19.3.18

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Foto: Sunflowers - Rudy and Peter Skitterians

 

- Eu podia ter-te feito tão feliz... mas tu abandonaste-me.

- Nunca te abandonei. Como poderia? – os sonhos são feitos de matéria intáctil, inconsistente, incrível. Sustentável apenas pela sua própria leveza e transparência – como se pode abandonar o que nunca sequer conseguiu iludir-nos à desilusão? O que nunca sequer tocou o horizonte da nossa capacidade de ver?

- Mas tu viste-me, tu conseguiste ver-me, nitidamente, apesar da minha forma de ilusão. Apesar da minha débil natureza onírica...

- Consegui, confesso. E de que me valeu isso? Apenas fazer-me ganhar o tempo de um arco-íris... Ou de um sorriso. Ou de um beijo... Ou de um suspiro fundo...

Em contrapartida, fizeste-me perder bocadinhos preciosos do tempo que eu precisava para os projetos. Projetos viáveis, concretos, para os quais eu tinha capacidade e me foram dadas ferramentas. Coisas que eu tinha que fazer, para sobreviver.

- Não posso acreditar que, ainda por cima, me cobras os pequenos-grandes instantes que te fiz perder... Reconhece: a maior parte desses projetos de que falas com tanta ou tão pouca convicção, apenas fizeram de ti o que és hoje: infeliz...

- Tens razão. Ou talvez não. Digamos que fizeram de mim uma pessoa bem-sucedida, segundo os moldes da sociedade em que vivo. Construí família, criei os meus filhos em segurança, singrei na vida desafogadamente, direi até, com bastante sucesso...

- ...material. E que fizeste ao teu compromisso com a felicidade? Que fizeste com a esperança de me realizar? De te realizares...?

- Ah, para de me lembrar a paixão antiga que tive por ti. Quer dizer, a certeza de que poderia levar por diante essa paixão. Isso são águas passadas! Como eu já te disse, eu nunca te abandonei – apenas, para sobreviver, te releguei para o fundo mais fundo do meu coração – lá, onde hão de morrer todos os meus sonhos, afinal...

- Ainda bem que me guardaste no teu coração... Obrigadinha... Olha se fosse no fígado, num joelho... pior!!! – na cabeça: detestaria conviver lá com os teus preciosos e inadiáveis projetos.

- Não sejas irónico... Já te disse que a vida não se faz de sonhos?

- Já. E eu emendo-te: a vida não se faz só de sonhos. Mas negar o teu sonho, a tua paixão mais funda... (não te esqueças, foste tu que disseste que me exilaste no lugar mais fundo do teu coração...) Ah, negar o teu sonho de vida inteira é negar-te a ti próprio!

- ...

- Que foi? Emudeceste, agora?

- Posso confessar-te uma coisa?

- Claro, sou o teu sonho, que melhor confessor arranjarias?

- Não brinques, estou a falar a sério.

- Está bem, diz. Sabes que podes ter confiança em mim (assim essa confiança fosse recíproca...)

- Que disseste?

- Nada, nada. Diz lá o que querias dizer.

- É tarde. O sol já desce e tenho medo...

- ...

- Não dizes nada?

- Digo. Digo que te amo e que, para mim, serás sempre a criança ingénua e crente que me colheu numa manhã de girassóis e fez de mim a sua grande paixão. Digo que acredito em ti, no teu poder de me reabilitar e fazer do meu nome a tua melhor Obra. O Teu Sonho realizado. Não é tarde, é apenas o nosso tempo. Salva-te, salvando-me do limbo dos sonhos incumpridos.

E não tenhas medo. Eu estou no comando, agora... e a vida que te resta é, verdadeiramente, a Vida Inteira.

 

Teresa Teixeira

 

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16.3.18

Alone - Mike.jpg

Foto: Alone - Mike

 

Hoje decidi partir. Podia ter avisado com algum tempo de antecedência mas não nos supus à mercê de maleitas sazonais. Enquanto oscilámos entre a primavera e o verão a coisa foi correndo, o outono e o inverno são impossíveis de aguentar ao teu lado: quem tu és nos dias negros nem o diabo quer para companhia. Transfiguras-te, insidiosamente, trazendo os piores sacanas do mundo na algibeira. Demorei a perceber que os conhecias de longa data e que te construías, enquanto pessoa, sob o seu patrocínio. Acreditei piamente seres apenas uma alma perdida e mal-amada mas cheia de vontade de ser tudo aquilo que dizia (querer) ser. Acreditei nas tuas palavras, nos teus silêncios, na tua presença, na tua ausência, nas tuas intenções e gestos “genuínos”. E, até depois de já não acreditar, escolhi ficar. Fui incapaz, apesar dos sinais cada vez mais evidentes, de ver o pior em ti, de te imaginar capaz de tudo aquilo que hoje sei. Em boa verdade, jamais acreditaria em tal se o mesmo me fosse narrado por terceiros. Tinha de ser assim: ver para crer, preto no branco, uma chapada dada pela língua de uma baleia azul. É indescritível o que se sente quando tudo aquilo que se pensava ser verdade não o é. Quando nos percebemos atores num enredo do qual nunca escolhemos fazer parte. Na verdade, por opção, nunca estaria aqui. Esta história contada ao pormenor seria igual a muitas outras, sobretudo depois de a teres tornado vulgar, decadente e pequena. Estabeleceste as regras do jogo mas eu escolho dar-lhe um final. Hoje. Sim, hoje mesmo. Não consigo respirar, não sinto nada mais do que desespero neste momento em que a vida, tal como a conheci nos últimos anos, ruiu perante os meus olhos. É desolador saber que tudo o que disseste e fizeste foi estudado, que faz parte do teu jogo doentio e que vais mentir até ao último minuto comigo. Claramente, não lamentas nada no teu discurso contraditório, apenas teres sido desmascarado. Não há em ti um pingo de honestidade, e nem isso consegues fingir, mesmo que penses que sim… Por isso, hoje, decidi partir. Não sei de quanto tempo vou precisar para curar o que ainda sinto mas jamais o farei permanecendo contigo. Preciso de sair deste pesadelo para poder pensar com clareza, longe da angústia que me consome. A tua máscara caiu por terra, por mais que te esforces em mantê-la. Já só quero que te cales e me deixes ir embora. Não peças desculpas vãs, não justifiques o indesculpável. Deixa-me regressar a casa, respirar amor e reconstruir-me na dor que me trouxeste, longe do asco que agora me causas. Tenho mil perguntas mas não vou fazer nenhuma: não quero ouvir mais nenhuma mentira, não quero lágrimas de crocodilo e acessos de raiva. Cala-te, suplico. Só quero ir-me embora, não há mais nada a dizer. Já não aguento ver-te aí, de pé, na cena teatral que ensaias há anos, consumido pelo ego e pela maldade, incapaz de perceber que já não há mais nada em ti que eu deseje, mesmo que ainda te ame. Atrai-te o abismo, nadas no sofrimento como um peixinho mas não pertenço aqui, nunca pertenci. Por favor, cala-te. Não precisas de entender. Não quero explicar nem mais uma linha. Quero ir para casa. Quero chorar em paz. Quero respirar fora do lodo em que te agitas e resgatar todos os meus sonhos. Deixa-me partir, simplesmente. Não contribuo, nem mais um dia, para esta farsa.

