18.5.10

 

  

- Sabes, o pai morreu e foi para o céu e está lá em cima, com as estrelas, a sorrir.
- Mãe?
- Sim, filho?
- Dás-me um telescópio no Natal para eu poder ver o pai nas estrelas?
 
- Filha, o pai morreu mas vai estar sempre no teu coração…
- Mãe, eu não o quero no meu coração. Eu quero é que ele me leve à escola…
 
Pode ser extremamente complexo explicar a uma criança o desaparecimento de um ente querido quando, até nós adultos, temos tanta dificuldade em o aceitar ou superar. Sabemos o quanto a nossa vida se altera após essa perda, o quão difícil é preencher o vazio e respirar fundo. Quando isto acontece com uma criança, ela sente-se desprotegida, insegura, sobretudo se perde o pai ou a mãe que são os seus pontos de referência, o seu porto de abrigo.
A criança (especialmente em tenra idade) não entende que a morte é irreversível. Todavia, é preciso que saiba que aquela pessoa não vai voltar. É preciso que possa chorar e partilhar a dor e a saudade, que possa falar dos seus sentimentos, que se sinta acarinhada e compreendida.
É preciso que a verdade que lhe chega não a destrua, e que seja realmente a verdade. “A mãe ainda está no hospital”, “O pai foi viajar e ainda demora a regressar”, “O avô foi para o céu”, são tudo exemplos do que não devemos dizer, sob pena de levarmos a criança a esperar o regresso da pessoa falecida ou a desejar ir ao seu encontro no céu. As crianças não devem ser excluídas deste processo para que possam aceitá-lo, percebendo que a morte é parte integrante e inevitável da vida. Só depois de iniciado o processo de luto será possível superar e aceitar a perda.
Se a criança ao longo da sua vida foi lidando com outras perdas (a morte de um animal de estimação ou de um avô), estará emocionalmente mais apta para aceitar a irreversibilidade da morte. E, sobretudo para lhe sobreviver, para poder encontrar um sentido na sua própria existência, nos dias que lhe seguirão.
 
Alexandra Vaz
 
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22.11.09


 


Na noite de 25 para 26 de Outubro de 2009, durante a madrugada, um menino de 4 anos fugiu da casa dos pais, em Comines, pequena cidade Belga, depois de os ouvir discutir violentamente. Younes Jratlou, assim se chamava o menino, apareceu duas semanas depois, morto, no rio Lys, a 12 Km de casa, descalço e com pouca roupa, conforme informações dadas pelos pais quando se aperceberam que o filho tinha fugido.

As causas da morte não estão ainda apuradas, mas parece não existirem dúvidas quanto às razões que levaram o menino a sair para o escuro da noite, tantas vezes motivo de medos e pesadelos naquela idade, e a enfrentar, quase desnudado, o frio que já se faz sentir nas noites de Outono: acabar com o sofrimento de mais uma discussão entre os pais!

 

Procuro esvaziar-me de outros interesses e atenções, e concentrar-me no pequeno Younes, dar-lhe a atenção que não teve, precisava e, sobretudo, merecia. Este exercício de nada lhe vale e só a mim serve, para me ajudar a aceitar a situação.

Mas como poderei aceitar que alguém tão frágil tenha sido tão desprotegido e descuidado, justamente por aqueles que deveriam ser o garante da sua segurança? 

Perante a dor, como foi possível que a criança não tivesse procurado alguém que a confortasse e, desesperada, tenha posto a sua própria vida em risco?

Embora raro, o suicídio infantil existe e situações de stress com as quais a criança não sabe lidar, são factores de risco. O facto de as crianças não sentirem a morte como uma situação irreversível e criarem fantasias, achando que a vida é melhor depois da morte, é também um factor de risco. Por uma ou outra razão, objectivamente, não me parece haver dúvidas quanto à intenção do menino ao fazer-se à noite e ao aproximar-se do rio.

 

Estou em processo de luto!

 

Não sei como os pais do Younes estão a enfrentar a perda do filho, não sei nem quero ainda pensar nisso, este ainda é o momento de pensar no menino morto. 

 

Cidália Carvalho

 
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2.6.09


 

De uma forma anormal e sem que o despertador tivesse sequer a possibilidade de dar os bons dias, vejo a minha filha a levantar-se rapidamente e vestir a roupa que cuidadosamente escolheu na noite anterior. Pena que esta, e para a sua infelicidade, já não lhe sirva há muitos verões. Hoje é o seu dia, o Dia Mundial da Criança, e tinha de estar a preceito. Foi com alguma dificuldade que a vi a reescolher e remexer as gavetas à procura daquele conjunto, ou daquele vestido que estivesse à altura do dia.

No caminho para a escola, o rádio anuncia, pela milésima vez, que hoje é o grande e esperado dia. Solta semelhante grito que quase me faz bater no carro da frente, simplesmente para anunciar, também pela milésima vez: “Vês mamã, hoje é o Dia Mundial da Criança… e sabes o que isso significa?!!!” Referia-se obviamente à prenda que terei de lhe dar por ela ser criança. Uma boneca para ela e um carrinho para ele!!! E pronto, ficará assim celebrado o dia.

Mas será que fica mesmo? Pelo menos, para as minhas crianças fica; são sem dúvida, no meu ponto de vista, umas felizardas na sociedade e no mundo actual.

 

O Dia Mundial da Criança… parece irónico ter de haver um dia em que o Mundo inteiro celebra e se recorda das crianças, dos seus direitos… os direitos que nunca, mas nunca, deveriam ter de ser relembrados.

Festejamos um dia em que enchemos as crianças de atenções, de guloseimas e por um dia (talvez) deixamos a nossas crianças ser aquilo que elas de facto são: crianças travessas e barulhentas. Por um dia não lhes é incutido o ritmo desenfreado que cada vez mais lhes exigimos: o de ter de ir para a escola, para as aulas de inglês, ter de complementar a informática, frequentar a natação dia sim, dia não... e esquecer, por mais um dia, a brincadeira.

Queremos que as nossas crianças sejam as melhores e as mais bem preparadas para enfrentarem as adversidades da vida. E o nosso querer sobrepõe-se às suas inocentes vontades. Fechamos as nossas crianças em redomas “esterilizadas”, em teorias psicológicas e supervisionamos tudo com muito cuidado. Pena que acabemos por esquecer o fundamental: deixar as crianças serem crianças, sujarem-se, caírem, enfurecerem-nos por deixar a casa cheia de bolinhas reprodutoras, por gostarem e quererem berrar por tudo e por nada.

Se queremos celebrar o Dia Mundial da Criança, devemo-lo fazer diariamente, tendo sempre em atenção o que é uma criança e nunca esquecer do que elas realmente precisam.

 

Susana Cabral

 
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