, precisem que lhes deem a mão. Apenas é mais cómodo ter ao seu lado uma pessoa com “bom coração” pois, assim, a vida torna-se, de facto, mais facilitada. Não é justo que isto aconteça à pessoa que tem dentro de si esta “coisa” de ser solidário. A solidariedade deveria remeter sempre para uma responsabilidade recíproca e nunca deveria assumir estes contornos. Desculpem se desiludo.

 

Ermelinda Macedo

 

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14.11.18

Portrait - Khusen Rustamov.jpg

Foto: Portrait - Khusen Rustamov

 

Não sei ser, sem ser eu.

Não sei fingir que sou melhor. E espero nunca ser pior.

Não sei sorrir, sem ser eu.

Não sei chorar quando convém. E não quereria ser menos sensível.

Não sei preocupar-me, sem ser eu.

Não sei desligar-me do mundo. E há tantos temas que me preocupam.

Não sei sair à rua, sem ser eu.

Não sei virar a cara e ignorar quem sofre. E assusta-me tanto a indiferença.

Não sei cumprimentar, sem ser eu.

Não sei fazer-me sisuda e altiva. E agradeço por isso.

Não sei estar, sem ser eu.

Não sei olhar com olhos menos atentos. Nem com menos vontade de agir.

Não sei ser, sem ser eu.

E eu, cheia de defeitos e dificuldades, medos e indecisões, aprendi que ser eu, não é bom nem é mau – é apenas ser de verdade.

 

HTR

 

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12.11.18

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Foto: Girl - C_Scott

 

Com amor, no respeito e no cumprimento dos votos prometidos em altar, foste concebida. Gerou-te um ventre palpitante, desejoso de se perpetuar. Desenhei-te. Sabe-se lá porquê e onde me inspirei, mas desenhei-te loirinha e de olhos azuis. E, assim nascente. E como eram azuis! E transparentes!

Via-te através e para lá deles. De tanto nos conhecermos os segredos eram de nós desconhecidos. Assim seria para sempre, jurei eu. Por muito tempo acreditei. Não havia dor ou inquietação que a transparência do teu olhar não me revelasse e que eu não resolvesse num beijo ou num abraço mimado.

Cresceste e não perdeste essa clareza e transparência do olhar. A adolescência conservou em ti essa capacidade de seres verdadeira. Deixavas-me sentir-te para lá da pele branca e fina, quase transparente. Privilegiavas-me dando passagem para lugares inacessíveis. Eu desnudava-te de angústias e incertezas com promessas de um futuro promissor junto de um marido que te amaria e dos filhos que viriam desse amor.

Rodeada das minhas certezas fizeste-te uma linda mulher.

Estava feliz com a minha criação, tão feliz que não vi chegar o momento em que foste tomada por essa estranha inquietação e desassossego. Também não me apercebi quando deixei de te ver porque te tornaste impenetrável, fechada em ti, isolada no quarto. Fugias-me. Já não bastava ler na transparência do teu olhar para que vertesses em verdades pequenas mentiras e chorasses tristezas e dores. Os teus olhos nada me devolviam a não ser a certeza de um segredo.

São fases de crescimento, arrufos de namorados, os jovens precisam de espaço – diziam-me. Mas não me tranquilizava.

E, quando por fim, corajosamente quiseste ser transparente e verdadeira como há muito não ousavas ser, proibi-to. Não precisaste falar, firme nas tuas opções a vida ia ser o que tu quisesses e não o que eu tinha programado.

Saíste de casa para viveres o teu amor proibido.