Respiraste sobre mim, pela última vez, há minutos. Com um ar dramático e choroso, balbuciaste: “com que facilidade me arrancaste da tua vida”. Olhos nos olhos, respondi-te: “com que facilidade nunca me fizeste parte da tua.” Amorfa e em choque, aceitei aquele beijo tenebroso que encerrou uma história de vários anos, como se de uma brisa se tratasse. Deixei-te encenar e protagonizar a cena final, insípida e doentia, sem paz, sem verdade, sem respeito. Fiquei aliviada quando me soltaste e pude, finalmente, virar-te as costas, sem vontade de olhar para trás. Já não me podes magoar mais, mesmo que eu ainda não saiba quando vais deixar de doer em mim.

 

Sentada no avião, lavada em lágrimas, abracei-me por ter sabido resgatar-me a uma meia vida contigo, num limbo demasiado perigoso que tu trilhas de olhos fechados. No regresso a casa, caminho trémula, não consigo respirar; ainda me sinto perdida porque mergulhei inteira em nós e andei à deriva, sem o saber, mas em momento algum me abandonarei. Amei-te como mereço ser amada, as tuas sacanices a ti pertencem. No final de um dia que começou tão mal, respiro de alívio, apesar da catástrofe que tenho ainda de digerir. A esta distância percebo que muita coisa terrível aconteceu, é um facto, mas que podia ser muito pior: eu podia ser tu. Como diria a minha avó: “Fosga-se”!

 

Alexandra Vaz

 

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12.3.18

 

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Foto: Bed - Dieter Robbins

 

No outro dia comprei um pijama.

Para muitos pode parecer uma banalidade mas, de facto, eu nunca tinha, até àquele momento, comprado um único pijama para mim. Cresci a vestir os pijamas que me ofereciam – feios, sempre um ou dois tamanhos acima do meu – e sempre me bastou.

Mas naquele dia, como em muitos ultimamente, sentia-me longe de estar feliz.

Então, vi-o. Fiquei ali parada a olhar para o expositor, tentando decidir se o levava ou não: seria uma futilidade? Afinal, tenho uma gaveta cheia de pijamas (que detesto)...

Comprei-o, não sem deixar de me sentir estranha com aquela compra um pouco fútil.

Mas esse sentimento desvaneceu-se no momento em que o vesti: não sei explicar... Invadiu-me uma sensação de conforto, um sentimento de pertença e de carinho, e eu tive a sensação – não, eu tive a certeza – que o meu pijama estava a abraçar- me.

Por isso, posso afirmar que esta foi a compra mais importante que fiz até hoje. Que pena não ter comprado dois pijamas, para ir alternando...

 

Sandrapep

 

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9.3.18

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Foto: Chairs - Jody Davis

 

A música pode ser a de Ry Cooder, como na banda sonora de Paris, Texas.

 

Caminhando, fisicamente. Sem tempo, relógio, sem rumo, quase, podem ser vários, tantos rumos. Tanto faz. Olhando, como que sem ver, como que absorto. Mecanicamente, mas ao mesmo tempo, sentindo, recordando, respirando.

 

Percorrendo, à base da memória, mentalmente. Recordações meio perdidas, mal definidas, como que no meio dos cinzentos da neblina. Em tempo: meio perdidas será o mesmo que dizer, meio achadas, mas com uma sensação de afastamento. Recordações perenes, apesar de tudo, de vida, vitais. Reconstruídas. Talvez já vistas com os olhos de hoje, vivas.

Histórias, vivências, pessoas.

 

Visto com os olhos de hoje, as pessoas estavam, sentiam-se abandonadas. Isoladas, como que à beira de perdidas. Ficar, continuar ali faria com que até a esperança fosse ela embora. Abandonasse as pessoas, cada uma.

Com um mínimo de ambição, dilaceradas, rasgadas por dentro, quase que só acompanhadas pela esperança futura umas, outras pelo desespero presente, todas, quase todas, foram saindo. Para muitos lados, saindo. Desertificando.

 

Volto. Percorro fisicamente, olho, vejo estradas novas, autoestradas, rotundas, esculturas, casas, edifícios. Tudo vazio... pessoas, muito poucas. Muito velhas. A meio caminho entre o orgulho de manter ali a vida e as suas raízes, a raiva de não ter saído, o sentir-se inteiro na sua terra e, lamentosamente, a inveja de não ter partido.

 

É o interior. É a vila, a aldeia, algumas com etiqueta de cidade. Ao abandono.

Antes, a triste agricultura de subsistência, que já nem isso era, ajardinava tudo, pobremente, o que a vista alcançava. Agora, tudo pode arder, matando muitos dos poucos que restam, ao abandono, como uma pilha.

 

Jorge Saraiva

 

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5.3.18

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Foto: Love - Longzu

 

Esbelta, de aparência muito cuidada mas sem descair para a exuberância, não passava despercebida. No liceu que frequentávamos era a mais popular. Irradiava uma simpatia e jovialidade cativantes. De gestos largos e risos fartos era agregadora e prendia-nos a atenção. Só por sonsice não admitíamos que ela era a colega perfeita, a amiga que todas queríamos ter. Não se privava de um abraço ou de um beijo mais caloroso, quer o outro fosse rapaz ou rapariga, amigo ou simplesmente conhecido. De tempos a tempos víamo-la dar mais atenção a um do que a outros e logo se levantava um coro de indignadas na contabilização de mais um namorado. Se os boatos lhe chegavam, e era natural que alguém lhos levasse com a generosa ideia de amizade mas que empacotava uma estratégia de aproximação àquela fonte de alegria, ela não os valorizava, nem isso era razão de reflexão sobre o rumo da sua conduta porque, pouco tempo depois, víamo-la entregue às atenções de outro qualquer que ela tivesse escolhido. Sim, porque era sabido ser ela a escolher quem seria o próximo a exibi-la em frente aos colegas.

 

Todos os anos o início letivo era de grande agitação e de muita curiosidade, que se estendia até ela. Como será que vem a Mariana? E ela vinha mais atraente e desafiadora do que no ano anterior. Entrava na sala de aulas confiante e sem pressa, cumprimentava à direita e à esquerda até se sentar no lugar vazio que lhe aparecesse. Vinha mais escandalosa.

Às raparigas que pensavam que belo era as gotas de orvalho a darem brilho às rosas numa manhã fresca de primavera, ela mostrava-lhes que belo era as gotas em corpos suados depois de uma sessão de amor. E os lábios pálidos daquelas, abertos para lamberem o rajá de morango, em nada se pareciam com os lábios carnudos e escarlate desta, desejosos de serem saboreados num jogo de paixonetas. E eram os mesmos lábios que se entreabriam num sorriso matreiro quando algum jogador deste xadrez amoroso lhe segredava ao ouvido, sabe-se lá que embrulho de palavras doces e promessas deliciosas, enquanto dos das outras apenas saiam cochichadas maledicências.

Tamanha liberdade escandalizava as colegas que assim não eram, mas assim queriam ser, e também aquelas que, assim sendo lhes faltava a audácia para o assumir. Era assim com Mariana, desejada por todos os rapazes invejada por todas as raparigas.

 

Troquei com ela duas ou três palavras em quantidade igual de ocasiões. Mariana nunca me elegeu para incorporar a enorme trupe que a rodeava e eu não era suficientemente determinada, tímida até, para impor a minha presença, mas atraía-me nela a forma como celebrava a vida.

