27.7.12


Sentada num dos bancos do jardim, tinha os cotovelos apoiados nos joelhos unidos e firmes. A cabeça pousada nas mãos. Na esquerda, entre o indicador e o médio esticados e amarelecidos pelo fumo, ardia mais um cigarro. Ali junto aos cabelos. Esquecido. A passarada nas copas altas, embalada pela suave brisa, soltava cânticos de final de tarde. Os carros na estrada junto aos muros do hospital, embalados pela indiferença, soltavam ruídos de regresso a casa. Poderia pensar-se que Carolina observava a fila de formigas diante dos seus pés. Mas não. Os olhos fixavam-se apenas para dentro. E nada viam para além do vazio. Grande, espesso e negro. Não conseguia pensar. Não conseguia ouvir. Não conseguia falar. Não conseguia sentir. Há poucos dias não conseguia controlar as sensações, nem os pensamentos, eram tantos, eram tão confusos, ligavam-se uns nos outros, sem parar, provocavam sofrimento, não conseguia parar aquela dor.


Duas vozes ao seu lado. Conversavam. Não ouvia o que diziam.

- Mais uma crise. Cada uma é pior, mais profunda do que a anterior.

- Desta vez, como foi?

- Como as outras. Exatamente como as outras. Depois do internamento começa a recuperar, a ter uma vida normal, a sentir-se melhor consigo mesma. As consultas com o psiquiatra ficam mais espaçadas e a medicação é reduzida. Depois, por uma razão qualquer, começa a dizer que a medicação a faz sentir-se mal, que a impede de ser tal como é, e começa a regular a medicação por sua iniciativa – toma o que quer, quando quer e na quantidade que quer. Como não tem quem a controle, quem lhe imponha limites e regras, fica entregue a si mesma. Daí passa a não ter regras nem rotinas diárias, dorme muito pouco e quando entende, come quase nada e quando calha, aumenta a quantidade de cigarros. Sente-se alvo de todos, ataca todos. Tudo nela acelera: o discurso, o pensamento, os movimentos do corpo. Discorre sobre tudo, com tal acutilância e a tal velocidade, que parece uma máquina. Fica irónica, agressiva e violenta. É difícil estar ao pé dela. É insuportável viver com ela – um tormento, um desassossego.

- Começa a faltar-lhe o juízo…

- E o amor. Sente-se sozinha, abandonada, desamada. E parece odiar todos, odiar tudo. Exprime imensa revolta.

- E o médico?

- Recusa ir ao psiquiatra. Recusa tudo. Diz que ela é que sabe o que é melhor para si mesma. E agora, nas crises mais recentes, tem pavor de voltar a ser internada e vê o médico como um angariador de internamentos, por isso foge dele. Ou seja, coloca-se na posição ideal para ser internada. É um enorme sofrimento.

- E é o que acaba por acontecer…

- É o que acaba por acontecer, mas à força, quando fica sem qualquer controlo sobre si mesma, quando se torna socialmente insuportável, quando se constitui num perigo para os outros e para si mesma. Completamente fora… Quando vem para aqui, à força, o seu sofrimento ainda aumenta mais. Ficar fechada, ser controlada, tomar medicação imposta… é terrível.

- Mas é o melhor para ela.

- É! Depois fica assim, calma mas com total ausência, como se já nada existisse dentro dela.

- Precisa de quem cuide dela. E com muito carinho.

- Sim, e com muito amor.

 

Fernando Couto


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