 

Cidália Carvalho

 

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5.11.18

Legs - Lisa Runnels.jpg

Foto: Legs - Lisa Runnels

 

Amanhã pode ser tarde demais. Por isso, hoje vou vestir a minha roupa favorita, vou vestir a minha pele e comportar-me como eu própria. Vou ser fiel a mim mesma e deixar cair as máscaras que uso para me proteger. Quero ser transparente para que todos me vejam tal como sou. Quero viver intensamente e sentir o coração a bater forte. Vou arriscar e afastar os medos que me paralisam. Quero sentir-me bonita, atraente e confiante, e isso leva-me a colocar aquele vestido que adoro, a calçar os ténis que combinam na perfeição e a caprichar na maquilhagem. Acentuo o tom dos meus olhos e dou cor aos meus lábios. E saio para a rua para sentir o calor do sol na minha pele. Está um dia maravilhoso para ser eu própria. Quando passa um desconhecido por mim sorrio-lhe e ele, meio confuso, sorri-me de volta. O poder do sorriso é imenso, contagia e desarma. E por isso hoje ele faz parte do meu fato. Sinto-me feliz e cheia de energia e apetece-me gritar isso ao mundo.

 

Pego no meu carro, sem destino, deixo-me levar tranquilamente. Tenho como companhia a minha playlist, elevo o som e canto no meu tom desafinado. Abro o vidro e sinto o vento na minha pele, no meu cabelo e arrepio-me. O meu instinto leva-me até àquele jardim junto ao rio de onde a vista para Lisboa é um privilégio. Fico sempre sem fôlego quando aqui venho, porque ainda me surpreendo com a beleza deste lugar. Inspiro-me. Pego no telemóvel e tiro várias fotografias àquilo que vejo, mas nenhuma traduz fielmente a sua beleza. Quero partilhar este momento, quero que os outros saibam que me sinto viva e a sorrir interiormente também. Coloco uma das fotos no meu mural do facebook, é desta forma que chego a todos apesar de não me agradar que assim seja. Queria estar num palco onde todos me pudessem ver, se deixassem contagiar e vivessem comigo este momento. Queria que todos se recordassem dele. Fecho os olhos e imagino-o, deixo-me levar mais uma vez e quase que flutuo. Abro os olhos e estou a rodopiar. Sinto-os perto, sinto o seu carinho, a amizade e o amor. Tenho tudo o que preciso e é tão simples. Sem reservas, escrevo a frase que me vem à cabeça e que me expõe por completo. Sem máscaras, sem medos, com confiança e com um sorriso aberto, hoje, agora, porque amanhã pode ser tarde demais.

 

Marisa Fernandes

 

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2.11.18

Woman - melancholiaphotography.jpg

Foto: Woman - melancholiaphotography

 

A sensualidade de cada momento está na mente do observador. O estimulo que realmente existe é percecionado de forma diferente e, por vezes até, de forma muito diferente. É certo que branco é branco e que frio é frio, mas o “meu” branco pode ser diferente do “teu” branco. Os processos de filtragem e de interpretação dos estímulos exteriores são muito complexos, como sabemos. Para além das “ferramentas sensoriais” que cada um possui, ainda temos de contar com limitações ou imposições externas das quais sofremos, ou então nos sujeitamos. Quantos copos de um bom tinto são precisos para as pessoas ficarem mais bonitas?

 

Acho que o mesmo acontece com o verão. As pessoas ficam mais atraentes nesta estação do ano em particular. Pode ser devido aos meses de preparação anterior no ginásio. Pode ser da dieta alimentar mais cuidada. Mas também pode ser das transparências. Bem, é melhor a partir de aqui estreitar o texto apenas para as mulheres... São as saias, as blusas, os decotes. São os algodões e os linhos. O calor impõe o tecido mais afastado da pele. Pele essa que se quer à mostra do sol, contacto astral que nos faltou durante tantos meses.

De repente há um novo jogo em campo. São os gestos de toque discreto no ombro de colegas, os olhares transviados para silhuetas já conhecidas, mas agora redescobertas, e o desejo encoberto em elogios que não ultrapassem o bom-senso. Enfim... “eu gosto é do verão”.

 

Tudo isto para fugir da “transparência”. Não me apeteceu escrever acerca do que, provavelmente, se esperava. É que, quando não há nada de bom a dizer, talvez a melhor opção seja estar calado. Acabo apenas com uma conclusão retirada da vida real (por oposição à virtual, para a qual, confesso, cada vez tenho menos tolerância): a transparência não se advoga. Pratica-se. E aqueles que mais a clamam, são os que mais a atraiçoam.

 

Rui Duarte

 

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