Cruzei-me com ela muitos anos mais tarde, por razões profissionais. Não se lembrava de mim, naturalmente, mas aos poucos, com a conversa a trazer o passado ali para o presente, ela foi-se rendendo e a conversa, inevitavelmente, derivou para os bons tempos de juventude. Não tinha a mesma opinião que eu e a juventude, para ela, fora tudo menos boa. Confidenciou-me que a Mariana do liceu em nada se parecia com a Gata Borralheira que, depois das aulas, cuidava da casa e dos irmãos. Acabou o liceu e não pôde continuar os estudos. A mãe cumpria o horário de trabalho no emprego e horas extraordinárias a fazer limpeza num restaurante para poder sustentar a família, porque o pai tinha-as abandonado. Partira havia uns anos e dele sabiam muito pouco, apenas o que outros emigrantes contavam – tinha arranjado outra família. A responsabilidade de que tudo corresse bem com os filhos tornou-a numa mulher cheia de severas regras, por isso, e antes que ela regressasse a casa do trabalho, Mariana tratava de se desarmar, despia a máscara que fizera dela a rapariga mais desejada do liceu, apertava o cabelo, limpava as pinturas do rosto e retirava as pestanas postiças que tão bem lhe aprofundavam o olhar.

Quando nos reencontrámos mantinha a vivacidade e a alegria de outrora, mas transformada numa mulher discreta e serena. Casou com o homem que lhe garantira que nunca a abandonaria. O único homem que interrompeu o ciclo vicioso – escolhido, divertido, descartável, abandonado. A escolha dessa vez foi dele, ela não teve que fazer nada, apenas confiar e deixar-se amar. E, continuou o seu relato: “Antes dele nunca valorizei ou amei verdadeiramente alguém, sempre me rodeei de gente para não me sentir só e se percebia que os sentimentos me começavam a dominar, abandonava a pessoa com medo que ela me abandonasse a mim. Ele não poderá repor os pedaços de juventude que me foram arrancados por todos os que passaram pela minha vida, mas mostrou-me que o futuro é, também para nós, uma possibilidade.”.

 

Cidália Carvalho

 

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2.3.18

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Foto: Elder - Jhair Arcia

Viver na solidão, para muita gente, principalmente para pessoas idosas que são abandonadas pelos seus familiares e amigos, será como viver na “escuridão”. Mais doloroso, porém, do que essa solidão propriamente dita, é o sentimento atroz do abandono que as domina e que torna essa vida solitária ainda mais angustiante, mais triste e amarga.

Há quem considere que o maior poema do século XIX, que se chama simplesmente “Só”, da autoria de António Nobre, reflete o drama do infindável horror da soledade, cujo significado não se reduz apenas ao existir em solidão, mas também ao estado de abandono de alguém.

Dir-se-ia que a vida, para essa gente solitária, deixou de ser vivida, “deixou de ser vida”, porque todos os seus horizontes de vida se fecharam; cruel tortura de quem foi abandonado e rejeitado pelos seus, quando mais deles precisava em termos de amparo e afeto!

Infelizmente, é o que está a acontecer com frequência nos dias de hoje, com alguns idosos que são, muitas vezes, deixados pela família em abrigos, esquecidos em hospitais e atirados para lares.

Tanto fizeram ou sofreram pelos filhos e netos, ao longo da sua vida, muito amor, carinho e ternura lhes dedicaram; em muitos casos, porém, nada receberam em troca, nem mesmo um simples “mimo” de afeto ou de gratidão.

E bastaria, contudo, às vezes, para aliviar esse sofrimento e tornar menos penosa a soledade em que vivem, que pudessem sentir a proximidade, o afago e a ternura dos seus familiares e amigos, bem como deles recebessem, ao menos, uma pequena parte da dádiva de amor que nunca regatearam aos seus entes queridos.

José Azevedo

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26.2.18

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Foto: People - Shawrypa

Vou pelos significados “deixar um local” e “afastamento”. Neste momento da vida, não me apetece ir mais longe na definição de abandono.

O afastamento desta vida de alguém querido para outro lugar, para mim misterioso, transforma-se num ato violento para quem fica deste lado e, quem sabe, para quem se afasta. O chão foge, o coração escurece, o peito aperta… a vida deste lado para repentinamente.

Depois, vai-se fazendo um esforço para ocupar a cadeira vazia, para deixar de ouvir a sua voz, para deixar de ver os seus olhos... Inicia-se um exercício de criatividade para levar a vida para a frente. Nunca mais vejo aqueles olhos, porque ninguém da família tem os olhos daquela cor e, também, não conheço ninguém com olhos daquela cor! Era uma característica muito peculiar. Que bonitos que eram! Até essa cor se afastou. Neste lugar, onde tudo continua a mexer, o que lembra são os pormenores que constituem cada um de nós. Nele, são os olhos, as piadas, os pedidos de ajuda, a forma como ocupava o sofá, as declarações de amor e afeto, o presente no sapatinho no Natal quando os filhos eram crianças… enfim… a pessoa que era.

Como eu gostava que esta ida para outro lugar fosse temporária!

Ele não queria abandonar este lado e não queria que nos sentíssemos abandonados. Mas fica um sentimento estranho, porque os seus momentos e os seus pormenores deixaram este local sem aviso prévio… parece um roubo! Vou continuar pelos significados de “deixar um lugar” e “afastamento”. Quero pensar que deixou este lugar, que toda a gente conhece e gosta de frequentar, e que, ainda assim, nunca nos abandonará. Também quero pensar que ele não se sentirá abandonado, porque os que ficaram deste lado nunca o esquecerão!

Ermelinda Macedo

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23.2.18

 

Attractive - Pexels.jpg

Foto: Attractive - Pexels

 

“Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

a luz, a glória e o brilho do teu ser.

Amei-te em verdade e transparência

e nem sequer me resta a tua ausência.

És um rosto de nojo e negação.

E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”

Sophia de Mello Breyner

 

Espero que estejas bem. Sei que da última vez que te vi estavas um pouco fugidia e distante, parecia que me evitavas ou que não te sentias bem ao pé de mim. Achei-te com o cabelo em desalinho, olhar a vagar no fragor do horizonte, por dentro.

Acho que me disseste que tinhas ficado desiludida com alguém importante. Que essa falta estava marcada em ti, como se falássemos do recorte a tracejado das vítimas de séries de crime. Devia ser mesmo importante esse alguém, nunca mais disseste palavra sobre ele.

As marcas do que já passou ainda doem? Como passas os teus dias?

Ajuda partilhar com quem escute as lágrimas do sentimento ressequido e os gritos, sem interromper. Acho que a dor não se compraz com anúncios de dez em dez minutos, ainda que tenhamos de esperar, por vezes, por quem nos ouve com muito colo.

E a zanga Maria, o que é feito dela? Sei da tristeza que fica um tempo, ali sem nada, a hipnotizar-te. A rejeição também mas e a zanga? Ah sei, é fazer exercício físico, focar no trabalho e carregar no acelerador do carro. Mas sabes Maria, se vires da zanga manda-lhe um beijinho, gosto de a ver, mesmo quando ela é incómoda porque ela pá, ela sabe de coisas que nem eu nem tu desconfiamos.

Bem, esta carta já vai confusa mas era para te dizer que se precisares de alguma coisa diz, nem que seja ir tomar café ou ir para a fila das finanças.

Queria dizer-te que és importante para mim. Para tudo o resto, respiremos.

 

Maria João Enes

 

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19.2.18

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Foto: Homeless - Leroy Skalstad

 

Do momento de luz ao expoente da criação, tornamo-nos corpo, mas também alma. Agregamos experiências, lições, erros, histórias, gostos e desagrados, na edificação de um “Eu” distinto. E é nessa passagem do tempo que alicerçamos as nossas raízes. Prendemo-nos ao meio que nos envolve, ao conforto construído, ao que e a quem nos faz bem.

Se as fundações se abalam, é o ser inteiro que ampara o golpe, carregando as marcas e as feridas pelo longo e turbulento caminho que se estenderá.

