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Worried girl - Ryan McGuire.jpg

Foto: Worried girl - Ryan McGuire

 

Minha flor. Foi assim que me batizaste quando a tua memória te começou a pregar partidas. No meio da tristeza que era ver-te desaparecer aos poucos, fazias crescer em mim uma alegria imensa quando me vias e esboçavas aquele sorriso só a mim concedido, à tua flor. Provavelmente, esqueceste o meu nome e era-te mais fácil tratares-me assim. Eu não me importei, era um privilégio só meu. E que grande privilégio!

A tua doença transformou-te e inevitavelmente transformou-nos a nós. Tivemos que aprender a ver-te partir. E como foi difícil! Porque nem sempre estivemos à tua altura, nem sempre conseguimos dar-te aquilo de que mais precisavas da forma que te era necessário. Éramos iniciados nesta lição que a vida nos impôs.

Existias no teu canto, confortável naquele espaço, e a tua companhia deixou de aparecer junto de nós. Não conseguíamos perceber porquê, queríamos-te por perto mas tu recusavas. Éramos nós que aparecíamos para te fazer companhia, para cuidar de ti. Estranhavas aqueles que te acolheram com amor, olhava-los desconfiada e elevavas o nosso desafio diário. Exceto quando eu aparecia porque era a tua flor. Os teus olhos enchiam-se de esperança, nascia-te uma vivacidade que não aparecia noutros momentos, aparecias. Minha flor, dizias a meio da tua refeição ou ao deitar, já cansada e com poucas energias, ou a meio da tarde quando já tinham passado horas sem veres ninguém. Sempre!

 

O ciclo da vida devia ser invertido. Devíamos nascer velhinhos, de cabelos brancos e curvados, com dificuldades na mobilização. Tristes por sentirmos que não nos compreendem e, por vezes, por estarmos sozinhos e desamparados. Mas sábios, com a bagagem da sabedoria às costas, ávidos de percorrer o caminho da vida. De inocência perdida, acolher cada experiência com garra. Justos conhecedores do mundo, hospedar cada pessoa com paciência, tolerância, compaixão, amizade, carinho, amor… Deveríamos percorrer esse desejado caminho ganhando energia e ignorando tudo aquilo que a sugasse. O auge da vida não teria como panorama um abismo, mas sim uma íngreme colina para subir. Acabaríamos nos braços calorosos dos nossos queridos, a encher bocas de sorrisos e de lindas afirmações. Derreteríamos então corações. Agora sim, inocentes e esquecidos das mágoas do percurso. O final seria desejado e feliz, uma felicidade entendida por várias gerações e distribuída com entusiamo aos demais envolvidos.

Contudo, a velhice é triste, entristece o próprio e os próximos. O final da vida deveria ser o auge da felicidade, livre de sofrimento.

A tua velhice teve sofrimento não merecido e não calculado. Desejo que o teu esquecimento, que foi doloroso para nós, tenha sido uma bênção para ti. Não precisavas de recordar os dias mais negros.

Para além da tua cabeça, o teu corpo foi fraquejando nos nossos braços. Foste perdendo a energia que te caracterizava, as forças que utilizaste no teu árduo trabalho no campo enquanto jovem, as capacidades que entregaste ao cuidar de mim na minha infância. Fizemos o melhor que podíamos, sem saber agora se fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Eu sinto necessidade de te pedir perdão por não ter feito mais. Eu não sabia e, ingenuamente, pensava que estava a fazer tudo bem.

 

Naquele dia tu foste a mais forte de todos. Aguentaste firme enquanto nós hesitávamos. Não te queríamos a sofrer mais do que o inevitável. Protelámos a tua saída de casa por desejarmos o melhor para ti. A tua saída seria temporária, para te curar ou apenas para te melhorar se fosse essa a única opção. Levei-te, estive sempre junto a ti, desejosa de te trazer de volta ao teu cantinho.

Mas rapidamente te levaram para longe de mim e não quis perceber porquê. Não pensei e não parei de pensar, parei e estive irrequieta. E esperei, aquilo que pareceu uma eternidade. Finalmente saiu um grupo de pessoas para falar comigo e aí senti-me a não sentir absolutamente nada.

Naquele segundo, o mundo desabou. Em cima de mim, senti todo o seu peso e as minhas pernas falharam. Encostada à parede, sustentei-me ali, e ali permaneci sem tempo, incrédula e sozinha. Perdi-te! A tua voz, o teu carinho, a tua bondade, o teu sorriso, a tua pessoa. Solucei inconsolável perante desconhecidos com ar intocável. Não podia ser verdade porque ainda agora me tinhas chamado Minha flor.

Ainda respiravas, ainda existias fisicamente. Mas já tinhas partido… há tanto tempo que nos tinhas deixado. Acompanhei-te nessa longa e triste partida, sem saber que estaria contigo na abalada definitiva para o outro mundo.

 

Vi-te numa sala pequena e fria. Não eras tu. Eras um corpo disforme, uma feição irreconhecível, uma respiração irrespirável. Falei-te ao ouvido, pedi-te perdão, e sei que me ouviste. Não queria deixar-te ali mas não havia outra opção. Tu já tinhas decidido. Acarinhei-te até ao último suspiro e, aí, abracei-te com força. Senti-te fugir de mim, mas agarrei-me com toda a força que tinha para não cair. Partiste, tranquila e acompanhada por aqueles que mais te amaram na tua longa despedida.

Agarrei-me ao teu amor e honrei-te o melhor que soube. Mas ainda hoje te peço perdão porque sinto que nunca valorizei devidamente as tuas palavras “Minha flor”.

 

Marisa Fernandes

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

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