Assim é o desígnio dos espíritos jovens abandonados pela sorte. Dos que crescem nas ruas, sem mão que afague, que proteja. Sem poiso que lhes garanta a segurança do amanhã, porque o próprio presente já é uma incógnita. Será que virá? Será que a vida persistirá?

A inocência do sorriso e da crença é-lhes roubada à partida, sem possibilidade de resgate de uma infância sumida. Os ruídos beligerantes atravessam ritmadamente a atmosfera e é no vazio propiciado pelo silêncio que se expressam os clamores sofridos. Os que ecoam num cântico aflitivo e os que são abafados pela dormência de um ser que já não sente, um ser que já não quer sentir.

Dos gritos às barbáries, perderam-se nas debilidades do ser humano. Desvaneceu o seu encanto, a esperança, a alegria… Miragens de uma vida alternativa, de uma outra realidade que não a vigente.

 

São órfãos da humanidade, o produto das massas de gente oca que os abandonou em terras impronunciáveis, submergíveis face às superficialidades da contemporaneidade.

Não os esqueçamos. Não os abandonemos. Pela memória e ação se fará a diferença quanto aos que serão o nosso futuro, enquanto (se) sucede o agora. E aí seremos todos membros da família humana.

 

Sara Silva

 

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16.2.18

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Foto: Woman - 5776588

 

Hoje acordei e, antes mesmo de abrir os olhos, pensei que seria um bom dia pois a noite foi calma cá em casa, com sonos retemperadores e descansados.

Olho-me ao espelho, já com a cara lavada com água fria e vejo que tudo está bem. Consigo escrever um e-mail de trabalho ainda a tomar o pequeno-almoço, adivinhando um dia produtivo.

De repente, cruzo olhares com o depois e a ideia de que tudo está bom sai a correr. Vejo-a fugir e fico em pânico. Começo a ficar mais nervosa, cada vez mais e mais nervosa e eis que tudo acontece. Tudo à minha volta é um caos, gritam comigo e tento não gritar, mas já vou perguntando “Porquê?”. Por que razão não há um dia em que a ideia de que será um bom dia não me abandona durante esse mesmo dia? Então, tudo acontece...

 

Se antes estava com boas energias, essas desaparecem e o meu pânico é maior pois convenço-me que nem sequer tinha direito de as ter tido em algum momento. Se conseguia suportar os gritos dos outros, esses mesmos gritos abandonam os seus corpos iniciais e passam todos para mim, sendo invadida por ataques de histeria louca, dos quais tenho consciência e abomino. Abomino-me a mim...

Se antes olhei para o espelho e tudo era bom, esse mesmo espelho mostra-me agora uma cara vermelha da própria raiva de existir, olhos a pedir para nunca mais serem vistos abertos por ninguém, lágrimas a pedir perdão por existir.

A alma quer sair do corpo, mas o racional não deixa. Estou presa em mim mesma, nesta minha neura, nesta minha existência medíocre. A pessoa que sou abandona-me e deixa-me à deriva com esta loucura.

Já consegui deixar todos à minha volta de olhos arregalados, mas que se dane! Sofram as consequências por conseguirem deixar-me assim.

Mas eu gosto tanto deles... Eu que já cá não estou. Eu que fui expulsa do meu próprio corpo para dar lugar à insanidade. Sinto ódio, abandono o amor, aquele que tanto acredito e desejo... Não é opção, mas é uma realidade. Uma estúpida realidade que só a mim diz respeito.

 

Sónia Abrantes

 

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12.2.18

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Foto: Woman - Анастасия Гепп

 

O estrondo de um motor atraiu-lhe o olhar através da janela, instintivamente. Viu um carro que passava na rua lateral ao liceu. Tudo estava bem.

Quando Luís fez o olhar regressar ao interior da sala, a porta tinha sido aberta por uma rapariga que entrava, serenamente, com determinação educada. Todos olharam para ela; não podiam deixar de olhar, atraídos por ela, pelos cabelos castanhos a tocarem os ombros, pela pele clara mas precisamente bronzeada, pela beleza do rosto, pelos olhos magnéticos, pela elegância, pela suavidade dos gestos, pelo sorriso cativante, pelo vestido de verão a terminar pelo meio da coxa. O professor interrompeu o silêncio: “Por favor entre e sente-se, se ainda encontrar uma mesa e uma cadeira livres”. Reposto o silêncio, os olhares continuaram até ao fundo da sala, seguindo aquele corpo que flutuava harmonioso. Pousou na última cadeira, olhou o professor e mostrou de novo o sorriso, doce, que agora a todos dizia que estava tudo bem, que a aula podia continuar. Luís sentiu-se preso àquela rapariga tão bela como nunca imaginara possível, senhora de uma luz que criava todas as cores, que tudo harmonizava.

 

Naqueles dias a turma tinha crescido até ao limite do espaço da sala, com rapazes e raparigas regressados de uma África agora independente que os rejeitava, ou que eles rejeitavam. Todos tinham lá nascido e crescido, numa natureza diferente, numa cultura diferente, e por isso sentiam-se peixes fora de água, rejeitados, escorraçados, estigmatizados, a tentarem perceber onde estavam, com quem estavam, a tentarem aprender novos hábitos e a criar laços, referências, amizades. Pela forma como ela chegou, pelo seu jeito, só podia ser um deles – uma retornada.

 

Tornou-se muito longo e vazio o tempo até ao intervalo. Com o toque saíram da sala e, como sempre, caminharam até ao salão polivalente. Luís, sempre tímido, sempre reservado, sobretudo com as raparigas, não tirou os olhos dela. Sem entender como, atreveu-se a abordá-la quando todos a olhavam à distância, disfarçando mal a surpresa, o espanto, a fixação. Aproximou-se. Ao perto ainda era mais bela; era muito diferente de todas as outras raparigas. Atreveu-se e disse-lhe que se chamava Luís, que vinham da mesma sala. Ela respondeu-lhe com um sorriso terno, meigo, carinhoso, irresistível, e continuou: “Chamo-me Ângela. Cheguei ontem de Lourenço Marques e estou aqui hoje, o meu primeiro dia neste liceu. Nunca tinha vindo a Portugal continental”.

Luís não entendia a razão, mas com a Ângela sentia-se à vontade, completamente relaxado, sem medo de ser como era, sem medo de falar. Conversaram todo o intervalo grande e regressaram juntos à sala.

Quando as aulas terminaram - terminavam pela hora de almoço, Luís acompanhou Ângela a casa. Ela, o irmão mais novo e os pais, estavam a viver com os avós que acabara de conhecer. Ficaram a conversar mais um pouco junto ao portão da avó. E depois separam-se até à manhã seguinte quando, bem cedo, Luís chegou ao portão para acompanhar Ângela até ao liceu. O mundo estava todo coberto de cores vivas, de beleza, o ar cheirava bem e tudo era harmonia.

 

E foi assim durante um mês. Ângela e Luís, Luís e Ângela, sempre juntos, por todo o lado. Nunca ele se sentira assim, tão bem, tão sereno, tão seguro, apaixonado. Adorava tudo em Ângela – a imagem, a voz, o cheiro, a serenidade, o sorriso, o jeito, a beleza. Durante aquele tempo experimentou algo que nunca imaginara ser possível – quando caminhavam pela rua, todos os homens olhavam surpreendidos e invejosos. E sim, era ele que ali estava, ao lado de Ângela, era a ele que eles invejavam.

 

E uma sexta-feira, quando regressavam a casa, Ângela disse a Luís que era o último dia em que estariam juntos. Na segunda-feira viajaria de volta a Lourenço Marques, perdão – a Maputo, o pai já tinha tratado de tudo e Moçambique era o país deles, queriam voltar e lá continuar a viver. Luís não conseguiu escolher uma palavra das tantas que queria dizer. Não queria o seu mundo sem Ângela. Queria dizer-lhe o quanto ela era bela, o quanto estava apaixonado, o quanto a desejava, o quanto precisava dela. Mas nada conseguiu dizer.

Não voltou a vê-la, nada soube dela. Regressaram a timidez e as dificuldades com as raparigas. O mundo perdeu luz, cor e harmonia.

 

Alguns anos depois tornou-se adulto e foi mitigando a timidez. Encontrou outras mulheres, encontrou o seu amor. Mas a imagem adolescente da Ângela, a serenidade, a beleza, o amor, ficou para sempre dentro dele, despertando de quando em vez apenas para dizer que está lá, para não ser esquecida, para o encher de ternura.

 

Fernando Couto

 

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9.2.18

Man - Silvia & Frank.jpg

Foto: Man - Silvia & Frank

 

No momento em que os seus olhos, escondidos nos óculos “fundo de garrafa”, se cruzaram com o verde dos olhos dele, ela sorriu e corou.

Quando, dias depois, entraram no mesmo elevador, cada um soube onde poderia encontrar o outro. Mas não se procuraram. A vida, sozinha, faria com que os seus caminhos coincidissem de novo.

 

Os olhos dele procuraram mais vezes o sorriso dela, naquela multidão que se atropelava, a cada manhã, no percurso até ao trabalho. O primeiro “Olá!” mostrou que os olhos verde-água tinham voz de Tritão. E o convite para um café fê-la tremer – primeiro por dentro, e depois nas mãos.

No seu coração de menina, sempre sonhou com um homem assim: loiro e de olhos claros, como nos filmes e nas histórias de encantar. Sempre idealizou um príncipe a entrar no seu castelo. E estava a chegar o momento em que ele se tornava real.

 

No dia e hora combinados, ali estavam, cada um com as suas motivações e expectativas. Ela, de coração num trampolim e bochechas que só podiam sorrir. Ele nos seus olhos verdes, de conquistar qualquer mulher.

Ela que (aos olhos dele) de bonito tinha apenas o nome – Maria – fez cair por terra, num piscar de olhos, a aposta que o levara àquele café.

Ele estava agora rendido à voz doce de Maria. Hipnotizado pelo canto de sereia do relato das suas aventuras, em viagens pelo mundo fora.

Só que ela, mais do que viajar por países, tinha feito muitos percursos interiores, conhecia bem o seu coração… e percebeu, no primeiro momento, que o trampolim se deteve, ao suspeitar a aproximação de um homem vazio.

 

Foi a primeira vez que uns olhos bonitos levaram os dela a tomar café. Foi a primeira vez que os olhos dele se deixaram cativar por um brilho que não estava visível a olho nu.

 

Maria abriu um precedente na vida destes olhos, que viram que há muito mais beleza do que aquela que eles podiam alcançar.

O seu sonho de menina morreu naquele dia. Mas fez nascer a certeza de que, o azul celeste do seu coração, não seria nublado por uma qualquer cor de olhos bonitos.

 

HTR

 

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5.2.18

Smile - Jessica.jpg

Foto: Smile - Jessica

 

Beleza. Chega-nos pelo ar. Um som, uma imagem, um pormenor. A covinha do teu sorriso quando me vês chegar. E assim te chegas a mim. Passas a ser parte minha porque, de algum modo, te toquei, mesmo que nem um dedo tenha mexido. Os meus olhos iluminam-se quando te vejo. Incendeias a minha alma. Amor lindo. A melhor escolha da minha vida. Para sempre.

Há pessoas que nascem para isso: ajudarem-nos, apoiarem-nos, crescerem connosco e amarem-nos incondicionalmente. Beleza rara. Serem humanos e tocarem-nos a alma. Até mesmo aquilo que nunca ousamos, ou sabíamos mudar. O nosso céu particular.

 

Quando penso em ti e fecho os olhos, vejo sempre um sol brilhante num céu imensamente azul e branco, e muitas flores de todas as cores. Sorrio. A vida dá tantas voltas.

Eu agradeço-lhe por isso. Às vezes o céu é bem cinzento e escuro, mas quando olhamos em volta e vemos a normalidade da vida, a rotina do dia-a-dia, as árvores sempre prontas a serem admiradas, o mar sempre recetivo a um mergulho, a música à espera de ser ouvida, o corpo pronto a ser sentido e vivido. E a gente esquece o que passou.

 

Miriam Pacheco

 

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2.2.18

Portrait - Subham Shome.jpg

Foto: Portrait - Subham Shome

 

Andei dias a fio a pensar como iria abordar o tema proposto. Nunca gostei de pensar e falar em beleza, ou no belo, apesar de conseguir, evidentemente, reconhecer e categorizar o que, para mim, é belo. Em certa medida, acho o tema tão ambíguo, que cai por terra qualquer validade pretensamente conclusiva. E eu tenho tendência para chegar a conclusões.

Pensei na fotografia, que capta o belo. Na arte, que cria o belo. Na música, que eleva o belo. No amor, que se quer belo. E repudiei a ideia de pensar sobre o tema quando me lembrei das pessoas. Quão falsa relação pode ser a junção dessas duas palavras: beleza e pessoas.

A beleza está repleta de lugares comuns, tendências e manipulações. Invade de forma direta ou insidiosa o nosso pensar, o nosso escolher e o nosso comportamento. É politicamente correta, tornando-se assim, em confidências, rotundamente falsa. Os seus padrões (atuais) incomodam-me, mas, no entanto, vaidosamente arranjo-me de manhã e frequento o ginásio de tarde. Sim, somos maioritariamente hipócritas no que toca ao tema. A verdadeira beleza vem de dentro, dizem-nos. Mas o que sentiríamos nós se tivéssemos filhos indiscutivelmente feios?

Será que a beleza está nos olhos de quem a vê? Talvez. Acredito, contudo, que na forma como a sociedade evoluiu, cada vez mais vemos todos a mesma coisa. Estamos a ficar cegos para a beleza da fealdade...

 

Rui Duarte

 

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29.1.18

Plane - ionutscripcaru.jpg

Foto: Plane - ionutscripcaru

 

Beleza é um conceito, dizem. E que está apenas nos olhos de quem vê. Pode ser. Mas depois há aqueles momentos em que o que vemos nos esgota a capacidade de olhar, e nos obriga à sujeição de todos os sentidos e à reverência a coisas inexplicáveis: é aí que nasce a Poesia.

 

Cheguei hoje de uma curta viagem para fora do meu país, Portugal. Anoitecia quando o deixei, há duas semanas, num dia de céu limpo. Virei a norte, voando, e a linha de fogo que demarcava o horizonte líquido era de uma nitidez afiada e longa, que me cortava a respiração. Subjetividade? Sim, talvez – a minha pele é, confesso, extremamente vulnerável a golpes de luz, e a minha respiração a cortes de espanto, quase susto. Nem pensei em beleza, ou qualquer outro adjetivo – apenas vi. Juro que vi.

Depois, o céu cresceu, debruado a lume esmaecendo, e a terra foi ficando preciosa, lá no fundo. Sei lá, ou talvez fossem os meus olhos, que já não olhavam, apenas me enriqueciam de filigrana delicada e faiscante – sei lá, ou talvez fossem as luzes da cidade a iludir-me... Talvez. Mas era belo! Belo, o trabalho de ourives, em arabescos, caprichos, flores, corações estilizados. Teias de fios dourados, desenhando joias espalhadas no veludo negro das povoações namoradas do mar. E juro que não ficou tudo pelos olhos, por isso, comecei a duvidar, desde então, nessa máxima de que “a beleza está nos olhos de quem vê”.

 

Como já disse, voltei hoje a Portugal, vinda de norte, pelo ar. Era de dia. E não sei se foi saudade, se foi poema – só sei que, descendo, a minha terra se me revelou, outra vez, de uma beleza que me abanou por dentro... Deve ter chovido, porque os prados, ponteados de casas e bordejados por pequenas manchas de árvores, eram de um verde vivo e liso. Deve ter chovido, porque os meus olhos se humedeceram, deixaram, outra vez, de saber olhar, e puderam sentir a recendência das ervas recém-cortadas, o cheiro dos pinheiros mansos, o conforto sensitivo de uma bela manta de retalhos, carinhosamente criada por mãos que sabem da beleza, sem saber que o sabem. E juro que, desta vez, senti por dentro que “a beleza está na alma de quem ama”. Com poesia ou com saudade. Ou com ambas.

 

Teresa Teixeira

 

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26.1.18

Elderly - d4lma.jpg

Foto: Elderly - d4lma

 

A Rua das Camélias é a minha rua favorita da cidade. Tem um lindo nome e, só por este facto, seria capaz de a adorar mas, na verdade, não foi por esta razão que me enamorei dela: aqui vivem os protagonistas da mais bela história de amor que habita na minha memória. Há mais de quatro décadas que tive o privilégio de conhecer o Sr. Artur e a D.ª Aurora, duas pessoas adoráveis que me enchem a alma. Na altura em que eu era gaiata, a D.ª Aurora era a melhor modista da cidade. Vinha gente de todo o lado, até gente das revistas, da política e da banca, procurar os serviços das suas mãos abençoadas. Contavam as minhas tias que, décadas antes de eu nascer, já as mulheres se sentiam rainhas vestidas por aquela doce senhora de olhos muito azuis, sorriso sereno e pele de porcelana. O Sr. Artur era joalheiro, arte herdada do pai e do avô, e mantinha uma rotina de trabalho que lhe permitia esperar a sua Aurora, ao final da jornada, sem falhar um dia que fosse. Quando a D.ª Aurora fechava o atelier, já o Sr. Artur a mirava com um sorriso de orelha a orelha, como se a visse, sempre, pela primeira vez. Foram muitas as vezes em que estive sentada no banco do jardim, do outro lado da rua, a apreciar esta cena, invadida por sentimentos paradoxais: por um lado, fascinada pelo fenómeno de uma história de amor que recomeçava a cada dia, por outro lado, incapaz de perceber que a disfuncionalidade da minha família não me permitia, ainda, entender aquela entrega. Na realidade demorei muito tempo a compreender que aquilo é que era, realmente, amor. E que, nesse espaço sagrado, não podiam viver a dor, o medo, a raiva, a tristeza e a angústia (sentimentos e emoções que, no quotidiano da minha família, significavam afeto, carinho e preocupação), subjugados em mim pelos sorrisos, pela cumplicidade daquele casal, pela intensidade dos seus abraços. O Sr. Artur e a D.ª Aurora eram, aos meus olhos, as pessoas mais poderosas do universo: tinham o dom de fazer parar o tempo e de me inundar dos melhores sentimentos do mundo.

 

Um belo dia, a sair do atelier, onde insistia em trabalhar diariamente apesar da idade avançada, a D.ª Aurora deu uma aparatosa queda, mais rápida do que o Sr. Artur conseguiu pestanejar. Estendida ao comprido rebentou num pranto convulsivo, enquanto balbuciava que não tinha partido nada, a não ser o orgulho, e que a deixassem ficar ali até a vergonha a consumir. As pessoas que passavam iam parando, incertas sobre se deviam intervir ou não, quando, subitamente, o Sr. Artur se deixou cair no chão numa acrobacia digna do “Cirque du Soleil” e rebolou até à D.ª Aurora, sem proferir uma só palavra. Esta, incrédula, tinha esquecido as lágrimas e a vergonha e observava aquele homem, caído a seu lado, cujo ombro encostado ao seu a fazia sentir em casa. Foi ele quem, gentilmente, quebrou o silêncio:

- Queres ficar aqui estendida, meu amor, muito bem, ficamos. Já sabes que onde estiveres é onde eu estou. Só espero que não chova… e olha, Aurora, minha amada, lembra-te que já não vamos para novos… se calhar, daqui a vinte anos, experimenta encostar-te a um muro ou a uma árvore, estás a ver a ideia? Estas sestas no passeio, no meio do povo a passar, só porque sim, são capazes de nos matar, Aurora. Mas hoje, meu amor, estamos aqui. Dá cá a mão, isso, aperta. Vês? Está tudo bem. Quer dizer, se não partiste mesmo nada… Se partiste, Aurora, pelo amor de Deus, diz-me, meu amor, que temos de correr já para o hospital! Correr… rastejar! Assim que eu conseguir virar esta carapaça ao contrário…

Depois disto, a D.ª Aurora agitou-se num riso que a sacudiu inteira e o Sr. Artur permaneceu ao seu lado, fascinado com cada gargalhada que lhe inundava os sentidos. Lentamente, foram-se elevando e quando estavam, finalmente em pé, frente a frente, ele tomou-lhe a face entre as mãos e beijou-a ternamente. Naquele momento mágico todas as preocupações da D.ª Aurora se desvaneceram. Pude ver a tensão abandoná-la e o seu corpo sucumbir, seguro, no abraço do Sr. Artur. De olhos fechados – estou certa que viam mais do que todos nós com eles bem abertos –, ficaram unidos naquele beijo terno, enlaçados, esquecidos do mundo e dos demais. Nada, absolutamente nada, podia ser mais belo do que o que eu presenciava e sentia. Ainda que o futuro fosse uma incógnita na minha cabeça, ainda que aquele Amor Maior pudesse nunca encontrar o seu caminho até mim, eu soube, naquele momento, que era real. Que pessoas de carne e osso o tornavam genuíno, visível, único. Aquele episódio mudou a minha vida. Tornou-se a bússola da minha alma nos assuntos do coração, guiando-me em muitas tempestades violentas, lembrando-me de nunca viver (voluntariamente) pela metade: o amor era precioso demais para ser tratado como um sentimento de segunda.

 

Deixei de os ver durante muito tempo, ou de passar na Rua das Camélias e, lentamente, a sua memória tornou-se distante e difusa. Contudo, ao longo da minha vida, quando precisei de sair de histórias caóticas, feitas de dor e de engano, eram eles que me ancoravam e me davam forças para me resgatar a tudo que não fosse, realmente, amor. Na verdade, o amor não pode ser chamado de tal sem um lugar seguro onde se cresce a dois, soube-o com eles. Nenhum amor sobrevive uma vida inteira pela metade, nem o amor-próprio consegue tal proeza. E as minhas células recusaram esquecê-lo, mesmo quando a memória o atirou para uma gaveta perra e (quase) esquecida.

 

Esta semana voltei à cidade. Já cá não vivia há muito tempo e soube bem voltar a casa. Perdida em mil pensamentos, dei por mim a calcorrear as ruas que há muito não trilhava, guardadas na pele e na memória. Quando percebi onde estava, tive um baque! Naquela varanda florida à minha frente, assomava em tempos a D.ª Aurora para descansar os olhos da costura. Como era bela, altiva, serena! Aqui, mesmo ao meu lado, aconteceu o trambolhão monumental da D.ª Aurora e a queda por solidariedade do Sr. Artur. Hoje, terão os dois mais de noventa anos. Sorrio, com o coração derretido e, ao mesmo tempo, apertado: é perfeitamente plausível que nenhum dos dois esteja vivo e entristece-me este pensamento. Não quero ir embora, ainda não estou capaz de os deixar partir em mim. Sento-me em frente à varanda, tomo um café e saboreio cada pormenor daquela história, como se tudo se tivesse passado ontem. Décadas de detalhes saltam na minha mente, sinto o coração expandir só por lembrar. Posso sentir de novo o aroma do perfume da D.ª Aurora, posso escutar a sua gargalhada e a voz quente do Sr. Artur! Posso lembrar a dança dos seus movimentos, a linguagem dos seus corpos, a força do seu olhar! Sinto-me em estado de graça enquanto viajo na sua história e a registo em mim, mais uma vez, na esperança de que nunca morra.

Depois de um tempo que não sei precisar, perscruto o local em busca do empregado de mesa. Duas mesas ao lado, uma gargalhada desperta a minha atenção e os meus olhos detêm-se num par de olhos azuis que sorri enquanto, docemente, duas mãos aproximam um rosto do seu e beijam os seus lábios. É quando esses olhos, finalmente, se fecham, que reconheço aqueles dois belos nonagenários. Não os teria reconhecido, todavia, se caminhasse, por ali, distraída… O que eu teria perdido! Estou perplexa! Sinto-me tão grata por este momento… Constato, maravilhada, que o tempo se encarrega de nos tornar magníficos, se tivermos o privilégio de viver longos anos; porém, hábil e determinado, brinca com os nossos traços, ornamenta-os de rugas e torna-nos uns jovens camuflados em fatos decíduos. Enquanto uns amargam, outros transcendem, mas todos, inevitavelmente, envelhecem. Contudo, os olhos da D.ª Aurora não envelheceram um único dia. Alheios ao passar dos anos, continuam majestosos, imensos, felizes, cheios de amor. Não lhes falei mas bebi da sua presença, da sua energia. Deixei-me abraçar pela magia daquele amor de uma vida inteira e pelo sorriso que ainda partilham, tão cúmplice, pleno e sereno. Fui inteira também, naquele momento, naquela esplanada, naquela brisa suave que me trouxe o perfume da D.ª Aurora e a fascinação do Sr. Artur por aquela bela dama por quem, claramente, se apaixonava todos os dias, há mais de setenta anos. Quase duas décadas depois daquele momento que mudou a minha vida, volto a sentir que nada, absolutamente nada, pode ser mais belo do que aquele amor. Na rua onde o tempo para, renasço na certeza de que só poderei viver algo igualmente grandioso se nunca esquecer que, no que toca aos assuntos da alma e do coração, menos que tudo é nada.

 

Hoje, não sobra espaço nesta cama gigante onde durmo todas as noites. Transbordo amor, sinto o meu corpo repousar, tranquilo, imenso. Sinto a alma em casa, dentro de mim. Sou inteira, aqui, agora, em mim própria – sempre fui, na realidade, mesmo quando não o sabia. Sei que já não tenho muitas décadas para crescer e envelhecer com um companheiro, nas curvas do corpo, nos desafios da psique, nas rugas da pele; mas serei inteira numa vida plena vivida a dois, durante o tempo que me for concedido. O meu “Artur” (que já deve vir um pouco sénior) não precisa de se atirar para o chão quando me der o fanico mas, no mínimo, deve ser alguém inteiro também, que não precise de mim para nada mas que me escolha, todos os dias. Enquanto não chega, sei que a Aurora, o Artur, a plenitude e o amor incondicional existem. Sempre saberei. E basta-me.

 

Alexandra Vaz

 

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22.1.18

Girl - Alexandr Ivanov.jpg

Foto: Girl - Alexandr Ivanov

 

A seguir ao almoço, Jorge anunciou uma surpresa: um vídeo de família que tinha deixado a gravar em casa.

- Vou lá num instante buscá-lo!! – disse, saindo à pressa, enquanto o resto da família se espreguiçava no sofá após a lauta refeição.

O “num instante” arrastou-se por mais de 40 minutos e Sofia, impaciente, resolveu ligar para o marido a saber o que se passava. “Tirlili-tirlili”, ouviu-se na prateleira do móvel da sala.

- O totó esqueceu-se do telemóvel! – exclamou Sofia num tom que misturava condescendência e irritação.

A D. Emília prontificou-se imediatamente a ir levar o telemóvel ao filho, o que causou um alarido de comentários: “Claro que não!”; “Que ideia!”. Mas é assim, a D. Emília, sempre disposta a dar a volta ao mundo para satisfazer os filhos, mesmo que às vezes ultrapassasse a barreira do aceitável e do normal.

 

Dez minutos volvidos e Jorge entrou esbaforido pela porta, um sorriso de orelha a orelha, com o DVD na mão. De volta do leitor de DVD do pai, o sorriso foi dando lugar a alguns sopros de impaciência e a frustração instalou-se quando se concluiu que não havia compatibilidade entre o ultrapassado aparelho e o recente LCD adquirido pelos patriarcas. Só que Jorge não se deu por vencido e, apesar de o tentarem demover, saiu novamente rumo a casa e regressou, desta vez rapidamente, com o portátil debaixo do braço e um cabo USB, não fosse o diabo tecê-las.

E foi assim que, finalmente, todos se reuniram pelo sofá e cadeiras em torno da televisão para assistirem ao vídeo que, afinal era uma apresentação de fotografias intitulada “A vida é bela, por Jorge Ribeiro”. À medida que as imagens iam passando, o grupo ia lançando comentários, risinhos, exclamações que traduziam a lembrança de um acontecimento passado. Naquelas fotografias, só momentos felizes de Jorge, Sofia e dos filhos, Miguel e Patrícia: férias, aniversários, passeios. Durante mais de 20 minutos, passaram pelos seus olhos todas aquelas imagens, algumas de anos já muito passados, uma espécie de história de família. E, no entanto, ali não aparecia a depressão do Miguel, da qual estava a recuperar quase a 100%, mas na qual estivera mergulhado no último ano e meio. E tão pouco as imagens deixaram transparecer a traição de Sofia que quase provocou a separação dela e de Jorge, ou a tentativa de suicídio que daí adviera. O “vídeo” apenas focava os bons momentos, como uma espécie de balanço de uma vida quase sempre bela.

 

No fim, todos bateram palmas. D. Emília chorava (de alegria?), emocionada. Só a pequena Luana não aparentava grande satisfação; a sobrinha de Jorge não conseguia compreender porque aparecia tão pouco naquelas fotografias. Todos se riram e explicaram-lhe que era por ser a benjamim da família; não podia, por isso, ter um grande historial de fotos de família. O que ninguém lhe disse (mas talvez tenham pensado) foi que os acontecimentos passados destruíram o convívio e os laços que haviam existido entre todos e que, apesar da alegria que ali parecia reinar, havia uma barreira erguida entre Jorge, Sofia e os filhos, face à restante família – de ressentimento, mágoa, remorso, egoísmo – que haviam reduzido os encontros ao mínimo indispensável.

Mas hoje estavam ali. E sorriam. Como uma família feliz.

 

Sandrapep

 

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19.1.18

Pretty - Deedee86.jpg

Foto: Pretty - Deedee86

 

O primeiro conceito que me ocorre é o de luz, brilho. Só com boa iluminação, conseguimos, naturalmente, ver. Só vendo, apreciamos.

Assim, por exemplo, não sabemos, não conhecemos, olhando a partir daqui do pedaço, como é o outro lado da lua, o lado não iluminado. E sim, parece-me que está certo, com luz vejo, com luz aprecio.

Mas não chega, completando. Não é apenas o que entra pelos olhos dentro, quase como que se impondo, que eu consigo apreciar. Então, se quiser e for caso de passar de uma (mera?) primeira impressão, vou além de ver e junto-lhe o sentir, algo de interior que, na realidade, não se vê, [mais do que ver, sei, sinto; talvez careça de mais tempo, disponibilidade, do que uma rápida vista de olhos proporciona, não desfazendo no conceito de “primeira impressão”] que está no interior, que não tem luz. Aliás quando sou alagado, emocionado, arrepiado por algo de belo, e o belo pode ser qualquer coisa de imenso, incomensurável, é natural que eu feche os olhos. Para perceber, sentir melhor. Interiorizar.

 

A luz dá-me imagens, permite-me compreensão, para além de mil palavras, mas a beleza, mesmo que só física, e pode ser muito mais que isso, percebo-a, ilumina-me completamente se fechar os olhos e tentar contê-la, apoderando-me dela, assim, dentro de mim. Extraordinário, maravilhoso, como a mais pequena coisa, gesto, dito, ato - muito pequena mesmo, (quase) impercetível, para quem (es)tiver com menos disposição, sensibilidade - pode ser imensa, envolver-nos, encher-nos, quase a ponto de não nos contermos e transbordarmos, tornar-nos maiores!

A vida pode ser bela.

 

Jorge Saraiva

 

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15.1.18

Joy - Erge.jpg

Foto: Joy - Erge

 

Mariam Vattalil era feliz a trabalhar com os pobres e oprimidos de Indore, na Índia. Vertia essa felicidade num sorriso fácil, do tamanho do mundo e à medida de cada um. A irmã Sorriso, assim era conhecida, balsamizava a dor dos sofridos, ajudava os desfavorecidos e integrava os expulsos da sociedade que ninguém queria. Chegavam-lhe desvalidos, vítimas da calhordice de seres abjetos que roubavam a dignidade aos pequenos agricultores, despojando-os das terras e obrigando-os a trabalhar no que já fora deles, a troco de salários vergonhosos.

Às vítimas, instava-as a lutar, aos dominadores, tentava sensibilizar. Ensinava aos pobres métodos agrícolas mais modernos de forma a rentabilizarem o esforço despendido. Mostrava-lhes as vantagens de saber ler e escrever, e sensibilizava-os para que enviassem os filhos à escola. Com as mulheres promovia grupos de autoajuda, transmitia-lhes noções básicas de educação, saúde e higiene. Incentivava-as a constituir pequenas poupanças, criar e gerir micronegócios. Mariam Vattalil era o rosto da esperança que faltava naquele ambiente de miséria.

 

Aos oprimidos não lhes é reconhecido o direito a ter esperança – se lhes fossem reconhecidos direitos não eram oprimidos – e a esperança deles era um perigo para a ordem instituída e para a paz podre que a sustentava, por isso, a comunidade Hindu e os proprietários locais que enriqueciam com a pobreza dos desfavorecidos, sentiam-se ameaçados. Primeiro tentaram convencer a jovem a deixar o lugar e a deixar de intervir, mas ela, determinada a cumprir a missão para a qual sentia que tinha sido escolhida, não obedeceu e continuou a fazer o seu trabalho junto dos mais necessitados. Convencidos de que não conseguiriam demovê-la, resolveram encomendar a morte de Vattalil. Samunder Singh aceitou fazer o serviço. Muniu-se de uma faca e, no autocarro em que Vattalil viajava para Indore, desferiu-lhe 54 facadas roubando-lhe a vida. Samunder foi julgado e a sentença ditou prisão perpétua.

 

Um horror difícil de descrever, muito pouco consentâneo com o tema proposto – beleza. Mas se o horror está presente nesta história, também é nele que a bondade do ser humano foi mestra e pincelou um quadro de rara beleza.

Samunder, depois de preso, foi abandonado por todos. A família, envergonhada, não quis saber dele e os que lhe encomendaram a morte de Vattalil, esqueceram-no. A privação de liberdade não o reeducou, transformou-se num ser vingativo, vivia atormentado com um único pensamento: fazer justiça pelas próprias mãos sobre aqueles que o enganaram e abandonaram.

Um dia, inesperadamente uma irmã da vítima Vattalil, visitou-o na prisão. Estava dada a primeira pincelada de bondade na negritude de uma tela que haveria de concluir-se colorida e de uma beleza impressionante. Com uma simples mas imensurável frase, o horror foi-se esbatendo. Frente a frente com o carrasco da irmã, ela abraçou-o e chamou-lhe irmão. A ação da família que tinha perdido um dos seus, de forma tão bárbara e violenta, não se ficou por esse gesto e continuou a surpreender-nos. Moveram influências, fizeram pedidos e conseguiram que a sentença fosse reduzida para onze anos.

 

Quando cumpriu a pena e foi libertado, Samunder procurou-os para agradecer tudo o que fizeram por ele. E com este gesto a tela ganhou novos tons, sobre ela caiu o vermelho sangue, diluído em lágrimas de uma mãe em sofrimento, mas ainda assim, com a grandeza que a individualizou, beijou as mãos do assassino porque sobre elas estava o sangue da sua filha.

Numa cerimónia recente dedicada a Vattalil, ele lá estava, na primeira fila, para a homenagear; mas a mais bela e reconhecida homenagem que ele lhe presta, ainda hoje, é a continuidade do trabalho que ela começou junto dos desfavorecidos de Indore.

Vidas que me inspiram e me aproximam desta tela colorida onde, em traço muito incerto, é certo, lanço o verde da esperança na humanidade.

 

Cidália Carvalho

 

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12.1.18

Old-people - Claudia Peters.jpg

Foto: Old-people - Claudia Peters

 

Neste mundo tão materialista e consumista em que vivemos, tudo parece gravitar na órbita do desejo de beleza, reduzida esta unicamente à sua natureza estética e orientada apenas para uma realidade virtual e superficial que nos absorve e que só alegra os olhos e muito raramente o coração. Dir-se-ia que, para alguns, é esse o desejo que inspira o sentido da vida. Será assim? Não, seguramente!

 

A beleza não pode ter esse efeito tão redutor da vida. Sabemos quanto ela motiva e entusiasma tanta gente ligada às artes e à literatura como grande fonte de inspiração que é, sem a qual jamais a arte seria concebível sequer. Contudo, mesmo para lá da beleza natural que nos rodeia: do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas, há uma outra beleza mais profunda, mais verdadeira, mais generosa, que muitas vezes é invisível ou está escondida. Trata-se da beleza interior que deve existir em cada um de nós, a única que não precisa de maquiagem e permanece incólume toda a vida, ao invés da exterior e “fabricada” que se esvai com o tempo. Revelada essa beleza interior, ela pode ser o esplendor da verdade, da generosidade e do humanismo sublime, constituindo um autêntico manancial de virtudes por desvendar. É essa sublimada beleza, de glória e de virtudes, que deve ser procurada. Devemos pensá-la assim mesmo, como uma necessidade e como princípio orientador de educação, de fraternidade, de solidariedade e de alegria.

 

Saber trabalhar e cultivar a beleza interior pode ser o começo para suportar e aceitar com naturalidade o fim da beleza exterior, para mais tarde, no auge da velhice, se sentir feliz e realizado. É assim que, percorrendo esse caminho de virtudes, a vida tem sentido.

 

José Azevedo

 

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